Trem azul

Brasão de Armas Nacionais, composto por um ramo de café e um de tabaco e a constelação do Cruzeiro do Sul no escudo ao centro.

Vai indo o trem azul. Avante. Avante. Traçando planaltos e colinas, todos os olhos partem de passageiros dentro dele. Contemporâneo. Mas a constelação do Cruzeiro do Sul é e será sempre o seu guia. Estrela-guia. O mérito do trem azul é trilhar caminhos e sonhos, próximos e distantes. Magnífica máquina! Quase humana; quase feliz. Leva a locomotiva celestial o homem de terno escuro e cara rapada, o menino de boné e sorriso bucólico, o padre e o jogador de futebol, a linda prostituta, o elegante senhor de charuto, o motorista de ônibus e o maquinista de metrô, o branco, o negro, o amarelo, gente de todas as cores e de todas as idades, do norte, do sul, nosdestinos, do novo horizonte, do velho, o traficante, o comentarista de vida alheia, o cão vira-lata e o professor universitário, e leva também a pueril dona-de-casa e seu nobre eleito. Toda a gente está nele. Mortos e vivos, vivos e mortos! O mendigo vê o colossal comboio passar imponente pela estação, deitado em sua calçada, levanta a cabeça, faz reverência e torna ao sono divino e perpétuo.

Celeste como o céu. Brilhante como as estrelas. Forte como o Cruzeiro do Sul. A melhor definição de engenharia ou de ciência não faria justiça a este personagem refletido em nossos espelhos todas as manhãs, e não seria melhor que o atrito estridente das rodas de aço nos trilhos de ferro e a vida estancada dos dormentes de madeira. Quilômetros a fio de sangue, esperança e saudade. É minha alma, é tua, é nossa.

Avante, avante trem azul!

Por Ricardo Novais