Amigos Amigos, Camaradas à Parte!


Retrato: Olhos de Cuba, artista desconhecido.

Outra vez recorro aos pensamentos passados de meu pai, mas desta vez por tema diverso do anterior: “O Lula age de acordo com as conveniências dele, ele é comunista por interesse e não por convicção. Não esqueço os últimos anos da década de setenta (do século passado), ele (o Lula) era metalúrgico no ABC e agitou uma greve entre os operários insinuando melhores condições de trabalho. Os pobres trabalhadores o apoiaram. Houve um confronto violento com a polícia dos “milicos”, e onde estava Lula? Arranjando acordo com empresários para suas próprias conveniências... Acordo de cavalheiros, ou de camaradas... Pô! Ele nem passou perto do conflito; foi cúmplice no assassinato de trabalhadores inocentes, homens honestos que tinham família para sustentar, e, acreditando na melhora de vida prometida, estavam ali orientados por aquele barbudo covarde!”

Em 2002, nós, aqui de casa, rimos de papai. Dizíamos a ele que estava se comportando como conservador reacionário, que os tempos eram outros e que o país estava pronto para novos ares éticos e do progresso. Ele retrucava: “FHC iniciara o processo de socialismo (talvez ele quisesse dizer em moldes positivistas) com aparência de bem-estar; mas que o PT completaria o processo de massificar o pensamento comunista no Brasil. Se estes tucanos têm embalagem voltada para conquistar a média burguesia, o lulismo tem como meta massificar as classes médias em geral, trabalhadora e os mais pobres. É tudo uma grande farsa, querem implantar uma ditadura de esquerda aqui. Eles fingem que governam, que são estadistas naturais enviados por Deus para ‘salvar o povo’, mas assassinam toda a virtude e identidade autêntica deste mesmo povo. E eu não compactuo com quem mata brasileiros, não sou cúmplice de nenhum assassino comunista de uma figa! Se isto é ser reacionário, então sou reacionário. Reajo contra tudo que não presta!”

Hoje, lembrando das palavras ferrenhas dele, posso ver alguma centelha de impaciência com rumos da política deste país naquele tempo, mas reconheço que meu pai anteviu a desgraça. A estratégia comunista parece ser a de confundir a direita com a esquerda, como se não houvesse mais linha de pensamento e defesa de valores. Desvirtuaram os inimigos. A direita é inepta. A Igreja se deixa corromper pela ideia socialista. A grande mídia há muito tempo está entregue aos intelectuais de esquerda – desde o tempo da ditadura militar, onde eles implementaram uma estratégia ousada de iludirem com ideário frouxo e romântico os próprios amigos de esquerda, muitas vezes os mais musculosos e menos inteligentes, e estes foram capturados pelos delegados militares cruéis dos ‘anos de chumbo’; e, assim, os 'intelectuais de esquerda' foram devagarinho se infiltrando nos veículos de comunicação com facilidade. Deu certo, fizeram uma espécie de "revolução cultural dos trópicos". São ousados, mas também são pulhas!

A memória de história corrida fica fraca, mas não fácil se apaga, e fica como a força dos músculos que sobe por escadas estreitas, sombrias, olhando fixamente para a cabeça encravada no alto do corpo; pois, há poucos dias passados, um grupo de exilados cubanos ocupou, pacificamente, durante uma hora, o consulado do Brasil em Miami para denunciar a cumplicidade do presidente Lula no assassinato do prisioneiro político Orlando Zapata Tamayo. Papai tinha razão, não? A benção, meu pai.

Cerca de 15 pessoas da Assembléia da Resistência, entre ex-presos políticos cubanos e membros de organizações do exílio, entraram nas instalações do consulado do Brasil e ocuparam uma das salas enquanto exclamavam: "Lula, cúmplice!", "Vergonha para Lula!" e "Viva Orlando Zapata Tamayo!".

"Lula é cúmplice da ditadura castrista e do assassinato de Orlando Zapata", expressou Orlando Gutiérrez, diretor do Diretório Democrático Cubano, que liderava o grupo que entrou no consulado brasileiro.

Gutiérrez ressaltou que o objetivo da ocupação era pôr em evidência a "vergonha que representa para o Brasil Lula aparecer abraçado aos irmãos Castro no momento em que estão assassinando um homem pelo mero fato de discordar".

O comunista chefe dos brasileiros se reuniu com seu colega cubano, Raúl Castro, e com seu irmão cruel, o assombroso Fidel, no dia seguinte da divulgação da morte de Orlando como consequência de uma greve de fome de 85 dias. Não digo que a atitude de Lula seja fetiche nem habilidade política, embora possa ser, não sei. Não pense que não quero me comprometer, mas fetiche não é, visto o caráter mal formado do 'estadista' durante toda sua vida pública. Habilidade é, pois esta aliada à vaidade impressiona velhos camaradas vermelhos.

Orlando Zapata era um pobre diabo, mas jamais abandonaria um amigo ou as suas convicções.

Já as ações de Lula demonstram contradições cruéis e são prejudiciais ao povo cubano, e não somente aos caribenhos, mas também ao povo brasileiro. Somos cúmplices dele?

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Por Ricardo Novais