Eleição republicana

"República Federativa do Brasil", charge da revista Illustrada.

Diz a lenda recente que um candidato à cadeira presidencial precisava de votos para vencer uma eleição republicana. Foi aos quatros cantos do país para comprar eleitores, mas as pesquisas de intenção de votos não lhe favorecia como planejado. Até que tinha padrinhos fortes, alguns estrangeiros influentes, outros com envergadura de formadores de opinião, mas nada disto dava jeito, então, resolveu comprar votos em um lugar mais inóspito: o inferno.

Foi ao inferno, falou com o coronel das almas caídas; era o diabo em pessoa. O diabo era o dono de todo aquele território e possuía total jurisdição sobre as almas do povo que lá vivia.

- Ora, ora, ora! Muito bem, senhor candidato; o que queres?

- Como vai o senhor, senhor diabo? Bem, venho por necessidade... Bem, meu amigo... Meu amigo diabo... Vamos negociar votos?

- Votos ou almas?

- Bem, aí vai da campanha política.

- Antecipo que teus concorrentes já estiveram aqui...

- Quero almas!

Em pouco tempo, observadores de todas as partes da república apontavam o favoritismo do candidato, a imprensa geral emitiu apoio e a vontade do povo foi soberana – quase uma carta magna infernal. O leitor, que também é eleitor, conhece a vontade de ferro do povo; é como diz o ditado, “a voz do povo é a voz de Deus”... Bem, nem sempre, como sabe o amigo.

Chegou o dia da eleição. Vitória nas urnas! O candidato foi para o segundo turno. Porém, agora havia a necessidade de muito mais votos. Então, lá foi o candidato novamente ter com o diabo.

- Mais almas? – perguntou o capeta exalando enxofre pelos cantos oblíquos da boca.

- Sim! – exclamou o político suando como um porco infernal. – Quero todas que tiver aí por um bom preço.

- Há de convir que estejam mais caras, agora é decisão...

- Eu pago!

Pagou e deu a própria alma como garantia. Vitória nas urnas!  Elegeu-se no segundo turno.

Ainda no primeiro ano do mandato presidencial, quitou a dívida com o diabo. As almas compradas valeram uma verbinha desviada de uma escola pública aqui, outra acolá; um hospital malfeito aqui, outro hospital sem médico acolá; em algum canto remoto da república, a construção de praças públicas para uma população fantasma ou pontes inacabadas sobre rios secos... Mas ora, amigo leitor-eleitor, não reclame tanto! Contribuir com impostos não garante direito de queixar-se aqui ou reivindicar posição junto ao autor do conto. Aquiete-se também, senhorita leitora! Além de que, amigo patriótico e querida senhorita cívica, para que prestar serviços públicos a um povo desalmado?

O diabo, sempre sorridente e audacioso, como sabe, ampliou seus domínios e ainda comprou carros de luxo, mansões, modelos “capa de revista” e um luxuoso iate infernal para esfriar a cabeça, de vez em quando, em sua marina particular no Lago Paranoá. Já o povo, sempre na mesma: desalmado; sem alma, sem coração, sem glória. Mas nem tudo é perdido nesta vida, como já vem a adivinhar a nossa amiga leitora. Daqui a pouca esperança, já há mesmo outra eleição republicana... E viva a república!


Por Ricardo Novais