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Cantilena Renascentista

Pintura Cole de Véronique.

Logo nas primeiras horas da manhã, o sol, muito bonito e acolhedor teimando por nascer, embora com pouca força, trouxe-me uma paz tão prazerosa. Não sei de onde veio esta sensação de olhos mansos, tão afável como uma cantilena do século XVI entoada por coral de igreja renascentista.

Pergunto a um pombo menos arisco:

- Que tem?

O pássaro, calmamente pousado no parapeito de um prédio público, estava a observar os movimentos da natureza:

- Quem?

- Ora quem, o sol; quem mais poderia ser? Que tem ele que não vem logo?

- Ah... Não é dado a nós saber isto! – exclamou o pombo do alto de sua circunspeção atilada.

- Deverias saber; ave preguiçosa! Se tu ficas bem aí, o dia todo, vendo o povo passar, vendo a vida florescer e ficar grande e depois chegar ao seu anoitecer. Pobre vida!... Tu deverias também dar conta do sol.

- Ora! Se tu, que é bicho homem, como dizes, com poder de raciocínio incrível, não tem resposta.

- Acontece que tenho outras obrigações! – tentei justificar. – Tu não, tu tens mais tempo.

- É. Fico um pouco e logo parto.

Neste momento, conjecturei a ele:

- A felicidade deve ser isto mesmo, saber das coisas e depois dar azas pra ela.

- Sim, é verdade – disse o pombo com movimentos morosos ao bico, em seguida ponderando. – Mas não saber de tudo, às vezes, traz mais felicidade.

Terminando o diálogo, cada um foi ter com seus ofícios. Eu ainda constatei a beleza do dia, o movimento constante da vida se esvaindo, célere, firme, indiferente. Subi as escadas, degrau por degrau, olhei o panorama envidraçado, notei os raios solares beijando a face do rio imundo e pude ver o meu amigo pombo, tão querido, a sobrevoar pela cidade. Observei tudo. Foi um voo curto, nem mais nem menos, foi preciso, calculado; um voo tão bonito!

***

"Jesus Alegria dos Homens", toccata de Johann Sebastian Bach, interpretada magistralmente por Baden Powell:

 


Por Ricardo Novais

Finitude da Vida

Num dia 17 de dezembro, só que de 1770, era batizado Ludwig van Beethoven. Provavelmente o menino havia nascido no dia anterior. Sua família era de origem flamenga, no qual o sobrenome significava 'horta de beterrabas' e a partícula 'van' não significava nobreza alguma.

O pai de Beethoven era tenor e professor, foi ele quem deu as primeiras lições de música ao filho, pois pretendia fazer do garoto um prodígio do piano. Eram estudos durante muitas horas, todos os dias da semana, desde os 5 anos de idade.

Beethoven teve uma infância bastante infeliz, ele viu seu pai ser consumido pelo alcoolismo. Sua mãe casou-se 2 vezes, e o compositor teve 5 dos 7 irmãos mortos ainda púberes.


Este talentoso garoto teve estudos muito profundos, e desde cedo alguns já o apontavam como o 'segundo Mozart'. Por causa da doença do pai, a partir da morte da mãe Beethoven teve dificuldade financeira para seguir com a música.

Foi para Viena em 1792, e lá passou o resto da vida. Foi aceito como aluno de Joseph Haydn, teve aulas com Antonio Salieri, com Foerster e Albrechtsberger.


Quando tinha 26 anos, Ludwig van Beethoven escreveu:

"Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantropo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo. Meu coração e meu ânimo sentiam-se desde a infância inclinados para o terno sentimento de carinho e sempre estive disposto a realizar generosas ações; porém considerai que, de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos.

Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou!"

Era a surdez que cruelmente manifestava seus primeiros sintomas graves e temerários. A doença o acompanhou sempre e em 1816, aos 46 anos de idade, ele estava quase surdo. Porém, ao contrário do que muitos pensam, Ludwig jamais perdeu a audição por completo, muito embora nos seus últimos anos de vida a tivesse perdido, condições que não o impediram de acompanhar uma apresentação musical ou de perceber nuances timbrísticas.

Foi virtuose do piano. Dentre as obras mais famosas destacam-se as nove sinfonias, os trios e sonatas e a ópera Fidelio.

Contam os biografos que os funerais de Beethoven foram assistidos por mais de 10 mil pessoas, assim tornando o primeiro compositor a virar figura pública.



"Alegria bebem todos os seres

No seio da Natureza:

Todos os bons, todos os maus,

Seguem seu rastro de rosas.

Ela nos deu beijos e vinho e

Um amigo leal até à morte;

Deu força para a vida aos mais humildes

E ao querubim que se ergue diante de Deus!"

— Parte do verso da Ode à Alegria, de Friedrich Schiller, utilizado por Ludwig van Beethoven.

A Sinfonia nº 9 em Ré Menor, Op.125 é para muitos a maior obra-prima de Beethoven. Para ouvir a Orchestra de Madrid no vídeo abaixo interpretando trecho intermediário da obra - para mim uma das passagens sonoras das mais belas que já ouvi na vida -, desabilite a rádio parceira, Stay Rock, na lateral do blog com um pause.





Por Ricardo Novais

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Fonte: Wikipédia; e Uma Breve História da Música, tradução de Tereza Resende Costa, 3ª edição, série: Cadernos de Música da Universidade de Cambridge, Rio de Janeiro, editor Jorge Zahar, 1988. Desenho: Funeral of Ludwig van Beethoven (1770-1827) in Vienna, de Franz Stober.

Consciência Integralmente Nacional


Neste dia da Consciência Negra, é melhor lembrar de Heitor Vila-Lobos que, magistralmente, exprimiu em sua obra a consciência negra, indígena, caipira, citadina, enfim, tentou mostrar a identidade real de um povo que teima em desprezar as próprias origens.


Na última terça-feira, dia 17, fez 50 anos da morte de nosso maior artista de música erudita. Vila-Lobos era um homem além de seu tempo e da sociedade a qual pertencia. Desde pequeno, vivenciando o autoritarismo requintado do pai, percebeu a existência de vários povos que integravam a cidade onde nasceu, o Rio de Janeiro.

O cotidiano da cidade perfaz sua sociedade. O Municipal do Rio, tradicional casa da alta casaca, viu-se em dificuldade no período da Segunda Grande Guerra; não conseguiam trazer artistas da França, Alemanha ou outro País ordinário da Europa. Sendo assim, não vendo outra saída para conceber seus grandiosos espetáculos, os regentes se renderam as insistentes investidas do compositor carioca Heitor Vila-Lobos, que já sonhava, há muito tempo, em se apresentar no palco daquele importante teatro, mas não lhe davam chance.

Apenas numa sociedade tão controversa poder-se-ia ver surgir por causa de uma guerra um maestro tão genial como Vila-Lobos, e mesmo assim teimaram os elegantes nevrálgicos do Rio sofisticado em tecerem primeiras críticas negativas e maledicentes à obra, e a pessoa, do criador do movimento nacionalista musical brasileiro.

Ainda muito jovem, Vila-Lobos viajou, a convite e na companhia de um bom malandro, por boa parte do País. Viveu entre índios e observou as canções que emanam da floresta. Mais tarde ele soube criar, com extrema beleza, composições mesclando todas as influências destas experiências com as referências da música clássica – principalmente as obras de Bach, artista no qual o maestro brasileiro verdadeiramente admirou. Foi grande arauto de cada povo que existe em cada canto desta imensa Nação.

Em 1922 Villa-Lobos participa da Semana da Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo. No ano seguinte embarca para Europa, regressando ao Brasil em 1930, quando realiza turnê por sessenta e seis cidades. Realiza também nesse ano a "Cruzada do Canto Orfeônico" no Rio de Janeiro. Seu casamento com a pianista Lucília Guimarães termina na década de 1930. Depois de operar-se de câncer em 1948, casa-se com Arminda Neves d'Almeida, a Mindinha, uma ex-aluna, que depois de sua morte se encarrega da divulgação de uma obra monumental.

Villa-Lobos nunca teve filhos, parafraseando o personagem Brás Cubas, de outro genial carioca, o escritor Machado de Assis, concluo que o maestro não transmitiu o legado de miséria a uma sociedade bajuladora e ‘afrancesada’.

As Bachianas Brasileiras são as peças mais conhecidas e amadas do compositor. Bidu Sayão emprestou sua voz límpida e delicada imortalizando a Bachiana n° 5, do genial Heitor Vila-Lobos.



Por RICARDO NOVAIS

Don Giovanni

Don Giovanni, do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart, nascido em Salzburgo em 1756 e morto em Viena em 1791, é uma peça de referência no gênero lírico, podendo ser considerada uma das maiores obras deste gênero em todos os tempos. O libreto de Lorenzo da Ponte narra, em italiano, a história do sedutor Don Juan, combinando drama e comédia de maneira perfeita. Essa mistura está presente na belíssima abertura da ópera, que começa densa e enérgica, como uma paisagem aterrorizante e imaterial.

Na segunda parte, a música se torna leve, espirituosa e cheia de graça, tal como nos sugere o canto em italiano nas famosas árias que integram esta obra. Entre elas, está Mi Tradi Quell'Alma Ingrata, que a personagem de Dona Elvira canta com preciosas contornos melódicos.

Don Giovanni estreou em Praga, no longínquo ano de 1787. Desde então se mantém entre as mais extraordinárias composições do genial Mozart.

Abaixo, trecho inicial da composição, Nikolaus Harnoncourt conduzindo a Zurich Opera House Orchestra, no ano de 2002:




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