Oh, Verão Abstrato!


As coisas acontecem sem muita explicação. Não há culpa exclusiva pelo desenrolar dos fatos. Sinceramente acredito nos motivos, e concordo com eles. No entanto, tinha a esperança que caminhássemos juntos, nem que fosse por um instante. Mas caminhastes com as próprias pernas; talvez, poderia ter dado certo... Poderia, mas não aconteceu. Outras vezes somos carregados porque não temos condições de caminharmos sozinhos. Quando no máximo, tudo que desejamos é caminhar ao lado de quem gostaria de caminhar ao nosso lado.

O verão não é uma estação para afeições, tudo é alegre, insano, efêmero e superficial. O sol brilha mais que os pensamentos, a chuva nunca consegue lavar totalmente os sonhos e as palavras são ditas sob efeito de forte calor. Se ainda tivéssemos tomado sorvete juntos...

O amor que quase aconteceu é a prova irrefutável que a vida segue um curso ilógico. Atormenta as ideias, insurge o juízo, abre sorrisos espontâneos. Umas rosas muito vermelhas e bonitas eu via de um jardim muito longe. Os raios imaginários do sol nos fazia dançar, e aos pássaros cantar; já os animais em conluio com a natureza de realidade intangível, contemplava-nos. Mas o dia foi tão belo que tudo se afetou... E as coisas viraram memórias em questão de instantes.

Um animal muito sábio conhecesse também seu caminho, como eu agora, mas há de se olhar para trás e ver quem é o caçador implacável que está no encalço. Todos os inimigos podem estar entre a vegetação rasteira de uma colina muito alta observando a fragilidade de nossas áureas.

Por estes vales verdes e encharcados pela chuva ainda nos veremos; isto faz perceber como sonhar é incrível. Não quero que nada aconteça sem antes ter certeza de onde ir. Se não nos acharmos por muito tempo, ainda assim, saberemos quem somos... A estação é muito alegre para tanta absorção. Deixemos o verão passar...

Assim como neste insano texto, o clima quente e ocioso faz tudo maravilhosamente perder o sentido. As rosas de ontem já estão murchas...


Por Ricardo Novais