Fantasmas da Cidade de São Paulo

Das inúmeras lendas da cidade, dentre as muitas que constam no ideário popular, descreverei uma que minha tia-avó, dona Maria, realmente, não cansava de contar. Era uma velha fábula, que tantos antigos já contaram, mas que farei chegar a algum leitor da Romênia ou da Mongólia; acaso haja algum leitor deste blog por lá... A história é a do terrível assassino da assombrosa Praça da Bandeira, em São Paulo.

O caso mais célebre que se inclui naquele lugar é, por certo, o famigerado Edifício Joelma. Eis que em fevereiro de 1974, vitimado por um catastrófico incêndio, o prédio se consumiu em chamas que mataram muitas pessoas. Há muitos relatos de vultos apavorantes, vozes gemendo e clamando por socorro, dentre as quais as treze almas que jamais foram identificadas. Mas esta história eu deixo para que minha amiga leitora conte, é que ela conhece fatos marcantes à humanidade muito melhor que este desabonado autor. O que deitarei nas linhas abaixo é o relato de um crime ocorrido neste exato local amaldiçoado, nascedouro do rio Itororó, que percorre as encostas de São Paulo e também ronda pela imaginação de muitas pessoas produzindo grande espanto.

Incêndio catastrófico do Edifício Joelma (atual Edifício Praça da Bandeira), século XX, Praça Da Bandeira, São Paulo-SP.

Segundo dona Maria, os indígenas já achavam que toda aquela região era habitada por maus espíritos, o 'Vale do Mal'. E ainda na primeira metade do século XX, no mesmo terreno onde se deu a tragédia do Joelma de décadas posteriores, havia uma casa de bela fachada branca e bem ampla lembrando um palacete francês. Moravam naquele paço um jovem químico, sua mãe e as duas irmãs, que herdaram do pai morto os direitos fiduciários de algumas “apanhadeiras de café” e uma criação mirrada de animais em Sorocaba.

Desfizeram-se de quase tudo no interior e mantiveram, basicamente, o Palacete do Rio Itororó. Este patrimônio era bem de família, portanto, árdua a tarefa de dilapidar entre os pares.

Constava dos autos, no entanto, apenas a partir do momento em que a família desaprovou um namoro encolerizando o jovem químico. Porém, assim que desceu do bonde que o levara ao Paço da República, este rapaz resolveu vingar-se de sua própria família.


Bonde que circulava na região central da cidade no século XX.

Deliberou então, mesmo titubeante, a assassinar toda sua estirpe. Apaixonado e demente, o crime monstruoso suprimia seu problema de vez e galardoava o desagravo. Naquele tempo, as conveniências eram diferentes, a injúria e ofensa feriam a honra. Todos sabem que, um dia, a honra já valeu algo... Bem, em todo o caso, depois que ele cometeu a grave delinquência penal, com todas as agravantes dolosas, decidiu-se por bem, ou pelo mal, que deveria se livrar dos vestígios incriminatórios.

Assim sendo, o jovem deliberou jogar os corpos desfalecidos e trucidados num poço artesiano nos fundos da casa que ele mantinha para suas pesquisas de homem das ciências. Sacrificou neste ato um pobre cavalo, retalhando-o as partes, atirando grande quantidade de cal virgem e outros produtos dentro do poço, por cima da chacina. Isto foi um momento de lucidez, pois a intenção dele era disfarçar o odor e as consequências do crime, contudo, um “abelhudo” vizinho de chácara desconfiou. O “abelhudo” denunciou-lhe ao delegado. Alguns dias depois, nesta época as autoridades demoravam a chegar ao ambiente que se deu o crime, mas o criminoso também demorava por fugir e, às vezes, nem fugia, no entanto, a polícia compareceu ao local e descobriu tudo, os corpos ou o que havia sobrado deles - consta, inclusive, que no resgate aos corpos retalhados um bombeiro morrera vitimado por infecção cadavérica -, os produtos químicos, correspondências que incriminavam o morador e, assim, deu voz de prisão ao suspeito. Ele, por sua vez, não ofereceu nenhuma resistência; abalado e paralisado, apenas chorava muito. Bendita tradição da personalidade dualista dos paulistas!

A chefatura policial bandeirante amarrou o ardiloso químico, por precaução já que estava imóvel, colocando-o no tílbure dos pracinhas. Conduziram-no até a única delegacia pública de toda a região, a escolta contava de todas as treze patrulhas do esquadrão e mais alguns de cavalaria. Por aqui a cavalaria não era a segunda ordem social como foi, na Idade Média, na Inglaterra, mas, em São Paulo, detinham de algum prestígio como bravos, fiéis, generosos e defensores dos oprimidos.

O delegado instaurou inquérito, e, quando o concluiu, entregou-lhe ao Ministério Público que fez a acusação formal, a tutela jurisdicional acolheu a denúncia, o processo teve andamento extraordinário dado a publicidade do fato para todos os paulistas, que ainda não eram tantos milhões. O caso foi a júri popular. Naquela época o processo crime não era tão moroso, fosse pela envergadura ilibada dos cidadãos ou ainda pela população não transpor além-Pinheiros e riacho de Santo Amaro.

Posto que no dia do julgamento, os doutos desembargadores, providentes, dispensaram seus belos animais da arte da equitação. Todavia, eles tiveram a inteira disposição outros meios de locomoção fornecidos pelo Estado para ampará-los.


Tribunal de Justiça de São Paulo (atual Secretaria de Justiça), que localizava-se no Pátio do Colégio. Este lugar é também a célula originária da cidade de São Paulo.

O réu foi sentenciado e condenado à pena capital do cadafalso, por homicídio de três criaturas que receberam o sacramento do batismo da Santa Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho do Bom Deus; ainda qualificado pela crueldade, pelo matricídio, emprego de meios artificiosos e cruéis, posse irregular de produtos químicos, motivo torpe e fútil, que ameaça aos cidadãos cristãos batizados e tementes a Deus.

Foi designado como local da execução o estrado do Largo da Misericórdia. Consta também que foi um dos últimos enforcamentos ocorridos naquela arena. Este evento foi testemunhado por todos os bons e honrados munícipes presentes, o ato e o efeito alcançado se cumpriu: punir crimes contra a fé do Santo Senhor.


Largo da Misericórdia (atual Praça da Liberdade), este era o cadafalso onde se executava condenados à morte.

Porém, ilustríssimo leitor, talvez, numa conjectura, possamos dizer que o julgamento pode ser considerado brando. Depende do ponto de vista. Quando o crime ocorreu estava em vigor o Código Penal da República de 1890. Mas somente a partir de 1940 as leis penais ficaram mais rígidas, então, seria possível que o embasamento jurídico para a condenação fosse ainda mais rigoroso; não obstante que é árdua a tarefa de conceber uma pena mais severa que a morte.

Por obra do tempo, não se tem ciência de nenhum documento registrado e autenticado por escrito nem dos Atos Públicos e nem das Solenidades. No entanto, incluí-se num dos primeiros casos de repercussão noticiosa da tradicional, atenta e pungente imprensa paulistana; que, desde o tempo do francês que dava as notícias a cavalo e soando uma corneta, sem muita ocorrência incorpórea já naquela época, esbaldava-se vendendo jornais para as casas nobres e burguesas.

Pois que de fato sensível, temos uma cidade habitada por muitos fantasmas e muitos locais mal assombrados. Que o Senhor nos livre da Praça da Liberdade e do Vale do Mal!


Por Ricardo Novais
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* Este 'conto-crônica' é uma ficção, com personagens e datas inexistentes e/ou inventadas pelo autor, levemente inspirado num fato real, conhecido como Crime do Poço, acontecido no ano de 1948 e que consta em uma passagem do livro O Boêmio, de Ricardo Novais, Bookess, 2010.