O mendigo

"O Leito de Morte", de Edvard Munch.

A coisa mais extraordinária eu assisti na calçada da praça do centro. Um mendigo estrebuchava, tossia e ria; de um riso débil e constrangedor. Toda a gente estava ali, em plateia burlesca e sorridente, mas as pessoas paravam rapidamente, apressadas que são pelas tarefas cotidianas da indiferença humana. O sol, já alto entre arranha-céus, espantou a garoa e fervia incolor a lama que servia de esquife ao moribundo. A cidade, tão grande e até generosa, deu-lhe de esmola esplêndido leito de morte.

Rudes bocas maledicentes que circundavam o pobre projeto de cadáver iniciaram um burburinho, a saber:

- Que tem ele?

- É cachaça! gritou uma calça risca-de-giz.

- É droga! retrucou um par de ancas de vestido curto.

O mendigo morria sem fazer ruído na frente da multidão alegre e desorganizada. A morte, a um canto, aguardava-o calma e absoluta. Eu, ao mesmo tempo testemunha e personagem, assistia a todo o espetáculo numa mistura de incredulidade e satisfação. Não julgue à toa, leitor! Há um segredo pungente. De certo que sabe o grande prazer que dá estar livre do perigo exposto a outrem; ai de mim, de ti, de nós; desgraça, só a alheia.

Por Ricardo Novais

O importante é ser feliz

O pecado original e a explusão do paraíso, de Miguelangelo.

Estacionou a velha Parati cinza dos anos noventa na esquina da Rua Sarandi. O prédio era grande, a portaria excêntrica. De modo que Félix foi orientado pelo porteiro a entrar pela ala de empregados, carregava com esforço todas as tralhas do ofício. Subiu pelo elevador de serviço até o quinto andar, a porta abriu, ele entrou. Madalena apareceu logo, inexplicavelmente colada dentro de um vestido vermelho e num salto Luiz XV, dando ordem a torto e a direito:

- Ah, é você o montador? Venha, vou te mostrar a cozinha. Meu marido e eu ainda estamos montando o apartamento, mas quero uma boa cozinha...

Enquanto Félix martelava pregos, parafusava portas de armários, furava suportes de prateleiras, a empregada passava a roupa no contíguo adjacente à varanda que dava para a lateral da cozinha. Ela não era feia, nem bonita; era o que se costuma dizer por aí simpática, pessoa simpática; tinha um olhar perene para a roupa grudada na passadeira; alisava uma camisa, tirava da passadeira, aplainava uma calça, tirava da passadeira, tornava à outra camisa, tirava do fulcro, e iam assim os eternos minutos domésticos. O barulho do carpinteiro em seu ofício não a abalava. Se o mundo fosse explicado por cena tão vulgar e tola, dir-se-ia aqui que a vida não é nem boa nem ruim, apenas o espírito ora é feliz ora é medíocre. Tudo é contínuo, complacente e inesperadamente malicioso.

O carpinteiro começou a olhar as pernas bem torneadas da empregada, a empregada ao dorso musculoso do carpinteiro; já lhe disse, leitora, tudo é contínuo, complacente e inesperadamente malicioso. Tudo é o fruto do pecado original que nos acompanha... Entre um olhar oblíquo e outro sorrisinho mais direto, Madalena apareceu novamente.

- Como estamos?

- Bem, madame. Falta pouco, acabo já. Falta uma ou duas prateleiras e furar dois ou três buracos...

- Não me vá estragar a parede, hein, rapaz!

- Não, madame.

Madalena virou demoradamente nos saltos finos, por instante carnal, observou com afinco os bíceps do carpinteiro. Pensou ali a solução para a vingança que vinha planejando há tempos para o marido mulherengo e traidor, depois teve de fugir dos próprios pensamentos. Mas as ideias são linhas que se entrelaçam dando nós irônicas; durante os últimos tempos de casada calculou para o esposo infiel a mutilação dos órgãos da masculinidade durante a noite, o assassinato dele também durante a noite, um golpe durante o dia, um roubo antes do almoço, torturá-lo após o jantar, aviltá-lo com o incesto do primogênito, ofendê-lo com uma difamação sexual e cruel no clube de tênis; quando tudo surgia naquele momento tão simples, e tão mais discreto: apenas traí-lo com o carpinteiro viril e desgraçado que montava a mesa onde fariam em futuro as sagradas refeições. Se os vizinhos descobrissem, tanto melhor ninguém a julgaria n’alguma festa por ela estar em justa batalha à moda galicista.

A empregada riu, riu do moço e da patroa. Percebeu do moço a ingenuidade própria de iguais; e sabia da patroa o nojo dela pelos pobres. Acostumara já à impiedade, ao desprezo pelos sentimentos alheios acima de qualquer amor. Isto a fez calejar na cidade grande, de homens e mulheres cheios de vazio, de sopro de alma que nunca enche completamente é triste mesmo a felicidade de quem se acostuma com vida. Dentro dos afazeres domésticos, ela sentia-se um animal do lar alheio. Apologia de todos os crimes e censura a toda e qualquer virtude, tida como vulgar. E tudo é vulgar mesmo; exceto o latrocínio, a extorsão, o egoísmo, o ódio à religião, e a insignificância de Deus; refletia deste modo, isto e aquilo, a empregada passando a roupa de outrem – não tão assim coordenado como pode parecer agora, mas uso o recurso que tenho para não por tudo a perder com divagações de uma mente pouco pragmática.

Não há muita coisa certa nesta vida; uma sabe-se ser a morte, talvez outra seja a felicidade. Existem outras, verdade, mas não cabem neste texto... E é necessário terminar o texto. Então... Madalena deixou-se jogar no imenso sofá a refletir-se em si mesma bebericando um drinque de coloração lilás e desembrulhando algumas trufas de chocolate com licor que não chegou a comer; um ponto de vista apedrejado pela boa fortuna, certamente quase feliz. A empregada, também com toda a felicidade que Deus lhe deu, continuou em seu permanente ofício de passar uma camisa e dobrá-la, passar um vestido e esticá-lo, passar uma calça e enfiá-la num cabide; às vezes deixando escorregar à passadeira um ou outro pensamento quase filosófico que logo perdia espaço para o ferro de passar roupa que queria somente passar. Por fim; Félix, um homem de fato feliz, tinha as ideias formadas nos bíceps e tríceps que martelaram e furaram portas e as prateleiras durante toda aquela tarde; depois que acabou o serviço, recebeu ainda ali o justo e necessário ordenado da labuta e desceu pelo mesmo elevador de serviço do começo do conto com o que restou das tralhas da carpintaria, guardando-as na caçamba da velha Parati cinza e acelerando Rua Sarandi a fora. Viver é uma felicidade só, e por vezes  misteriosamente efêmera.

Por Ricardo Novais