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O retrato

Narciso, de Caravaggio.

"Hoje ao diabo, se o eu não fosse, me daria eu próprio."
- MEFISTÓFELES, de Goethe.


Por causa de meu novo emprego na agência de e-commerce, mudei-me para um pequeno apartamento, conjugado de quarto e sala, da Alameda Santos. Não é ruim, a vista da cidade é ardil e nem pago aluguel; todo o custo eu logo despacho à empresa. É certo que mal paro dentro do cubículo, fazendo-o apenas de dormitório e para aventuras efêmeras da noite. Contas da empresa... Coisas maiores, leitor. Coisas maiores.

Pelos corredores, que não são mais que três ou quatro já contando com a minúscula aérea de serviço, há quatro ou cinco caixas de mudanças me pedindo para desocupá-las. Toda a casa me pede para desocupá-la; não o farei tão cedo. Contas da empresa... Ora! Não me tome por apócrifo, leitor. Apenas acompanho o contrato de Rousseau. Também não me julgue preguiçoso por não desencaixotar as tralhas da mudança. Pois que ontem mesmo, verdade que menos por vontade que necessidade, eu peguei a maior das caixas e fui tirando dela as coisas do advindo; até que, ao fundo das coisas, encontrei um retrato, íntimo e carcomido pelo tempo.

O que se cai do passado de alguém não se desapega, caro amigo. O retrato que encontrei não é meu, nem mesmo tenho ideia do porque dele estar ali às minhas coisas; devo tê-lo trago por engano, só pode, de certo que sim. Fixamente, olhei-o e veio vindo um filme quase francês em minha cabeça. Pendurei-o à parede, provisoriamente. A pintura, emoldurada por tachinhas metálicas presas à madeira encanecida, data da época do casamento de meus pais; talvez um tanto menos ou, que sabe, um tanto mais.

Na pintura, que aparenta mais uma velha fotografia, vê-se meu pai sob aspecto circunspecto, quase o oposto de sua personalidade dócil e suave. O olhar é compenetrado, fiscalizador. As meninas dos olhos correm dentro da cara, presas ao retrato. Observadores, os olhos, percorrendo ágeis a superfície da alma do observado, contrapõem-se ao manso e sistemático bigode. Bigode espesso e negro no rosto branco e pálido que dão feitio quase sagrado à efígie. A vestimenta de papai, que se vê apenas o dorso, é um terno azul-escuro que atenua um pouco a sensação esbranquiçada da figura qual aparenta ter saído diretamente d’alguma câmara política.

Já mamãe, ao lado do homem de terno azul-escuro e bigode, surge repentinamente no retrato. Impecavelmente elegante – bonita que só –, está dentro de um vestido de festa, ou algo deste ofício, e, enrolado ao pescoço, um colar de pérolas. Não me lembro dela usando nem o vestido nem o colar; atribua-se ao mistério do fatos requentados. Os cabelos de mamãe, cuidadosamente penteados e escovados à moda da época, são como uma viagem ao requinte de toda uma geração temente a Deus.

Não, leitora! Não se trata de efeito de computador ou outro recurso gráfico do tempo em que os modelos pousaram para tirarem o retrato. Leitora malvada! Não vê que, embora o fundo azul da imagem entregue alguma armação não natural ou artificialidade, o retrato é verdadeiro – ou pelo menos traz em si verossimilhança.

É o retrato da felicidade conjugal. Se eles sofreram dores de ciúmes, ou piores, não sei. Não poderia sabê-las, pois não se sabe muito antes que se nasça. A fotografia vale pelo original, pelo instante de vida.

Todas as casas do outro século, que eram grandes e espaçosas, cultivavam em suas paredes estes tipos de quadros de família, o patriarca ao lado da matriarca, felizes e exemplares. Quando não, também encravadas aos paredões das salas de estar, as imagens dos filhos em quatro ou cinco facetas diferentes; ângulos quais que já se podia ler e traçar a vida toda do retratado. Mas o costume, no entanto, também morre de velhice; e este nosso século, tão arisco e delimitado, bem à maneira das coisas efêmeras, mudou o curso das artes visuais e fotográficas, e as criaturas evidenciam em suas reações a irremediável solidão dos seres perdidos no mundo em rede. Redes sociais. Todos se conhecem sem se reconhecerem, parecem sempre felizes e sadios, embora não arranjem de modo algum tempo para curtirem tanta vida. Vida futura, e por vezes alheia. E assim vai se escavando a pouca vida presente que tão logo será passado.

- Não confiamos no homem, não gostamos da vida qual estamos presas e não esperamos nenhuma boa-venturança! – disseram-me, de um coro só, as íntimas figuras do retrato entre tantas coisas velhas em meio ao apartamento recente. Foi uma repreensão à minha reminiscência, naturalmente. Então tornei a desencaixotar as caixas...

Não tive como deixar meus pais pendurados à parede. As aventuras efêmeras, além de cordialidades previamente solicitadas, têm línguas bisbilhoteiras. E é este todo o mal. Sim, pois não ligo se o homem é bom ou mau, se a vida vale a pena ou não e nem mesmo creio na boa-venturança. Se as línguas da realidade efêmera falam pelo oficio do capital, as línguas do passado instantâneo estão presas aos olhos, bigodes, ternos, vestidos e colares dos retratos sintomáticos e eternos.

Por Ricardo Novais

La Belle Époque

Pintura de Paul Poiret, artista francês da Belle Époque.

Noutro dia, conversava sobre a vida. Coisa à toa. Conversa entre amigos. Repentinamente, sem aparente razão, uma amiga afirmou que o dia mais importante da vida é sempre o dia seguinte, que devemos fazer o melhor hoje para colhermos amanhã. Só no dia seguinte saberemos como o dia anterior foi importante. É... Mensagem esperançosa, por certo, quase redentora; no entanto, soou aos meus ouvidos sujos frase de pensamento balofo de livro de autoajuda, daqueles de quinta categoria com altas vendagens nas livrarias da cidade; ai, como há sonhos tão bonitos dos quais temos que acordar sem querer...

Pois ora! E o dia seguinte de uma grande bebedeira, por exemplo? Não me parece que um bêbado de ressaca julgue ser o dia seguinte o melhor dia de sua vida. E se for o dia seguinte de uma bebedeira abraçada de um velório de ente querido então? Ih... Temos um problema nesta bonita mensagem de esperança; concorda, amigo leitor? Mas já? Deixou que o texto lhe entediasse tão rápido? Seja otimista, leitor! Otimista! Pense em coisas maiores como um grande navio encalhado perto de uma costa do Mediterrâneo; ai, como há sonhos tão bonitos dos quais temos que acordar sem querer...

Quem sabe um dia eu escreverei alguma história bonita também; quiçá, como grande estilista da palavra, a minha escrita agradaria mais ao senhor leitor e, principalmente, a minha amiga leitora, qual teima em torcer o nariz às laudas que lê por aqui. Quem sabe eu até me esforce e leia mais textos da La Belle Époque... Que beleza, hein? Mas quem sabe...

Em todo o caso, agora que desejo ser muito muito pessimista e até torturador de quem lê estas linhas frouxas, acometeu-me o pensamento de Arthur Schopenhauer sobre a vida. Curioso, a vida. A vida igual um dia após o outro... Por que relembrei esta ideia agora? Nem sei mais se ainda pode ser boa ideia continuar com o texto, mas, vá lá que o tempo não para. Enfim, Schopenhauer dizia que “a vida é um pêndulo entre o sofrimento e o tédio”. É... Esta ideia ainda parece correta.

Parece correto também pensar na teoria d’O Boêmio: "O mundo é um circuito fechado em quatro pontos envoltos em energia, aleatórias e desconhecidas, subdividido em duas partes antagônicas: Alegria e tristeza, desejo e angústia. A alegria vem para eliminar a tristeza existente, em seguida ocorre uma natural sensação de prazer, como um fio condutor, que irá preparar o terreno para o surgimento do desejo que, no entanto, acarreta, fatalmente, no surgimento da angústia; esta, por sua vez, retorna, normalmente, à tristeza, que ainda pode se apresentar com novas formas ou constituição diferente da originária. E é, impreterivelmente, nesta ordem que mencionei acima; pois os pontos energéticos não vão de encontro um com o outro, não se completam e nem mesmo andam juntos, apenas servem de alimento para o surgimento do próximo ponto de energia. Entra um, sai outro! É, exatamente, por isto que não há, essencialmente, equilíbrio no mundo".

O mundo é uma representação das relações mantidas com este circuito fechado de quatro pontos, como os pontos cardinais ou as estações do ano?

O verão se sobrepõe à primavera e o inverno se sobrepõe ao outono, mas o verão não encontra o inverno; por que tanto a primavera quanto o outono preparam o terreno para o cultivo da próxima safra?

Sim, leitor; que peculiar representação do mundo. É isto tão-somente a felicidade ou busca desta, diria qualquer velho de idade ou de alma.

Em tempo, não conheço a dona felicidade, de modo que a aparência externa das essências é coisa divertida por demais aos meus olhos que descansam sobre lentes trincadas e riscadas...

Ora, veja senhor leitor pensador e dona leitora filósofa; veja o que vem de uma simples conversa trivial aliado a um adotivo pensamento que me acometeu; pensamento este que nem meu é, é do pessimista senhor Arthur. Porque fui eu relembrar deste pensamento, meu Deus? A culpa é de um vigário que conheci, há muito tempo, lá no bar da Vila; não tivesse ele me indicado os livros do senhor Arthur, também não os teria lido e agora não teria desenvolvido toda esta ideia confusa e desocupada. Maldito padreco! Ora! Quantas linhas eu desperdicei aqui nesta ideia tola de circuito fechado como representação do mundo? Não fosse mais este meu desvio a assuntos enfadonhos e pesados, talvez, a querida leitora até sorrisse mais quando vê a foto do autor aí ao lado. Maldito hábito este o meu de encher de retórica balofa e sem significado os espíritos mais críticos; repare como muitos temas insurgentes nestas páginas que estou a escrever são elementos independentes, sem relação com o contexto, na qual fica clara a ruptura com o sentido do tema que eu próprio abordei... Por que eu não escrevo com mais prazer e mais esperança? Há tantos leitores que apreciariam muito a Belle Époque ou os pensamentos de autoajuda, bonitos e esperançosos. Está decidido! Está decidido! Não me pegarei mais do pensamento de outros. A não ser que seja necessário; senão, jamais.

Por Ricardo Novais

Trem azul

Brasão de Armas Nacionais, composto por um ramo de café e um de tabaco e a constelação do Cruzeiro do Sul no escudo ao centro.

Vai indo o trem azul. Avante. Avante. Traçando planaltos e colinas, todos os olhos partem de passageiros dentro dele. Contemporâneo. Mas a constelação do Cruzeiro do Sul é e será sempre o seu guia. Estrela-guia. O mérito do trem azul é trilhar caminhos e sonhos, próximos e distantes. Magnífica máquina! Quase humana; quase feliz. Leva a locomotiva celestial o homem de terno escuro e cara rapada, o menino de boné e sorriso bucólico, o padre e o jogador de futebol, a linda prostituta, o elegante senhor de charuto, o motorista de ônibus e o maquinista de metrô, o branco, o negro, o amarelo, gente de todas as cores e de todas as idades, do norte, do sul, nosdestinos, do novo horizonte, do velho, o traficante, o comentarista de vida alheia, o cão vira-lata e o professor universitário, e leva também a pueril dona-de-casa e seu nobre eleito. Toda a gente está nele. Mortos e vivos, vivos e mortos! O mendigo vê o colossal comboio passar imponente pela estação, deitado em sua calçada, levanta a cabeça, faz reverência e torna ao sono divino e perpétuo.

Celeste como o céu. Brilhante como as estrelas. Forte como o Cruzeiro do Sul. A melhor definição de engenharia ou de ciência não faria justiça a este personagem refletido em nossos espelhos todas as manhãs, e não seria melhor que o atrito estridente das rodas de aço nos trilhos de ferro e a vida estancada dos dormentes de madeira. Quilômetros a fio de sangue, esperança e saudade. É minha alma, é tua, é nossa.

Avante, avante trem azul!

Por Ricardo Novais

Perfumes

Glória à pátria. Charge da Revista Illustrada, novembro de 1889.

Serei sempre um boêmio. Fui alcoólatra, morei nas ruas, tive aspecto horrível, meus cabelos iam até os joelhos, minha barba, rala, até o umbigo. Minhas unhas pareciam garras e em meus braços e pernas, onde os trapos não mais cobriam, a pele chegava a cair em pedaços. Célere envelheceu as minhas células, e demais tecidos. Mas sei que, depois da morte, terei filhos; e os vermes que roerem as minhas frias carnes terão alma. Sou diferente de ti, meu caro amigo, porque a minha história tem poucos dentes; então não me foi possível esconder a minha parca essência. Descobriam-me, mesmo encoberto entre os rigores de uma sorte amargurada. E tudo por não possuir um sorriso belo e um espírito com tintas alegres...

O leitor sabe; o homem que não tem casa não tem lugar na Terra, é um desgraçado. Mas é graças à minha miséria que conheci o mundo. Nunca tive cidade, apenas morei em todas. As ruas, avenidas e praças foram meu haicai; por outro lado, os bulevares mal frequentados e calçadas sem iluminação foram a minha prosa prolixa. Meu romance me valia o cobertor velho que me cobria nas noites frias e a cachaça foi a minha poesia na qual eu escrevi linhas e linhas de desafio à beleza da vida.

Penso que o perfume humano esteja em tudo, e eu já senti a todos. Meu nariz aprendeu a diferenciar o odor nauseabundo das esquinas de ladrilhos do de fragrâncias sofisticadas das mulheres elegantes do lusco-fusco. Fui perito em vida noturna. Insisti em viver entre o álcool e a resignação, foi assim que conheci minha Ema. Amar é viver um doce prazer impossível de se renunciar. No entanto, todo o meu amor não foi capaz de impedir com que o nariz de Ema me trocasse por outros perfumes. Quase morri.

O amor afaga e apedreja. Os sonhos caem na ingratidão e no enterro. E a vida pode ser tão-somente a lama; pois a angústia não vem do caos, como querem os teóricos do apocalipse. A angústia vem do nada.

Mas depois que assassinei Ema tornei a ser um embriagado vulgar, qualquer coisa me servia. Passei a outras drogas, todas elas. De miserável fui a farrapo humano, ou quase-humano. Ali comecei a ser o filho podre da pátria. À noite, deixei cães que latem em suas solidões infinitas cheirarem ao meu corpo tísico e escarrado. Conheceu-me? Prazer, amigo; sou aquele mesmo ninguém da madrugada. À luz do dia deixei-me ser iconoclasta, niilista, marginal e agônico. Quem fui eu em meio à podridão, decomposição e temores desta cidade? Muitos doutores me disseram que eu fui da geração de fracassados, e que foi o vício que presunçosamente me venceu. Isto foi o meu tiro de misericórdia, então procurei a dona morte.

Fui tudo isto que lhe disse, leitor, mas também recuperei-me de tudo. Agora, sou morto. Nome, não tenho passo como alma penada. Dir-me-ia o educador que a vida e a morte não são contrárias, são irmãs bem perfumadas.

Psicografado por Ricardo Novais


***

Uma prece, leitor, à alma dos desgraçados!


Jaz, o escritor, onde sempre esteve

O escritor, à espera da morte. Foto: Pedro de Moraes.

Meu nome é Joaquim Maria da Conceição. Sou um escritor solitário. Mesmo quando encontro companhia, sinto-me só. É de minha natureza, o tédio me corrói. Se eu tivesse me casado ao menos tinha alguém para arrumar minha cama agora que sou velho, mas não, nem isto eu fiz. Para ser muito sincero, é impossível descrever o que sinto. Não é apenas dor sufocante; mais que isto, é a perturbação de pensamento que me contamina impetuosamente. E o pior é que gosto disto. Rememoro a juventude. Estou muito doente, doença grave. O pior de ser velho é ser bufão, tenho o néctar dos sonhos que não se realizaram plenamente. Quanto menos eu tenho hoje tanto maior é o meu prazer em não ter nada. De manhã, penso em me levantar do leito moribundo e correr... Mas um sono entorpecente me impede.

A vontade de correr persiste, no entanto. Correr como um leopardo nas savanas africanas ou nas ilhas do Ceilão. Sem motivo e sem destino certo; apenas sair correndo pela vizinhança fugindo dos problemas até o final do bairro, e de lá cruzar a cidade grande de norte a sul e depois de leste a oeste. Em seguida, deixando a angústia para trás, percorrer todos os grandes Estados brasileiros para chegar... a lugar nenhum! Enfim, apenas correr, correr da própria vida; correr, correr, correr...

De minhas obras, nada também ficará. Destruirei tudo. Não acredito na eternidade. Numa tarde futura qualquer, numa feira de velharias da Praça da República, alguém encontrará um texto meu que ficou perdido por destruir. Justo o escrito mais feio, o que me esqueci de apagá-lo. Será alguém com frescor ao rosto. Será apenas este o meu leitor. O arauto proclamará: Este deve ter sido um atrevido com alma de escritor.

Percebe, leitor aventureiro de agora, como é este do mesmo modo o último alento? Se não percebes é porque o livro está aberto em tuas mãos, sendo lido. É o último alento. No término da página, nenhuma palavra mais suspira. Tantos suspiros se refletem demoradamente, nenhum se traduz.

Rostos de todas as cores e de todas as idades perceberão a solidão, mas não perceberão o escritor. O nome Joaquim Maria da Conceição passará então em brancas nuvens da literatura maldita, sem muito talento e com pouca vontade da vida. Assim, marginal. O livro aberto, de repente, com alguma coisa que implora por manifestar-se e é impedido por letras do imponderável; e ainda pedindo, mais escancaradamente, por fim: Vá à prosa, senhor autor! Eis o derradeiro escrito, e só.

Por Ricardo Novais

A cintilante borboleta que não podia mais voar

Parque da cidade com a garça asseada e sem a cintilante borboleta azul... Arte do blog.


Três ou quatro borboletas batiam as asas frenéticas e contentes a alçar voo pelo céu resplandecente do parque da cidade, numa harmonia descompromissada e deleitosa. Súbito, arrebenta horrendo efeito imponderável. Uma das borboletas, a de tom mais azul e cintilante, pousou por instante gentil num parapeito de prédio comum encantando a dona da varanda. Mas tamanho encanto virou hostilidade. Surpreendida, a borboleta ferida e assustada voou o mais célere que pode de volta ao parque. Lá se reconfortou numa grande e florida árvore, muito esverdeada, e, com o apoio das amigas lepidópteras, sorriu à própria sombra. Entretanto, a borboleta machucada não podia mais voar.

Não sabe como é triste, leitor, a vida de uma borboleta que voar não pode mais. O cancro lhe consumia até tão menor do que os pensamentos férreos, como tenazes ao arcabouço, e do que a imaginação, verve e repentina, de um elegante sobrevoo à esquina da Rua XV de Novembro, flutuando, sorrateira e saborosamente, na ala sul da Praça da República e norte da Praça da Bandeira. Mas fantasiando o abstruso, encarcerava ao mesmo tempo a alma; e cantando solitária e melancólica a poesia do que se perdeu, desejava voltar à perspectiva de pequenina larva. Centenas de sonhos insistiram por pisotear sua vida... E, como o tédio enraizado a tudo ensina, desistiu de tentar debater as asinhas; e foi este também o último solilóquio da cintilante borboleta poeta – tudo revelado pela prosa testemunhal oblíqua de uma asseada garça que ainda vive naquele parque.

- Libertou-se. Pobrezinha! – constatou a garça.

- Toda borboleta tem direito a voar... – concordaram as amigas lepidópteras, surpreendentemente conformadas, num agrupado suspiro de lamento tão resignado como acolhedor.

Por Ricardo Novais

Uma Noite Surreal

A Esplanada do Café na Place du Forum, pintura de Vincent Van Gogh.
No meio do banho, houve um pequeno blecaute na energia elétrica. Embora fosse dia mais quente, a água era muito fria, mas vinha a calhar em alívio às dores de cabeça. Fiquei olhando para os mais de setenta furos do chuveiro, deixando a água gélida chocar-se à cabeça. Passei a manhã muito mal, recuperando-me, entre afazeres do cotidiano, de bebedeira fantástica e em grande abstinência etílica.

A ressaca provocada pela grande intoxicação alcoólica absorvia não somente o uísque, a cerveja e a tequilla, mas sobrecarregava meus órgãos envolvidos neste processo. O fígado, coitado, trabalhou incessantemente produzindo enzimas que absorvessem o etanol, continuando no modo bêbado quando o álcool de meu corpo já havia eliminado a alta concentração de toxinas – mas o sistema nervoso parecia necessitar de mais álcool para processar. Desorganizou-se o metabolismo. Tudo era mal. Adequei-me ao ritmo bebum de meu corpo, pouco às avessas; é que o mundo acompanhava a minha crise e a longínqua freada de automóvel podia ser ouvida em som estridente, a sirene do hospital da quadra adjacente soava dentro de meus tímpanos, a vizinha provocava-me algo que remetia à maldita casa noturna ordinária, o barulho de impressoras e máquinas de xérox perturbavam toda minha concentração e a campainha de algum aparelho celular tovaca freneticamente causando incômodo às minhas têmporas. "Desgraçados! Não vêem que tem alguém de ressaca aqui?", pensei comigo. Se eu pudesse, não veria ninguém além da escuridão de meu leito imaginário; ora! O leitor imagina insuportável dor de cabeça, desidratação, enjôo, cansaço extremo? Sim, foi isto. No entanto, soma-se às sensações ruins também certa desgraça moral e até alguma psíquica...

Depois de algum tempo, enfim, consegui relembrar que a noite foi passada entre amigos de patuscada em tradicional bar. Foram muitas doses, de fato. Mas ocorreu um fato extraordinário, totalmente anormal naquele recinto. Foi na mesa ao lado. Lá, sentados e falando muito alto, dois senhores e uma senhora loira. De repente, o sujeito de camisa vermelha levantou, derrubou o outro senhor de camisa amarela no chão e sacou revólver. Houve grande alvoroço no boteco. Parecia até filme de faroeste clássico. O pistoleiro com duas armas na mão defendendo a honra própria e, o que julguei ser, a de sua esposa. O outro homem, que não me pareceu armado, rolava no chão, amedontrado, implorando pela vida como se pressentisse a morte. Todos no bar fugiram como ratos acuados – menos um amigo bêbado e eu. Bêbados não se acuam nem se abalam com facilidade... Ficamos lá, em nossa mesa escura de madeira forte, com os copos miúdos à metade, observando a tudo de camarote. Confesso, a mim divertiu tudo aquilo; embora estragasse o sagrado momento boêmio. O espetáculo foi o grande desentendimento por causa de uma dama da noite. Dali, da mesa ao lado, o que eu vi? Eu vi, caro leitor e queridíssima dona leitora, um homem descarregar os revólveres no meio da fronte de seu antagonista amoroso, esguichando grande quantidade de sangue e algum líquido pegajoso que provavelmente poderia ser algo referente ao cérebro, caso o morto tivesse algum. Nisto, meu amigo corajoso e eu, ainda mais valente, levantamos, pedimos a conta e fomos embora.

Por Ricardo Novais

O homem mais feliz do mundo

Um rosto na multidão... Imagem de arquivo.

Sabe quem é o homem mais feliz do mundo, leitor? Aquele homem, bem-sucedido, alinhado, refinado, cabelo aparado, cara rapada, bem apessoado, sorriso fácil à mostra, que calado não fica mal? Aquele que hasteia bandeira grande, ostensiva, que tem uma multidão de dependentes, desgraçados, amarelos, velhos e crianças? O homem à beira da eterna glória, que tem o testemunho da fama, que enrosca-se e desata-se, confundindo-se e, depois de algum tempo, encontrando-se? Sabe quem é ele? Aquele homem, senhor leitor, que mesmo com o tédio consumindo-lhe as entranhas e corroendo-lhe a pele consegue quebrar a  própria monotonia existencial, desavisado do pobre-diabo que, tão à vista, degusta suculento churrasco-grego com cachaça numa praça pública sintomática, indiferente também ao crente desocupado, tão exaltado, a perseguir bela jovem passante e aventureira do metrô que, concentrada e preocupada com o atraso alquebrado, vai algum seu compromisso marcado pela rotina?

Não sabes quem é este homem tão feliz e ao mesmo tempo tão resignado que transborda toda luz proveniente de cômoda debilidade? Aquele ente humano de ideias tão livres e que ainda assim sofre de censura moral?

É o mesmo homem melancólico ao jantar, combalido e amarelo ao almoço, magro de ideias de dia, talentoso de julgamentos à noite, que come pouco e suspira muito. É aquele mesmo desgraçado que deixa frases pela metade, elevando os olhos ao céu, com pouca luz de aurora e outra tanta artificial; que guarda tesouro de ouro de tolo, glamour em gaveta rasa para que salte aos olhos de algum visitante, fortuna em estante espelhada que a duplique e esconda algum sofrimento passado ou presente de lágrimas ou saudade; é o mesmo homem que carrega o próprio cadáver às costas, com vida boa e que, mesmo bem-sucedida, é irrealizada, incompleta daquilo que se poderia ter sido, mas não se foi; que se pode ser, mas não é; que se quer ser, mas não será; é tão-somente o resto de tudo que fica estacionado nos primeiros estágios – esperando por algo que ainda está por fazer, quando der e se der. Vida boa; sim! Vida boa e muito ordinária... Talvez até medíocre.

Já adivinhou? Já sabe quem é este homem, homem verdadeiramente, sobretudo, humano? Ora, como não? Mas se este homem és tu, leitor.

Por Ricardo Novais

Recomeços...

Pôr-do-sol beijando a Baía de Guanabara. Foto: GEMERSON H DIAS.Site: olhares.com.

Último dia de mês, primeiro de algum recomeço. Estou de volta aos meus velhos sonhos ardilosos e novas esperanças vazias; sempre recorro a mim mesmo – ente este qual, às vezes, sinto tanta falta de decisão.

Amanhã não quero que me perturbe mais, ó vida! Quebrei hoje as letras de qualquer história, joguei qualquer sentimento pela janela. Não me perturbe mais! De agora em diante só quero a sorte de um sorriso calmo e alguma boa dose de bebida sensual, uma vida que valha alguma alegria mais leve. A única estrutura que eu aceito que balance é a do coração.

Obrigado, meu Senhor, por ter me mostrado algum dom. Obrigado, meu Senhor, se hoje eu sei quem eu sou – e ainda encontro a mim mesmo. Não é grande coisa, por certo; mas, em meio a toda minha hipocrisia, isto é tudo. Os elogios dissimulados e tapinhas às costas são meu grande reconhecimento, à grande honra! Eu só quero domar a imaginação e desvirtuar a realidade; nada mais, nada menos. Causa-me esplêndida impressão estes sonhos que transformam alguma vida com alguma palavra, alguma letra, rabisco, rascunho, linha...

Ninguém pega um caminho incerto qualquer por acaso do imponderável; tudo, e o resto, é tomar uma decisão.


Ricardo Novais
Maria Magdalena em Êxtase, obra do talentoso errante Caravaggio.

Aproximou-se a prostituta. Ela já era minha conhecida. Sorriu-me com charme à cara, dissimulou toda a aventura errante da noite e disse-me com delicadeza:

- Como vai o meu Carlos? Como vai o meu amor?

Não fique muito mortificada, dona leitora; sim, ela sabia o meu nome e eu também sabia o dela.

- Madalena...

Eu a conhecia por Madalena, mas era impossível saber o seu nome verdadeiro. Também, isto pouco importava. Ao leitor digo apenas que o bom é saber que eu adorava Madalena, quase poderia tê-la amado e morrido disto. Aquela bela mulher de curtos olhinhos de quem quer ir para cama com você, mas com trejeitos de moça recatada, desconfiava de meus sentimentos, mas o que a prostituta não imaginou é que eu teria amor... Se soubesses, Madalena, o quando a amei, por certo, ririas de mim... Não digo mais nada, a leitora não compreende, prefere se vexar com asco. Amar as putas é algo incrível! Isto que confesso, minha senhora, é um lugar inalcançável que fica entre a realidade e a imaginação. Por isto estou a escrever, só a escrita chega lá. Se eu criasse aqui um texto autobiográfico ou memorialista e depois dissesse que escrevi um conto seria ridículo. Pois, se eu me comportasse desta maneira tola e balofa, a minha Maria Madalena teria as lágrimas de arrependimento, que um dia derramou com sinceridade, maculada por este seu amante do acaso.

Ricardo Novais

Um Sonho Dentro de Outro


Gianlorenzo Bernini (1598-1680). Éxtasis de Santa Teresa (1645-1642). 

Pedro acordou de um pesadelo horrível. Sobressaltado, sentou-se na cama e olhou o irmão que dormia em outra cama ao lado.

- Paulo, Paulo, acorde!

O momento era aterrador. Paulo não acordava e Pedro se desesperava. Chacoalhou o irmão com energia, de repente, Paulo despertou.

- Que é?

- Nada... É que tive um sonho ruim... – balbuciou aliviado Pedro.

Leitor, estais a pensar que Paulo ficou irritado por ser acordado tão abruptamente; não é mesmo? Pois não ficou. Ele estava esquisito, entorpecido por algo que ia além do sono. Pedro notou e estranhou o irmão. Bateu-lhe na cara com força, mandou que se recompusesse, perguntou-lhe o que acontecia. Entretanto, Paulo apenas sorria debilmente e emitia um assombroso som idiota: “Hehehe, hehe, hehehehe, hehe, hehehe...”.

- Mãe! Mãe! Mãe! – gritou Pedro muito assustado com o comportamento de zumbi do irmão. Porém, ele percebeu que seus gritos eram abafados, como se estivesse num sonho pautado ou numa filmagem antiga onde as imagens e os sons fossem desconexos.

De um salto, Pedro correu em direção à porta do quarto e ia abri-la quando a mãe apareceu em sua frente, subitamente, com a audácia e a prepotência materna.

- Que foi menino? Está louco?

- Eu não sei... Olha o Paulo, mãe...

- Vai dormir e deixa o seu irmão dormir também. Já é tarde, amanhã é dia de escola...

Ao olhar para trás, Pedro viu que Paulo dormia serenamente. “Será possível?”, pensou ele. “Estou sonhando?”.

Era incrível, tudo estava acontecendo e ele não entendia nada. A mãe foi à cozinha, Pedro saiu do quarto e foi ao banheiro. Seu andar era lento, moroso, como se estivesse mesmo sonhando. Olhou no espelho e conjecturou:

- Ai, meu Deus! Será possível? Eu estou sonhando, só pode ser... Tenho que acordar, eu tenho que acordar... – ele dizia e dava tapas ao rosto jogando água fria aos olhos.

Nisto, num abalo psíquico, ele bateu no espelho o jogando com violência contra a parede. Saiu do banheiro e olhou para sua mãe. Ela nada disse, e ainda continuava se comportando normalmente como se não tivesse ouvido nenhum barulho do impacto do espelho se estilhaçando no azulejo ou dos cacos de vidro caindo ao chão. Talvez não houvera acontecido barulho algum mesmo, talvez fosse tudo imaginação de um pesadelo bizarro.

- Tenho impulso, tenho impulso, tenho impulso... – repetia Pedro freneticamente com as mãos juntas encobrindo o rosto.

O impulso era matar a mãe indiferente, o irmão zumbi e todos os estranhos da casa. Já que era um sonho dentro de outro, não haveria consequências; era só ceder aos instintos que lhe acometiam as ideias, acordar do pesadelo no outro dia e pronto, tudo tornaria ao normal. Um anjo barroco, de olhos bondosos, disse-lhe que queria embarcá-lo ao céu, mas outro mensageiro, mais sedutor, guardião do inferno, ofereceu-lhe a barca dos prazeres diabólicos. Sonhos parecem mesmo ter destino articulado pelo arbítrio angelical – de modo que, muitas vezes, até um par ou ímpar entre meirinhos provenientes do além-mundo decide a sorte futura de alguma vida; e, em tal sequência de fenômenos ilusórios, não há o que a inatividade de consciência possa deliberar além de entregar-se ao próprio pesadelo.

Sendo assim, foi então que Pedro foi à cozinha, pegou da faca de cortar bife e cravou-a no peito da própria mãe. Depois caminhou com o mesmo andar vagaroso de antes, embora agora os pés estivessem sujos de sangue, e dirigiu-se ao seu quarto de dormir. Lá olhou o irmão adormecido e deu treze golpes com a faca nas costas de Paulo, que não ofereceu reação alguma. Em seguida, Pedro fez o mesmo com o pai, o primo, toda a família e alguns amigos que encontrou por acaso e nem mesmo moravam na casa, em uns deu dez golpes mortais, em outros deu dezessete ou vinte. Feito o ofício noturno, tornou ao quarto e deitou-se. Dormiu bem. No outro dia ele acordou cedo. Não era sonho.

Por Ricardo Novais

Viagem Extraordinária!

São Paulo teve o primeiro sistema de trólebus da América Latina, implementado, em 1949, pela CMTC, já extinta. Foto: Alexandre Gabriely.

Em 1949, São Paulo era bem diferente do que conhecemos hoje. A cidade crescia em ritmo acelerado, mas estava longe do caos hodierno. Naquele tempo, era possível marcar e checar aos compromissos, reverenciar o vizinho, jogar futebol em campinhos nas várzeas de rios e namorar no portão de casa.

Foi nesta urbe íntima que viveu Borba de Andrade, rapaz de 21 anos, simples operário das fábricas automobilísticas do ABC e enamorado de Olívia Guedes. Ele morava com um irmão mais velho na Vila Mariana de então, um entroncamento longínquo que ficava entre o progresso das fábricas e a sofisticada cidade; a querida Olívia, porém, vivia em agradável palacete geminado em área paulistana central e valorizada – era moça polida em francês e tediosa ao piano clássico, por boa orientação de sua família quatrocentona.

Num domingo de primavera, Borba comprou flores e subiu em um dos modernos trólebus que circulavam na paulicéia da época – uma novidade para os paulistanos, especialmente ao perímetro da Vila Mariana e Santo Amaro. Mostrando-se contente por passeio tão agradável  que o levaria à tão proeminente e desenvolvida cidade, e também sonhando com Olívia contraída no cinema da Avenida Ipiranga a assistirem juntinhos uma das maravilhosas películas vindas diretamente dos Estados Unidos da América, Borba cochilou nos confortáveis bancos do coletivo. Num solavanco que deu o veículo, ele acordou. Olhou pela janela e não reconheceu nada. Invés do progresso só via mato, nenhum prédio, apenas bosques e árvores. Seria possível que pegara o ônibus errado? Seria possível que o motorista estivesse à contra-mão e retornando à Vila Mariana e seu ambiente rural? De súbito, espantou-se: Qual ônibus? Não viajava mais no modernoso trólebus, mas sim num antigo bonde da linha da fazenda de Sant'Ana e outros campos da Companhia de Jesus. Deixou as flores ao velho banco de madeira e saltou do bonde, ainda o vendo subir, vagaroso, pela serra...

- Mas será possível?

Sim, era. O simples operário reconheceu o lugar, era a Serra da Cantareira. Subiu uma colina e exclamou:

- Sumiu a cidade, meu Deus!

Neste momento, um homem maltrapilho, carregando arcabuz, arco e flecha, barba cerrada e pele morena, gritou ao léu:

- Borba!

O eco saiu à toa.

- O senhor me conhece? – bradou Borba da colina e pensou: - Deve ser alguém da cidade.

Borba desceu em direção ao velho e aproximou-se inquirindo a figura:

- Que quer?

- Nada!

- Mas me chamou...

- Venha! – ordenou o barbudo.

- Oh, não posso; tenho que voltar...

- Venha logo!

Os dois caminharam serra acima. Num descampado, quase no Pico do Jaraguá, Borba percebeu dezenas de homens do mesmo aspecto do velho a quem seguira.

- Quem são vocês?

Todos gargalharam sem responder a pergunta e criando nova questão.

- Quem quer saber? Quem é ele, Borba?

- Borba, chama-se Borba, senhor? – admirou-se o viajante oriundo da Vila Mariana.

- Sim, Borba Gato; por quê?

- Meu nome também é Borba, só que... Ei, espere, disse Borba Gato?

- Sim, qual o espanto?

- A estátua... A estátua gigantesca na entrada de Santo Amaro... Borba Gato foi bandeirante...

- Sou eu, meu rapaz. Um bravo servente do povo paulista pela graça do Senhor! Estes são meus amigos; também bandeirantes do mais alto valor! Todos aqui são expedicionários lutando na selva, contra todos os males do diabo e protegidos pela intersecção do próprio Deus... E eu sou o comandante destes homens divinos... Esteja certo, jovem; se hoje a Coroa nos ignora reles pobres-diabos, mais tarde, em futuro grato, seremos os condutores da nação que há de vingar; pela graça do Senhor! – num gesto mecânico, o velho Borba fez o sinal da cruz cristão e passou a mão na bainha do facão.

- Puxa, que loucura! – espantou-se o jovem Borba.

- Vamos beber! – ordenou o velho.

- Obrigado, mas tenho que voltar...

- Sente-se, beba, depois vá.

Borba de Andrade bebeu com aqueles homens de tanto valor para a cultura da cidade onde nasceu, inicialmente assustado, mas logo, com o entorpecer da cachaça, viu-se rindo e contando piadas paulistas entre bandeirantes genuínos.

- Meu rapaz, de quando em quando passamos por aqui, neste bosque. Sempre retornamos! Aqui foi o palco de uma das batalhas mais sangrentas, entre nós, bravos homens cristãos. Perdi todos meus comandados em luta; e... são estes que vê aqui bebendo convosco. Onde escutais trovões e avistais longínquos raios cruzando o tolo céu, somos nós lutando nesta serra.

- Estão mortos?

- Morremos por honra... Honra aos paulistas! – bradou e os outros repetiram esta homilia.

O viajante de outro tempo, perdido e bêbado clamando por glória que julgou balofa, chegou a contestar os bandeirantes dizendo que não continham honra alguma, pois o interesse sempre fora por riquezas escravistas ou ouro e esmeraldas; e, pensando na reverência que os homens da sociedade de seu tempo – também os de outras passadas e, por certo, de outras futuras  deram àqueles homens guerreiros, usando-os como exemplo de valentia para conduzir todo o país já republicano, Borba de Andrade teve a audácia de conjecturar, naquela tarde extraordinária, no alto daquela colina tão sintomática para o cotidiano paulistano, que muita vez nos transformamos nos próprios monstros que criamos. No entanto, como suas palavras fossem ininteligíveis e todos naquela reunião de épocas sortidas já estivessem com umas e outras na cabeça, foram adormecendo e a noite caiu.

Quando Borba de Andrade despertou da bebedeira tinha uma terrível dor de cabeça. Os bandeirantes tinham desaparecido como por encanto. Procurou-os, gritou-os, nada; só a ressaca etilista de pouca purificada respondia-lhe. Percebeu que o ar era quase irrespirável, e a fumaça chegava com força à montanha. Caminhou à beira do pico e conseguiu ver a cidade ao longe; os prédios, as avenidas, tudo estava lá, ele constatou alegremente e muito surpreso com tantas novidades. Foi descendo a serra, devagar, meio cambaleante e ainda um pouco ébrio, sem perceber que suas barbas agora eram grandes e brancas, assim como os cabelos.

Chegando ao asfalto, Borba avistou naturalmente um trólebus como aquele que havia pegado na Vila Mariana antes de adormecer – tão seu experimentado. Entrou nele e reconheceu-lhe todo, mas percebeu que o veículo tinha aspecto envelhecido. O coletivo andou por avenida larga e linda, fazendo com que o aventureiro passageiro estranhasse o panorama, mas julgou este caso ao cansaço. Finalmente, chegando ao centro da cidade, Borba saltou de pé direito e intrigou-se completamente  o que via naquele lugar o deixou abismado. Marchas do exército, passeatas sufocadas, terroristas à esquerda e moralistas à direita. De repente, da cabina em frente à parada de transporte público, alguns militares começaram a se movimentar observando aquela figura de longas barbas brancas que descera do ônibus recém-chegado. Um soldado aproximou-se:

- Mostre a carteira de trabalho, senhor!

- Quê?

- Documentos, senhor!

- Puxa...

Borba não tinha carteira com ele. Explicou a aventura ao seu inquisidor, paramentado pela pátria e de arma em punho, tudo o que lhe acontecera, o quanto havia bebido, as piadas contadas entre bravos guerreiros de outros tempos, a amizade recente com Borba Gato e outros bandeirantes e que, provavelmente, estes mesmos homens haviam lhe roubado os pertences. A confusão instalou-se. A multidão juntou para acompanhar o espetáculo excêntrico.

- Que este velho diz?

- Que velho? Sou Borba de Andrade da fábrica de carros, em São Bernardo do Campo. Sou honrado trabalhador, aviltantes!

- Os documentos, senhor! – insistia o soldado.

- É subversivo! – exclamou um sargento de longos bigodes que acabara de chegar.

- Ô, 'milico', não está vendo que é mendigo? É vagabundo, porra!... – protestou relinchando o povo enfatiotado.

- Sou honrado! Sou eleitor de Jucelino...

- Prendam-no! Está vendo? É subversivo mesmo! – prontificou-se o sargento com este julgamento precipitado.

- Esperem! Que acontece aqui? – Borba de Andrade, sem entender nada, pediu desesperado tais explicações antes de o arrastarem ao xadrez sombrio e enigmático.

O soldado, gentilmente, talvez por piedade à fantástica história contada por um pobre velho a quem acusavam de louco, explicou-lhe que estavam em 1968, que houvera um golpe das forças armadas e que quem estava no comando do país eram os militares. "Não falemos mais,  não é prudente, senhor!", acrescentou o jovem e honrado soldado do exército. De repente, o viajante Borba entendeu tudo. Cochilou num trólebus em 1949, bebeu com bravos bandeirantes paulistas do século XVIII e, numa viagem tão mágica como maluca, acordou num porão ordinário de delegado ditatorial.

Deste então não se ouviu mais falar de Borba de Andrade. É desaparecido; consta em arquivo de pasta escura e empoeirada com o ficheiro 31.12.1968/DOPS.


Por Ricardo Novais
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