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Equilíbrio

O grande bar, de Alberto Sughi.

Não eram dez horas ainda, mas a noite parecia acabada. Ah!, leitor, uma noite encerrada precocemente é como o amor sem o gozo. A cidade é feita para se apreciar, sair de casa, andar a pé pelo bairro, parar em um bar. Preencher a vida com rostos desconhecidos de todas as cores e idades.

Parei em frente ao bar do Juarez, não entrei. Fiquei a olhar com insegurança as ruas ao redor, cheias de bares apinhados de gente, homens e mulheres desconhecidos fumando nas calçadas, copos tilintando beijados pelas mesmas bocas, bocas transmitindo as mesmas conversas. Não eram dez da noite.

Entrei no bar. Pode dizer-me ambíguo, leitor. Fui direto ao balcão, bebi uma dose e chegou uma mulher. Fomos para uma mesa nos fundos do bar, a única que vagou rápido. Em cinco minutos, eu olhava para uma mulher em prantos acusando-me de crápula; não julgue à toa, dona leitora; a coisa pareceu-me triste, a noite terminando precoce...

Há muito tempo, um velho bruxo dizia que existem pessoas que choram pelos espinhos na rosa, mas há outras que sorriem porque entre os espinhos colhem-se as rosas. Possível que o pensamento não seja deste jeito tão rude, mas é que não tenho a elegância daquele bruxo, e também porque a paciência da escrita deste tempo é mais curta do que outrora.

Sim, fui um crápula. Saí do bar. Sozinho. A mulher ficou, solitária, terminando a cerveja sem álcool à espera de alguma boa companhia. Andei pelas mesmas ruas entre os mesmos bares apinhados de gente de todas as idades. Entre todos os desencontros, encontrei boa companhia em pub de ladrilho descacado. Bebemos, rimos, cantamos; bebemos outra vez... A noite precoce estendeu-se um pouco mais, e mais, até que virou dia.

- O que você está pensando?

- Na bebida colorida desta cidade!

- É tão simples...

Há coisas que me fascinam demasiadamente. Os sorrisos fracos entre os goles de cerveja e a névoa do cigarro que não se fuma pesam às costas daqueles que se conhecem bem, entretanto, entre aqueles que tenham se visto pela primeira vez há poucos instantes todo momento é único e futuro.

- É tão simples...

Enquanto alguém lamenta, caro leitor e querida leitora, outra ri; o mundo é perfeito. Seria um tédio só se tudo fosse lágrima, mas também sorriso o tempo todo seria fútil e débil. Não acha? O equilíbrio é a felicidade da vida, em sua variedade humana, entre lamúria e dança, ressaca e impulso; um copo sendo cheio por uma garrafa brilhante em um bar qualquer desta megalópole barulhenta, cinza e de passos anciosos.

Por Ricardo Novais

Deus perdoa

Paulo, o primeiro dos missionários. Foto Rafael Gomes.

Casei com um homem mais velho, bem mais velho. Casei por interesse. Minha mãe foi a única pessoa que ficou feliz; meu pai me perdeu por causa de dívida, dívida com a máfia italiana ou da roça mesmo. No Brasil é difícil saber de onde vêm as pessoas, somos uma família de expatriados.

Nasci em um sítio perto de Campinas. Aos 9 anos incompletos, fui morar com uma irmã mais velha na cidade. Terminei meus estudos regulares e então me mandaram para São Paulo. Até os 22 anos de idade eu tinha uma vida muito extravagante, dava para caras endinheirados por muita grana e morava bem em um apartamento da Alameda Lorena. Eu era bonita, muito bonita.

Paulo Roberto era velho, muito velho. Amigo de família, lá dos tempos da roça, um dia ele veio em casa e jogou uma maleta com oitocentos mil reais na mesa de jantar e um contrato de casamento. Meu pai estava junto com ele.

- Minha filha querida...

- Saia, papai! Paulo, fique.

Desde então, fiquei ainda mais bonita; Paulo Roberto, ainda mais velho. Meu pai, morto. Graças a Deus. Ele perdia muito dinheiro. Em seu leito de morte, a alma de papai foi pesada em menos de 21 gramas. Minha mãe também já morreu, morreu feliz. Paulo Roberto foi amante de mamãe, talvez por isto ela sabia que ele me faria feliz.

- Emanuelle, meu amor será teu escravo.

- Sim, estou protegida ao seu lado. Obrigada.

Tenho um filho. O filho é do Edu, mas Paulo Roberto pensa que é dele. Que velho burro! Várias vezes ele já me pegou na cama com outros homens e até mulheres, mas só diz: “Deus perdoa”. Paulo não é Deus, é meu pai biológico.

Deus não joga dados fora, diria algum leitor com ares de cientista. Eu acredito em Deus. Por isto não tenho remorso de nada, Deus perdoa tudo. Eu posso trair, enganar, roubar; Paulo pode trair, enganar, roubar e até matar; Deus perdoa, e isto é tudo.

A minha vida é muito boa. Sou uma mulher de 33 anos que não conhece varizes nem limite de cartão de crédito. Encontrei a partícula de Higgs, não vou à igreja, ouço Alice in Chains e tenho hora marcada na sessão de yôga toda manhã. Quando Paulo Roberto morrer, vou abrir uma rede de academias de ginástica.

Por Ricardo Novais

Praça da boa morte

"Cidade", de Claudio Tozzi.

Sentei-me à mesa. Não eram mais que duas da tarde. O almoço era um filé de frango à parmegiana e panquecas de carne seca, refrigerante, água e pudim chinês de sobremesa. Do mezanino do restaurante, comecei a olhar através de uma grande janela de vidro cristalino que dava para a rua. Numa pracinha, camuflada entre os grandes edifícios, quatro senhores jogavam baralho e bebiam cerveja – aos meus olhos, pareceu-me um paraíso no meio de uma selva de pedras.

Na avenida em frente à pracinha, o trânsito humano-automotivo, pesado e contínuo – violento como a personalidade desta cidade. Antagônica, assim é a personalidade de São Paulo. Um dos senhores que embaralhava as cartas na mesa de pedra, julguei que era um jogo de truco, dado os trejeitos afetados dos jogadores, chamou-me mais a atenção. Ele não era diferente dos outros, entretanto, era ele quem distribuía as cartas, naquele momento. E a vida é o momento, meu caro leitor. Os braços, com rugas e vincos, eram ágeis; o semblante cansado não lhe deixava mais velho, ao contrário, emprestava-lhe uma jovialidade atrevida. O boné azul de aba curta que usava combinava com a camiseta de regata branca e a bermuda jeans, e o tênis cinza calçado com um par de meias claras até a altura da canela lhe devolvia a juventude. Um menino-velho. Mas já lhe disse, leitor, os outros senhores eram como ele, juvenis; e todos riam. Riam e riam, riam muito. Não sei do que eles falavam; de onde tiravam tanto assunto, dona leitora? E não sei do que tanto riam. Percebia-se, no entanto, que debocham de suas próprias velhices, dado os seus dedos apontando sempre para si. E também porque na placa municipal encravada no cruzamento da pracinha, lia-se: “Praça da boa morte”. Eis o segredo da vida.

O trânsito continuava o seu fluxo natural de extrema violência. Os pedestres, elegantemente trajados, cruzavam as alamedas em um bater de pernas, frenético e indiferente, como sempre, carregando os seus próprios cadáveres às costas.

Leitor, perceba que a nossa brilhante amiga leitora já alcançou o que de interessante, ou que de alguma importância, aconteceu neste conto, de modo que não lhe explicitarei nada; se tiver dúvida, torne aí as linhas acima e releia tudo, tudinho. Contudo, em consideração à nossa amizade, digo-lhe agora que acabei de almoçar, paguei a conta do restaurante, saí pela porta da frente – deixando para trás o meu carro no estacionamento dos fundos. A pé, fui pela calçada sem perder de vista aqueles meninos-velhos e seus lances de baralho. As cartas estavam na mesa, todas elas. Aguardei com paciência que o farol de trânsito abrisse para os pedestres; atravessei na faixa que dava acesso à pracinha. Passeei a passos curtos. O senhor, que continuava a embaralhar os coringas e as manilhas, talvez numa nova jogada, admiravelmente me cumprimentou; acenei-lhe com a mão. Todos sorriam. Dei a volta pelas alamedas, vagarosamente; aguardei que o mesmo semáforo abrisse; atravessei a avenida na mesma faixa de pedestres. Entrei no estacionamento dos fundos, saí com meu carro na calçada da frente, não furei o sinal vermelho. Aguardei. O sinal verde indicou a necessidade de seguir em frente, e assim foi.

Por Ricardo Novais

Rivalidade Rio-São Paulo

Google imagens.

A velha rivalidade Rio-São Paulo. Concorrência provinciana que, há séculos, açoitam seus povos? Duas cidades que não se bicam muito e, no entanto, são primas ou, quase, irmãs? Uma espécie esportiva de disputa eterna entre índios tamoios, os super-cariocas, contra tupiniquins, os super-paulistas? Uns partidários dos ferozes goitacás e tupinambás; outro grupo, mais gentil, só queria viver na paz natural de carijós ou de catequizadores. Ah, se tudo fosse tão lacônico como numa partida de futebol, mas briga-se por tão pouco... É, provável que sim. França e Inglaterra não iniciaram uma luta, de mais de século, por causa de lã? Os Estados do Paraná e de Santa Catarina não promoveram um sangrento conflito, na Questão do Contestado, por reivindicarem madeira? Conflito onde morreram mais de vinte mil homens, e usaram mais de vinte mil caixões. Caixões de madeira!

Sim, senhor leitor vizinho da casa 1 e dona leitora vizinha da casa 2, olhar para os lados espicaçará sentimentos diversos e uma ambição selvagem à discussão com o que é díspar do nosso direito...

É curioso; qualquer paulistano diria que sou vira-casaca. Mas minha identificação com o Rio de Janeiro vem justamente por causa do saudoso Torneio Rio-São Paulo. Fanático pela disputa ente futebolistas cariocas e paulistas, presenciei apenas a morte do torneio; os último anos, entre vivos e mortos. Vivos e mortos!

Lembra-me, por descuido, a memória a história de craque antigo do Clube de Regatas do Flamengo: Zé dos Prazeres, o gênio genioso. Isto é história velha que vovô contava nas tardes de sábado perto do Rio Pinheiros, quando este era parque florestal em São Paulo, com o cigarro à boca e a cerveja esquentando na mesa improvisada. Dizia ele que nem Garrincha nem Pelé foram páreos para o Zé dos Prazeres no Rio-São Paulo. Zé foi o maior do torneio, afiançava.

Coisas maiores, leitor. Coisas maiores! Afinal, tudo é tão decrépito como o depauperamento da reminiscência, finita.

O craque genioso nasceu entre os malandros cariocas do Morro dos Prazeres, zona central da cidade dos remotos goitacazes e tupinambás. Conhecia tanto a boemia aniquilante do Rio antigo como a crueldade dos bicheiros que mandavam na favela.

Zé dos Prazeres era sedutor, fazia o tipo galã de cinema. Mas a torcida adversária, percebendo logo as jogadas temperamentais, voluntariosas e indisciplinadas de Zé dentro e fora dos campos de futebol, fez campanha contra o desportista incompreendido. Tão depressa nas duas cidades surgiram os coros nas arquibancadas a tentarem desestabilizar o melhor jogador no torneio: “Mariquinha! Mariquinha! Mariquinha!”. Ele se afetava rápido. Batia em árbitro, espectadores, cronistas, brigava com Deus e o mundo, ofendia, sem distinção, rivais e colegas da própria equipe.

Quando o jogador enfurecia-se no gramado lá vinha o coro paulista: “Mariquinha! Mariquinha! Mariquinha!”. Ele ficava irascível; e, se o Flamengo tivesse vencendo, tanto melhor, porque ele iria fazer um gol de categoria e raiva. Mas se o rubro-negro estivesse perdendo o time da Gávea acabaria sem Zé dos Prazeres, pois ele seria expulso por agressão física ou moral indiscriminada.

Em meados de algum ano passado como fumaça de bule de chá, segundo as também já tão longínquas palavras de vovô, o gênio se desentendeu com o presidente do clube, clube que tanto amou. Numa excursão pelo Rio, a Internazionale, de Milano, time da moda no velho continente à época, se interessou pelo jogador. Zé dos Prazeres, o gênio genioso, foi vendido. Mas ele não aceitou ficar longe de sua gente. Na temporada seguinte, sem poder jogar, foi assistir a abertura do torneio Rio-São Paulo: Santos 7 x 1 Flamengo. Era de ver a cena em pleno Maracanã, o craque genioso embriagado entre geraldinos de incrédulos rostos de todas as cores e todas as idades, de cabeça baixa, chorando entre seus comparsas, agarrado a um poste das gerais do velho e não menos saudoso Maraca, sem acreditar na humilhação imposta pelo time paulista ao seu clube de coração.

Amor? Desamor? Abandono? Zé dos Prazeres morreu de tristeza, num hospício na cidade do Rio de Janeiro. Contudo, não sejamos tão enfáticos como os cronistas esportivos! Não cabe neste texto. Dir-se-ia aqui apenas que o futebol é só um artístico e inesperado reflexo da vida.

Ademais, não saberia afirmar, caro amigo leitor-torcedor carioca e queridíssima dona leitora-fanática paulista, se esta história de meu velho avô, jaz calado pelo peso da eternidade, é verdadeira; de certo que não. Mas diria que sim; pois que o craque das mais belas expressões corporais nos estádios, que teve afetada a vida de glórias e desgraças, promoveu a mais sútil e ingênua rivalidade entre todas que existem entre o Rio e São Paulo – duas cidades bem perfumadas, e quase irmãs.


Por Ricardo Novais

A visão de Ezequiel

A visão de Ezequiel, 1518, Rafael.

Conheci-a num cinema decadente da São João. Eu ia pela minha procura perene do novo coração, ela só queria algum espírito disposto ao amor fugaz pago a crédito. Mas nos apaixonamos, perdidamente. Fomos morar numa esquina bem ordinária da São João; aluguel barato, de cômodo pequeno que perfazia toda a casa. Todas as manhãs eu sorria debilmente ao ver Mirella deitada na cama. Não imaginas, leitor, qual deleite se apoderava de minha tola alma ao vê-la seminua e quase coberta pelo velho lençol creme que se encaixava impecavelmente ao seu corpo formoso, insinuante e aventureiro. Nenhuma luz a deixava mais bonita que aquela hemorrágica iluminação vinda do abajur vermelho do nosso quarto impudico. Quarto da lascívia. E nenhuma vida poderia ser mais feliz que a dúvida universal advinda da luxúria...

- Ai, Ezequiel, você é muito ciumento, queridinho... Não! Não quero nada! Não me cobre nada! Traz uma vodca pra mim; pura, dupla!...

Quando Mirella arranjou o primeiro amante, tratei logo de quitar toda a locação. Percebi a doença crônica, incurável. Libidinosa. Mudamos para sobradinho modesto na zona sul. Vida não menos libidinosa. A Vila da Paz trouxe-me esperança, mas não tinha esgoto nem água encanada. Três meses, já estava eu arrendando qualquer imóvel do outro lado de qualquer avenida por causa das recaídas de minha querida. Enfim, não a larguei ao bel-prazer dos amantes... Grande era meu sofrimento, mas não desesperei nem desanimei. Fui reconstruir o amor por todos os cantos deste mundo. Sim, a solução era a mudança eterna; e mudar é viver! Moramos na Avenida Nove de Julho, Rua Santo Antônio, Rua Formosa, Praça Central, Praça dos Correios, Carlos Gomes, Mário de Andrade, Dona Veridiana, Consolação, Avenida São Luiz, Rio Branco, Duque de Caxias, Ipiranga, novamente São João, outra vez mais zona sul, Santo Amaro, Largo Treze, Pinheiros, de lá à zona leste, norte, Santana, Tietê, Jaraguá, novo regresso à íntima São João; em cada casa, novo fracasso. Pouco tempo, ainda habitamos cortiços no Bexiga, Baixo Paraíso, Conselheiro Furtado, Glicério, Brás, Rua do Desterro.

Minha vida estava ungida à dedicação daquela mulher extensa, larga. Rainha da cidade, madrinha do Continente. Entretanto, ao avistá-la de longe saindo da Igreja N. S. da Conceição agarrada ao homem de preto às últimas badaladas da noite, aceitei à visão do Juízo Final. Disparei seis tiros de revólver na puta. O amor jorrou diante do altar. Olhei para o rosto tépido do sacerdote; ele deu-me a benção dos enfermos. Às vezes o próprio corpo clama por alguma alma... Fiz o sinal da cruz e saí por aí, em busca do novo coração, aliviado, a assoviar o bálsamo do regojizo, a rasgar as últimas e primeiras lembranças, entre as quadras sujas e indelicadas da São Carlos do Pinhal em direção à Rua Augusta.


Por Ricardo Novais
Conto publicado originalmente na revista literária O Bule

O bairro acordou mudado...

"Pateo do Collegio", por Cristiane Carbone. Óleo sobre tela 30 x 40 cm.

No meu bairro estão caindo as casas velhas e brotando prédios moços. Meu bairro acordou trocado. As árvores deram lugar ao cimento cru e ao asfalto cinza-escuro – cor do céu da cidade. A chuva não é mais bem-vinda como antes, arrasa a família do dono da padaria e a escola das crianças. O sol, tão esperado nesta terra, teima em queimar os sonhos daqueles que dormem nas calçadas – calçadas estas que viraram ruas de comércios.

Não me conformo. Derrubaram o meu bar e no lugar botaram uma locadora de automóveis... Para que tanto carro nesta cidade, meu Deus?! As moças da noite saíram das esquinas porque os bulevares agora são das festas da prefeitura... Que será de minhas amigas, meu Deus?!

Em busca do ouro, o pároco da capela levantou-se, fez breve discurso e pediu que bebêssemos um brinde à felicidade do bairro. Ao progresso! Aos novos prédios! Às novas casas de negócios! Ao profeta Abraão!

Ora, caro leitor; mas tenho saudade de quando os meus vizinhos garimpavam o futuro debaixo do pé de acerola que ficava na praça do arrabalde ou em jogos de cartas e dominó no bar da Dona Portuguesa. Ser feliz era mais simples no tempo de outrora... Apenas a velha capela, restaurada, mas próxima da original, sobrou como testemunha da vida e da época de nossos primeiros erros.

Por Ricardo Novais

Não me importo, sou de São Paulo dos vigaristas!

Arte do Sinaleiro Amarelo. 

Não me importo com nada. Nem com esta cidade, nem com os problemas de meus vizinhos e nem com o que dizem as línguas dos queixosos do metrô. Eu sei que todo habitante de São Paulo reclama da cidade, jura que não a tolera mais e que irá abandoná-la na próxima estação. Eu sei, mas não queria saber. São poucos os que verdadeiramente deixam a megalópole, e são muitos os que chegam trazendo os seus sonhos de vida de fruto – ou fruto de vida, dá no mesmo porque tudo é a mesma secura que busca a chuva abundante. A garoa que cai incessante embaça a visão, e uma visão ofuscada só vê o que quer ver. De longe, todos os paulistanos são ricos e elegantes; de perto, são pobres e humanos; depois que passam pela rua voltam a ser ricos e elegantes. A ilusão é ser iludido... Mas eu realmente não me importo com nada disto, não quero sair de meu confortável vício. Ora, leitor; assim é a cidade grande; um enorme emaranhado corrupto da vida, que ilude maltratando e enganando; e que, mesmo assim, tanto fascina...

Vivo nesta cidade, mas esta cidade também vive em mim; desde antes, desde a cidade antiga, da cidade que cheirava a cavalo, destruída pelo progresso, da velha Rua Quinze, tão afrancesada, com aqueles complexos trilhos dos bondes, de homens de chapéu e gravata borboleta, dos vaga-lumes e suas escadas de madeira ascendendo os lampiões públicos no finalzinho da tarde; e se a garoa ainda é quase a mesma, agora sinto falta das íntimas calçadas de pedra que deram lugar a uma outra sociedade de sofisticados cafés, elegantes vestimentas. A cidade agora é toda vertical, de gente de todas as idades e todas as cores; é uma Sampa high-tech dos diabos. Contudo, nada disto me interessa; meu compromisso com a história cosmopolita dos trópicos deixo em futuro.

E se esta gigante urbe Pauliceia ainda continua a ser minha edícula é porque, quando coloco os meus pés para fora do portão de minha casa, tenho vertigens. Vejo as ruas e é como se eu estivesse saindo do meu quarto para me reunir na minha sala de jantar com minha família. Uma família grande; oh, sim! Família de milhões de parentes que eu não dou a mínima. A única salvação é que não tenho como deixá-la, pois minha vida já está no meio de tudo. Sendo assim, nem ouso conjecturar, como os outros, em abandoná-la. A elegante senhorita leitora me entende, certamente; já que com ou sem amor, com sucesso ou sem nada, serei sempre um fruto verve desta nevrálgica terra. Paulistano! Paulista! Brasileiro! Italiano! Baiano! Puto! Sou tudo isto, exceto bandeirante. É que todas as minhas virtudes e todos os meus vícios foram formados no ânus do panorama desta vida urbana. Tenho um coração contraditório, como sabe; sou airoso, palpitante. Carrego em meu peito o doentio coração de São Paulo. E, sendo até repetitivo, digo que não me importo um nadinha com ele; nem cardiologista eu sou...

Nas madrugadas frias, tomo sopa no Ceasa; nas madrugadas quentes, fico bêbado em qualquer canto. Agora sou homem do asfalto recapeado, da poeira que cai em fachadas de prédios abandonados pelo tempo. Sou aquele mesmo cidadão da cidade grande que se perde a cada esquina e que se acha mais à frente num beco escuro sob o vulto feminino trajado de vermelho... E como eu não me importo com nada nem com ninguém, ninguém nesta cidade também se importa comigo. Parecem-te cruel estas palavras, leitor? Perdoe-me, mas seja sensível o quanto quiseres que eu nem ligo. Apenas constato a minha sinceridade depois de ficar exposto à tempestade imponderável de verão. Se não crê no meu raio de realidade, meu amigo, então suba o Pico do Jaraguá, aonde todos os trovões do mundo se formam e todas as festas da chuva se originam em algum momento, e veja com seus próprios olhos, sempre embaçados pela garoa da ilusão, como um empurra o outro nesta cidade; às vezes empurram por volúpia, noutras vezes por delicada ideia de sucessão. Eis a minha Sampa dos vigaristas.

Por Ricardo Novais

Paisagem das montanhas



Arquivo de horizonte montanhês.

Quando Rita desembarcou na rodoviária do Tietê, logo se viu diante de gigantesco mistério guardado no coração da cidade grande. Percebeu-se, então, como parte deste coração tão cosmopolita, mais precisamente num dos portões mais importantes onde a dona Esperança recebe os forasteiros.

Entre movimentos céleres e bater violento de pernas pátio afora, Rita observou rostos desconhecidos tão dela reconhecidos d’algum lugar. Dona Esperança foi logo chegando e lhe dizendo:

- Que belezinha! De onde você veio, menina?

- De Minas...

Rita achou tudo na cidade uma peça monumental. Ela veio por amor, amor ao noivo que não foi buscá-la na rodoviária, não deu notícia alguma de seu paradeiro e não soube que ela arrumara emprego numa pensão da Ponte Pequena. Mas dona Esperança era patroa boa; deu-lhe comida, ofício, roupas afrancesadas e companhia certa nas noites frias, também nas quentes.

Entretanto, nem toda felicidade do mundo é completa; Rita sentia muita dor de solidão – não mais do noivo antigo, mas das antigas montanhas. Numa tarde de folga ela andava pela Praça da República quando viu um quadro belíssimo, pintado por artista sensível e bucólico. Era paisagem de montanhas, cobertas por um verde muito vivo e tocante, uma sobreposta à outra, como encaixadas em cenário de papelão. Rita comprou a aquarela; sorrindo de alegria, pendurou-a na parede de seu quarto recordando-se das porteiras de sua terra natal que havia deixado para trás.

Deitada na cama a olhar a paisagem das montanhas pendura na parede, ela imaginava tudo que o real panorama não lhe mostrava. Rita abria a vidraça e tentava ver algo a encaixar-se entre tantos prédios, nada via além do cinza; então fechava a janela contra o frio, vento, chuva, insetos, ladrões, fantasmas, enfim, fugia por instantes da cidade de garras árduas. Ao anoitecer, o acender humano lhe dava a visão desejada: a paisagem das montanhas, com a linha do horizonte a tocar o mágico e formoso sol descambando numa luz alaranjada, discreta, bem colocada, onde tudo é tão vasto que a pequenez não tem fim. “Deveras, quadro belíssimo! Que artista estupendo!”, dizia ela consigo. “Sinto como se estivesse junto de mamãe naquela serra...”.

A vida foi assim passando para Rita; vida estéril, artificial, impessoal. É verdade, amiga leitora; a moça sofria de tudo – menos falta de amor já que não se pode sofrer do que não se tem. Nenhum dinheiro trouxe gosto à paisagem que ela enxergava de sua janela...

Noutro dia dona Esperança morreu, Rita herdou a janela da patroa. Vitral maior, vista bem localizada para o Pico do Jaraguá, onde a luz e o ar entram com maior entusiasmo e esplendor; mas nem isto é bom consolo a quem só consegue ver é o beco, como diria Manuel Bandeira. Rita dependurou o quadro de paisagem de montanhas à parede de seu novo quarto, este foi sempre a sua companhia de solidão entre seus ofícios sutis e inexplicáveis – onde a felicidade não inspira confiança alguma.

Por Ricardo Novais

Viagem Extraordinária!

São Paulo teve o primeiro sistema de trólebus da América Latina, implementado, em 1949, pela CMTC, já extinta. Foto: Alexandre Gabriely.

Em 1949, São Paulo era bem diferente do que conhecemos hoje. A cidade crescia em ritmo acelerado, mas estava longe do caos hodierno. Naquele tempo, era possível marcar e checar aos compromissos, reverenciar o vizinho, jogar futebol em campinhos nas várzeas de rios e namorar no portão de casa.

Foi nesta urbe íntima que viveu Borba de Andrade, rapaz de 21 anos, simples operário das fábricas automobilísticas do ABC e enamorado de Olívia Guedes. Ele morava com um irmão mais velho na Vila Mariana de então, um entroncamento longínquo que ficava entre o progresso das fábricas e a sofisticada cidade; a querida Olívia, porém, vivia em agradável palacete geminado em área paulistana central e valorizada – era moça polida em francês e tediosa ao piano clássico, por boa orientação de sua família quatrocentona.

Num domingo de primavera, Borba comprou flores e subiu em um dos modernos trólebus que circulavam na paulicéia da época – uma novidade para os paulistanos, especialmente ao perímetro da Vila Mariana e Santo Amaro. Mostrando-se contente por passeio tão agradável  que o levaria à tão proeminente e desenvolvida cidade, e também sonhando com Olívia contraída no cinema da Avenida Ipiranga a assistirem juntinhos uma das maravilhosas películas vindas diretamente dos Estados Unidos da América, Borba cochilou nos confortáveis bancos do coletivo. Num solavanco que deu o veículo, ele acordou. Olhou pela janela e não reconheceu nada. Invés do progresso só via mato, nenhum prédio, apenas bosques e árvores. Seria possível que pegara o ônibus errado? Seria possível que o motorista estivesse à contra-mão e retornando à Vila Mariana e seu ambiente rural? De súbito, espantou-se: Qual ônibus? Não viajava mais no modernoso trólebus, mas sim num antigo bonde da linha da fazenda de Sant'Ana e outros campos da Companhia de Jesus. Deixou as flores ao velho banco de madeira e saltou do bonde, ainda o vendo subir, vagaroso, pela serra...

- Mas será possível?

Sim, era. O simples operário reconheceu o lugar, era a Serra da Cantareira. Subiu uma colina e exclamou:

- Sumiu a cidade, meu Deus!

Neste momento, um homem maltrapilho, carregando arcabuz, arco e flecha, barba cerrada e pele morena, gritou ao léu:

- Borba!

O eco saiu à toa.

- O senhor me conhece? – bradou Borba da colina e pensou: - Deve ser alguém da cidade.

Borba desceu em direção ao velho e aproximou-se inquirindo a figura:

- Que quer?

- Nada!

- Mas me chamou...

- Venha! – ordenou o barbudo.

- Oh, não posso; tenho que voltar...

- Venha logo!

Os dois caminharam serra acima. Num descampado, quase no Pico do Jaraguá, Borba percebeu dezenas de homens do mesmo aspecto do velho a quem seguira.

- Quem são vocês?

Todos gargalharam sem responder a pergunta e criando nova questão.

- Quem quer saber? Quem é ele, Borba?

- Borba, chama-se Borba, senhor? – admirou-se o viajante oriundo da Vila Mariana.

- Sim, Borba Gato; por quê?

- Meu nome também é Borba, só que... Ei, espere, disse Borba Gato?

- Sim, qual o espanto?

- A estátua... A estátua gigantesca na entrada de Santo Amaro... Borba Gato foi bandeirante...

- Sou eu, meu rapaz. Um bravo servente do povo paulista pela graça do Senhor! Estes são meus amigos; também bandeirantes do mais alto valor! Todos aqui são expedicionários lutando na selva, contra todos os males do diabo e protegidos pela intersecção do próprio Deus... E eu sou o comandante destes homens divinos... Esteja certo, jovem; se hoje a Coroa nos ignora reles pobres-diabos, mais tarde, em futuro grato, seremos os condutores da nação que há de vingar; pela graça do Senhor! – num gesto mecânico, o velho Borba fez o sinal da cruz cristão e passou a mão na bainha do facão.

- Puxa, que loucura! – espantou-se o jovem Borba.

- Vamos beber! – ordenou o velho.

- Obrigado, mas tenho que voltar...

- Sente-se, beba, depois vá.

Borba de Andrade bebeu com aqueles homens de tanto valor para a cultura da cidade onde nasceu, inicialmente assustado, mas logo, com o entorpecer da cachaça, viu-se rindo e contando piadas paulistas entre bandeirantes genuínos.

- Meu rapaz, de quando em quando passamos por aqui, neste bosque. Sempre retornamos! Aqui foi o palco de uma das batalhas mais sangrentas, entre nós, bravos homens cristãos. Perdi todos meus comandados em luta; e... são estes que vê aqui bebendo convosco. Onde escutais trovões e avistais longínquos raios cruzando o tolo céu, somos nós lutando nesta serra.

- Estão mortos?

- Morremos por honra... Honra aos paulistas! – bradou e os outros repetiram esta homilia.

O viajante de outro tempo, perdido e bêbado clamando por glória que julgou balofa, chegou a contestar os bandeirantes dizendo que não continham honra alguma, pois o interesse sempre fora por riquezas escravistas ou ouro e esmeraldas; e, pensando na reverência que os homens da sociedade de seu tempo – também os de outras passadas e, por certo, de outras futuras – deram àqueles homens guerreiros, usando-os como exemplo de valentia para conduzir todo o país já republicano, Borba de Andrade teve a audácia de conjecturar, naquela tarde extraordinária, no alto daquela colina tão sintomática para o cotidiano paulistano, que muita vez nos transformamos nos próprios monstros que criamos. No entanto, como suas palavras fossem ininteligíveis e todos naquela reunião de épocas sortidas já estivessem com umas e outras na cabeça, foram adormecendo e a noite caiu.

Quando Borba de Andrade despertou da bebedeira tinha uma terrível dor de cabeça. Os bandeirantes tinham desaparecido como por encanto. Procurou-os, gritou-os, nada; só a ressaca etilista de pouca purificada respondia-lhe. Percebeu que o ar era quase irrespirável, e a fumaça chegava com força à montanha. Caminhou à beira do pico e conseguiu ver a cidade ao longe; os prédios, as avenidas, tudo estava lá, ele constatou alegremente e muito surpreso com tantas novidades. Foi descendo a serra, devagar, meio cambaleante e ainda um pouco ébrio, sem perceber que suas barbas agora eram grandes e brancas, assim como os cabelos.

Chegando ao asfalto, Borba avistou naturalmente um trólebus como aquele que havia pegado na Vila Mariana antes de adormecer – tão seu experimentado. Entrou nele e reconheceu-lhe todo, mas percebeu que o veículo tinha aspecto envelhecido. O coletivo andou por avenida larga e linda, fazendo com que o aventureiro passageiro estranhasse o panorama, mas julgou este caso ao cansaço. Finalmente, chegando ao centro da cidade, Borba saltou de pé direito e intrigou-se completamente – o que via naquele lugar o deixou abismado. Marchas do exército, passeatas sufocadas, terroristas à esquerda e moralistas à direita. De repente, da cabina em frente à parada de transporte público, alguns militares começaram a se movimentar observando aquela figura de longas barbas brancas que descera do ônibus recém-chegado. Um soldado aproximou-se:

- Mostre a carteira de trabalho, senhor!

- Quê?

- Documentos, senhor!

- Puxa...

Borba não tinha carteira com ele. Explicou a aventura ao seu inquisidor, paramentado pela pátria e de arma em punho, tudo o que lhe acontecera, o quanto havia bebido, as piadas contadas entre bravos guerreiros de outros tempos, a amizade recente com Borba Gato e outros bandeirantes e que, provavelmente, estes mesmos homens haviam lhe roubado os pertences. A confusão instalou-se. A multidão juntou para acompanhar o espetáculo excêntrico.

- Que este velho diz?

- Que velho? Sou Borba de Andrade da fábrica de carros, em São Bernardo do Campo. Sou honrado trabalhador, aviltantes!

- Os documentos, senhor! – insistia o soldado.

- É subversivo! – exclamou um sargento de longos bigodes que acabara de chegar.

- Ô, 'milico', não está vendo que é mendigo? É vagabundo, porra!... – protestou relinchando o povo enfatiotado.

- Sou honrado! Sou eleitor de Jucelino...

- Prendam-no! Está vendo? É subversivo mesmo! – prontificou-se o sargento com este julgamento precipitado.

- Esperem! Que acontece aqui? – Borba de Andrade, sem entender nada, pediu desesperado tais explicações antes de o arrastarem ao xadrez sombrio e enigmático.

O soldado, gentilmente, talvez por piedade à fantástica história contada por um pobre velho a quem acusavam de louco, explicou-lhe que estavam em 1968, que houvera um golpe das forças armadas e que quem estava no comando do país eram os militares. "Não falemos mais,  não é prudente, senhor!", acrescentou o jovem e honrado soldado do exército. De repente, o viajante Borba entendeu tudo. Cochilou num trólebus em 1949, bebeu com bravos bandeirantes paulistas do século XVIII e, numa viagem tão mágica como maluca, acordou num porão ordinário de delegado ditatorial.

Deste então não se ouviu mais falar de Borba de Andrade. É desaparecido; consta em arquivo de pasta escura e empoeirada com o ficheiro 31.12.1968/DOPS.


Por Ricardo Novais

Casa de Doce Feliz

Eu vi um velho, à esquerda, com as mãos às costas e vindo, ao centro, uma bela mocinha...


Era um dia frio e de reconhecida garoa. A tarde estava ainda mais feia. Mas este é o clima ideal da cidade, agradável para passeio em velho bairro onde nasci, cresci. Assim foi. Logo que apontei na avenida principal do perímetro, senti saudade de alguma boa história. Um Novo Horizonte de ideias antigas... Fui à banca de pastel, no mesmo local há anos. Não comi nada, cumprimentei o pasteleiro, que não é mais o mesmo de outrora, e fui à outra banca, a de jornal. Lá está o Alcides, há tempos não o via, a mesma cara de bom maluco, barba rala sempre por fazer, sorridente e convidativo. Alcides é uma destas pessoas que ultrapassam a própria época, é quase uma instituição do bairro. Depois de tomar um cafezinho quente na antiga padaria, julguei que deveria ir ao cabeleireiro aparar os bigodes que não tenho, e fui. Sim, a querida dona leitora dirá que não há muito que eu possa fazer quanto à aparência; se tu achas isto, minha senhora, eu lhe afirmo que estais redondamente enganada. Mamãe e Maristela dizem que sou rapaz bem apessoado; embora se deva descontar os laços afetivos da primeira e os econômicos da segunda... Mas, vá lá, que isto nada tem que ver com a crônica; menos interessante também é o corte do cabelo em si, já que homem tem valor diverso de mulher em salão de embelezamento – ou restauração. Fila-te no que estou dizendo, leitor; talvez  seja o único lugar do mundo onde a vaidade feminina seja maior que a masculina. De modo que minha atenção está mesmo é na hora de espera do cabeleireiro, naquele momento onde forçosamente se aguarda numa fila de doze revistas velhas e quinze pessoas impacientes – cinco senhores conservadores ainda querem corte feito pelo mesmo profissional das tesouras; creia que o barbeiro é bom. O recinto interno é comum, luzes débeis que insinuam ambiente limpo, cartazes de modelos belíssimas às paredes, catálogo de escovas e propagandas de produtos de estética capilar. No ambiente de espera, entre uma prosa boa e outra ruim, aquietei-me. Fiquei a fitar através da grande vidraça fechada protegendo da friagem a avenida principal do bairro, os carros céleres cruzando em ambos os sentidos e levando por certo histórias passadas e outras novas, os transeuntes pensativos e que carregam a mesma cara minha conhecida, assim como os cães e gatos; de súbito fixei os olhos no prédio quase em frente, Casa de Doce Feliz.

Não me pergunte, senhor leitor com propensão à diabete, do por quê. Não sei o motivo pelo qual eu admirei tanto este edifício, este nome, as pessoas que de lá entravam e saíam – não há em nada correlação disto com o fato do senhor e da senhora donos do estabelecimento serem conhecidos meu e de minha família. Ocorre, simplesmente, que ali eu insistia em atar duas pontas de minha própria vida, a infância tão doce e a adulta tão feliz. Falo isto em julgamento crítico de razão prática, já que sempre apreciei os salgados da meninice e não creio que exista felicidade absoluta. Eu saí do salão, atravessei a pé a grande avenida, desvencilhando-me dos automóveis, e fui à casa de doces. Cumprimentei meus amigos, comprei bom algodão-doce e boa maria-mole e lancei-me à calçada sorridente com os brinquedos de comer à mão. Aquilatei-me tolo. Andei sem que alma viva alguma elogiasse meu novo corte de cabelo; deixe, querida leitora, não há de ser nada; e andando vagarosamente à direita da calçada, eu vi, à esquerda, um velho com as mãos às costas, e vindo, ao centro, uma bela mocinha... Sorri a ela, e ela devolveu-me o sorriso. Reparei também que as senhoritas simpáticas de outrora agora vivem a vender seus dotes aos moços prósperos do bairro encostando-se sem pudores às esquinas em pleno vespertino. Não julguei mal, não julgaria nada ruim nem bom hoje; mas, para não vexar em demasia a dona leitora com imagens muito lascivas, digo apenas que a garoinha que vinha às minhas ventas conseguiu trazer-me sensação tão afetuosa, suave, meiga; naquele momento eu fui feliz. Mas nem tudo é tão meloso que perdure a eternidade, devo também dizer-lhes que fracassei na minha tentativa de atar as duas pontas da vida. Nem sempre se pode ser tão venturoso como se foi um dia.

Por Ricardo Novais

A Noiva Ester e a Asma Maldita

Vestido de Noiva de Ester. Imagem: Micheline Matos.

I - O Encontro

Lineu estava num café de esquina do escritório, em pé no balcão, quando viu do outro lado da calçada uma garota elegante desfilar em direção à rua XV de Novembro. Observou quase paralisado a graça daquela moça, entortou o pescoço até perder aquela deleitosa visão por causa de outra dobra de esquinas. Ficou ainda ali, parado, rememorando consigo mesmo os momentos recentes e desconhecidos. Largou a xícara, largou dos pensamentos e tornou ao ofício rotineiro que lhe carimbava a vida.

O relógio apontou 18 horas. Saiu apressado em direção à Sé com ideia de pegar um vagão não muito cheio, coisa dificílima naquela estação àquele horário. No apertado cubículo, avistou a visão graciosa daquela moça da hora do café da tarde. Era ela, a poucos metros e ao mesmo tempo tão longe. Ela saltou na estação Paraíso, não era a sua, mas ele queria descer ali. Não conseguiu, entretanto. Desvencilhando-se do aperto, chegou à porta automática para saltar na estação seguinte. Saltou na Ana Rosa e pegou a composição no sentido oposto, precipitou no pátio da Paraíso, calculou, desceu as escadas rolantes correndo, em meio à multidão, viu a garota, atirou-se no seu encalço, quase como um maluco. Tropeçou num passageiro, esbarrou numa velha, mas alcançou a menina pouco adiante. Venceu uma pequena crise de asma nesta aventura. Ficou atrás dela, na fila em desordem para adentrar em outro vagão com destino à Paulista, provavelmente.


II - A Conversa

Eram três talvez quatro estações, apenas. Calculando isto, Lineu puxou conversa:

- Que loucura a cidade, não?

- Por que está me seguindo? Não nos conhecemos, né?

Ele não sabia o que dizer, ficou pasmado. A moça percebeu o constrangimento de seu companheiro de transporte público:

- Não se preocupe, não vou chamar a polícia – disse ela sorrindo; um sorriso lindo, julgou ele. – Não estou zangada, é que sou prevenida contra assaltos ou pessoas inconvenientes...

- Perdoe-me o incômodo... Com licença... – ele ia se afastando para outro canto do vagão lotado, quando ela bradou:

- Fique! – ordenou amavelmente, e se apresentou:

- Meu nome é Ester...

- Muito prazer, o meu é Lineu.

- Certo Lineu, apenas me explique se já nos conhecemos...

Lineu não viu outra opção além esclarecer tudo, desde o início no café, contando sobre a esquina, o eventual reencontro no metrô e a inadequada perseguição àquela moça que tanto o havia impressionado desde o meio da tarde.


III - O Namoro

Passaram-se os dias. Ester é convidada ao cinema: "Não quero que você confunda as coisas, Lineu. Tenho namorado!”. No entanto, dois meses depois os convites eram aceitos e o namorado mudou.

De mãos dadas ao noivo, Ester frequentava o café onde tudo começou. Feliz, avaliava Lineu como o melhor homem do mundo. Via nele o pai de seus filhos, uma casa grande e arejada na zona sul que contrastasse com qualquer apartamento minúsculo da região central da cidade. O sentimento alegre era do mesmo modo sombrio, pois constantes eram os ataques de saúde de seu nubente. Ela tremia imaginado a viuvez precoce e seus filhos órfãos de pai.


IV - O Casamento

Tudo foi planejado como evento extraordinário. Enfim, o dia do matrimônio chegou para concretizar sonhos intensos.

A decoração do lugar escolhido aproveitava área arborizada de vasto terreno colina acima marcando a data. Exuberância, com todas aquelas mesinhas e pessoas que nunca tinham visto, todos comendo e bebendo, falando e andando com taças e copos nas mãos, felicitando a união e se escondendo, presumivelmente, do corte da gravata e do alvo sapato de salto alto.

Luxo desnecessário, só valia pela felicidade estampada na formosa face, da então noiva, agora legítima esposa. Tudo conforme o figurino, carro antigo de motor beberrão para trazer a nubente à porta da igreja e outro automóvel enfeitado arrastando latas vazias. Convidados saudando aos noivos, arremessando-lhes arroz cru e acenando-lhes em bons votos. Mau-gosto, dona leitora? Pois saiba que este evento foi a celebração do arremate de sonho de amor dos dois pombinhos. O contra-saldo foi a falta de novidade nas núpcias.


V - Os Casados

O primeiro dia de casados amanheceu. O ar do chalé de bodas era fresco, agradável, mas Lineu sente algo estranho. Levanta-se da cama, procura a mulher, derruba uma cadeira, vai à varanda, não encontra sua esposa. Torna dentro do quarto, olha em volta, sem compreender, imagina que algo grave acontecia. Fulminante foi o ataque, faltou-lhe ar, como um louco, ele corre à janela, porém tomba ali mesmo. Ainda vê a mulher chegar com a cesta de frutas e flores nas mãos, desesperada tentando devolver-lhe à vida... Tarde demais. Lá dentro do quarto a recém-viúva olha o cadáver do marido, histérica, em cima da cama rasga o vestido de noiva.


Por Ricardo Novais

Viajando por Caminhos e Sonhos


Trecho antigo da Rodovia Fernão Dias. Foto da cabine de um Flecha Azul, chassi Scania, carroceria CMA; década de 1980. Arquivo de família da "roça grande".

“Vais à busca de tua vida! Siga em frente, confie em Deus e mantenha a honra! Deus te abençoe”. Foi isto que meu velho pai disse-me à porta do Flecha Azul na rodoviária de Belo Horizonte.

Quando desembarquei na rodoviária do Tiete, em São Paulo, lembrei das palavras ditas na minha cidade natal. Pensei no que me fazia deixar aquela família querida, meus amigos, o Atlético, o doce de leite da dona Rosário, a cerveja do Colégio Santo Antônio, o sossego do meu bairro rodeado de montanhas calmas e verdes, a linda Ritinha, enfim, por que eu larguei uma vida para trás e fui caçar outra numa megalópole desconhecida?

Eu nunca consegui uma resposta para esta pergunta. Eu tinha 20 incompletos de idade quando cheguei àquela saladeira enorme e variável. A cidade acolheu-me com frieza, senti-me triste e sozinho. Muitas vezes quis pegar o Flecha Azul de volta. Mas lá vinham no inconsciente as palavras de papai: "Vá buscar tua vida, meu filho!” Eu continuava entre galhos e espinhos num minúsculo apartamento quarto e sala do Jardim *** que ainda era dividido, por móveis e cortinas, em outros cômodos – eu residia com outros 3 amigos mineiros que trabalhavam comigo na metalúrgica Tecno-Tec-Press.

18 anos trabalhando nesta firma absorveram meus sonhos de regressar à minha terra; junte-se a isto uma moça loura, de nome Isadora, que me deu dois filhos varões. Um morreu há dois anos; bateu a cabeça na quina do painel de seu carro no qual dirigia embriagado, numa rua ordinária de Guarulhos, e teve hemorragia cerebral.

Muitas vezes, quando meus filhos ainda eram crianças, viajávamos à Minas Gerais para os meninos visitarem os avós, minha esposa descansar da desdourada cidade grande e, de fato, também para que eu pudesse reviver meus caminhos. Não íamos de avião, a passagem era notavelmente rápida, mas estreita, devido ao oneroso preço do carne de embarque de viajem – percorrer grande distância via área só em caso espetacular, como a morte de ente querido ou arrolamento de bens em herança.

De modo que nas férias embarcávamos na aventura do transporte terrestre, feita realmente pelo saudoso Flecha Azul, com incrível chassi e motores Scania, e carrocerias CMA com rebites de alumínio ao estilo californiano. Flutuando como verdadeiro cometa na Fernão Dias... Dois pontos, duas casas, um abraço... Ainda depois de ver meus filhos adultos, mesmo em Congonhas ou na Pampulha, vendo a feição desconhecida do homem que mora no aeroporto, que aguarda um ídolo, um parente ou qualquer viajante que desembarque, mesmo assim às portas da tecnologia aeronáutica que barateou o custo da viagem, eu sinto vontade incrível de percorrer a velha estrada, a rodovia antiga, terrestre, morosa, vendo o mudar de cenário à janela, com mato no acostamento, pasto da vaquinha malhada, o cheiro forte do couro das poltronas do ônibus se misturando ao aroma nefasto dos restos de salgadinhos industrializados... Ê lembrança, ê lembrança que puxa outra. Quanta saudade eu tenho até daquelas paradas de descanso que o motorista da composição fazia para gastarmos dinheiro com suvenires caipiras ou com café preto de alguma fazenda da região. Eu levava tudo, as crianças queriam tudo, minha mulher comprava tudo; levei muitas vezes ali meus sonhos e angústias... Depois eu os trazia de volta.

Por vezes aquelas viagens carregaram minhas expectativas, alegrias e frustrações. Percorrendo a estrada com minha querida Isadora, com meu pequeno Raul e Renato, apenas com um velho amigo ou mesmo sozinho. Visitar meu velho pai e dizer-lhe: “Encontrei, pai, encontrei minha vida”. Era mentira! Mas eu dizia; antes não era mentira, já que minha vida ficara 18 anos para trás.

Sim, senhor que lê este relato de velho – não pense que é lamuria ou tristeza; oh, não! É mais uma constatação de uma felicidade que busquei. Mas sim, eu quis morar de volta onde nasci; contudo, as crianças tinham mais raízes urbanas e minha mulher era refinada demais para viver fora de São Paulo. Fui ficando, ficando, ficando... E ficando velho mais velho a cada dia. Também doente.

Apenas viajando alegre ou, às vezes, triste, a admirar a paisagem monótona pela janela do Flecha Azul, a sinfonia robusta do motor sibilando e escondendo sua potência violenta, o zumbido opaco dos veículos que sobrevém na rodovia, a curta parada de lanche que em muitas ocasiões incomodam, por certo, ao impaciente motorista. E, por fim, o desembarque na rodoviária, com aquelas partidas e chegadas dos que esperam e anseiam perseverantes. Aquela foi a estrada da minha vida!

Provável que eu morra daqui a poucos dias. Não me dão muito tempo. Minha mulher desconversa, mas eu sinto o câncer acometer-me. Da mesma maneira que eu sinto tanto não ter voltado à minha terra... No entanto, tendo ao meu lado a presença de vulto com brilho bastante fusco que emite certa consciência, sei que se fosse possível retornar à vida em Belo Horizonte, eu não poderia ir e também não quereria mais. A cidade lá já não é minha, é de outro. Creio que São Paulo passou para lá alguns de seus milhares de prédios e fugacidades, de modo que a viagem para o passado tranquilo é quase impossível; e, certamente, o saudoso Flecha Azul não pode mais percorrer este caminho.



Por Ricardo Novais
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