Estratégia da Traição

Imagem de arquivo.

Noutro dia, à mesa de bar, línguas femininas afetadas pelo álcool me questionaram qual ser o pensamento masculino sobre a paixão enfática. Aqui não nada direi, absolutamene nada, acerca do que eu penso; até para não incentivar o leitor varão à promiscuidade e assim escandalizar a dona leitora, que me é tão querida. Questão de cavalheirismo do blogueiro.

Mas num esforço de memória, já que a gentileza é do autor com aquele que tem paciência para ler as enfadonhas linhas deste blogue, o que me deixa deveras contente e também barbaramente surpreso, transcreverei a seguir o diálogo que ouvi no botequim entre vozes sedentas. Advirto, entretanto, ao amigo leitor e, principalmente, à amiga leitora, que discutiu-se causa infidelíssima: estratégias de amar.

- Sabe, Bárbara; – disse um rapaz que já dava sinais claros de embriaguez –, incomodo-me muito e muito com algumas coisas que fazem... As mulheres... Quer dizer, por exemplo... Não sou contra ver a minha namorada encontrar o ex-namorado dela, mas me parece ter nisto algo a mais... Entende? Há coisa ali... Compreende? Eu sinto! Sinto! Putz, que droga! E.. E, além disto, tenho que ser sincero: fico puto por não saber por qual motivo ela havia traído o antigo marido... Sim! Ela já foi casada; você sabe, né? Acho que já te disse... Puxa! Por que diabos as pessoas enganam umas as outras, porra?

Mesmo falando deste modo engasgado, o rapaz, acredito que o nome dele era Cassiano, fez pergunta claríssima, por fim. Porém houve silêncio. Foi como se eles refletissem sobre o mérito da questão. Sem saber e nem obter tal resposta de sua amiga, ele olhou para ela, sentada à sua frente, naquele bar de mesas escuras como a noite, e resolveu reformular a pergunta; porém nisto acabou sendo ainda mais direto e incisivo, além de correr algum perigo:

- Você é uma pessoa experiente... E é mulher, porra! Então, eu me atrevo: por que diabo as mulheres traem?

- Ora! Como é que eu vou saber, Cassiano? Meu, você é idiota? Que ideia! Seria o mesmo se eu perguntasse: por que os homens traem? – Bárbara demonstrou ter ficado irritadíssima. Mas por enquanto, deixemos isto de lado. O tonto gaguejou:

- É... É...

- É ou não é?

- É; ué!

- Então?

- Caramba, meu! Aí é... Aí é comer churrasco grego na Praça da Sé; né, porra? Você entendeu a pergunta! No seu ponto de vista, Bárbara... Quer dizer, qual o ponto de vista feminino sobre a traição?

Ela nada disse. Refletiu, olhou para o seu interlocutor com certo desdém e, por fim, sem muita convicção, constatou não poder arrumar um ponto de vista de tal assunto. No entanto, como se entendesse a angústia do outro, esforçou-se por engolir o pouco-caso e se lembrou de um exemplo familiar:

- Veja.... Eu acho que não há conceito sobre traição, infidelidade... Bem, o que ocorre são situações; cada um tem lá algum motivo para cometerem certas atitudes ou para fazerem algumas coisas que entendem que devam fazer, em algum momento... – Bárbara olhava para ele, falava-lhe com afetividade, com carinho que atenuavam a opressão residente na infidelidade. E continuou caçando alguma resolução para aquela questão insólita. Pobre mocinha!  Eu tinha uma prima, lá da Itália, que foi assassinada pelo marido. Foi caso de infidelidade, sabe... – ela parou de falar novamente e iniciou uma recordação confusa, ainda mais melancólica que entregava a intimidade de boêmios habituais. Era relato trágico de adultério acontecido em família de Terzigno da Campania:

- Pois muito bem – Bárbara sobressaltou-se. Verdade que na região da minha família é inadmissível este tipo de comportamento... Traição. Ocorre que este episódio calamitoso com minha prima, não é único... As minhas tias e avós, principalmente quando não tão maduras, traem...

- Hã? Você também? – esta pergunta feita por Cassiano soou como troça. Ela respondeu com ironia:

- Ainda não casei, queridinho; mas... certamente serei viúva! Bobo, deixe-me contar... Lá na Campania as pessoas se relacionam pela emoção, paixão, mas, no fundo, são todas peças de um jogo de xadrez. Os peões são os primeiros a serem sacrificados, o cavalo cruza a tabela tentando salvar tudo, as torres morrem pela rainha que acaba por deixar o rei sozinho levar o xeque-mate... A primeira coisa, no entanto, é ser bom estrategista.

Ela sorria com volúpia iluminada e solércia inevitável:

- Meu bem, – Bárbara o jogou um olhar malicioso e ao mesmo tempo piedoso  por que estou dizendo isto? É que, torno a dizer, na minha família, claro que homens não participam dessas conversas... Claro, claro! Mas lá costumam dizer as donas mais velhas, mais experientes; se é que você está me entendendo; que a traição é a compensação de uma vida regrada de uma esposa devotada... Cassiano, você está entendendo mesmo o que estou a...?

O entretido fez sinal que sim, embora estivesse de fato entrado com os dois pés em estado de súcia boêmio. Ela pareceu sopesar mentalmente a própria narrativa, em seguida suspirou muito profundo. Por um instante mais suspirou e, apenas depois deste ritual compenetrado, recobrou a fala galante e peculiar:

- Cara! Meu! Eu tinha uma tia, também lá da Itália, que comparava o comportamento infiel com uma dieta alimentar; destes regimes que todas as mulheres fazem desejando muito emagrecer um pouco que seja... É aquela coisa de ter um corpo perfeito, bonito... Porcaria de ditadura da saúde, onde tudo tem de ser saudável, e a puta que p... Né? – Bárbara já sorria por afetação. – Ela dizia – recobrou-se um pouco e continuou na espoliação mental  que para perder dez quilos, deve-se ficar seis meses comendo alface no café da manhã, no almoço e no jantar. Assim, mocinho, é coisa muito justa nos galardoarmos com belas lasanhas...

Cassiano achou graça no resquício do raciocínio bafofo que ele conseguiu assimilar:

- Lasanha?!

Eco! Isso quando não se consolar também com ravióli, calzone e, até, com uma maravilhosa feijoada... – asseverou Bárbara barbaramente, e galhofando com vontade. – Está vendo, meu bem, às vezes as traições são compensações de uma vida infeliz, noutras vezes são afirmações pessoais ou ainda podem ser simples experimentos de sexo... Olha, a questão sexual sempre se sobrepõe à questão amorosa... O lascivo, promíscuo é prazeroso... Enfim, a mulher é humana! O homem é humano! Todos querem sexo, e todos erram... Não importa o motivo; quando você engana alguém, engana-se também. Mas quem não se engana?! É... Quem não se enganou ao menos uma vezinha sequer na vida?! Não é mesmo?

Perceba, meu estimado amigo leitor e também a minha tão querida e adorável amiga leitora, aqueles dois jovens, com a ajuda do uísque, falavam de fato era sobre as estratégias do jogo de xadrez. Xeque-mate!

Por Ricardo Novais