Vida e Morte de José Roberto

* Deus julgando Adão, pintura de William Blake.

Estava no fundo da repartição. Seria mais um dia burocrático e monótono. Doutor José Roberto já pegava os papéis e documentos que necessitaria para o trabalho. Aos 15 minutos para às 9 horas, entra uma moça no recinto. Era o primeiro dia de trabalho de Maria Estela. Moça bonita, elegante, gestos refinados, chamou a atenção dos funcionários normalmente aborrecidos com olhos nos computadores.

José Roberto pensou que ela havia acordado cedo, pego o ônibus antes das 7 da manhã, esperado o senhor do recursos humanos por algum tempo. Em seguida, entregou-lhe os documentos para registrá-la no livro de empregados da empresa. Ela estava agora sentando em seu novo local de trabalho, não muito longe das mesas no fundo da repartição.

Ela viu os olhares maliciosos, nada disse. Na hora do almoço, doutor José Roberto teve vontade de ir até a nova empregada, convidá-la para irem ao restaurante da esquina, mas a dona Cláudia chegou antes.

Ele comentou com alguns colegas a impressão que teve da moça, ouviu em contra partida palavras que o enciumaram. Mas, diabos, o que tinha ele haver com aquilo tudo; nada!

Às 18h e 05 minutos, finalmente José Roberto, que mal conseguiu se concentrar no trabalho naquele dia, foi ter com Maria Estela. Ela era noiva e casaria-se no final de dois meses.

Ainda assim ele sentiu que poderia insistir, viu que Maria Estela lhe foi simpática e retribuiu os olhares lascivos. Entretanto, nada fez ele; ficou com a imaginação e o pudor próprio das relações inter-pessoais.

Se doutor José Roberto soubesse que morreria naquela mesma noite, talvez, não teria pudores e nem seguiria regras de etiqueta social. Por que um sujeito que vai morrer preocuparia-se em deixar de lado um amor fulminante por prudência?

Na certa ele pensou que haveria tempo para dissolver Maria Estela deste casamento desconhecido. Não houve, José Roberto aproximava-se da morte.

Ele pegou suas coisas e desceu pelo elevador. Lá dentro ele teve calafrios, possivelmente por ainda estar pensando na moça noiva que o havia impressionado. Chegou até o carro distraidamente. De tanto lembrar da breve conversa com Maria Estela, ele estava feliz.

Fez o caminho normalmente até o bairro onde morava, parou na padaria. Depois de pagar o cafezinho e despedir-se do corintiano que atendia naquele balcão, José Roberto dirigiu até o prédio onde morava. Estacionou na garagem, subiu até 5º andar, abriu a porta do pequeníssimo apartamento e acendeu a luz. Ele morava sozinho.

Ao sentar-se no sofá, teve a ideia de ligar para Maria Estela. Eles haviam trocado telefone naquele dia, mas José Roberto não aguentava esperar até o outro dia para falar com ela. Ligou.

Maria Estela atendeu, foi-lhe simpática. Ele confessou que não havia parado de pensar nela, que gostaria muito de vê-la. Ela lembrou que viriam-se, no outro dia, no escritório. Ele disse gracejos, ela riu pelo aparelho telefônico.

José Roberto deixou-se jogar no sofá, tinha um traço perpendicular para cima nos cantos da face. Reparou que tinha barba por fazer, queria chegar com bom aspecto no trabalho no dia seguinte. Foi tomar banho.

Ao pegar o aparelho de barbear elétrico, reparou que tinha que carregar as baterias. Colocou o recarregador na tomada e entrou debaixo do chuveiro. 10 minutos depois, olhou-se no espelho, sorriu, lembrou da voz macia e delicada de Maria Estela. Viu os fios proeminentes da barba no rosto e foi pegar o aparelho de barbear elétrico.

Neste momento, doutor José Roberto levou uma descarga elétrica e caiu no chão molhado do banheiro. Olhou para o aparelho de barbear jogado ao seu lado e lembrou-se que seu avô sempre usou aparelho de barbear descartável. A avó dele cansava de lhe contar este hábito do marido.

Talvez por isto, o avô não morreu e pode conhecer a esposa e formar a família. Doutor José Roberto ainda teve tempo de lamentar isto.


Por Ricardo Novais