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Arte da bola

Seleção Brasileira de 1982: Depois de 30 anos, reconhece o craque Fagner entre teus ídolos, torcedor?


O apagar das luzes no estádio é a sentença para as redações esportivas. Paloma, dezenove anos completos, estagiária do jornal Arte da Bola, precisava de uma pauta que efetivasse seu contrato na empresa. Não bastava entrevistar algum craque do momento ou escrever um artigo sobre o Barcelona, tinha que ser diferente. O velho jornalista do caderno de esportes, Carlos Nogueira, surgiu entre o burburinho da redação e a salvou.

- Você tem que ir atrás do Fagner, menina. Ele está passando por maus bocados; falido, quase na miséria... Manchetona, hein: "Craque boêmio derrotado pela vida". Que tal?

- O senhor é engraçado, Seo Carlos.

- Oh, minha filha! - exclamou ele rindo. - Não quer decolar sua carreira?

Fagner, ex-jogador da lendária Seleção de 82, metido a galã, entre jogadas memoráveis do esporte bretão, torrou rios de dinheiro nos gramados do mundo com sexo, carrões, sexo, festas, sexo e... sexo. Nunca existiu pecado. Todos os garotos queriam ser Fagner nos anos oitenta, todas as meninas queriam dar para Fagner nos anos oitenta.

Paloma percebeu que sua chance era contar a vida do grande ídolo do passado, que caiu no esquecimento colossal do presente e na miséria inapelável do incerto futuro; coisas do vestiário eterno, ironia da vida pública. Mas havia um problema: onde encontrar Fagner? Outra vez a raposa das redações lhe entregou o mapa:

- Vá à Rua Paolo Rossi, nº 20; procure o Pestana.

O lugar era um pé sujo na periferia de São Paulo. Pestana era um velho com a barba por fazer e cara de tarado, conhecido também como “Buk da Copa” ou “Velho Paulista Safado”.

- Cinquenta reais só para começar a falar, minha filha.

O bar tinha mesas e cadeiras pintadas de um amarelo enferrujado, embora o balcão fosse de uma maciça madeira marrom muito escura. A cerveja foi servida no balcão, em copo americano não muito limpo.

- Vamos direto ao lance, meu; digo, ao assunto; onde mora o Fagner?

- Aqui perto...

Paloma deu um gole na cerveja gelada e bateu uma nota de cem reais na madeira maciça. Desculpe o trocadilho, leitor, mas Pestana a pegou sem pestanejar, coçou a barba encardida e sorriu mostrando todos os dentes podres:

- Venha!

Eles entraram no carro; Paloma teve medo, mas dirigiu cinco ou seis quilômetros por uma avenida ilumina apenas pelo farol do automóvel e da própria alma; Pestana, o velho “Buk Paulista”, há muito já não tinha mais alma nenhuma. Primeiramente, casinhas com tijolos baianos aparentes eram a paisagem, depois a coisa ficou pior; vultos sem rostos por todas as esquinas. Numa ruela, Pestana mandou parar. Paloma hesitou, Pestana ordenou com veemência:

- Desce, porra! Não queria vim, meu? Desce logo dessa porra de carro. Desça!

Desceram ruela abaixo. Depois, pé ante pé numa viela molhada pela garoa, chegaram numa casa velha, embora grande e com ares de relíquia.

- É aqui. O homem mora aqui com a mulher e o filho caçula. Acho que a primeira mulher dele morreu tem uns vinte anos, essa deve ser já bem a quarta ou quinta... O homem gosta da coisa, conheço bem... - ele gargalhou baixo. Um quarto de minuto depois, quis ir embora.

- Espera... - Paloma disse tentando segurá-lo.

- Espera porra nenhuma, cazzo. Dá uma olhada em volta, minha filha, está cheio de neguinho querendo de comer. Vamos embora logo, porra! Senão vou ali pegar o busão e te deixo aí para o Paulão... Olha lá o Zelão também... Aposto que os caras querem te dar um trato...  - Vendo que a moça nem ouviu o que ele disse, Pestana fez uma pequena pausa para respirar profundamente e esbravejou: - Porra! Você está ouvindo, caralho? Esses negões ali, ó, minha filha, são zagueiros do Estrela Vermelha, o maior time de várzea da cidade cheios dos maiores marginais, os mais nojentos... Daqui a pouco eles vêm aqui cobrar a gente, cazzo! Vamos embora logo, porra!

Assombrada pela situação, Paloma chegou a seu apartamento na Vila Mariana e sorriu de nervoso: Que matéria! Mas, ao mesmo tempo, pensou em como podia ter acontecido aquilo? O grande Fagner... O cara foi um ídolo... Ídolo da Seleção... Porra, da Se-le-ção! Instantaneamente, lembrou-se da frase dita entre boleiros: “A bola pune”.

Em três meses, Paloma era redatora-chefe do Arte da Bola e amante de Fagner. Todas as noites os dois se encontravam no antigo Banespa e de lá iam ao motel das estrelas. A mulher de Fagner desconfiava, mas sabia do gênio imponderável do marido.

- Vai sair, amor? – perguntava Stella.

- Vou. Não me espere, chegarei tarde.

Maria Stella não devia ter ainda trinta anos de idade, mas já tinha vivido sua vida inteira. Em meados dos anos noventa, ela foi tiete de Fagner quando ele retornou endinheirado dos Emirados Árabes depois de vencer o campeonato local pelo time do Sheik Abdala do Samba, apelido do cartola do clube que era fã do futebol brasileiro. No regresso, Fagner jogou na Portuguesa de Desportos; e, aos trinta e cinco anos ainda era um craque. Isto fez o Flamengo se interessar pela sua contratação, mas no clube da Gávea, um bairro tão excêntrico, Fagner apenas encerrou definitivamente a carreira.

O último jogo de Fagner foi uma noite de gala. Ele não jogou. Entrou todo uniformizado, rubro-negro, e deu uma gloriosa volta olímpica no velho Maracanã, templo sagrado, sendo ovacionado por milhares de geraldinos e arquibaldos, conforme consta nos arquivos do Arte da Bola.

Stella engravidou rápido, e Fagner tinha muito respeito pela paternidade; princípio de família que o domava. Pediu a mão de Stella, embora isto já fosse fora de moda, durante uma festa em Petrópolis. Dizem que nesta festa havia coelhinhas da Playboy, muito uísque de Asunción e anões pervertidos que saiam de grandes caixas de papelão – sim, dona leitora, concordo; se existiu tal fato, foi a visão do inferno... 

Casaram-se no Rio, onde as traições eram constantes; mas Stella deu um jeito de regressaram a São Paulo, simulou um sequestro relâmpago nas sofisticadas ruas da Barra da Tijuca, onde moravam à época. Fagner ficou com medo, malandro que é malandro respeita a seriedade de homens maquinados. 

Morando já na casa grande e velha com ares de relíquia, no extremo sul da capital paulista, Stella pensou que Fagner tinha pendurado as chuteiras boêmias, até que apareceu Paloma. A coisa foi ficando séria, e ela percebeu que tinha que acabar com aquilo logo, rápido e súbito; foi ter com o marido.

- Fagner, não ligo que você tenha seus casinhos com essas maria-chuteiras, vagabundas, mas agora é diferente... Temos que dar o golpe nesta vaca e nos livrarmos dela.

- Está louca, Stella?

Fagner gostava espontaneamente de Paloma, quase que poderia até ter a amado. Tê-la. Amado. Ela o fazia se sentir ídolo, ídolo vivo. Às vezes, leitor, recupera-se alguma vida na vida dos outros. Tudo é o primeiro raio que gera o primeiro sopro de vida, o resto é o resto, ou nada; embora, muita vez, o nada é toda a boa-venturança dada por Deus. Mas deixemos de tanta firula que o jogo está duro e em andamento; perdão pelo passe errado, companheiro leitor; tornemos logo ao conto.

Paloma era esperta, embora muito jovem. Quando percebeu que corria perigo, recorreu outra vez à velha raposa paulistana, o insuperável Carlos Nogueira. Marcaram encontro às onze horas e quarenta e cinco minutos da noite no galpão de armazém abandonado do centro da cidade dos violentos. Assim que estacionou o carro na Alameda Sarrià, avistou a tragédia. Tragédia do Sarrià. Nogueira a esperava; ao entregá-lo uma grande bolsa de couro com duzentos mil reais dentro, consumou-se a tragédia: Paloma recebeu três tiros de revólver, pelas costas, todos na nuca.

Peço-te desculpas, leitor amigo e torcedor, não tenho como contar aqui detalhes dos dedos que apertaram o gatilho do maléfico revólver; também eu tenho medo das tragédias e zelo pelo time da vida contra a morte anunciada. Mas, ora, não é tão difícil assim imaginar como a jovem Paloma morreu e como deixaram o seu corpo desfalecido jogado no pátio do armazém às ratazanas. Digo apenas que não foi o jornalista quem atirou nela porque os que escrevem não sujam as mãos com pólvora, e em verdade a pólvora até limpa a mente de alguns autores; no mais, posso dizer também que os assassinos fugiram em segundos, como esquema tático impecável. A vida é mesmo uma arte da bola.

No bar do Pestana, Nogueira sorveu a cerveja, desta vez não tão gelada, do copo americano sujo e entregou uma outra mala, preta, pequena e de vinil, a Fagner. Depois tirou de outra bolsa um par de chuteiras e as pôs sobre o balcão de madeira:

- Estas são as chuteiras de 82, meu amigo; estou as devolvendo ao campeão.

- Um brinde aos craques da bola... Melhor, a todos os ídolos deste país! – Pestana levantou o copo sujo no ar empesteado pela fumaça do cigarro vagabundo, e concluiu: – Somos geniais e desprezíveis, ao mesmo tempo.

- Porra, Buk! – Nogueira o repreendeu em tom de brincadeira. – Cala tua boca aí e vamos beber, meu, vai. Pelo amor de Deus!

Todos riram, e beberam. Fagner ficou um bom tempo namorando as velhas chuteiras como se tivesse reencontrado o grande amor do passado. Já Stella deu pulos de alegria ao ver o marido chorando com as chuteiras nas mãos; nem toda Maria é chuteira, e nem todo campeão vence.

Por Ricardo Novais

Fenômeno!


Ronaldo na Copa do Mundo de 2002. SupreCraque. Gênio. Fenômeno. Imagem: Arquivo.

Veste roupa de festa que hoje é despedida de craque. Ele não é flamenguista, corintiano, menino da zona norte, celeste, holandês, catalão, milanês, madrileño, nem sequer brasileiro ele é. Ele é fenômeno. É gênio, é supercraque. Avisa à multidão que ninguém pode faltar. Ronaldo é mágico, de um corpo em dor entoando um movimento de superação e glória. A bola, sorrindo ao fenômeno que lhe concebe, parece estar amarrada no cadarço de sua chuteira – chuteiras agora penduradas no altar do futebol.

Celebremos, querido torcedor, a última consagração do maior artilheiro de todas as Copas do Mundo. Quer chorar? Chora, que é mesmo de apertar o coração. Ídolo desta geração, a minha, a tua, o prodígio de nossas primeiras juventudes. Da meninice dos novos e velhos, dos vivos e mortos – dos vivos e mortos. O jogador de futebol, craque, sorridente, dentuço, homem-milagre, camisa 9, pesadelo dos goleiros, armado com a emoção de uma lágrima de alegria, de tristeza, de vida. Eu, mero espectador, sofri com a queda do craque, e também venci com ele.

O futebol tem dessas coisas, o ódio e o amor, juntos, no único momento tão belo e tão de luto que se confundem e se fundem, numa só jogada, num só drible, num só gol. Vai, Ronaldo Nazário, vai para o seu altar de gênio do esporte que é mais que esporte, é a vida – linda, emocionante, de muitas derrotas e infinitas vitórias. O que distingue o ser humano de ser o melhor do mundo ou ser a descrença alheia é coisa fenomenal. No ar, no céu, nos gramados, surpreendentemente raro e extraordinário. Fenômeno!

Por Ricardo Novais

Viva o Rei!

Longa vida ao Rei! Fotografia: Arquivo revista Placar.

Na música, na literatura, em todas as artes têm lá seus gênios incontestes. No futebol, uma das artes humanas mais sublimes, este gênio é um ser enigmático, um nobre esportista –  Rei do Futebol. Ele é gênio mais gênio, assim como Deus é mais Deus. Coisas dadas aos mitos divinos.

Faça agora uma contente reverência, torcedor. Se quiser rir, ria; se quiser chorar, chore. O futebol é a paixão mais ingenuamente manifesta que existe. E neste esporte mágico não há nada mais belo e fascinante que a figura de um ídolo. Sagrado. Esta divindade é um homem, negro, impecavelmente fardado de branco, complexão atlética perfeita, olhos aguçados, saltando em gestual enigmático de socar o ar, símbolo do ápice da arte glorificada.

O jogo era contra o Juventus, na Rua Javari. Partida dura, o Santos não conseguia romper a muralha que os adversários ergueram perto da área. A torcida do “Moleque Travesso”, apelido do Juventus, aproveitara os percalços enfrentados em jogo para tripudiar do Rei. Vaiavam-no toda vez que ele pegava na bola. Foi quando Pelé fez, segundo a sua própria avaliação, o gol mais lindo de sua brilhante carreira. O maior jogador de futebol de todos os tempos conseguiu uma sequência de dribles extraordinários dando quatro chapéus em seus marcadores sem deixar a bola cair ao gramado. O goleiro foi o último a ser chapelado. Formidável! Poderia-se até imaginar que esta inesquecível jogada foi tão-somente uma magnífica criação oriunda de seu talento nato aliado a certa raiva que ele deveria estar sentindo das provocações de seus oponentes, pois assim que fez este golaço o magistral craque foi até a torcida inimiga a xingando e socando o ar. Mas não foi só talento e raiva, foi arte. Pura. Arte legítima. Mitológica.

Viva o Rei! Rei! Que seja sempre! Pelé!

70 anos da divindade do esporte; 70 anos de vinda a este mundo de Edison Arantes do Nascimento, o Pelé, Rei do Futebol. Longa vida ao Rei!

Homenagem a Pelé: Greatest Pele Soccer Moments.


Por Ricardo Novais

Santos Campeão Paulista 2010



A Arte no Futebol II
E as Testemunhas do Messias


Da arquibancada central do Pacaembu via-se o Messias. As testemunhas levantam novas bandeiras, é tarde de arte no futebol.


Não sabe quem é o Messias, torcedor desavisado? Tivesse o amigo frequentado os campos paulistas desde a meninice não se corroeria agora em dúvida; mas vá lá. O Messias é Giovanni, o G-10, que é Campeão Paulista 2010 e, ao mesmo tempo, avisa à multidão que vai partir. Poucos o ouvem, é dia de final de campeonato.


Despedida do Messias é coisa extraordinária; ele vai fardar-se pela última vez, vai pendurar as chuteiras. No entanto, o G-10 já marcou há tempos golaço na história do futebol com apresentações memoráveis; seu cardápio é digno das maiores obras-primas do esporte bretão, e em muitos gramados do mundo.


Eu mesmo sou testemunha da genialidade de Giovanni; e, acredite meu amigo, o repertório é fascinante. Lembro-me como se fosse hoje. O Santos precisava reverter vantagem considerável de 3 gols do Fluminense para ir à final do Brasileirão. Parecia impossível... Mas o Peixe fez 5 a 2 nos cariocas. Um dos melhores jogos da década de 1990, a glória santista foi graças à cadência inigualável do supercraque, da sua inteligência elegante, do seu controle refinado da bola, tratando-a com deferência e afeto, e ela o correspondendo com perfeição e respeito. Sorriu sempre a velha bola às intenções do Messias, como se conversasse intimamente com o seu maestro. Isto foi neste mesmo Pacaembu, numa noite que já vai longe... Mas que é inesquecível.



Arquivo pessoal de jogo memorável no Pacaembu, em 1995.
O Messias.

Não é feio chorar, torcedor. A exonerada é grande e já saudosa. Giovanni foi um dos maiores ídolos do Santos FC, sucessivamente um celeiro de craques. A Vila Belmiro revelou para o mundo o menino que veio do norte do Brasil para ser o Messias da Bola, que arrebatou milhares de corações infantes por certa magia da arte no futebol. 


Ídolo tem fã. Paulo Henrique, o Ganso, é incondicional admirador do Messias... Não, espere! Mais que isto: Ganso é discípulo do Messias – quiçá o novo Messias. Ontem o Santos conquistou o Campeonato Paulista, o 18ª de sua gloriosa história, e o jovem pupilo do G-10 deslumbrou os espectadores precisamente como fazia seu mestre veterano. Orientou, chapelou o adversário, deu assistência que lembraram as feitas por celebrais jogadores dos anos 60 e 70 do século passado; foi a personalidade do time, o craque de mais uma conquista alvinegra. Num resultado combinado pelo regulamento do certame, Santos e Santo André empataram em admiráveis 6 a 6 (3 a 2 para o Peixe no primeiro jogo, e outros iguais 3 a 2 para o Ramalhão, na finalíssima). Pela campanha espetacular, sagraram-se campeões os ‘Meninos da Vila’ – Neymar, Ganso, os agregados sublimes André, Arouca, Marquinhos e companhia, com o sempre espetacular Robinho (2ª geração de ‘Meninos’) dando a letra da dança e regidos pelo treinador Dorival Júnior sob o olhar artístico do Messias, eternamente no olimpo. O “caneco” foi para a nobre Sala de Troféus Rei Pelé. Diga-se que se sagrou vencedor também o honesto e primoroso trabalho feito pela atual diretoria santista; salve, doutor Luis Álvaro!


Contudo, é a arte no futebol quem mais merece troféu, prêmios, títulos e muitos... muitos aplausos. Foi valente o pequeno “Davi” do ABC; do excelente meia-atacante Branquinho e do artilheiro do Paulistão, o centro-avante Rodriguinho, com 15 gols. Encarou a atual sensação do futebol brasileiro com tática audaciosa, admirável deveras. A partida foi feita por instantes. Jogadas bonitas, pensamento rápido, cartões amarelos e vermelhos (expulsões feias), bola na trave santista aos 43’ do 2º T (os deuses do futebol também estavam no Pacaembu) e muita confusão do árbitro; o tobogã do Pacaembu puxou coro tímido: “Juiz ladrão!” Ainda teve o episódio envolvendo o professor Dorival Júnior que, pressentindo a aflição, quis tirar de campo justamente aquele que é o discípulo do Messias. Opa! Aí não, professor! O craque tem que ficar na batalha até o fim, por isto ele será o novo Messias – já há novas testemunhas. Ganso bateu o pé. “Não vou sair, professor”, avisou ele. “Ficarei em campo e comandarei minha equipe até o apito final. Pegarei minha medalha de honra e entregarei o troféu para o meu universal Messias”. Foi isto pelo menos que leu nos lábios e nos gestos do craque um  certo torcedor que acompanhava a tudo das arquibancadas. 




Entretanto, isto é quase nada, é o resto do espetáculo do esporte. Lembra-me a leitora: “E o resto, é o resto”.


Não que eu escreva estas pobres linhas com demasiada afetação. Sou sim apaixonado, reconheço; porém tenho certo limite humano de êxtase. Um nadinha... E, também, nada é nada. Digo apenas então que o inolvidável dia de ontem foi a consagração daqueles que amam o futebol. Joga a bola, joga bonito, encanta o torcedor de arquibancada... 


“Ô, #Dunga, leva o Ganso e o Neymar!”


Meninos da Vila. Charge: Pedro Bottino. AG/Estado.


Quer chorar outra vez, torcedor? Então chora. Mas chora de alegria. Lá foram os “Meninos” rezando, agradecendo, vibrando, louvando o título paulista. Poucos perceberam o Messias entre eles, ali no centro do gramado do Pacaembu, fazendo sua homilia espiritual de extinção futebolística. Um ou outro menos exaltado alcançou que era coisa importante, tentou puxá-lo, no entanto, a modéstia acenou de longe ao divino jogador – ou ora ex-jogador àquela altura – e ele acatou a ordem. Ficou o supercraque em seu silêncio de sábio. Foi-se.

Mas dali, da arquibancada central, via-se o próprio estádio municipal Paulo Machado de Carvalho, o notável Pacaembu, aplaudir com reverente magnificência um dos filhos mais ilustres que, sobressaltando o coração, já desfilarem em seu gramado. Choraram igualmente de anseio as tribunas, as cativas, o tobogã, em comunhão, ali extáticos, com a multidão em delírio, olhando de longe o G-10, ir-se, relembrando as suas jogadas antológicas, seus gols sublimes, seus dribles de pura elegância e, o pobre estádio, deixou mesmo derramar uma curta lágrima de emoção; veio-lhe à lembrança Giovanni quando ainda menino e seus passes belíssimos de outrora, usando o cérebro com perfeição incrível na armação das jogadas, fazendo lançamentos com precisão matemática, impetuoso no ataque, vibrante e decisivo nas pelejas mais difíceis. Este velho estádio, sentimental, ó coitado, conheceu de perto o artista da bola. Já é tradicional ‘senhor paulista’ de 70 anos, completos na última terça-feira. Parabéns! Que seja sempre abençoado, ó querido Pacaembu!

E bendito para sempre sejas, G-10! Velho Messias, vestido com sagrada casaca alvinegra, desfilou sua arte em palcos de grama como se o futebol fosse um grande salão de espetáculos. E é.

***


A arte no futebol: É campeão!

Dados mais técnicos e menos afetados da campanha santista:

Foram 18 vitórias, dois empates e apenas três derrotas no Estadual de 2010. Campanha digna de um campeão. E o ataque foi o grande pilar desta conquista: foram incíveis 72 gols marcados. Neymar com 14, André com 13 e Paulo Henrique Ganso com 11, foram os principais goleadores do Peixe.

Agora com a palavra, o professor do 'Meninos Santásticos':



Por Ricardo Novais

A Arte no Futebol


Tinha-me lembrado noutro dia da definição de velho cronista falando da derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Espanha, em 1982: “Este escrete ‘canarinho’ magnífico não ganhou... Pena! Ah! Como me encantastes, time de Telê... Não ganhou? Azar da Copa!”

Foi mais ou menos este sentido que deu tal cronista daquela derrota, talvez nem tão literalmente nem de maneira tão simplória, mas a acepção é a mesma, e, de tal modo, a competência do autor de pouco vale, ou nada! – Exclamo que não tinha olhar neste mundo, quanto mais lá em terra de Espanha.

O fato é que pensamento de grau sincero e dolorido dura pouco, logo vem outro sufragar o ponto de origem. De modo que vi-me triste esta semana, jogaram pela UEFA Champions League: Barcelona vs. Internazionale.

Os catalães encantam com seu toque de bola refinado; eles têm Lionel Messi, o melhor jogador do mundo. Meio-de-campo firme, técnico, habilidoso e flutuante. Esquadrão fantástico regido por inspirado maestro, Josep Guardiola, este profundo amante da arte que leva torcedores de todo o planeta ao delírio com sua equipe azul-grená se apresentando em espetáculos tocantes por palcos de grama.

De outro lado do campo, com seu futebol pragmático (salvo o meia Sneijder), apresenta-se a Inter de Milão orientada pelo treinador gaúcho – ops! – treinador português José Mourinho, eficiente, burocrática e chatíssima! Mas que, no entanto, venceu o primal time que joga bonito.

Velhas múmias levantam das catacumbas, as vozes ressurgem... Insurgem, vá! Se isto lhe parecer cruel, desgraçado torcedor, é porque não amastes o esporte bretão como este pobre autor que escreve texto tão lamurioso de perdedor.

Por que perde o Santos, de Feitiço e Araken Patusca, o ‘Ataque dos 100 gols’, nos anos de 1920? Por que perde a Hungria de 1954, do genial Puskas? Explicais, “deuses do futebol”, o que tiveres contra a Holanda, magnífica 'Laranja Mecânica', em 1974? E tantos que perderam parecendo que venciam; como aquele esquadrão do Galo, do ‘rei do Mineirão’, e aquele time do Fluminense que coloriu de sentimento tricolor o velho ‘Maraca’ em fatídica final de Libertadores...

Sim, dona torcedora, verdade que outras tantas equipes excelentes e encantadoras consagraram-se premiadas recebendo títulos: o “Expresso da Vitória” vascaíno, a “Máquina Tricolor” do Fluminense, a “1ª Academia” palmeirense, o Santos de Pelé e companhia “fantasmagórica”, o glorioso Botafogo de Garrincha, o São Paulo de Telê, o Cruzeiro de Tostão, as maravilhosas tardes no velho 'Maraca' do Flamengo de Zico, o Galo e sua “Era do Gelo”, a “Democracia Corintiana”, o incrível Inter de Falcão e sensacional Grêmio de 1983, o Milan de Baresi (extraordinária linha ofensiva formada por Frank Rijkaard, Ruud Gullit e Van Basten), o Manchester de Cantona... Enfim, eu poderia ficar aqui com este velho pensamento prazeroso, puxando pela memória de enciclopédia muitos times sensacionais do nosso futebol e não terminar este post nunca. Apreciei deveras esta ideia, mas não! Devo ater-me à derrota do 'futebol arte'. Ah, Barça! Por que perdeste justamente agora que tanto maravilhara as retinas de tão desgraçado torcedor?

Barcelona do genial Ronaldinho Gaúcho (Ô, #Dunga, leva o Gaúcho e o Neymar!), venceu. Barcelona de Messi, também venceu. Não falo das vitórias de ofício, nem de títulos ou comendas. Falo do encantamento da vida, daquilo que em tal grau me faz feliz. Sorrir com sinceridade não são para times eficientes, burocráticos e chatíssimos. A dona leitora, que nem muito apreciou este futebol catalão, sabe do que lamento; ela sim reconhece a beleza e a maravilha que é a disputa de jogo.

Certo que em final de temporada resta aos torcedores catalães os torneios de “Hespanhas”; mas e quanto a nós, o que resta?

Pensou o leitor torcedor: “Ora, autor burro, e o Santos? Os “Meninos da Vila” encantam as platéias...” Tem razão, amigo corneteiro; tem razão, não fosse o fato de que os cronistas falam, escrevem, destilam suas sabedorias futebolísticas com quilômetros de língua. As múmias amaldiçoarão o futebol bem jogado e dirão: “Futebol bonito não vence nada, o que levanta o ‘caneco’ é o comprometimento do grupo”. Dirão isto e não nos resta nada.

Duro perceber, às vésperas da Copa da África, que o resultado é mais importante que o caminho que se percorre e as flores que se plantam nas margens do campo. Futebol feio e chato, supervalorizado. Futebol que encanta a vida, jugulado. Que azar do futebol!


Por Ricardo Novais

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