Futebol de Alma


Botafogo venceu o Vasco por 2 a 0 e levantou a Taça.

Dizem que numa colina da cidade do Rio de Janeiro existe uma alma vagando condenada a sempre regressar à Terra. Às vezes a morte desta alma é trágica... Por outro lado, há coisas que só acontecem com almas guerreiras.

Eu apostei no Vasco para vencer a final da Taça Guanabara, venceu o Botafogo por 2 a 0 no velho 'Maraca'. Mas o Vasco é imortal! O Botafogo é time de guerreiros! O craque vascaíno Carlos Alberto declarou antes da batalha: “Vencerá o jogo aquele que tiver aquilo ‘roxo’!”.

Este é 'Clássico da Amizade', observação de um cronista muito antigo vendo que as duas torcidas eram fraternas; outros tempos... Hoje em dia são rivais, o Botafogo agora soma 82 vitórias e fez 421 tentos no inimigo; mas, em contrapartida, o Vasco venceu mais: 138 vezes e marcou 501 gols; isto em 314 jogos até hoje. Ainda empataram em 90 disputas. A história do confronto data de 1923, é um dos clássicos mais antigos do Brasil.

Na batalha de ontem, em contraponto ao esquema tático confuso do treinador do Vasco, o 'professor' Wagner Mancini (sim, ele mesmo, como um santista poderá esquecer-se de tal fanfarrão?), fincaram uma cruz na história a garra do uruguaio ‘Loco’ Abreu, a magia de ‘Papai’ Joel e simplicidade de soldados botafoguenses gloriosos. Uma única estrela, genial, marcial... Uma maravilhosa ‘Estrela Solitária’ brilha no céu de milhares de cariocas nesta noite. Parabéns Botafogo Futebol & Regatas, ‘herói em cada jogo’! Bi-Campeão da Taça Guanabara com todos os méritos de quem não pode perder, perder pra ninguém. Agora que venha a Taça Rio para sabermos quem o alvinegro de General Severiano enfrentará em sua quinta final consecutiva de Campeonato Carioca...


Reabilitado com a torcida, o atacante Roger fez os dois gols do Clássico Choque-Rei.

Enquanto isto, no Palestra Itália, o Palmeiras também foi guerreiro e derrotou o São Paulo, 2 gols do atacante Roger, no ‘Clássico Choque-Rei’ (apelido dado pelo jornalista Tomaz Mazzoni, do saudoso jornal 'A Gazeta Esportiva'), o jogo de hoje foi válido pela 10ª rodada do Paulistão.

O São Paulo parecia estar com a cabeça no seu confronto da Taça Libertadores contra o Once Caldas, em Mane Salles, na Colômbia. Jogou mal e viu a vantagem histórica no clássico ameaçada, agora são 97 vitórias palestrinas e 101 tricolores; o Verdão está a apenas 10 gols de alcançar a marca dos 399 tentos que São Paulo marcou em cima do rival; ainda houveram 96 empates; isto tudo num total de 294 pelejas até a partida de hoje.

Hum... Antigamente havia uma lenda de que se jogadores de futebol quisessem se unir derrubariam qualquer comandante. Emblematicamente, logo no jogo seguinte em que o técnico Muricy Ramalho foi demitido, os atletas palmeirenses jogaram contra o São Paulo com a vontade das almas gloriosas. Embora eu não goste da ‘escola’ dos técnicos gaúchos (tido como futebol de garra e resultados em detrimento ao que é concebido como futebol arte), o treinador foi injustiçado por uma diretoria que lhe havia dado crédito incondicional. Muricy não é gaúcho, mas o esquema tático que ele utiliza é desta ‘escola’ – estilo simplório e de poucas opções ofensivas. Entretanto, a Sociedade Esportiva Palmeiras é tradicionalmente futebol de toque de bola cadenciado, mais ao estilo romântico do futebol carioca do que do jogo truncado do sul deste país.


"Operação Flanela".

Outro clássico que me chamou a atenção foi o de ontem no Mineirão. Galo e Raposa se enfrentaram, deu Cruzeiro 3 a 1. Muita reclamação atlética para com a arbitragem, como já havia ocorrido ano passado onde cartolas do Atlético acusaram a Federação Mineira de Futebol de formação de quadrilha.

A torcida azul foi muito espirituosa ao provocar os alvinegros. Aludindo ao Brasileirão do ano passado, onde o Atlético esteve na zona de classificação para a Libertadores da América 2010 durante quase todo o campeonato cedendo a vaga nos jogos finais exatamente para o arquirrival Cruzeiro, milhares de torcedores cruzeirenses foram ao Mineirão tremular flanelas amarelas nas arquibancadas. Esta partida já adentrou à história da crônica esportiva mineira com o sugestivo nome de ‘Operação Flanelinha’. Resta agora torcer para que o técnico do Galo, o polêmico Vanderlei Luxemburgo, flagrado dando uma banana para a torcida do Cruzeiro, suprima o rancor que carrega em seu peito da diretoria do Palmeiras, por causa da sua demissão do time verde em 2009, e dedicar-se com mais coração puro ao Galo.

O jogo Galo x Raposa, o Super-Clássico, marca 191 vitórias alvinegras e 155 glórias cruzeirenses; o Atlético ainda marcou 679 gols contra 573 do Cruzeiro. Estes números costumam oscilar conforme a fonte (esta que citei é da própria Federação Mineira de Futebol), entretanto, os dois maiores rivais do Estado de Minas Gerais (antigamente era Atlético x América ou Galo x Coelho) concordam que os alvinegros estão em franca vantagem; embora, nos últimos anos, o time celeste tenha alcançado mais sucesso nas batalhas.

A fantasia pertence à alma, e o futebol é a exaltação dos espíritos em campos de batalha. A essência escondida num baile de máscaras disputado num gramado de quatro linhas.


Por Ricardo Novais