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Arte da bola

Seleção Brasileira de 1982: Depois de 30 anos, reconhece o craque Fagner entre teus ídolos, torcedor?


O apagar das luzes no estádio é a sentença para as redações esportivas. Paloma, dezenove anos completos, estagiária do jornal Arte da Bola, precisava de uma pauta que efetivasse seu contrato na empresa. Não bastava entrevistar algum craque do momento ou escrever um artigo sobre o Barcelona, tinha que ser diferente. O velho jornalista do caderno de esportes, Carlos Nogueira, surgiu entre o burburinho da redação e a salvou.

- Você tem que ir atrás do Fagner, menina. Ele está passando por maus bocados; falido, quase na miséria... Manchetona, hein: "Craque boêmio derrotado pela vida". Que tal?

- O senhor é engraçado, Seo Carlos.

- Oh, minha filha! - exclamou ele rindo. - Não quer decolar sua carreira?

Fagner, ex-jogador da lendária Seleção de 82, metido a galã, entre jogadas memoráveis do esporte bretão, torrou rios de dinheiro nos gramados do mundo com sexo, carrões, sexo, festas, sexo e... sexo. Nunca existiu pecado. Todos os garotos queriam ser Fagner nos anos oitenta, todas as meninas queriam dar para Fagner nos anos oitenta.

Paloma percebeu que sua chance era contar a vida do grande ídolo do passado, que caiu no esquecimento colossal do presente e na miséria inapelável do incerto futuro; coisas do vestiário eterno, ironia da vida pública. Mas havia um problema: onde encontrar Fagner? Outra vez a raposa das redações lhe entregou o mapa:

- Vá à Rua Paolo Rossi, nº 20; procure o Pestana.

O lugar era um pé sujo na periferia de São Paulo. Pestana era um velho com a barba por fazer e cara de tarado, conhecido também como “Buk da Copa” ou “Velho Paulista Safado”.

- Cinquenta reais só para começar a falar, minha filha.

O bar tinha mesas e cadeiras pintadas de um amarelo enferrujado, embora o balcão fosse de uma maciça madeira marrom muito escura. A cerveja foi servida no balcão, em copo americano não muito limpo.

- Vamos direto ao lance, meu; digo, ao assunto; onde mora o Fagner?

- Aqui perto...

Paloma deu um gole na cerveja gelada e bateu uma nota de cem reais na madeira maciça. Desculpe o trocadilho, leitor, mas Pestana a pegou sem pestanejar, coçou a barba encardida e sorriu mostrando todos os dentes podres:

- Venha!

Eles entraram no carro; Paloma teve medo, mas dirigiu cinco ou seis quilômetros por uma avenida ilumina apenas pelo farol do automóvel e da própria alma; Pestana, o velho “Buk Paulista”, há muito já não tinha mais alma nenhuma. Primeiramente, casinhas com tijolos baianos aparentes eram a paisagem, depois a coisa ficou pior; vultos sem rostos por todas as esquinas. Numa ruela, Pestana mandou parar. Paloma hesitou, Pestana ordenou com veemência:

- Desce, porra! Não queria vim, meu? Desce logo dessa porra de carro. Desça!

Desceram ruela abaixo. Depois, pé ante pé numa viela molhada pela garoa, chegaram numa casa velha, embora grande e com ares de relíquia.

- É aqui. O homem mora aqui com a mulher e o filho caçula. Acho que a primeira mulher dele morreu tem uns vinte anos, essa deve ser já bem a quarta ou quinta... O homem gosta da coisa, conheço bem... - ele gargalhou baixo. Um quarto de minuto depois, quis ir embora.

- Espera... - Paloma disse tentando segurá-lo.

- Espera porra nenhuma, cazzo. Dá uma olhada em volta, minha filha, está cheio de neguinho querendo de comer. Vamos embora logo, porra! Senão vou ali pegar o busão e te deixo aí para o Paulão... Olha lá o Zelão também... Aposto que os caras querem te dar um trato...  - Vendo que a moça nem ouviu o que ele disse, Pestana fez uma pequena pausa para respirar profundamente e esbravejou: - Porra! Você está ouvindo, caralho? Esses negões ali, ó, minha filha, são zagueiros do Estrela Vermelha, o maior time de várzea da cidade cheios dos maiores marginais, os mais nojentos... Daqui a pouco eles vêm aqui cobrar a gente, cazzo! Vamos embora logo, porra!

Assombrada pela situação, Paloma chegou a seu apartamento na Vila Mariana e sorriu de nervoso: Que matéria! Mas, ao mesmo tempo, pensou em como podia ter acontecido aquilo? O grande Fagner... O cara foi um ídolo... Ídolo da Seleção... Porra, da Se-le-ção! Instantaneamente, lembrou-se da frase dita entre boleiros: “A bola pune”.

Em três meses, Paloma era redatora-chefe do Arte da Bola e amante de Fagner. Todas as noites os dois se encontravam no antigo Banespa e de lá iam ao motel das estrelas. A mulher de Fagner desconfiava, mas sabia do gênio imponderável do marido.

- Vai sair, amor? – perguntava Stella.

- Vou. Não me espere, chegarei tarde.

Maria Stella não devia ter ainda trinta anos de idade, mas já tinha vivido sua vida inteira. Em meados dos anos noventa, ela foi tiete de Fagner quando ele retornou endinheirado dos Emirados Árabes depois de vencer o campeonato local pelo time do Sheik Abdala do Samba, apelido do cartola do clube que era fã do futebol brasileiro. No regresso, Fagner jogou na Portuguesa de Desportos; e, aos trinta e cinco anos ainda era um craque. Isto fez o Flamengo se interessar pela sua contratação, mas no clube da Gávea, um bairro tão excêntrico, Fagner apenas encerrou definitivamente a carreira.

O último jogo de Fagner foi uma noite de gala. Ele não jogou. Entrou todo uniformizado, rubro-negro, e deu uma gloriosa volta olímpica no velho Maracanã, templo sagrado, sendo ovacionado por milhares de geraldinos e arquibaldos, conforme consta nos arquivos do Arte da Bola.

Stella engravidou rápido, e Fagner tinha muito respeito pela paternidade; princípio de família que o domava. Pediu a mão de Stella, embora isto já fosse fora de moda, durante uma festa em Petrópolis. Dizem que nesta festa havia coelhinhas da Playboy, muito uísque de Asunción e anões pervertidos que saiam de grandes caixas de papelão – sim, dona leitora, concordo; se existiu tal fato, foi a visão do inferno... 

Casaram-se no Rio, onde as traições eram constantes; mas Stella deu um jeito de regressaram a São Paulo, simulou um sequestro relâmpago nas sofisticadas ruas da Barra da Tijuca, onde moravam à época. Fagner ficou com medo, malandro que é malandro respeita a seriedade de homens maquinados. 

Morando já na casa grande e velha com ares de relíquia, no extremo sul da capital paulista, Stella pensou que Fagner tinha pendurado as chuteiras boêmias, até que apareceu Paloma. A coisa foi ficando séria, e ela percebeu que tinha que acabar com aquilo logo, rápido e súbito; foi ter com o marido.

- Fagner, não ligo que você tenha seus casinhos com essas maria-chuteiras, vagabundas, mas agora é diferente... Temos que dar o golpe nesta vaca e nos livrarmos dela.

- Está louca, Stella?

Fagner gostava espontaneamente de Paloma, quase que poderia até ter a amado. Tê-la. Amado. Ela o fazia se sentir ídolo, ídolo vivo. Às vezes, leitor, recupera-se alguma vida na vida dos outros. Tudo é o primeiro raio que gera o primeiro sopro de vida, o resto é o resto, ou nada; embora, muita vez, o nada é toda a boa-venturança dada por Deus. Mas deixemos de tanta firula que o jogo está duro e em andamento; perdão pelo passe errado, companheiro leitor; tornemos logo ao conto.

Paloma era esperta, embora muito jovem. Quando percebeu que corria perigo, recorreu outra vez à velha raposa paulistana, o insuperável Carlos Nogueira. Marcaram encontro às onze horas e quarenta e cinco minutos da noite no galpão de armazém abandonado do centro da cidade dos violentos. Assim que estacionou o carro na Alameda Sarrià, avistou a tragédia. Tragédia do Sarrià. Nogueira a esperava; ao entregá-lo uma grande bolsa de couro com duzentos mil reais dentro, consumou-se a tragédia: Paloma recebeu três tiros de revólver, pelas costas, todos na nuca.

Peço-te desculpas, leitor amigo e torcedor, não tenho como contar aqui detalhes dos dedos que apertaram o gatilho do maléfico revólver; também eu tenho medo das tragédias e zelo pelo time da vida contra a morte anunciada. Mas, ora, não é tão difícil assim imaginar como a jovem Paloma morreu e como deixaram o seu corpo desfalecido jogado no pátio do armazém às ratazanas. Digo apenas que não foi o jornalista quem atirou nela porque os que escrevem não sujam as mãos com pólvora, e em verdade a pólvora até limpa a mente de alguns autores; no mais, posso dizer também que os assassinos fugiram em segundos, como esquema tático impecável. A vida é mesmo uma arte da bola.

No bar do Pestana, Nogueira sorveu a cerveja, desta vez não tão gelada, do copo americano sujo e entregou uma outra mala, preta, pequena e de vinil, a Fagner. Depois tirou de outra bolsa um par de chuteiras e as pôs sobre o balcão de madeira:

- Estas são as chuteiras de 82, meu amigo; estou as devolvendo ao campeão.

- Um brinde aos craques da bola... Melhor, a todos os ídolos deste país! – Pestana levantou o copo sujo no ar empesteado pela fumaça do cigarro vagabundo, e concluiu: – Somos geniais e desprezíveis, ao mesmo tempo.

- Porra, Buk! – Nogueira o repreendeu em tom de brincadeira. – Cala tua boca aí e vamos beber, meu, vai. Pelo amor de Deus!

Todos riram, e beberam. Fagner ficou um bom tempo namorando as velhas chuteiras como se tivesse reencontrado o grande amor do passado. Já Stella deu pulos de alegria ao ver o marido chorando com as chuteiras nas mãos; nem toda Maria é chuteira, e nem todo campeão vence.

Por Ricardo Novais

A visão de Ezequiel

A visão de Ezequiel, 1518, Rafael.

Conheci-a num cinema decadente da São João. Eu ia pela minha procura perene do novo coração, ela só queria algum espírito disposto ao amor fugaz pago a crédito. Mas nos apaixonamos, perdidamente. Fomos morar numa esquina bem ordinária da São João; aluguel barato, de cômodo pequeno que perfazia toda a casa. Todas as manhãs eu sorria debilmente ao ver Mirella deitada na cama. Não imaginas, leitor, qual deleite se apoderava de minha tola alma ao vê-la seminua e quase coberta pelo velho lençol creme que se encaixava impecavelmente ao seu corpo formoso, insinuante e aventureiro. Nenhuma luz a deixava mais bonita que aquela hemorrágica iluminação vinda do abajur vermelho do nosso quarto impudico. Quarto da lascívia. E nenhuma vida poderia ser mais feliz que a dúvida universal advinda da luxúria...

- Ai, Ezequiel, você é muito ciumento, queridinho... Não! Não quero nada! Não me cobre nada! Traz uma vodca pra mim; pura, dupla!...

Quando Mirella arranjou o primeiro amante, tratei logo de quitar toda a locação. Percebi a doença crônica, incurável. Libidinosa. Mudamos para sobradinho modesto na zona sul. Vida não menos libidinosa. A Vila da Paz trouxe-me esperança, mas não tinha esgoto nem água encanada. Três meses, já estava eu arrendando qualquer imóvel do outro lado de qualquer avenida por causa das recaídas de minha querida. Enfim, não a larguei ao bel-prazer dos amantes... Grande era meu sofrimento, mas não desesperei nem desanimei. Fui reconstruir o amor por todos os cantos deste mundo. Sim, a solução era a mudança eterna; e mudar é viver! Moramos na Avenida Nove de Julho, Rua Santo Antônio, Rua Formosa, Praça Central, Praça dos Correios, Carlos Gomes, Mário de Andrade, Dona Veridiana, Consolação, Avenida São Luiz, Rio Branco, Duque de Caxias, Ipiranga, novamente São João, outra vez mais zona sul, Santo Amaro, Largo Treze, Pinheiros, de lá à zona leste, norte, Santana, Tietê, Jaraguá, novo regresso à íntima São João; em cada casa, novo fracasso. Pouco tempo, ainda habitamos cortiços no Bexiga, Baixo Paraíso, Conselheiro Furtado, Glicério, Brás, Rua do Desterro.

Minha vida estava ungida à dedicação daquela mulher extensa, larga. Rainha da cidade, madrinha do Continente. Entretanto, ao avistá-la de longe saindo da Igreja N. S. da Conceição agarrada ao homem de preto às últimas badaladas da noite, aceitei à visão do Juízo Final. Disparei seis tiros de revólver na puta. O amor jorrou diante do altar. Olhei para o rosto tépido do sacerdote; ele deu-me a benção dos enfermos. Às vezes o próprio corpo clama por alguma alma... Fiz o sinal da cruz e saí por aí, em busca do novo coração, aliviado, a assoviar o bálsamo do regojizo, a rasgar as últimas e primeiras lembranças, entre as quadras sujas e indelicadas da São Carlos do Pinhal em direção à Rua Augusta.


Por Ricardo Novais
Conto publicado originalmente na revista literária O Bule

Shopping center

Medusa, Caravaggio, 1597.

Era uma música violenta e obscura com imagens em câmara lenta. Foi um balé de Tchaikovsky. A praça de alimentação de um shopping center às nove da noite foi o cenário. Um boné camuflado me dava a condição de investigador de meu próprio crime, os pensamentos passavam pelo córtex cerebral deixando-me todas as pistas. 

De repente, surge ela. Acenou a um, a outro e dirigiu-se ao restaurante da praça de alimentação. Eu, boquiaberto. Observei-a chegar e fazer os primeiros movimentos, a intimidade me assustou.

Fiquei paralisado por bastante tempo, pregado à cadeira padronizada. As ideias não mais acompanhavam o compasso do coração, tudo em mim era dúvida... Dúvida estarrecedora! Cecília ria com gosto de alguma trivialidade que lhe contavam; de longe, eu mal podia vê-la mostrar o espírito alegre e zombeteiro. Não sei quanto tempo se passou entre o primeiro cometimento da aparição, quase surpreendente, daquela mulher em minhas retidas incrédulas e minha tocaia mais aguda e calculada. Sei que quando minha vítima, ainda sorridente, apontou ir ao banheiro daquele shopping center trivial, num impulso só, levantei-me e corri. Corri no sentido oposto das vitrinas repletas de roupas vazias e marcas incipientemente dispendiosas. A passos largos, parei numa esquina de vidros e espelhos irrefletidos. Eram dois corredores balofos como os pensamentos imprudentes, pulsantes como veias cheias de sangue da juventude em seu breve temor de artérias. Esperei, esperei, esperei. Esperei alguns minutos eternos. Cecília, inocentemente, saiu do toalete feminino e deu de cara comigo. Que surpresa!

- Pedro! P... Que você está fazendo aqui, seu louco?!

- Meu!... Putz, eu não acredito que você está me sacaneando... Filha da p...!

- Pare com isto, seu louco! Vá embora!... Vá embora daqui, agora! Não combinamos apenas amanhã? Louco, doente!

Cecília jogou em mim olhos de Medusa, talismãs da ira, exasperados e arredios, ao mesmo tempo. Toda ela tremia. Eu, nem olhos mais eu tinha – era todo cego. Ponto cego entre espelhos que nada refletiam – a não ser dúvida por todos os lados. A suspeita era tanto menor que a confusão causada. Veio o segurança do local, pediu-nos para que fôssemos embora. Não saímos, queriam expulsar-nos. Não expulsaram.

Saí afobado, Cecília veio atrás dizendo-me louco, louco, louco. Não lhe dava mais ouvidos. Apenas tornei e perguntei-lhe:

- Ele sabe?

- Não sabe nada, vá embora!

- Ah... Vou lá então falar tudo, tudo! Vou lá contar para ele quem você é de verdade...

- Você está doido?!

Também não fui falar nada a ninguém; conto apenas agora, a ti, leitor. Atravessei toda a grade de ferro escuro do estacionamento daquele maldito shopping center e parei em frente ao meu carro, sem conseguir abrir a porta. Finalmente a abri, mas não entrei no automóvel – refúgio único que poderia ter-me salvado. Não salvou. Cecília estava atrás de mim, quis dizer-me algo:

- Pedro...

Não escutei. Girei nos calcanhares do sapato ordinário e dei-lhe um tapa no rosto. Não foi forte, nem fraco. Foi um estalido desonroso. Não a olhei na cara. Entrei no carro e saí a toda velocidade permitida pelo coração, ainda por ouvir o pequenino ruído agudo da minha mão desferindo na pele alva e delicada de Cecília um gesto amoroso. Jamais consegui livrar-me deste estalido de ideias impulsivas em meus momentos de reflexão capital, jamais consegui saber se ela me amou antes daquele dia. Depois que nós nos casamos, carregando nossos próprios cadáveres às costas, não me atrevo a perguntar-lhe nada mais sensível que a conta de fim de mês.

Por Ricardo Novais

Estratégia da Traição

Imagem de arquivo.

Noutro dia, à mesa de bar, línguas femininas afetadas pelo álcool me questionaram qual ser o pensamento masculino sobre a paixão enfática. Aqui não nada direi, absolutamene nada, acerca do que eu penso; até para não incentivar o leitor varão à promiscuidade e assim escandalizar a dona leitora, que me é tão querida. Questão de cavalheirismo do blogueiro.

Mas num esforço de memória, já que a gentileza é do autor com aquele que tem paciência para ler as enfadonhas linhas deste blogue, o que me deixa deveras contente e também barbaramente surpreso, transcreverei a seguir o diálogo que ouvi no botequim entre vozes sedentas. Advirto, entretanto, ao amigo leitor e, principalmente, à amiga leitora, que discutiu-se causa infidelíssima: estratégias de amar.

- Sabe, Bárbara; – disse um rapaz que já dava sinais claros de embriaguez –, incomodo-me muito e muito com algumas coisas que fazem... As mulheres... Quer dizer, por exemplo... Não sou contra ver a minha namorada encontrar o ex-namorado dela, mas me parece ter nisto algo a mais... Entende? Há coisa ali... Compreende? Eu sinto! Sinto! Putz, que droga! E.. E, além disto, tenho que ser sincero: fico puto por não saber por qual motivo ela havia traído o antigo marido... Sim! Ela já foi casada; você sabe, né? Acho que já te disse... Puxa! Por que diabos as pessoas enganam umas as outras, porra?

Mesmo falando deste modo engasgado, o rapaz, acredito que o nome dele era Cassiano, fez pergunta claríssima, por fim. Porém houve silêncio. Foi como se eles refletissem sobre o mérito da questão. Sem saber e nem obter tal resposta de sua amiga, ele olhou para ela, sentada à sua frente, naquele bar de mesas escuras como a noite, e resolveu reformular a pergunta; porém nisto acabou sendo ainda mais direto e incisivo, além de correr algum perigo:

- Você é uma pessoa experiente... E é mulher, porra! Então, eu me atrevo: por que diabo as mulheres traem?

- Ora! Como é que eu vou saber, Cassiano? Meu, você é idiota? Que ideia! Seria o mesmo se eu perguntasse: por que os homens traem? – Bárbara demonstrou ter ficado irritadíssima. Mas por enquanto, deixemos isto de lado. O tonto gaguejou:

- É... É...

- É ou não é?

- É; ué!

- Então?

- Caramba, meu! Aí é... Aí é comer churrasco grego na Praça da Sé; né, porra? Você entendeu a pergunta! No seu ponto de vista, Bárbara... Quer dizer, qual o ponto de vista feminino sobre a traição?

Ela nada disse. Refletiu, olhou para o seu interlocutor com certo desdém e, por fim, sem muita convicção, constatou não poder arrumar um ponto de vista de tal assunto. No entanto, como se entendesse a angústia do outro, esforçou-se por engolir o pouco-caso e se lembrou de um exemplo familiar:

- Veja.... Eu acho que não há conceito sobre traição, infidelidade... Bem, o que ocorre são situações; cada um tem lá algum motivo para cometerem certas atitudes ou para fazerem algumas coisas que entendem que devam fazer, em algum momento... – Bárbara olhava para ele, falava-lhe com afetividade, com carinho que atenuavam a opressão residente na infidelidade. E continuou caçando alguma resolução para aquela questão insólita. Pobre mocinha!  Eu tinha uma prima, lá da Itália, que foi assassinada pelo marido. Foi caso de infidelidade, sabe... – ela parou de falar novamente e iniciou uma recordação confusa, ainda mais melancólica que entregava a intimidade de boêmios habituais. Era relato trágico de adultério acontecido em família de Terzigno da Campania:

- Pois muito bem – Bárbara sobressaltou-se. Verdade que na região da minha família é inadmissível este tipo de comportamento... Traição. Ocorre que este episódio calamitoso com minha prima, não é único... As minhas tias e avós, principalmente quando não tão maduras, traem...

- Hã? Você também? – esta pergunta feita por Cassiano soou como troça. Ela respondeu com ironia:

- Ainda não casei, queridinho; mas... certamente serei viúva! Bobo, deixe-me contar... Lá na Campania as pessoas se relacionam pela emoção, paixão, mas, no fundo, são todas peças de um jogo de xadrez. Os peões são os primeiros a serem sacrificados, o cavalo cruza a tabela tentando salvar tudo, as torres morrem pela rainha que acaba por deixar o rei sozinho levar o xeque-mate... A primeira coisa, no entanto, é ser bom estrategista.

Ela sorria com volúpia iluminada e solércia inevitável:

- Meu bem, – Bárbara o jogou um olhar malicioso e ao mesmo tempo piedoso  por que estou dizendo isto? É que, torno a dizer, na minha família, claro que homens não participam dessas conversas... Claro, claro! Mas lá costumam dizer as donas mais velhas, mais experientes; se é que você está me entendendo; que a traição é a compensação de uma vida regrada de uma esposa devotada... Cassiano, você está entendendo mesmo o que estou a...?

O entretido fez sinal que sim, embora estivesse de fato entrado com os dois pés em estado de súcia boêmio. Ela pareceu sopesar mentalmente a própria narrativa, em seguida suspirou muito profundo. Por um instante mais suspirou e, apenas depois deste ritual compenetrado, recobrou a fala galante e peculiar:

- Cara! Meu! Eu tinha uma tia, também lá da Itália, que comparava o comportamento infiel com uma dieta alimentar; destes regimes que todas as mulheres fazem desejando muito emagrecer um pouco que seja... É aquela coisa de ter um corpo perfeito, bonito... Porcaria de ditadura da saúde, onde tudo tem de ser saudável, e a puta que p... Né? – Bárbara já sorria por afetação. – Ela dizia – recobrou-se um pouco e continuou na espoliação mental  que para perder dez quilos, deve-se ficar seis meses comendo alface no café da manhã, no almoço e no jantar. Assim, mocinho, é coisa muito justa nos galardoarmos com belas lasanhas...

Cassiano achou graça no resquício do raciocínio bafofo que ele conseguiu assimilar:

- Lasanha?!

Eco! Isso quando não se consolar também com ravióli, calzone e, até, com uma maravilhosa feijoada... – asseverou Bárbara barbaramente, e galhofando com vontade. – Está vendo, meu bem, às vezes as traições são compensações de uma vida infeliz, noutras vezes são afirmações pessoais ou ainda podem ser simples experimentos de sexo... Olha, a questão sexual sempre se sobrepõe à questão amorosa... O lascivo, promíscuo é prazeroso... Enfim, a mulher é humana! O homem é humano! Todos querem sexo, e todos erram... Não importa o motivo; quando você engana alguém, engana-se também. Mas quem não se engana?! É... Quem não se enganou ao menos uma vezinha sequer na vida?! Não é mesmo?

Perceba, meu estimado amigo leitor e também a minha tão querida e adorável amiga leitora, aqueles dois jovens, com a ajuda do uísque, falavam de fato era sobre as estratégias do jogo de xadrez. Xeque-mate!

Por Ricardo Novais

Dilema dos Olhares de Aço


Senhor leitor e dona leitora, eu contarei uma pequena história de amor. Mas estou desconfiado de que as damas românticas lamentarão o final da trama e os cavaleiros valorosos se revoltarão contra o desfecho da aventura. Então, dei-me licença um instante, eu vou levantar um pouco da frente da escrita, esticar um pouco as pernas, indo à janela avistar a confusão da cidade, tomar um café, pensar um pouco na narração e em como proceder com ela. Já já retornarei...

Olá, estou de volta. Não demorei um nadinha, não é mesmo?

Já pensei sobre meu dilema. Como disse, eu estava tentado a mudar o curso da narração, porém, não seria justo alterar o rumo da prosa, isto não seria justo com vossa senhoria que me acompanha tanto por este pueril espaço virtual, fiel leitor e fidelíssima leitora. Custa-me contar, chega mesmo a embrulhar-me o estômago e virem dores à cabeça, mas devo ser leal a veracidade da história; por isto mesmo não posso, absolutamente, abster-me de dar desfecho a este caso de amor. Eu quis de fato sair à francesa, entretanto, não podendo, conto-lhes o que aconteceu... De modo que vamos à tormenta. 

Certo dia, um amigo veio ter comigo no escritório e intimou-me a irmos ao bar de esquina; havia algo a dizer.

- Pois diga, meu velho amigo!

- Olha, cara... Tenho uma coisa pra te falar... Eu considero você como o irmão que não tive... Sabe disto, né?

Assenti com cabeça estranhando. Ele continuou tartamudeando:

- Mas, por isto mesmo, preciso saber...

- Fale, rapaz... Fale de uma vez!

Ele não falou de imediato, pareceu reunir forças, depois manifestou apenas o título do capítulo ardiloso que ia tratar:

- É sobre Madalena...

- Ah, não! Esquece! Ô! Eu nem a vejo mais... Pra ser sincero, até que penso nela, às vezes... Certamente eu torço para que ela seja feliz, mas longe...

De fato, eu proferia estas palavras com pouca convicção, embora sorrindo insinuando despreocupação, quando fui interrompido:

- Espere! – disse o meu colega, muito afetado.

- O que foi que você está tão exaltado? – perguntei pulando da cadeira.

Compreendo que era difícil dizer, o pobre-diabo travava-se todo. Insisti com ele para que contasse de imediato, posto mesmo que eu já pensasse ter acontecido algo terrível à minha ex-namorada:

- Ela está bem? Aconteceu algo com a Madalena? O que foi? Fala logo, porra! – eu já esbravejava com ânsia sorvendo a cerveja.

De certa forma, era sim algo terrível:

- É que Madalena está...

Meu Deus, dona leitora! Este mundo em que vivemos ainda consegue me surpreender. Já disseram antes que o mundo todo está em todo mundo, mas há certas coisas que parecem vir de lugares muito escondidos, coisas ensaiadas que não vêm de logo ao conhecimento e ficam guardadas nas entranhas humanas. Porém agora é tarde para desistir de contar, se o café que tomei a pouco não estivesse tão frio... Bem, mas veja o que foi a mim revelado:

- É que... Madalena está comigo! Estamos juntos!

Às vezes, tudo que um homem quer é ter uma máquina com o efeito mágico de paralisar tudo, imediatamente. Porém, eu não tinha a tal máquina e empalideci na mesma hora, sem mais saber articular palavra. Não pense que era porque eu não conseguisse falar ao meu amigo, na verdade até quis, mas o engasgo na traquéia me atrapalhava. O coração galopava dentro do peito, já no quadrante seguinte percorreu-me algo por incertos caminhos dentro do organismo. Assim, tudo naquele momento me afetou as ideias. Confesso que em meio aquilo que ali ouvi só consegui gravar duas palavras do que meu desgraçado amigo pronunciou: “Estamos Juntos!”.


- Estão juntos? – eu ainda balbuciei.

- Estamos juntos! – ele confirmou.

Não! Eu não o achei desleal, sobremaneira; após alguns minutos de recuperação, declarei meu beneplácito. Mas fiquei prostrado com a notícia. Não culpei ninguém. O país é livre! Meu maior amor nesta vida se apaixonou pelo meu melhor amigo, qual este já dissera também, em oportunidade, ser eu o seu melhor amigo. Contudo, nem mesmo eu tive culpa importante; pois a coisa essencial a saber é que foi amor pela mesma mulher. Este é o mal; o mal é que dois homens se encantaram por uma só alma. Porém, amenizando ao instinto, conforto-me pensando que o intruso desta história toda não fui eu. Talvez nem haja algo a lamentar.

Mas sabe o que é terrível, leitor? É que, embora amasse Madalena muito ainda, eu devo reconhecer com sinceridade que não queria mais nada com ela – por razões que não direi aqui. Entretanto, é verdade também que custou-me aceitar que a desgraçada tivesse algo com outro alguém; e principalmente se este alguém fosse um conhecido e, além disto, conhecido parvo calhorda sabedor da angústia amorosa por qual passei com aquela mulher. Em tal caso este foi todo o meu desgosto. Madalena não estava mais comigo, sim, mas ela ainda estava em mim, em algum canto do coração onde o egoísmo da paixão tece sua teia rancorosa e irascível. Sei que o leitor de pouca paciência me dirá egocêntrico ou imaturo e que a querida dona leitora me acusará de machista ou mesmo de estúpido, contudo, desconte, de algum modo, que quando olhei no relógio de pulso eu tinha perdido o amor da minha vida, quando olhei ao relógio a própria vida tinha passado.

É preciso ter 'Nervos de Aço'...


Primeiro, declaro: isto é um conto daquele mesmo lugar entre a imaginação e a realidade; de modo que qualquer verossimilhança é coincidência. No vídeo vemos o grande compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, torcedor e autor do hino do Grêmio Football Porto-Alegrense, comentando e cantando a música, de sua autoria, Nervos de Aço; na segunda parte o grande vascaíno Paulinho da Viola interpreta a canção com extrema maestria.


Por Ricardo Novais
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