Caatinga

Desde o século XIX, a região na qual está inserido Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Bahia – além do norte de Minas Gerais – é tida como lugar esmo e árido.
Já vai longe a época em que o Imperador D. Pedro II se preocupou com as construções de açudes para represar água no nordeste brasileiro. Mas, de tão antagônico que é este País, a água destes primeiros açudes serviram para matar a sede do gado dos “coronéis” do sertão, enquanto o sol abrasador desidratava até a morte o sertanejo da caatinga. E hodiernamente não consta ser muito diferente... Isto é sintomático!
Confesso, vendo aqui do sudeste, que os diversos povos existentes dentro do nordeste parecem pobres sobreviventes de um ambiente hostil. No entanto, numa análise honesta, esta visão é falsa, cai por terra – seca como o próprio solo. Esta terra árida e rica, fértil e culta, confundi-se com o restante do Brasil; basta fazermos um pequeno esforço e nos desvendarmos destas identidades de casca empolada e, por vezes, galicista que tanto apreciamos, e perceberemos, ao abrirmos os olhos, a poeira da terra nordestina envolta em cima de nossas pálpebras.
Além do gado (beneficiário da água dos açudes), da vegetação rasteira e do clima quente, há um ecossistema com espécies raras e endêmicas, povo de alto grau intelectual e um maravilhoso (e genuíno) folclore popular.
Veja senhor e senhora sudestinos, a quão infinidade de coisas encontra-se na Feira de São Cristóvão, no Rio, e também no Centro de Tradição Nordestina, em São Paulo; o xiquexique, o pau-ferro, a calunga, a catingueira, e por aí vai... Isto sem falar na fauna riquíssima existente por aquelas bandas como, por exemplo, a ararinha-azul, aliás, espécie só encontrada nesta região do mundo.
É tanta tristeza que sente o povo vendo o descaso pelas coisas do nordeste, ameaçando os sonhos e a poesia de extinção, que transcrevo abaixo os versos de Lalau e Laurabeatriz:
"Ararinha-azul, Ararinha-azul / Procura / No céu azul / Por outra Ararinha-azul. / Mas, no azul do céu / Tem tanto azul, / Que a ararinha-azul / Só encontra azul, / Azul, azul, azul."
A presença da palavra azul em vários versos, longe de tornar o poema repetitivo, dá a exata dimensão da solidão das ararinhas-azuis, do quanto sua presença é escassa, em seu próprio habitat; nota-se que a vida triste das ararinhas-azuis não é muito diferente da sina do sertanejo que vê a própria cultura, pouco a pouco, ir se extinguindo numa homogeneidade superficial destes novos tempos.
Mas dancemos o baião com o coração, comendo carne seca espirituosos bebendo aguardente. Ainda ouvindo, já lá do além, a voz ritmada e sublime de Patativa do Assaré; e tocando fundo no peito a “judiação” do povo, na canção de Luiz Gonzaga.
Tenho menos medo de não preservarem nossas florestas, do que de perder o Brasil.
“Ararinha-azul no céu... Azul, azul, azul.”