Primeiras Sensações da Paixão

Desenho feito pelo artista Jok.
Que peça enfadonha me prega a cortesia cerebral, pois vem à memória agora uma lembrança, um pouco mais leve e feliz. Ah! Que vida bela! Quando eu era garoto, nas cercanias onde eu morava, num quarteirão cheio de araucárias, minha mãe, dona Maria Eugênia, tinha uma amiga inseparável: a dona Evarista.

Não há nada de estranho em gostar da dona Evarista, leitor malicioso! Eu apresentava estima especial por aquela senhora, vizinha de bairro que vivia para cima e para baixo com mamãe pelas igrejas e pelos encontros filantrópicos, porque a dona Evarista tinha o mérito de ser a mãe de uma criaturinha belíssima, a pequena Helena.

Uma menina de nove anos, que não sabia nada da vida, que ainda brincava de bonecas, mas que, sem demasia de dúvida, era mais esperta do que eu. Ademais, a doce Helena, num simples vocativo, exprimir-se-ia: digressiva.

Mas que desvio de tempo gracioso! Estou mesmo gostando, leitor, desta minha breve memória...

Brincávamos juntos, Helena e eu, apenas nós dois. Minha irmã era uma pré-adolescente que desprezava pirralhos, como ela nos chamava. Os outros garotos recriminavam brincadeiras com meninas e eu não tinha muito interesse pelos assuntos das coleginhas de Helena. Brincar com meninas? Brincadeiras de meninas? Jamais! A não ser que fosse, exclusivamente, com Helena. Atitude normal, em absoluto! Pergunte a qualquer garoto e ele lhe dirá: “As meninas são chatas, não falam comigo!” Pergunte, do mesmo modo, a elas e aposto que dirão: “Não gostamos mesmo de falar com eles, não precisamos deles!” Ah, claro, também dirão que “os meninos são chatos”.

Acontece que comecei a trocar o futebol para estar na casa de D. Evarista, fugindo com a filha dela para passar tardes inteiras pegando cascalhos brilhantes. Com o passar do tempo nós criamos um cantinho particular, O Campo de Marte. Por mim nós iríamos à Cantareira, mas ela achava muito longe. E o que tinha de mal em ser longe? Ninguém nos seguiria e estaríamos sozinhos. Mas, enfim, nossos pais nunca souberam dessa nossa aventura e não será também agora que saberão; portanto, mudemos logo de assunto... 

Recordo-me de ficar pensando em suas mãos. Mãos alvas e, metodicamente, inquietas. Descobri que já não procurava mais traquinagens por que minha diversão era aquela jovenzinha delicada, que estava entre a cabal infância e a próspera adolescência. Eu deveria, talvez, quem sabe, poderia mesmo estar apaixonado por ela. Cometia um ato venial!

Eu tinha palpitações quando via aquela menina, quando chegava perto dela, eu gostava de sentir seu perfume... Ah, que perfume!

Que feliz lembrança adentra ao meu espírito, o primeiro dia que dei uma flor a uma dama. Apesar da pouca idade ela já era uma dama; uma distinta mulher que ainda era criança. Verdade que não dei um buquê de rosas vívidas para ela, mas, ainda assim, Helena deu um sorriso iluminado. Jamais me esquecerei deste sorriso, pois o meu primeiro amor fez-se encantado naquele gesto. Eu nem sei que flor foi a que dei à Helena, deveria ser uma espécie qualquer das rosáceas de uma ordinária família das ervas. Devo confessar que a flor foi retirada do jardim da dona Márcia; uma vizinha proprietária da padaria do bairro. No entanto, uma única rosa roubada funcionou para desígnios que eu nem mesmo tinha arquitetado; e descobri neste ato também que as mulheres adoravam flores. Alguns dirão ser de mau gosto dar flores, ou até mesmo ridículo, mas, de fato, utilizei-me deste expediente muitas outras vezes na vida...

Reconheço que Helena era engenhosa, parecia estar sempre tão instável, apresentando-se sempre com um encantador sorrisinho inclinado à mordidinha do lábio inferior. Ela não se permitia mostrar algum gesto que, eventualmente, indicasse gostar de mim. Será que Helena sentia as mesmas coisas que eu? Às vezes, ela era tão indiferente, distante. Mas ora, quem era o homem ali? E quem já tinha quase dez anos? Eu não poderia deixar aquilo acontecer, isto é, tinha o dever de domar a situação.

Um dia, ela me deu um telefone plástico de brinquedo dizendo que era para falar comigo sempre que desse vontade. Entretanto, nos desentendemos. É que eu não tinha dado em troca nada para nos comunicarmos. Que desonra! Fui para casa chorando e, além disso, envergonhado, pois, afinal de contas, homens não choram. Helena foi mulher antes do tempo; e, afinal, mulheres são mulheres... Onde estaria a superioridade masculina sob toda fragilidade feminina? Enfim, eu até poderia mesmo estar apaixonado, eu disse poderia, no entanto, ainda assim, eu continuava sendo apenas uma criança e ela continuava sendo apenas uma menina. Mas que menina! Talvez as garotas se desenvolvam mais rápido que os garotos ou talvez elas finjam, propositalmente, não gostarem de nós desde infantes.

Seja como for, não tivemos um namoro. Demos alguns beijos oblíquos por entre as grades do portão da casa dela; dado tudo o que vivi depois, concluo que foram até mesmo beijos inocentes. Mais tarde, outro rapaz apareceu em sua vida. Mais algum tempo se passou e fui ao casamento de Helena. O nosso caso de amor não deu certo... Muitas outras garotas passaram pela minha vida e, por certo, continuarão a passar. Assim espero! Mas aquela foi, para sempre, inesquecível; Helena foi o meu primeiro amor!

Por Ricardo Novais