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Leitor, já teve saudade do passado? Mas não falo da depressão advinda da contemplação
da vida alheia. É uma saudade imaginária, tão imaginária que se torna real.
Quatro horas da tarde, sol. Uma bela tarde. Encontro minha mulher. Ela é gostosa, mas não sei se ainda gosto dela. Às vezes, a
companhia de alguém é melhor do que estar sozinho; concorda? Quem está sozinho está
sempre em má companhia.
- Juliano? Você está atrasado, meu!
Um grito alto, eu não disse nada. Naquele momento, eu estava de saco cheio. Foi difícil sair
mais cedo do trabalho para ir ao maldito médico que atestaria minha
filantrópica herança ou minha desgraça eterna: um filho. Os ginecologistas são os humoristas da
medicina, reduzem nossa vida ao deslumbramento e retiram, habilmente, o dinheiro do nosso
bolso.
- Deite-se com a barriga para cima, dona Adriana. – disse
o ginecologista rindo, mecanicamente, e dirigiu-se para o radiologista. – Vamos já
fazer os procedimentos...
Enquanto uma enfermeira melecou todo o ventre, o casulo do bebê, com um gel de aspecto plástico e o radiologista ajustou o aparelho
de exame ultrassonográfico, Adriana não parou de falar. Perguntou o que
eu achava da gravidez, se estava tudo bem comigo, o que eu estava sentindo, se eu preferia menino ou menina, se eu estava feliz, com medo, se
seríamos bons pais; um humor melancólico se apossou de mim. Posso dizer que sim, leitor, eu queria ter um filho com aquela mulher, e, no entanto, não gostava da ideia de ter um filho. Não me aproximei, sequer segurei a mão de Adriana. Não a amparei naquela sala. Fiquei a olhando observando a certa distância, sentado em uma
cadeira ordinária de consultório médico. Ela tornou a puxar conversa,
sorriu; eu devolvi o sorriso, sem dizer palavra. Não que eu seja tão frio às
emoções maternas e aos cálculos da vida, senhor leitor e dona leitora, mas tinha vontade de ir embora, sair correndo.
Acabou. Não deu para ver nada no monitor do aparelho de ultrassonografia além de um imenso pensamento
escuro que se mexeu frenético e misteriosamente. O passado tomou conta de minhas entranhas e parou no
estômago. Cena em câmera lenta, a angústia de pensar no futuro...
Mas, ora!, caro leitor, pensei errado. Refaço o pensamento e percebo que o futuro é o único lugar onde nossos
negócios prosperam e nossa felicidade é assegurada; concorda?
Adriana falou, falou, falou; e não me ouviu. O tédio descrito por Flaubert pode ser isto, uma
aranha que tece sua teia nos cantos do coração e não ouve ninguém. Saímos pelo complexo hospitalar, fomos jantar no
restaurante do centro da cidade. Jantamos bem. Paguei a conta. Entramos no carro. Vinte
quilômetros de ideias desconexas depois, chegamos em nossa casa. Caminhamos em silêncio. Em seguida,
ela voltou a falar contente. Sentamos no sofá da sala de estar. Olhares reflexivos que bateram na parede e voltaram fez um assovio assombroso no ambiente. Um ano e três
meses de casamento, minha amiga leitora. Um ano e três meses... Que apatia da
vida! O ânimo de viver tem certas abstenções.
Quando eu tinha dez anos, meu pai me perguntou o que eu queria ser quando
crescesse, eu não soube lhe responder. Talvez eu quisesse ser astronauta,
jogador de futebol ou um homem rico. Percebo que eu só precisava de uma máquina do tempo. Se eu pudesse voltar ao passado jamais
retornaria ao futuro, muito menos ao presente.
- Eu te amo, Juliano!
- Também te amo, Adriana!
- Amor? Vou ligar para mamãe e dizer que vamos ter um filho...
- Não ligue! Vou pedir o divórcio.
Ela chorou, foi para o quarto e dormiu. Eu bebi três ou quatro doses de uísque vagabundo sem gelo, fiquei assistindo televisão até quatro e pouco da manhã, e, sobriamente, faltei no
trabalho. Pedi demissão, larguei minha casa e fui morar em um flat alugado.
Deixei o presente por causa do passado. E que laços irônicos faz a vida, meu caro, que dá certos nós no pretérito do destino decidindo a sorte em uma sala
de consultório médico; se ao menos fosse em um bilhete de loteria... Do futuro, meu filho já tem quatro anos.
Por Ricardo Novais
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