Consciência Integralmente Nacional


Neste dia da Consciência Negra, é melhor lembrar de Heitor Vila-Lobos que, magistralmente, exprimiu em sua obra a consciência negra, indígena, caipira, citadina, enfim, tentou mostrar a identidade real de um povo que teima em desprezar as próprias origens.


Na última terça-feira, dia 17, fez 50 anos da morte de nosso maior artista de música erudita. Vila-Lobos era um homem além de seu tempo e da sociedade a qual pertencia. Desde pequeno, vivenciando o autoritarismo requintado do pai, percebeu a existência de vários povos que integravam a cidade onde nasceu, o Rio de Janeiro.

O cotidiano da cidade perfaz sua sociedade. O Municipal do Rio, tradicional casa da alta casaca, viu-se em dificuldade no período da Segunda Grande Guerra; não conseguiam trazer artistas da França, Alemanha ou outro País ordinário da Europa. Sendo assim, não vendo outra saída para conceber seus grandiosos espetáculos, os regentes se renderam as insistentes investidas do compositor carioca Heitor Vila-Lobos, que já sonhava, há muito tempo, em se apresentar no palco daquele importante teatro, mas não lhe davam chance.

Apenas numa sociedade tão controversa poder-se-ia ver surgir por causa de uma guerra um maestro tão genial como Vila-Lobos, e mesmo assim teimaram os elegantes nevrálgicos do Rio sofisticado em tecerem primeiras críticas negativas e maledicentes à obra, e a pessoa, do criador do movimento nacionalista musical brasileiro.

Ainda muito jovem, Vila-Lobos viajou, a convite e na companhia de um bom malandro, por boa parte do País. Viveu entre índios e observou as canções que emanam da floresta. Mais tarde ele soube criar, com extrema beleza, composições mesclando todas as influências destas experiências com as referências da música clássica – principalmente as obras de Bach, artista no qual o maestro brasileiro verdadeiramente admirou. Foi grande arauto de cada povo que existe em cada canto desta imensa Nação.

Em 1922 Villa-Lobos participa da Semana da Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo. No ano seguinte embarca para Europa, regressando ao Brasil em 1930, quando realiza turnê por sessenta e seis cidades. Realiza também nesse ano a "Cruzada do Canto Orfeônico" no Rio de Janeiro. Seu casamento com a pianista Lucília Guimarães termina na década de 1930. Depois de operar-se de câncer em 1948, casa-se com Arminda Neves d'Almeida, a Mindinha, uma ex-aluna, que depois de sua morte se encarrega da divulgação de uma obra monumental.

Villa-Lobos nunca teve filhos, parafraseando o personagem Brás Cubas, de outro genial carioca, o escritor Machado de Assis, concluo que o maestro não transmitiu o legado de miséria a uma sociedade bajuladora e ‘afrancesada’.

As Bachianas Brasileiras são as peças mais conhecidas e amadas do compositor. Bidu Sayão emprestou sua voz límpida e delicada imortalizando a Bachiana n° 5, do genial Heitor Vila-Lobos.



Por RICARDO NOVAIS