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Vitrine

Jean Baptiste Debret.

Almoçávamos uma suculenta feijoada em um dia bastante ensolarado. O restaurante se localizava em uma região badalada da cidade, onde o passado, por certo, se alimentava de feijoadas menos deslumbradas. 

- Vamos tomar uma cerveja? – perguntei à Clarice que estava sentada ao meu lado, mas tinha os olhos perdidos pelo mundo.

- Sim, Heitor. Vamos, está quente – respondeu-me depois de uns segundos irritantes.

O amigo leitor que aprecia uma cerveja gelada que brinde comigo neste momento, pois a seguir o conto poderá ficar pouquíssimo saboroso e então torço para que o amigo tenha estômago de avestruz para lê-lo até o fim. A dona leitora eu desejo bom apetite!

Vá lá, ânimo! Tudo aconteceu em pouco tempo. Avistei um homem, maltrapilho, típico cidadão não contado no Censo do IBGE, parou à entrada do restaurante e então um segurança, enfiado num terno preto, naquele calorão, afastou o maltrapilho da passagem dos clientes. O sujeito, que definitivamente não era bem-vindo ali, permaneceu ao lado da entrada, em frente à vitrine que dava para o hall do salão de almoço.

Não tenho certeza se de onde ele estava conseguia ver dentro do restaurante, mas eu, apreciando o espetáculo, conseguia vê-lo quase perfeitamente; lá estava ele, parado, maltrapilho, provavelmente esfomeado.

- Clarice, eu acho que aquele homem quer comer...

Ela olhou de relance e respondeu sem muita vontade:

- Sim, Heitor. Deve estar com fome.

Vendo a apatia de Clarice e dos outros clientes do restaurante com relação à gastronomia alheia, acovardei-me. Mudei a visão, olhei para o celular, depois peguei o pote de pimenta, mexi no garfo, na faca, limpei-os um no outro e levantei o copo de cerveja... Bebi um longo gole. Mas tornei a visão. O homem maltrapilho lá estava, parado, ainda, imóvel como o cardápio pendurado na parede a exibir o mostruário de pratos de comida sofisticada. Sob o sol e refletido pela luz do meio-dia que batia forte na vitrine, o homem maltrapilho era parte da mobilha ou da decoração do ambiente.

Levantei-me. Fui até quase a porta do restaurante, olhei para o maître e retrocedi virando à direita no sentido da toalete. Mijei a cerveja, lavei as mãos, olhei-me no espelho. Tive ânsia de vômito e precisei vomitar a feijoada toda na pia daquele banheiro espelhado. “Por que diabos esse mendigo não me sai da cabeça? Porra! Esse filho da puta deve estar com uma fome do caralho! Foda-se!”, desgraçadamente, eu pensei isto, leitor, ou neste sentido, porque as ideias estavam atrapalhadas uma em cima das outras e não sei se pensei exatamente escrevi aqui; foi tudo muito rápido e, talvez, eu tenha também pensado muito alto porque um senhor, de camisa polo bege, qual pendurava um óculos esverdeados, olhou-me de cima a baixo, balançou a cabeça e riu discreta e cinicamente – tanto assim que só percebi esta atitude cínica dele porque eu já havia bebido bastante e todo bêbado é cientista social.

Voltei à mesa, olhei para Clarice, que estava entretida em outro mundo olhando para a tela do celular. Nada eu disse e ela nada percebeu, ou ao menos não quis dizer se percebeu como aquela feijoada tinha me afetado e me deixado atordoado; olhei para fora daquele salão, lembrei-me de um velho autor que dizia que as vitrines dos restaurantes chiques refletem os esfomeados, os esfarrapados e vale acrescentar ao pensamento que também espelham a desgraça de um mundo que sofre de inanição.

Alcancei a visão na vitrine daquele restaurante e não vi mais o esfomeado e maltrapilho que lá estava há pouco, parado, aguardando a migalha de uma mão invisível. Aquilo me entristeceu, por pouco tempo. Ao fim de cinco ou seis cervejas, eu havia me esquecido do maltrapilho e já mal me lembrava da vitrine reflexiva de sombras. A indiferença coletiva havia retornado à mesa solitária para nos fazer companhia.

Por Ricardo Novais

Presente de Natal

Google Imagens.

Cheguei cansado em casa, eram quase sete da noite. Tirei o paletó e esparramei-me no sofá. A casa estava vazia. Depois de sair do trabalho, Marcinha iria pegar a Duda na escola no último dia de aula do ano letivo. Mas a casa ainda estava vazia. Liguei a tevê. Deixei-me passear pela internet teclando à toa por uma hora, talvez mais.

Tinha um embrulho em cima da mesinha de centro, estava aberto, mas não toquei nele. Marcinha chegou com a Duda, as duas vieram me beijar. Marcinha parecia irmã mais velha de Duda, de tão fina e angelical, mas, numa observação mais detalhada, via-se a mulher absoluta e atraente. Duda tinha oito anos incompletos; era belíssima, graciosa, iluminada; era a nossa jovem Maria Eduarda Maia.

Marcinha subiu para ajudar Duda com o banho e outras coisas de meninas, eu fiquei no sofá com a tevê ligada, tomando uma cerveja e navegando na net. O embrulho começou a olhar para mim, eu a olhar para ele. Era época de Natal. Inclinei-me à mesinha e peguei o pacote. Desembrulhei-o. Havia um smartphone novinho dentro, de última geração. Não tinha indicação de presente, do portador, remetente, dono etc. Coloquei-me a pensar muitas coisas. Passou-se bem mais que um quarto de hora, Marcinha anunciou o jantar: pizza e suco de caixinha.

- De quem é aquele celular que está na sala? – perguntei ainda no primeiro pedaço da pizza de bacon.

Não ouve resposta, insisti na pergunta. Duda cortou:

- Papai! Papai! Eu aprendi a nadar hoje...

- Que legal, filha! Parabéns! Papai está orgulhoso de você.

Duda me deu beijos, retribui-os com certo fastio. Abracei-a, passei a mão em seus cabelos finos e castanhos. Marcinha nada me dizia.

- Vamos escovar os dentinhos para ir dormir, Duda... – Falou Marcinha, pegou na mão de Duda e subiram.

Fiquei na sala. Bebi outra cerveja e vieram os pensamentos mais imprevisíveis, não fortuitos e diversos deste mundo. Leitor, que acha? Um smartphone de última geração na mesinha de centro da sala sem que seja eu o comprador e sem que sua mulher diga de quem seja? Estranho enigma! Muito estranho, concorda comigo? Lembrei-me de quando ela chegou com a Duda, do beijo frio que me deu e das poucas palavras ditas; da falta de resposta, do enigma formado. Bebi outra cerveja e subi as escadas a passos arrastados.

Entrei no quarto de dormir. Marcinha estava encostada numa almofada sobre a cama vendo novela, sentei-me em um puff que se afundou, senti-me inseguro, levantei-me. Dei duas voltas no quarto sem dar palavra, por fim, disse algo.

- De quem é isto? – questionei segurando o smartphone na mão direita e cutucando-a com a outra mão.

Ela não respondeu, insisti.

- De quem é, porra? Diga! Quem deu isto pra você?

Como não havia resposta, agarrei-a e gritei. Marcinha começou a chorar, nada dizia. Eu fui ficando louco, fiz um algoritmo zeloso. Marcinha em prantos. Soltei-a. Ela virou o rosto. Um lençol de lágrimas cobriu meus pensamentos: “De quem é esta porcaria de smartphone? Esta mulher está escondendo algo!”.

- Você é um ignorante, Eduardo! – exclamou isto para mim, entre soluços, apresentando-me o cartão de "boas festas" que foi entregue pelos correios junto com a encomenda e onde se lia:

“Dudu, querido!
Mando a você este smartphone de presente como prova de que não te esquecerei, jamais.
Um beijo de quem te amará ‘ever’, ‘ever’, ‘ever’;
Feliz Natal e próspero Ano Novo!
De quem soube esperar e o amou, e ainda o ama, com paciência;
Rosa”.

Por Ricardo Novais

Majestoso


Cléber era meu melhor amigo. Trabalhávamos juntos em uma empresa de informática. Eu era solteiro, Cléber era casado, casado com Renata. Renata era muito ciumenta. Nada de futebol, chopinho ou churrascos nos finais de semana. Renata tinha medo que Cléber se enrabichasse por alguma “nega”, como ela dizia entre as amigas da vizinhança. Não, leitor, não pense que era um tribufu, ao contrário, era uma mulher muito bonita, porém, como muitos deste século, Renata padecia de baixa autoestima.

- Neto, cola lá na minha casa hoje à tarde para tomarmos umas cervejas, vamos ver o Timão jogar? – Cléber me convidava sempre em dia de clássico Majestoso.

Eu era são-paulino; Cléber, “coringuento”, como ele denominava um torcedor tradicional do Corinthians. Eu sempre ia ver o jogo na casa dele. Renata gostava de mim; fazia salgados, trazia cervejas e sentava abraçada ao lado do marido. Aquilo me irritava, um pouco. Tarde da noite, eu ia embora sempre meio bêbado e atordoado com as conversas de Renata e Cléber.

Um dia, Cléber resolveu ir acompanhar seu time em um torneio fora do país. Ele era torcedor fanático. Renata não foi, pareceu triste. O casamento parecia não ir bem, o ciúme obsessivo dela, aliado à indiferença de Cléber, atormentavam os dois; era perceptível a todo o prédio. Ah, eu ainda não disse, não é mesmo, leitor? Então digo agora. Eu morava no mesmo prédio que o deles, só que no terceiro andar enquanto que eles moravam no oitavo.

Na segunda noite sozinha, Renata me convidou para jantar. Fui. Jantamos, conversamos, gargalhamos, transamos. Não me julgue, implacável dona leitora. Cléber era um bom sujeito, mas amor não se escolhe. Renata amava Cléber. Eu os amava. Quando o Cléber retornou da viagem com toda a torcida de seu time, Renata contou-lhe tudo – a traição, autoria, detalhe e concluiu como “caso aventureiro” – e suplicou o perdão do marido.

- Não! Como pode fazer isto? Não acredito... Logo agora!... Neto? Como ele pode fazer isto comigo? – Cléber chorava como criança, mas dava murros na mesa como um assassino prestes a atacar seu inimigo.

Repentinamente, levantou-se da cadeira do quarto de dormir e saiu correndo, gritando:

- Isto não fica assim! Isto não fica assim! Neto me paga! Ah, não fica assim!

Há coisas, meu amigo e minha amiga, que só se sabe depois. Como isto é um conto, antecipo o que já ocorreu antes de ter ocorrido; até este parágrafo, evidentemente. Agora sei que, depois que o Cléber saiu furioso, batendo porta, esmurrando o elevador, Renata, receando o pior, tentou cessar o choro, tentando acalmar-se, e sopesou que tinha que fazer algo para evitar uma tragédia. Então, foi atrás do marido-corno. O elevador já havia descido. Parou e então ela saiu em desabalada carreira em direção às escadas. Desceu, correndo, tropeçando, engolindo choro, remorso e o desespero de uma morte anunciada há pouco. Sentia-se culpada. Chegou ao andar, terceiro andar, o andar que eu morava. Parou. Andou lentamente pelo corredor. Parou novamente. Estava em frente a meu apartamento.

Cléber discutia comigo:

- Como pode fazer isto, Neto?

- Por vingança, Cléber. Você acha que é fácil? Aguentar você com ela e eu sempre me contentando em esperar? Ah, vá pra...

- Mas logo agora? Se eu fui viajar justamente para dar um tempo, para tomar coragem e contar tudo à Renata? Eu ia me separar dela, seu imbecil! Eu ia me separar dela para ficar com você, seu cretino!

Nisto, Renata entrou no apartamento. Ela escutara tudo atrás da porta, que havia ficado entreaberta.

- Renata? – eu gritei. – Renata, eu te amo!

- Ai, meu Deus! O que é isto? Vocês... Vocês... Vocês... Um casal?

- Perdoe-me, Renata. Eu ia te contar...

- Cala a boca! – ela gritou colocando as mãos sob as orelhas, mas os ouvidos estavam abertos.

- Eu te amo, Renata! – eu exclamei.

- E eu amo você, Neto! – gritou Cléber.

- Bichas! – concluiu Renata e saiu correndo.

Renata saiu correndo, entrou no elevador e fechou a porta. Cléber me segurava. Dei-lhe um murro. Fui atrás de Renata pelas escadas. Toquei a campainha, arrombei a porta. Renata havia pulado da janela do oitavo andar. Eu perdi o chão. Cai no assoalho e chorei. Levantei-me com a polícia me fazendo perguntas e com o síndico dando a última notícia:

- Mas que tragédia nesta família! Dona Renata pulou da janela e... Bem, sabe, doutor Neto, o doutor Cléber... Bem, o doutor Cléber está pendurado pelo cinto da calça em uma pilar de seu apartamento...

Há coisas que não se explicam, senhor leitor e dona leitora. Como um cinto de calça aguenta o peso de um homem e como um homem não aguenta o peso da dor de uma derrota em um clássico do futebol? Há coisas que não se explicam.


Por Ricardo Novais

Mulher misteriosa

Pintura de Luis Antonio Juarez Palomo.

Casei-me com Carolina. A vida era boa; casa grande, térrea, arejada, jardim da zona sul, plano de filhos. Passaram-se seis ou sete meses. O leitor audacioso pode imaginar que a rotina é uma aranha pendurada em algum canto da retina, e assim foi.

Está bem, dona leitora indiscreta, nada passa por ti sem questionamento; admito que o narrado no primeiro parágrafo tenha uma lacuna, uma lacuna perfumada: Mariana. Eis então o segundo parágrafo... Mariana era minha amante mesmo antes de meu casamento; desculpe-me, amiga leitora, mas o perigo de dois amores era, aos meus olhos de tempos atrás, místico e capaz.

Mariana morava sozinha em um apartamento pequeno na zona sul. Trabalhávamos juntos, embora em departamento diverso. Encontrávamos todos os dias, fosse por negócios ou por instinto sexual, neste caso, poderia ser em algum elevador do acaso. Eventualmente, passávamos as noites juntos em um sequestro consentido. Carolina teimava em acreditar em desculpas vazias, até que ocorreu um fato imponderável...

Uma mulher misteriosa, sem rosto, sem citação, sem origem e destino surgiu de maneira atrevida. O atrevimento de uma relação de assédio é a pólvora da bomba que não explode. Uma rede social vulgar, mensagens privadas, instantâneas, a inexplicável troca de telefonemas. Foram dois ou três telefonemas; voz sensual, baixa, porém, audível, firme e mesmo assim atraente. Ocorreu um encontro.

 - Rua do Arcano, n° 174, apartamento 39; esteja lá às 16h09min horas!

- Sim... É... Ei, mas por que às 16h09min?

- Esteja lá! Sabe onde é?

- Sim.

- Até. Beijo.

- Até.

Sabe, amigo leitor que designa a vida aos mistérios sem resposta, um encontro às escuras é uma coisa muito atormentadora. E a teimosia de horário cravado era familiar, embora me pareça que toda mulher goste de caprichos... Carolina mesmo sempre insistia nisto de horários cravados... Enfim. Cheguei dez minutos, ou menos, antes das 16h; prédio sem porteiro, interfonei, a mesma voz misteriosa atendeu e mandou-me subir. Subi. Três andares, não havia elevador. Subi devagar por uma escada larga, segurando firme no corrimão de madeira sob a superfície de mármore. Tudo era silêncio. O rol vazio, todas as portas fechadas, poucos móveis; três lances de escadas depois, n° 39 na porta. Olhei no relógio de pulso, 16h07min. Pendurada na porta, uma venda e um bilhete: “Coloque a venda nos olhos”. Hesitei, olhei novamente para o relógio: 16h11min. Estava excitado. Sorri. Coloquei a venda nos olhos, mas deixei-a meio frouxa. A porta abriu.

- Boa noite, garotão! – disse a voz forçando um tom sexy; em seguida, virou-me e apertou com força a venda sob meus olhos.

Breu, sentia-me bem. A mulher me tocava, falava pouco e baixo, mas gemia nos meus ouvidos. Foi me despindo, deitou-me em um colchão grande alto sob o piso. Um perfume sublime!

- Quem é você? – perguntei.

- Sou a mulher de seus sonhos.

- Estou gostando muito deste jogo... – Confessei.

- O jogo apenas começou, meu bem!

Eu disse o quanto aquilo me excitava, o quanto era diferente e surpreendente. Percebi, no entanto, que tinha falado muito, sem respostas. Eu estava nu, chamei por ela, sem resposta. Tirei a venda. Não tinha ninguém. Assustei-me, olhei no relógio. Quinze para às cinco da tarde. Vesti-me rápido e de qualquer jeito. A porta estava aberta, olhei para todos os lados alcançáveis, ninguém à vista. Não gritei. Desci as escadas, bem devagar, com os sapatos e o paletó na mão direita, segurava com força o corrimão com a outra mão. Luzes acesas. A porta principal estava fechada, mas havia uma porta de vidro aberta na lateral do rol. Saí do prédio. Dia claro ainda. Corri até o carro, sorri mecanicamente da aventura.

Liguei para Carolina, ela não me atendeu. Fui para a casa de Mariana. Tomamos vinho argentino. Transamos, contei a ela o que havia acontecido naquela tarde. Sim, leitor, essas coisas não se contam a outra mulher; aposto que a querida leitora está a dizer-me tolo; desconte das três ou quatro taças de vinho que tomei. Malditos argentinos! Desconte também de meu estilo de vida ocioso, como sabe. Não dava para esconder. Contudo, sopesei que errei, antes tivesse ido direto para casa e me poupado do ridículo de contar aquilo para uma amante tão trivial; um homem sabe ser ridículo... Tanto melhor que não tinha dito à minha esposa, mas, de todo modo, ridículo.

- Você é um galinha! – concluiu Mariana gozando com minha cara.

Nada respondi, sentia-me mal. Fui embora cabisbaixo e, desculpe-me o linguajar, amiga que me lê, fui embora com o rabo entre as pernas. Em casa, sentei-me no sofá, abri uma cerveja, vi um pouco de futebol. Tomei banho, Carolina dormia. Noite tranquila.

No dia seguinte, Mariana perguntou-me sobre a mulher misteriosa. Respondi que eu estava brincando, ela deu de ombros e saiu. Após o meio-dia, recebi uma mensagem pelo aplicativo do celular me intimando:

“No mesmo lugar, hoje, às 13h04min!”.

Sentei-me. Não sabia se ia me aventurar naquilo novamente. Sentia-me grotesco. Mariana entrou na sala.

- Ei, vamos almoçar?

- Desculpe, doutora Mariana, preciso sair – respondi-a sorrindo.

Não olhei para trás, peguei as chaves do carro e o paletó e fechei a porta. No elevador, vi que Mariana estava atrás, ela até me deu uma satisfação vaga de que estava indo almoçar no shopping. Na garagem, despedi-me dela, fomos para direções diferentes. Liguei o som do carro e sorri; naquela momento, sorria de tudo; eu estava feliz, sentia-me um grande cara. As mulheres têm um poder inexplicável sob a gente, que o diga a minha amável leitora. Eis o néctar da vida.

Cheguei atrasado, como presumível. Havia se passado bem mais que quatro minutos da uma da tarde. Desta vez, a porta principal estava entreaberta, mesmo assim toquei o interfone.

- Suba! –disse a voz enigmática e lasciva.

Deixei a porta principal destrancada. Apenas entrei, subi as escadas no mesmo procedimento do dia anterior, embora com mais celeridade. Coloquei a venda, a porta se abriu, as mãos macias e quase místicas me puxaram e eu entrei. Nu, perguntei como anteriormente:

- Quem é você?

- Retire a venda!

- Oh, não! Vá falando, nunca conheci uma mulher como você... Mesmo sem vê-la, sem saber como é teu rosto, sem saber quem é você, já posso dizer que estou apaixonado...

Nisto, um baralho se fez na porta. Retirei a venda. Na minha frente, naquele quarto quase sem móveis e com cortinas brancas, as duas mulheres: Carolina e Mariana.

- O que está acontecendo? Ai, Meus Deus! – eu gritei.

Carolina estava de meia-calça preta, de vestido vermelho curto e com um chicote na mão. Ela estava linda. Mariana estava trajada de roupa social, mas igualmente sexy.

- Quem é ela? – perguntou Mariana direcionando um olhar distante para mim.

Não respondi. Ninguém disse nada. Tudo era tenso e nebuloso.

- Diga, seu filho da puta! Responda: Quem é ela?

- É... É Carolina, minha esposa... Carol, esta é Mariana, que trabalha comigo e...

- Não trabalho com você, somos amantes!... – retrucou, furiosa, Mariana. – Ei, mas espera aí, sei que esta vagabunda não é sua esposa; é ela, né? É ela a mulher misteriosa que você encontrou ontem? Diga, Orlando, seu puto, cafajeste!

Eu não tinha palavras, mas Carolina respondeu:

- Sim... Sou a mulher que pregou uma peça neste salafrário... – ela me chicoteava com força. – Mas é verdade, também, que sou a esposa deste homem, um homem desprezível... Agora sei... Seu filho da...

- Mentira! – gritou Mariana de repente.

Fiquei em choque, como  pode imaginar o leitor sob o olhar acusatório de nossa amiga leitora. Eu nada entendia, de fato. Mas agora entendo. Realmente a voz misteriosa daquela mulher que eu estava apaixonado era familiar, era a voz da Carol... Carolina... Minha esposa! Filha da puta! Enganou-me como se engana uma criança com um doce ou um vídeo-game e ainda me deu uma surra com aquele chicote endiabrado.

Repentinamente, as duas começaram a brigar, xingando-se com palavras feias, saíram do quarto para o corredor e Carolina rolou sacada abaixo. Morta. Chamei a polícia. Vieram. dois ou três policiais, depois foram chegando outros. Mariana contou a todos que era minha amante e o cadáver era minha esposa, um policial sopesou que eu era o criminoso. Não retruquei. Fui para a delegacia. Fiquei preso. Chamei advogado. Saí da cadeia. Mesmo respondendo em liberdade, não pude ir ao velório de Carolina. Todos me condenaram. Mariana testemunhou contra mim. Passaram-se alguns meses. Perdi o emprego e os amigos. Estou cumprindo pena.

Por Ricardo Novais

Rolezinho

Cena do filme “Christine - O Carro Assassino” (John Carpenter, 1983), baseado na obra de Stephen King.

Eram 20 horas e 04 minutos. Eu estava cansado da faculdade. Curso de engenharia, muito chato. Não disse nada a meus pais, faltei na aula. Liguei para minha namorada, noite agradável para um rolezinho.

- Cami, vamos sair?

- Passa aqui em meia hora – ela gostou da ideia.

Não tinha ninguém na minha casa, saí pela garagem do prédio e o porteiro nem me viu. Carro todo preto, vidros escuros; nenhum curioso consegue ver nada dentro. Dirigi sete quilômetros, passei na casa da Cami às 20 horas e 39 minutos.

Paramos numa lanchonete. Comemos lanches, bebemos umas cervejas. Saímos. Calculei levá-la em um motel bem escondido, lá pela periferia da cidade, para foder a noite inteira. No meio do trânsito, Cami já resolveu ir adiantando os procedimentos. Ela abaixou a cabeça, abriu o zíper da minha calça e começou a me lamber. Liguei o som no talo, usando uma mão para beber uma cerveja gelada e de resto só para me concentrar na cabeça frenética daquela gostosa com os seios à mostra balançando no meu colo. Gozei na cara dela, foi um impacto violento...

Desci no carro fechando o zíper e lançando a long neck vazia bem longe, no meio de um terreno baldio. Cami também desceu do carro, meio atordoada, tinha batido a cabeça no volante, a testa estava sangrando. Olhei para todos os lados, escuridão de dar medo. Breu total. Era uma rua deserta, um bairro afastado que nem tem nome, não tinha viva alma naquele lugar; apenas um corpo jogado, uns cinco ou seis metros, para trás de onde eu tinha estacionado. Manobrei o carro, faróis apontados para a cena. Única luz na treva. Havia pegado o cara em cheio, provavelmente o pára-choque o atravessou acima dos joelhos. Estávamos assustados, Cami e eu. O homem, vestido de terno barato, todo ensanguentado e destroçado, parecia ser um desses crentes, talvez um pastor; uma bíblia de capa preta estava jogada perto do meio fio; ligando as coisas, julguei que a bíblia era dele; pastor filho da puta!

Cami me olhou, iluminada apenas pelos faróis acusatórios do automóvel e por uma lua débil, respirou fundo e disse:

- Renê, me leve pra casa.

- Mas não vamos mais ao motel?

Não fomos. Passamos rapidamente numa farmácia, que era caminho, compramos  uns curativos e a levei para casa. Em seguida, dirigi com o som no talo até meu apartamento, guardei o carro de ré na garagem do prédio – nem sinal do porteiro ou outro funcionário do condomínio; dei uma olhada no capô: amassado, pára-choque quebrado, mas sem maiores avarias.

Minha casa continuava vazia; entrei, tomei banho, comi uns nacos de nuggets que estavam na geladeira; fui para o quarto, dormi bem. No outro dia, era sábado. Mandei lavar o carro, trocar o pára-choque, mas o capô ficou amassado mesmo; pastor filho da puta! No final da tarde, liguei para a Cami. Rolezinho. Pernoitamos no motel da periferia.


Por Ricardo Novais

Ostentação

Imagem de um evento de 'rolezinho'. Foto: reprodução do Facebook.
Gilberto achava que as crianças estavam atarefadas demais; lições de inglês, espanhol, francês e até de piano tiravam o lazer dos filhos; sobrava-lhes o vídeo-game. Pouco, ele pensava. Não pode ser isto a educação de filhos, mas a mulher tinha outro conceito. Zuzu desejava filhos grandes, fortes, ricos; não suportava a ideia de se divertirem; perda de tempo, dizia ao marido.

Um dia, ao retornar ao escritório na hora do almoço, Gilberto teve um mau pressentimento ao ver uma criança vendendo bala no farol de esquina do prédio. Era um moleque mulato, pequenino, roupas sujas e puídas, mas que sorriu e lhe olhou alegremente. Incrível! Era de admirar o moleque correndo leve, levado, correndo alegre, intempestivo, feliz e saudável em meio a tanta indigência.

Se há alguma coisa importante neste mundo, pensou Gilberto, é criança saudável. Imediatamente virou o carro e entrou à direita na direção da escola dos filhos. Aguardou duas horas em uma lanchonete em frente ao portão escolar. Deu o sinal estridente no pátio do colégio. Rebentaram gritos de alunos ainda livres. Encontrou os filhos e os levou ao shopping. Brincaram, comeram, compraram, divertiram-se a valer. O leitor, que já foi menino, e a leitora, que por certo também foi graciosa menina, sabem que o trabalho infantil é simplesmente brincar de ser adulto; mas o contrário também acontece e, naquela tarde, o pai também era adulto brincando de ser criança.

Era uma tarde de sexta-feira, mas anoiteceu rápido. Quase sete da noite, estava na hora de ir para casa. Havia milhares de recados perdidos da esposa; ela queria saber dos filhos e das lições perdidas. Gilberto a respondeu dizendo que estava tudo bem; Zuzu enraiveceu-se, pegou um táxi e foi encontrá-los.

Repentinamente, na praça de alimentação, iniciou-se uma aglomeração. Pessoas de todas as cores começaram a gritar palavras de ordem; ao menos pareceram gritos de ordem engajados e outros apenas de pertubação da ordem, já que tudo era bastante desconexo.

- Gritos juvenis, disse Gilberto em tom de desprezo.

- Shopping é lugar de ostentação, retrucou a esposa.

Ostentação. As pessoas gritavam mais e mais alto, ameaçavam correr pelas escadas rolantes e davam ideia de que iniciariam um arrastão dos infernos. Eram jovens de expressões rudes, quase indolentes, embora parecessem ostentar-se numa passarela de fanfarrões.

Os frequentadores, jovens e velhos, do estabelecimento misturaram-se; as roupas caras, os bonés de grife, os tênis de marca, as bolsas de couro fundiram-se à atitude altiva de pedestal dos comerciantes e dos seguranças. A confusão tomou conta do lugar e o pau comeu.

- Gilberto, seu louco! Olha só onde você trouxe as crianças, no meio desse bando de maloqueiros... – Zuzu repreendeu, de forma dura, o marido; este nada respondeu à mulher, pegou os filhos pelas mãos, no meio da multidão e das lojas de ostentação, dirigiu-se ao guichê do estacionamento, pagou o ticket e entraram todos no carro, mudos e constrangidos.

Chegaram em casa da mesma forma, mudos e constrangidos. Antes de deitar-se para dormir, Gilberto redigiu um desabafo em uma rede social relatando a aventura do shopping. No texto, ainda teceu críticas à segurança pública da cidade por não proteger aos cidadãos de bem e aos seus filhos daqueles marginais que ousaram invadir os ambientes particulares deles. Terminou o desabafo. A noite já ia alta. As crianças já dormiam; Zuzu ainda não. Ela leu atentamente o desabafo do marido, curtiu o post.

Por Ricardo Novais

Consultório médico


Leitor, já teve saudade do passado? Mas não falo da depressão advinda da contemplação da vida alheia. É uma saudade imaginária, tão imaginária que se torna real.

Quatro horas da tarde, sol. Uma bela tarde. Encontro minha mulher. Ela é gostosa, mas não sei se ainda gosto dela. Às vezes, a companhia de alguém é melhor do que estar sozinho; concorda? Quem está sozinho está sempre em má companhia.

- Juliano? Você está atrasado, meu!

Um grito alto, eu não disse nada. Naquele momento, eu estava de saco cheio. Foi difícil sair mais cedo do trabalho para ir ao maldito médico que atestaria minha filantrópica herança ou minha desgraça eterna: um filho. Os ginecologistas são os humoristas da medicina, reduzem nossa vida ao deslumbramento e retiram, habilmente, o dinheiro do nosso bolso.

- Deite-se com a barriga para cima, dona Adriana. – disse o ginecologista rindo, mecanicamente, e dirigiu-se para o radiologista. – Vamos já fazer os procedimentos...

Enquanto uma enfermeira melecou todo o ventre, o casulo do bebê, com um gel de aspecto plástico e o radiologista ajustou o aparelho de exame ultrassonográfico, Adriana não parou de falar. Perguntou o que eu achava da gravidez, se estava tudo bem comigo, o que eu estava sentindo, se eu preferia menino ou menina, se eu estava feliz, com medo, se seríamos bons pais; um humor melancólico se apossou de mim. Posso dizer que sim, leitor, eu queria ter um filho com aquela mulher, e, no entanto, não gostava da ideia de ter um filho. Não me aproximei, sequer segurei a mão de Adriana. Não a amparei naquela sala. Fiquei a olhando observando a certa distância, sentado em uma cadeira ordinária de consultório médico. Ela tornou a puxar conversa, sorriu; eu devolvi o sorriso, sem dizer palavra. Não que eu seja tão frio às emoções maternas e aos cálculos da vida, senhor leitor e dona leitora, mas tinha vontade de ir embora, sair correndo.

Acabou. Não deu para ver nada no monitor do aparelho de ultrassonografia além de um imenso pensamento escuro que se mexeu frenético e misteriosamente. O passado tomou conta de minhas entranhas e parou no estômago. Cena em câmera lenta, a angústia de pensar no futuro... Mas, ora!, caro leitor, pensei errado. Refaço o pensamento e percebo que o futuro é o único lugar onde nossos negócios prosperam e nossa felicidade é assegurada; concorda?

Adriana falou, falou, falou; e não me ouviu. O tédio descrito por Flaubert pode ser isto, uma aranha que tece sua teia nos cantos do coração e não ouve ninguém. Saímos pelo complexo hospitalar, fomos jantar no restaurante do centro da cidade. Jantamos bem. Paguei a conta. Entramos no carro. Vinte quilômetros de ideias desconexas depois, chegamos em nossa casa. Caminhamos em silêncio. Em seguida, ela voltou a falar contente. Sentamos no sofá da sala de estar. Olhares reflexivos que bateram na parede e voltaram fez um assovio assombroso no ambiente. Um ano e três meses de casamento, minha amiga leitora. Um ano e três meses... Que apatia da vida! O ânimo de viver tem certas abstenções.

Quando eu tinha dez anos, meu pai me perguntou o que eu queria ser quando crescesse, eu não soube lhe responder. Talvez eu quisesse ser astronauta, jogador de futebol ou um homem rico. Percebo que eu só precisava de uma máquina do tempo. Se eu pudesse voltar ao passado jamais retornaria ao futuro, muito menos ao presente.

- Eu te amo, Juliano!

- Também te amo, Adriana!

- Amor? Vou ligar para mamãe e dizer que vamos ter um filho...

- Não ligue! Vou pedir o divórcio.

Ela chorou, foi para o quarto e dormiu. Eu bebi três ou quatro doses de uísque vagabundo sem gelo, fiquei assistindo televisão até quatro e pouco da manhã, e, sobriamente, faltei no trabalho. Pedi demissão, larguei minha casa e fui morar em um flat alugado. Deixei o presente por causa do passado. E que laços irônicos faz a vida, meu caro, que dá certos nós no pretérito do destino decidindo a sorte em uma sala de consultório médico; se ao menos fosse em um bilhete de loteria... Do futuro, meu filho já tem quatro anos.

Por Ricardo Novais

Deus perdoa

Paulo, o primeiro dos missionários. Foto Rafael Gomes.

Casei com um homem mais velho, bem mais velho. Casei por interesse. Minha mãe foi a única pessoa que ficou feliz; meu pai me perdeu por causa de dívida, dívida com a máfia italiana ou da roça mesmo. No Brasil é difícil saber de onde vêm as pessoas, somos uma família de expatriados.

Nasci em um sítio perto de Campinas. Aos 9 anos incompletos, fui morar com uma irmã mais velha na cidade. Terminei meus estudos regulares e então me mandaram para São Paulo. Até os 22 anos de idade eu tinha uma vida muito extravagante, dava para caras endinheirados por muita grana e morava bem em um apartamento da Alameda Lorena. Eu era bonita, muito bonita.

Paulo Roberto era velho, muito velho. Amigo de família, lá dos tempos da roça, um dia ele veio em casa e jogou uma maleta com oitocentos mil reais na mesa de jantar e um contrato de casamento. Meu pai estava junto com ele.

- Minha filha querida...

- Saia, papai! Paulo, fique.

Desde então, fiquei ainda mais bonita; Paulo Roberto, ainda mais velho. Meu pai, morto. Graças a Deus. Ele perdia muito dinheiro. Em seu leito de morte, a alma de papai foi pesada em menos de 21 gramas. Minha mãe também já morreu, morreu feliz. Paulo Roberto foi amante de mamãe, talvez por isto ela sabia que ele me faria feliz.

- Emanuelle, meu amor será teu escravo.

- Sim, estou protegida ao seu lado. Obrigada.

Tenho um filho. O filho é do Edu, mas Paulo Roberto pensa que é dele. Que velho burro! Várias vezes ele já me pegou na cama com outros homens e até mulheres, mas só diz: “Deus perdoa”. Paulo não é Deus, é meu pai biológico.

Deus não joga dados fora, diria algum leitor com ares de cientista. Eu acredito em Deus. Por isto não tenho remorso de nada, Deus perdoa tudo. Eu posso trair, enganar, roubar; Paulo pode trair, enganar, roubar e até matar; Deus perdoa, e isto é tudo.

A minha vida é muito boa. Sou uma mulher de 33 anos que não conhece varizes nem limite de cartão de crédito. Encontrei a partícula de Higgs, não vou à igreja, ouço Alice in Chains e tenho hora marcada na sessão de yôga toda manhã. Quando Paulo Roberto morrer, vou abrir uma rede de academias de ginástica.

Por Ricardo Novais

Toque de recolher

Foto de arquivo: AE/Estado.

Noite passada, bebi tanto que mal conseguia reconhecer meu amigo Macedo no meio da balada. Era um bar de rock, mas só eu estava bêbado. Gostava mais quando os roqueiros chapavam o coco ouvindo intermináveis solos de guitarras e bebendo uísque americano, mas essa nova geração ouve a expressão “chapar o coco” e pensa que é fazer chapinha no cabelo... Bando de maricas! Ah! Não torça o nariz, amigo leitor com gostos melódicos... Ora! Então, tornemos à noite.

A noite foi passando rapidamente, embora parecesse eterna; igual visão entorpecente que se tem da janela de avião, em viagens aéreas no início da manhã ou final da tarde, vendo as nuvens infinitas e preguiçosas do paraíso. Torpor do inferno! Contudo, meu caro, nem todo conto segue o ritmo que os leitores desejam, alguns têm as letras grafadas pelas mãos excitadas dos personagens que os escancaram; é o caso do conto desta página. Pois um evento mudou o curso desta viagem noturna: eu briguei com um garçom e com duas mulheres, eram umas groupies que tínhamos pagado uns drinques – isto causou muita irritação no Macedo.

Ora, ora, amigo que me lê, não tire ainda conclusões; deixe-me explicar. Ocorre que o garçom, ainda no meio da noitada, veio-me trazer a conta – muito cara, por sinal – sem que eu a tivesse solicitado; além disto, desconfiei que não tivesse consumido tudo aquilo que me acusava a comanda. Sim, leitor; bati nele. Foi uma briga dos diabos. Macedo e eu, saímos da balada. Sim, está certa, amiga leitora com dons de cartomante; fomos expulsos. Eu, cambaleante; o Macedo, irritado com todo o tumulto que causei, ele olhava-me de canto e cerrava os punhos. Comecei a mijar atrás de um poste filosofando a esmo; logo, concluí do meu mais elevado pensamento filosófico: esta cidade é toda mijada.

- Porra, Henrique! Vamos embora, cara. Vamos logo... – Macedo deu muitos gritos secos, chamando-me. Ele já estava dentro do carro, então tive que despertar de meu transe etílico quase metafísico.

Já, estávamos em um bairro distante. Paramos em frente a um carrinho de cachorro-quente, dez ou quinze quilometros depois de começarmos a rodar asfalto adentro. Era uma hora da manhã, talvez menos. Sentamos em uns bancos de plástico branco, eram uns banquinhos bem vagabundos; o Macedo, entortando todo o banco com o peso, começou a me dar um puta esporro.

- Henrique, você é foda, cara. Por que você xingou as minas lá no bar?

- Ah, cara, eram duas putas velhas... – comecei a me explicar, ele interrompeu com impaciência.

- Você é doido?!

- Eram duas putas, cara... Nem queria mesmo...

- Velho, na boa... Você é imbecil, cretino! Elas iam dar pra gente, seu burro!... – O Macedo estava engasgado comigo, mas ele parecia uma sardinha enlatada sentado naquele banquinho ordinário. – Henrique... Cara... Você é burro, meu! Porra, velho! Burro! Seu burro!

- Meu...

- Putz! Burro! Putz!, meu...

Perdoe-me se o diálogo lhe parece trôpego e entediante, leitor, mas é que tenho que reproduzi-lo; menos por sadismo que pela verossimilhança. Contudo, tenha por certo que cortei boa parte dos soluços em forma de palavras desta conversa; perceba, meu caro, como lhe tenho consideração; fosse outro autor dizia tudo, ou nada.

Sem maiores digressões, conto-lhe que, depois de alguns segundos eternos de debate, manifestei-me com energia, embora aditivada pelo excesso de álcool:

- Macedo, você que é burro, cara!... Sic... É estratégia... A minha estratégia foi... Sic... Cara... Foi uma estratégia, c***!... Entendeu?

- Quê?

- Se não pegássemos nenhuma mina lá dentro, tínhamos as duas coroas de sobra... Sic... Entendeu? Estratégia, cara...

O Macedo nada disse, pareceu-me confuso tentando entender com sinceridade ébria se tudo não havia mesmo passado de um plano, calculado, uma estratégia; e as estratégias nem sempre são bem compreendidas, como bem sabe a dona leitora; mas percebi que poderia ter sido um erro ou, ao menos, ter sido um ato de equívoco fútil; mas e tu, amigo, sabes como se busca a perfeita estratégia?

- É, cara, acho que fiquei meio bêbado; né?... – eu perguntei a ele em tom de retórica, resignado. – Daí não deu certo, cara... E ainda sujei meu tênis novinho... Puta merda! Meu tênis... Ah, mas... Foi mal, Macedo... Desculpa aí, cara...

- Henrique, meu... Seu burro! Ah, velho, vai se f***, vai...

Macedo virou a cara, abriu uma lata de refrigerante e deu uma mordida com raiva no cachorro-quente. Tornei à reflexão ébria, em silêncio. Comecei a olhar para os caras que também tinham parado para se recuperar da balada comendo um dogão naquela barraquinha escura, suja e esquisita, igualmente sentados naqueles banquinhos vagabundos de plástico branco – mas era um bairro todo vagabundo frequentado por todos os vagabundos da cidade; e era um lugar feio, escuro, emporcalhado, até meio sombrio, quase macabro – gente feia como o diabo, pareciam as capivaras que vivem nas margens do Rio Pinheiros. Um deles, de óculos, calçando um tênis diferente do meu, embora também fosse branco; só que o dele era pirata... Cabritão mesmo! Não entendi, esse cara ouviu toda a nossa conversa e ria discretamente. Eu o mandei tomar no c*, o cara não disse nada; era estranhamente discreto, e muito feio e mal vestido com uma camiseta vermelha remetendo a algum grupo balofo de rap da periferia, e aquele tênis branco... Tênis do Paraguai. De repente, amigo leitor, eu resolvi que era tudo culpa do prefeito, governo, presidente, do papa, desta cambada de filhos-da-puta que escolhemos para nos ditar regras e chateações.

- Quer saber? Meu, vou enfiar esta salsicha no rabo do prefeito da porra desta cidade... – esfarelei o cachorro-quente todo, retirei a salsicha do pão a levantando no sereno da madrugada, madruga também recém-chegada da noite. Aquela salsicha mole me parecia a espada da glória em uma batalha.

- Cala a boca, seu veado! – gritou o Macedo.

- Veado é teu pai, Macedo! – eu retruquei; todo mundo que assistia o meu espetáculo pós-balada e pré-ressaca ria alto, eles gargalhavam, divertiam-se a valer; exceto aquele cara feio, o dos óculos e tênis branco, este continuava apenas com um risinho irônico nos cantos da boca.

- Eu comi você, Macedo. Somos um casal agora, cara... – resolvi zoar o meu amigo de balada, e assim continuar realizando a festa dos cachaceiros. – Macedo, eu comi você, cara. Não é, Macedo? Seu veado, corno! Vou comer sua namorada...

Invés de me bater, o Macedo acabou com a minha diversão me dando outra diversão: comprou cerveja pra gente, ele pagou cerveja pra todo mundo. Foi uma algazarra de alegria e saudações, tapas nas costas, juramentos de amizade eterna e o diabo. O Macedo seria um grande cientista político, pensei. Por outro lado, a indiferença do cara de óculos, único a não se manifestar acaloradamente, embora tivesse aceitado sorrindo a cerveja oferecida na faixa, ainda causava-me profunda irritação – “Este filho-da-puta está rindo de mim... E por que ficou escutando a nossa conversa o tempo todo?... E esse tênis? Zé ruela do c***...”, eu me esforçava mentalmente para compreender o porquê do deboche discreto daquele quatro-olhos.

- Esses caras... – sai do transe mental e balbuciei entre soluços, por fim. – É tudo culpa do governo, certo?

Tirei outra vez a salsicha do pão do hot-dog, levantando-a no ar como a espada da glória, e declarei aos quatro ventos e sob a presença da lua escondida atrás da poluição noturna:

- Vou socar no rabo do governo! Vou socar no rabo do prefeito!

Levantei-me, embora estivesse ainda mais alterado, cambaleante, e enfiei a salsicha nas costas do cara de óculos – a minha intenção, leitor, era enfiar na bunda dele, mas eu estava tão bêbado que não consegui. O cara se levantou e me empurrou com violência; eu fui ao chão; e ele perguntou olhando para todos:

- Porra, por que vocês não estão em casa? – em seguida, fez uma citação: - Porra, irmão! Nesta cidade, 'Deus é uma nota de cem'. – Ele jogou os óculos fora, pisando em cima dos aros e vidros, quebrando-os, como se nunca tivesse precisado deles; depois colocou a mão na cintura e, por fim, gritou:

- É toque de recolher, seus vagabundos!

Foram muitos tiros, sinfonia da destruição. Logo pela manhã, à fresca, todos os jornais, sites, blogues, rádio e tevê noticiaram a maior chacina do ano na zona sul.

Por Ricardo Novais
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