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La Belle Époque

Pintura de Paul Poiret, artista francês da Belle Époque.

Noutro dia, conversava sobre a vida. Coisa à toa. Conversa entre amigos. Repentinamente, sem aparente razão, uma amiga afirmou que o dia mais importante da vida é sempre o dia seguinte, que devemos fazer o melhor hoje para colhermos amanhã. Só no dia seguinte saberemos como o dia anterior foi importante. É... Mensagem esperançosa, por certo, quase redentora; no entanto, soou aos meus ouvidos sujos frase de pensamento balofo de livro de autoajuda, daqueles de quinta categoria com altas vendagens nas livrarias da cidade; ai, como há sonhos tão bonitos dos quais temos que acordar sem querer...

Pois ora! E o dia seguinte de uma grande bebedeira, por exemplo? Não me parece que um bêbado de ressaca julgue ser o dia seguinte o melhor dia de sua vida. E se for o dia seguinte de uma bebedeira abraçada de um velório de ente querido então? Ih... Temos um problema nesta bonita mensagem de esperança; concorda, amigo leitor? Mas já? Deixou que o texto lhe entediasse tão rápido? Seja otimista, leitor! Otimista! Pense em coisas maiores como um grande navio encalhado perto de uma costa do Mediterrâneo; ai, como há sonhos tão bonitos dos quais temos que acordar sem querer...

Quem sabe um dia eu escreverei alguma história bonita também; quiçá, como grande estilista da palavra, a minha escrita agradaria mais ao senhor leitor e, principalmente, a minha amiga leitora, qual teima em torcer o nariz às laudas que lê por aqui. Quem sabe eu até me esforce e leia mais textos da La Belle Époque... Que beleza, hein? Mas quem sabe...

Em todo o caso, agora que desejo ser muito muito pessimista e até torturador de quem lê estas linhas frouxas, acometeu-me o pensamento de Arthur Schopenhauer sobre a vida. Curioso, a vida. A vida igual um dia após o outro... Por que relembrei esta ideia agora? Nem sei mais se ainda pode ser boa ideia continuar com o texto, mas, vá lá que o tempo não para. Enfim, Schopenhauer dizia que “a vida é um pêndulo entre o sofrimento e o tédio”. É... Esta ideia ainda parece correta.

Parece correto também pensar na teoria d’O Boêmio: "O mundo é um circuito fechado em quatro pontos envoltos em energia, aleatórias e desconhecidas, subdividido em duas partes antagônicas: Alegria e tristeza, desejo e angústia. A alegria vem para eliminar a tristeza existente, em seguida ocorre uma natural sensação de prazer, como um fio condutor, que irá preparar o terreno para o surgimento do desejo que, no entanto, acarreta, fatalmente, no surgimento da angústia; esta, por sua vez, retorna, normalmente, à tristeza, que ainda pode se apresentar com novas formas ou constituição diferente da originária. E é, impreterivelmente, nesta ordem que mencionei acima; pois os pontos energéticos não vão de encontro um com o outro, não se completam e nem mesmo andam juntos, apenas servem de alimento para o surgimento do próximo ponto de energia. Entra um, sai outro! É, exatamente, por isto que não há, essencialmente, equilíbrio no mundo".

O mundo é uma representação das relações mantidas com este circuito fechado de quatro pontos, como os pontos cardinais ou as estações do ano?

O verão se sobrepõe à primavera e o inverno se sobrepõe ao outono, mas o verão não encontra o inverno; por que tanto a primavera quanto o outono preparam o terreno para o cultivo da próxima safra?

Sim, leitor; que peculiar representação do mundo. É isto tão-somente a felicidade ou busca desta, diria qualquer velho de idade ou de alma.

Em tempo, não conheço a dona felicidade, de modo que a aparência externa das essências é coisa divertida por demais aos meus olhos que descansam sobre lentes trincadas e riscadas...

Ora, veja senhor leitor pensador e dona leitora filósofa; veja o que vem de uma simples conversa trivial aliado a um adotivo pensamento que me acometeu; pensamento este que nem meu é, é do pessimista senhor Arthur. Porque fui eu relembrar deste pensamento, meu Deus? A culpa é de um vigário que conheci, há muito tempo, lá no bar da Vila; não tivesse ele me indicado os livros do senhor Arthur, também não os teria lido e agora não teria desenvolvido toda esta ideia confusa e desocupada. Maldito padreco! Ora! Quantas linhas eu desperdicei aqui nesta ideia tola de circuito fechado como representação do mundo? Não fosse mais este meu desvio a assuntos enfadonhos e pesados, talvez, a querida leitora até sorrisse mais quando vê a foto do autor aí ao lado. Maldito hábito este o meu de encher de retórica balofa e sem significado os espíritos mais críticos; repare como muitos temas insurgentes nestas páginas que estou a escrever são elementos independentes, sem relação com o contexto, na qual fica clara a ruptura com o sentido do tema que eu próprio abordei... Por que eu não escrevo com mais prazer e mais esperança? Há tantos leitores que apreciariam muito a Belle Époque ou os pensamentos de autoajuda, bonitos e esperançosos. Está decidido! Está decidido! Não me pegarei mais do pensamento de outros. A não ser que seja necessário; senão, jamais.

Por Ricardo Novais

A conversão

Conversão de Santo Agostinho, pintura de Fra Angelico.


Pedro Antônio nasceu numa grande cidade brasileira. Seus pais, típico casal de classe média e pinguço. O pai beberrão houvera desenvolvido sintomas alcoólicos de desintegração emocional sob a forma de perversão obsessiva e surtos de violência. Em decorrência disso, a mãe de Pedro voltou-se para a religião, repudiou o líquido pecaminoso e transformou suas frustrações e desapontamentos em ambições para o filho.

Desde o início a mãe o oprimiu, embora em nenhum momento ele ouse uma palavra contra ela, cujo cristianismo extravagante e puritano perpassa sua vida desde o primeiro sopro. "Eu era de fato um grande pecador", ele sempre comentava, sem ironia, a respeito de seu desgosto com a família e em relação às aulas.


Mais tarde, já adolescente, Pedro realmente saiu da linha. Junto com colegas de escola, roubava para sustentar o vício recente com o álcool e drogas. Como resultado dessa vil iniquidade, entregou-se à orgia de autoflagelo que continuou até o final das profundezas do abismo. "Eu estremeço ao olhar para isso ou pensar em tal abominação", vivia ele a repetir esta sentença a quatro cantos e a todas as mesas de botecos, vielas e prostíbulos.


O que quer dizer tudo isso? Leitores com propensão à psicologia talvez encontrem traços simbólicos no jovem rapaz roubando para sustentar os vícios inerentes à sociedade, mas essa explicação seria por demais superficial, até fácil. Não havia dúvida que a mãe de Pedro, mulher austera, guiava a vida doméstica da família. Ela chegou inclusive a convencer o pai alcoólatra de Pedro a se converter ao cristianismo, provavelmente durante uma crise, no ano anterior de sua morte. E quando ficou evidente que o jovem filho havia herdado alguns dos inconfessáveis hábitos do pai, ele foi banido de casa. Por pouco tempo, é verdade. Matou a mãe à marteladas, e com um martelinho de bater bife. Ali, virou um ser inominável!


Neste ínterim, continuou pelejando com o problema das drogas. Desesperado, algumas vezes chegou mesmo a voltar-se para Deus, implorando-Lhe, tocante como Santo Agostinho em suas Confissões: "Senhor, dai-me a castidade, mas não ainda". Não podia deixar Deus curar-lhe cedo demais das doenças viciosas que ele desejava por mais que fizesse exame de consciência. Pedro Antônio, um garoto extremamente brilhante, diziam as línguas conhecidas, e também  um desordeiro, outras línguas conhecidas refutavam. Os desconhecidos adoravam-no. Mais tarde, contaminado pela paixão fosca e apedreja, foi viver com uma mulher da vida, com quem partilhou, pela primeira e única vez na vida, relação de amor e fidelidade. Acidentalmente. Madalena deu-lhe um filho; no entanto, o púbere não vingou em nada. Assim como sua amada, o nada da ilusão. Felicidade reiterada, e lhe retirada. Morreram seus amados. Desgraçados!


- Senhor, dai-me a castidade, mas não ainda... E, se puder, livrai-me do fogo do inferno!


O pobre-diabo não era apenas um pedante que cultivava um problema; o desassossego que o conduziu em tais extremos de lascívia e de degradação também o guiou em direção à descoberta da verdade de si mesmo; julgou assim em certo dia de ressaca. Qual a razão deste comportamento?, repetia ele à própria alma. Como ser tão completa e mesquinhamente vil e corrompido e, ao mesmo tempo, aspirar alguma pureza?


A psicologia e a psiquiatria o enquadrariam na mais completa normalidade; já o cristianismo oferecido pela mãe parecia demasiado simples para satisfazer seu intelecto exigente. Ele precisava de uma explicação que fosse suficientemente profunda para que ele pudesse acreditar nela. Começou a se interessar pela filosofia, mas esta igualmente não oferecia solução e só lhe fazia rir. 


Num dia maravilhosamente imbecil, essa crise de espiritualidade o deixou à beira da estafa mental. Perturbado pela raiva e pela angústia, em estado de indecisão quase completa, buscou alívio na quietude do bar. Por algum tempo, virou doze ou treze copos de doses dos mais variados destilados, violentamente. Enfim, atirou-se sob à mesa e chorou, copiosamente. Contudo, percebeu que milagrosamente não tinha sequer mísero sinal de embriaguez. Imediatamente parou de soluçar, levantou-se e, ali mesmo, procurou na mochila e encontrou uma copia das Epístolas de São Paulo, que eram de sua mãe, abriu-a e leu as primeiras palavras que viu: "(...) não na orgia e na embriaguez, não na luxúria e na lascívia, não na disputa e na inveja. Ao invés disso, tome a si o Senhor Jesus Cristo e não se demore mais pensando na carne, a fim de saciar seus desejos". Milagre! Foi um milagre sublime; sonhou, não fez mal em sonhar. Naquele ato, o pecador se converteu; transformou sua história e estava decidido a ser crente e temente a Deus, mas não há paraíso sereno e paz na Terra aos homens de boa vontade. Súbito, desencarnou ao sofrer violentíssimo ataque fulminante do miocárdio em decorrência de asfixia causada pelo vômito alcoólico.


Por Ricardo Novais

Carta-Testamento

Brasileiros,

Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

Rio de Janeiro, 23 de agosto de 1954.
Getúlio D. Vargas

***
Leitores,

Logo depois de escrever as linhas acima, Getúlio Vargas, Presidente da República, retirou-se desta vida dando um tiro de revólver contra o próprio coração.

No dia em que nós entendermos, um pouco que seja, os motivos, não os motivos políticos, mas as causas ideológicas, as consequências sociais e morais,  a vaidade pessoal e o altruísmo, a glória e a desonra, enfim, no dia em que lermos cada palavra, cada linha desta Carta deixada por Getúlio com algum entendimento, seremos, certamente, uma república federativa um pouco melhor, teremos um processo eleitoral mais transparente e mais justo, e um eleitorado mais reflexivo e mais consciente.

Quando estivermos preparados para a dissertação desta Carta-Testamento, certamente, a autêntica personalidade deste povo estará finalmente formada – e, mesmo com toda a nossa incorrigível preguiça da vida, alcançaremos a paz sublime sob toda a Nação e em nossos peitos também reinará uma silenciosa alegria.

Por Ricardo Novais

Pequeníssimo Tratado Sobre a Identidade Cultural Brasileira

Identidade Brasileira II
Correspondências

Noutro dia, travou-se em ambiente virtual contenda entre um jovem mestre e um aprendiz. Ao leitor que desanime deste texto com facilidade, digo que seja perseverante. Perdoe este pobre autor pelo post ser tão longo, embora seja curto para ser chamado de tratado sendo, portanto, mais uma ideia desenvolvida. De qualquer modo, amável leitor, atrevo-me a pedir-lhe que leia estas linhas até o fim. Afaste o tédio. A causa é boa e diz respeito à vossa família. Se não acreditas nisto, caro amigo, pergunte então a dona leitora; ela bem aconselhará teu coração, leitor de pouca fé.


Apresento-vos então, sem maiores circunstâncias e consequências, pequena querela que comprime as raças sociais.


Trocando Ideia

O aprendiz inicia intervindo com alguma confusão a pensamento já corrente:


Tuas ideias são excelentes, embora haja nelas algo das definições do "Imbecil Coletivo", do velho Olavo. Não, não há nada de errado com os estudos do filósofo, mas é que seja inteligência, burrice ou pseuda felicidade, o pessimista surge latente.


Se o sujeito começa a refletir os próprios pensamentos, vindo à ideia, e estes ligando a outros insurgentes que virarão em axioma racional (ou não) e, talvez, chegando à conclusão plausível que deverá ser discutida com outro ser (burro ou inteligente) que lhe devolverá em outras ideias. No entanto, por certo que ambos fizeram o mesmo processo do pensar inteligente; ao menos, presumi-se. Ou seja, esta será a constatação de como vivemos de maneira superficial e obtusa – como já verificado por ti, anteriormente. E, no meu modo de ver, é isto quiçá que acarreta na angústia e no decorrente pessimismo que havia dito.


É, meu caro mestre, constato que é melhor ser burro. Cadê minha cerveja?”


O mestre, senhor do tempo, sorri-lhe à cara; embora isto tenha lá uma centelha de eufemismo, já que o ambiente é virtual:


“Ah, não diga isso!", exclamou prontamente o corajoso mestre. "Se nosso ideal de virtude é o personagem de comercial de cerveja você teria razão em sua ironia final. Pelo menos penso (e espero) que seja ironia!”


O mestre levantou as faces. Refletiu um pouco, sopesou a própria meditação e auferiu boa questão. Neste instante, o aprendiz, em leve concentração, permaneceu quieto:


“Vê-se”, disse o mestre, “que, no fundo, a questão é moral! O que torna as coisas absolutamente maravilhosas! Veja, nosso máximo ideal de virtude, o Cristo que se entrega à um suplício violentíssimo e injusto, ensina-nos que se deve contrariar o mundo. Podemos escolher segui-lo ou recuar assustados. Bah!, eu te conheço! É ironia mesmo!”


Houve frouxidão de gravatas, dilatação das narinas na tentativa de captura de ar fresco e o rumor das elocuções do mestre tornaram mais fortes e definitivas:


“Mas o povo brasileiro é ainda muito evoluído moralmente. Como tudo chega aqui com atraso, quando a modernidade aterrissar com força em nossa terra, o atual avanço do cristianismo na televisão terá fortalecido a fé das classes médias baixas. O Portugal que existe em nós prosseguirá depositário da fé verdadeira!”


Neste instante o aprendiz sofreu um golpe do vento, seus olhos foram irritados pela poeira e respirou a fumaça vinda de escapamentos dos automóveis.


“Sim, caro mestre, foi mesmo uma ironia. Ironia pouco refinada, eu reconheço. Tocaste em ponto crucial: nossos valores. Valores do mundo ocidental! Estamos os perdendo... 'devagarzinho'...”


Esfregou os olhos e prosseguiu:


“Desgraçadamente não tenho este otimismo quanto ao futuro, querido mestre. Vejo apenas o positivismo em moldes 'cientificista afrancesado' e o iluminismo latente ‘esvaziando’ esta nossa sociedade... Assim fácil é para um crente muçulmano tomar conta de tudo, daqui algum tempo... Poxa vida!”


Vício dominador, ainda caçoou de seu interlocutor:


“Um brinde em caneca de chope ao povo brasileiro! Mais que isto: Viva os valores judaico-cristãos! Mas com moderação...”


Inevitável a gargalhada do mestre. Recompondo-se, não deixou por menos:


“Mas os deixem. Acho que essas ideologias não contaminarão o povão. Talvez essa sua sensação se dê ao fato de que, no Brasil de hoje, ainda estejamos com o debate bastante atrasado. Somente por isso os termos ainda estão bastante atrelados a este positivismo reducionista e incompleto. As pessoas que preferem segui-lo fazem grande mal a si mesmas, pois ignoram por completo as suas faculdades mentais, o que convenhamos, é um absurdo se pensarmos na importância das coisas. Ter a mente ajuizada é muito mais importante que ficar repetindo as verdades alheias de maneira apaixonada.”


Contrapôs também aos gracejos do outro:


“Mas não pense que sou muito otimista não! Acho que esse tro-lo-ló pseudocientífico não chega aqui com a mesma força, mas a perda dos costumes já chegou. Esse é o nosso maior drama social: as pessoas que conjugam uma crença em tal Deus com as dancinhas mais nefastas. De qualquer forma, parece-me um problema menor!


Contudo, o aprendiz tinha lá algumas brasas no corredor cardíaco; de modo que atreveu-se no discurso:


“Sinceramente, não percebo o Brasil atrasado com esta ideologia balofa do nosso mundo ocidental. Vejamos, por exemplo, a nossa Carta Magna, esta recente de 1988. É positivista, apregoa a sociedade laica. Ora, como jugular uma tradição milenar sem sofrer consequências? Invés de aperfeiçoarmos os valores e caçar a nossa genuína identidade (não esta copiada de algum francês irresponsável), renega-se tais coisas como 'caretice' e ideia ultrapassada... O exemplo muçulmano talvez não seja politicamente correto; pode algum chato ver nisto preconceito contra religião alheia. No entanto, penso que salienta bem a gravidade da situação. Como diria minha velha avó: "O demônio se esconde na panela vazia". Não digo que são demônios; ao contrário, eles estão certíssimos. O problema somos nós, que, balofos de espírito, estamos sujeitos a qualquer povo com espiritualidade elevada e disposto a preencher-nos o vazio da alma. O ateísmo parece problemática já superada, digo como ameaça aos valores. Se o sujeito quiser ser ateu, agnóstico, seja lá o que for, a estrutura da sociedade nada mais sofre. É de direito dele e, portanto, só diz respeito a este. Mas uma ideologia firmada pelo Estado é preocupante...”


Perceba, leitor, que não havia nada de ordem naquele debate; era tão somente uma troca de ideias. Queria dizer o aprendiz com as palavras acima que, embora também tenha lá seus problemas no arcabouço interno, a Igreja (leia-se: pensamento instituído milenarmente) conseguia segurar o ímpeto da futilidade extrema e amparar o indivíduo. Ainda insistiu-se na ideia de que a pura superficialidade do povo brasileiro impede a descoberta de uma identidade autêntica e por isto o Brasil é plágio de si mesmo.


Não havia ali, entretanto, defesa de dogmatismo religioso – embora parecesse nas palavras a tendência de orientação católica. Muito menos advogavam o ateísmo. Discorriam sobre valores. Aquilo que sorreteira e sutilmente nos forma como homens.


“A Coca-Cola é nossa, mesmo que nós não gostemos de refrigerante e a achemos uma porcaria”, como disse o aprendiz. “As coisas boas e ruins nos formam, é natural. Talvez seja mesmo o palco de ópera que devemos representar – com seus dramas, comédias, reflexões... Mas ‘Estado laico’ é tirar o direito do indivíduo, seja religioso ou ateu, de viver; e também de todo um povo de formar o seu estreme alicerce para criar; enfim, esta nossa sociedade renega uma cultura original. Muda-se a roupa, mas a ideia permanece... Maldito Augusto Comte! Mais maldito ainda seja Benjamim Constant!”


Deveras, parecia que o mestre compreendeu o aprendiz. Concordou, em parte:


“É, realmente estes (os positivistas intelectuais) se superaram no quesito bobagens. Já quanto as interpretações antropológicas que se podem fazer da Constituição não sei comentar, pois não tenho instrução jurídica. Sei, todavia, a importância que possuem na determinação do comportamento social com o que se pode ou não se pode fazer.”


Conta-se que este aprendiz, quando estudava matéria de direito constitucional, numa simplória faculdade de direito, reconheceu o mote do pensamento positivista.


Entretanto aquilo não entrava nele, significando apenas as denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, quais ele fora obrigado a estudar para o vestibular. Via nestas galicistas ideias tão somente uma capital de país artificial do século  XIX; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Époque que tanto já apareceu pelas linhas deste blogue.


O pobre diabo do aprendiz, no entanto, gostava de história, de boas histórias como aquelas do "Prata Preta" e as contadas pelo "João do Rio". De modo que lia a fio, ora por ócio ora por teimosia, tudo que era relacionado ao positivismo. Julgou mesmo ter descoberto mais influências e efeitos colaterais quando retomou os estudos sérios da faculdade; talvez tenha de fato descoberto algo importante, mas isto é quase nada.


Como já sabe a minha querida dona leitora, não há aqui nada contra a valorosa e elegante França; em absoluto! Mas a tristeza surge com a culpa desta geração Y – e já foi assim na X e com os Baby Boomers. A América abraçou com gosto este pensamento cientificista e fútil.


O genial Machado de Assis foi notável estudioso do tema. Lá se vão mais de 100 anos que o 'velho bruxo do Cosme Velho' morreu e não consta que tenha mudado muita coisa – constatou o aprendiz, inclusive, que o saldo parece pior. Não creio que ele esteja totalmente errado...


Depois de tudo, não deveria mais nada dizer; e não digo! Como último parágrafo, deixo as últimas palavras de um jovem, porém consciente, mestre de debates:


“Caro aprendiz, achei muito legal isso que você disse: “Aquilo para mim tinha significado apenas nas denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, que eu fora obrigado a estudar para o vestibular, sobre uma capital de país artificial; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Epóque.” Eu também pensava a mesma coisa do positivismo. Achava até um negócio legal, uma análise honesta da realidade como ela é, mas, assim como você, ignorava por completo seus nefastos aspectos cientificistas e sua absurda pretensão universalista.


Quanto ao Machado, é mesmo muito inteligente. É tão superior às coisas ao seu redor que brinca com os próprios princípios que advoga, relativizando-os e cuidando do que verdadeiramente importava: a literatura.


Veja, tenho em casa uns quatro vasinhos com o mato ‘quebra-pedra’, já ouviu falar? É uma planta de rápido ciclo de vida, e afirmam que seu chá é medicinal, mas nunca provei-o. Cultivo o ‘quebra-pedra’ pois é a comida favorita dos dois grilos que tenho – não nos ouça o Ibama! Mas apareceu em um deles outra planta. Ficou ali alguns dias e foi crescendo. Quando pareceu-me grande o bastante para ser arrancada, cautelosamente retirei-a de modo a não acidentar o 'quebra-pedra'. E que surpresa desagradável não tive quando, junto da planta indesejada, veio um brotinho recém-desabrochado do meu querido matinho. Lembrei-me daquela parábola de Cristo, na qual o dono de uma roça avisa seus serviçais que não arranquem o joio "para não correr o risco de, assim, retirar o trigo". Essa era a vida neste planeta dois mil anos atrás, e continuará sendo assim. Talvez muito desse joio incômodo ainda acabe nos surpreendendo. ”


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Este debate, transcrito não tão literalmente, foi na verdade uma conversa agradável e  bastante instrutiva que eu tive com o amigo e pensador Henrique Rossi, do blog Polimático. Ele no papel de mestre, eu de aprendiz.


Dou-lhe, amigo Henrique, parte dos direitos autorais do post; embora, sinceramente, eu duvide que queiras ter o nome atrelado a tão anódino texto. Ainda assim, se achares que tens direito a toda a obra... Então, até o tribunal! Fique em fleuma, estimado autor; estou a brincar-lhe com os nervos. És tu o articulista e promotor desta reflexão. Ademais, o positivismo contempla todas as ideias; como sabe.


Por Ricardo Novais

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