Santos Campeão Paulista 2010



A Arte no Futebol II
E as Testemunhas do Messias


Da arquibancada central do Pacaembu via-se o Messias. As testemunhas levantam novas bandeiras, é tarde de arte no futebol.


Não sabe quem é o Messias, torcedor desavisado? Tivesse o amigo frequentado os campos paulistas desde a meninice não se corroeria agora em dúvida; mas vá lá. O Messias é Giovanni, o G-10, que é Campeão Paulista 2010 e, ao mesmo tempo, avisa à multidão que vai partir. Poucos o ouvem, é dia de final de campeonato.


Despedida do Messias é coisa extraordinária; ele vai fardar-se pela última vez, vai pendurar as chuteiras. No entanto, o G-10 já marcou há tempos golaço na história do futebol com apresentações memoráveis; seu cardápio é digno das maiores obras-primas do esporte bretão, e em muitos gramados do mundo.


Eu mesmo sou testemunha da genialidade de Giovanni; e, acredite meu amigo, o repertório é fascinante. Lembro-me como se fosse hoje. O Santos precisava reverter vantagem considerável de 3 gols do Fluminense para ir à final do Brasileirão. Parecia impossível... Mas o Peixe fez 5 a 2 nos cariocas. Um dos melhores jogos da década de 1990, a glória santista foi graças à cadência inigualável do supercraque, da sua inteligência elegante, do seu controle refinado da bola, tratando-a com deferência e afeto, e ela o correspondendo com perfeição e respeito. Sorriu sempre a velha bola às intenções do Messias, como se conversasse intimamente com o seu maestro. Isto foi neste mesmo Pacaembu, numa noite que já vai longe... Mas que é inesquecível.



Arquivo pessoal de jogo memorável no Pacaembu, em 1995.
O Messias.

Não é feio chorar, torcedor. A exonerada é grande e já saudosa. Giovanni foi um dos maiores ídolos do Santos FC, sucessivamente um celeiro de craques. A Vila Belmiro revelou para o mundo o menino que veio do norte do Brasil para ser o Messias da Bola, que arrebatou milhares de corações infantes por certa magia da arte no futebol. 


Ídolo tem fã. Paulo Henrique, o Ganso, é incondicional admirador do Messias... Não, espere! Mais que isto: Ganso é discípulo do Messias – quiçá o novo Messias. Ontem o Santos conquistou o Campeonato Paulista, o 18ª de sua gloriosa história, e o jovem pupilo do G-10 deslumbrou os espectadores precisamente como fazia seu mestre veterano. Orientou, chapelou o adversário, deu assistência que lembraram as feitas por celebrais jogadores dos anos 60 e 70 do século passado; foi a personalidade do time, o craque de mais uma conquista alvinegra. Num resultado combinado pelo regulamento do certame, Santos e Santo André empataram em admiráveis 6 a 6 (3 a 2 para o Peixe no primeiro jogo, e outros iguais 3 a 2 para o Ramalhão, na finalíssima). Pela campanha espetacular, sagraram-se campeões os ‘Meninos da Vila’ – Neymar, Ganso, os agregados sublimes André, Arouca, Marquinhos e companhia, com o sempre espetacular Robinho (2ª geração de ‘Meninos’) dando a letra da dança e regidos pelo treinador Dorival Júnior sob o olhar artístico do Messias, eternamente no olimpo. O “caneco” foi para a nobre Sala de Troféus Rei Pelé. Diga-se que se sagrou vencedor também o honesto e primoroso trabalho feito pela atual diretoria santista; salve, doutor Luis Álvaro!


Contudo, é a arte no futebol quem mais merece troféu, prêmios, títulos e muitos... muitos aplausos. Foi valente o pequeno “Davi” do ABC; do excelente meia-atacante Branquinho e do artilheiro do Paulistão, o centro-avante Rodriguinho, com 15 gols. Encarou a atual sensação do futebol brasileiro com tática audaciosa, admirável deveras. A partida foi feita por instantes. Jogadas bonitas, pensamento rápido, cartões amarelos e vermelhos (expulsões feias), bola na trave santista aos 43’ do 2º T (os deuses do futebol também estavam no Pacaembu) e muita confusão do árbitro; o tobogã do Pacaembu puxou coro tímido: “Juiz ladrão!” Ainda teve o episódio envolvendo o professor Dorival Júnior que, pressentindo a aflição, quis tirar de campo justamente aquele que é o discípulo do Messias. Opa! Aí não, professor! O craque tem que ficar na batalha até o fim, por isto ele será o novo Messias – já há novas testemunhas. Ganso bateu o pé. “Não vou sair, professor”, avisou ele. “Ficarei em campo e comandarei minha equipe até o apito final. Pegarei minha medalha de honra e entregarei o troféu para o meu universal Messias”. Foi isto pelo menos que leu nos lábios e nos gestos do craque um  certo torcedor que acompanhava a tudo das arquibancadas. 




Entretanto, isto é quase nada, é o resto do espetáculo do esporte. Lembra-me a leitora: “E o resto, é o resto”.


Não que eu escreva estas pobres linhas com demasiada afetação. Sou sim apaixonado, reconheço; porém tenho certo limite humano de êxtase. Um nadinha... E, também, nada é nada. Digo apenas então que o inolvidável dia de ontem foi a consagração daqueles que amam o futebol. Joga a bola, joga bonito, encanta o torcedor de arquibancada... 


“Ô, #Dunga, leva o Ganso e o Neymar!”


Meninos da Vila. Charge: Pedro Bottino. AG/Estado.


Quer chorar outra vez, torcedor? Então chora. Mas chora de alegria. Lá foram os “Meninos” rezando, agradecendo, vibrando, louvando o título paulista. Poucos perceberam o Messias entre eles, ali no centro do gramado do Pacaembu, fazendo sua homilia espiritual de extinção futebolística. Um ou outro menos exaltado alcançou que era coisa importante, tentou puxá-lo, no entanto, a modéstia acenou de longe ao divino jogador – ou ora ex-jogador àquela altura – e ele acatou a ordem. Ficou o supercraque em seu silêncio de sábio. Foi-se.

Mas dali, da arquibancada central, via-se o próprio estádio municipal Paulo Machado de Carvalho, o notável Pacaembu, aplaudir com reverente magnificência um dos filhos mais ilustres que, sobressaltando o coração, já desfilarem em seu gramado. Choraram igualmente de anseio as tribunas, as cativas, o tobogã, em comunhão, ali extáticos, com a multidão em delírio, olhando de longe o G-10, ir-se, relembrando as suas jogadas antológicas, seus gols sublimes, seus dribles de pura elegância e, o pobre estádio, deixou mesmo derramar uma curta lágrima de emoção; veio-lhe à lembrança Giovanni quando ainda menino e seus passes belíssimos de outrora, usando o cérebro com perfeição incrível na armação das jogadas, fazendo lançamentos com precisão matemática, impetuoso no ataque, vibrante e decisivo nas pelejas mais difíceis. Este velho estádio, sentimental, ó coitado, conheceu de perto o artista da bola. Já é tradicional ‘senhor paulista’ de 70 anos, completos na última terça-feira. Parabéns! Que seja sempre abençoado, ó querido Pacaembu!

E bendito para sempre sejas, G-10! Velho Messias, vestido com sagrada casaca alvinegra, desfilou sua arte em palcos de grama como se o futebol fosse um grande salão de espetáculos. E é.

***


A arte no futebol: É campeão!

Dados mais técnicos e menos afetados da campanha santista:

Foram 18 vitórias, dois empates e apenas três derrotas no Estadual de 2010. Campanha digna de um campeão. E o ataque foi o grande pilar desta conquista: foram incíveis 72 gols marcados. Neymar com 14, André com 13 e Paulo Henrique Ganso com 11, foram os principais goleadores do Peixe.

Agora com a palavra, o professor do 'Meninos Santásticos':



Por Ricardo Novais