Fazenda 31 de Março

Foto de arquivo. Cidade de São Paulo.

No dia 31 de março de 1964 houve um golpe infausto na alma do povo brasileiro. Começou uma tortura física e psicológica no Brasil. Sempre existiu tortura, mas o país entrou na institucionalização da barbárie, tanto a oficial como a dos centros clandestinos de tortura.

 

Na capital de São Paulo, na região afastada de Parelheiros e Marsilac, havia a Fazenda 31 de Março. Até o nome deste lugar é assombroso. O delegado Fleury e seus asseclas se divertiam neste sítio como alguém que vai para uma casa de campo desestressar com os amigos; entretanto, a diversão era torturar e assassinar seres humanos como alguém que vai à zona rural caçar tangarás.

 

Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones nasceu no sul do país. Nos anos 60, foi morar e estudar no Rio de Janeiro. Casou-se com Stuart Edgar Angel Jones, filho de Zuzu Angel. Edgar foi assassinado com a boca enfiada em um cano de escapamento de um jipe militar. Nunca encontraram seu corpo. Zuzu Angel procurou o filho incansavelmente e, por causa disto, também foi assassinada pelo regime em um crime jamais resolvido. Sônia Maria, que também havia sido presa, acabou sendo absolvida pelo tribunal militar devido portaria do imponderável.

 

Sônia Maria Jones, viúva, exilou-se na França onde progrediu sua carreira intelectual. Decidida a lutar e resistir contra o regime que assolava a liberdade em sua terra natal, voltou ao Brasil onde começou a trabalhar na clandestinidade. Conheceu Antônio Carlos Bicalho Lana, que viria a se tornar seu companheiro.

 

Algum tempo de relógio depois, Sônia e Antônio foram descobertos por agentes do DOI-CODI do II Exército, em Santos. Abordados no litoral paulista, levaram-nos com destino à cidade de São Paulo. O coronel Canrobert Lopes da Costa estuprou Sônia por 48 horas no DOI-CODI do Rio de Janeiro com o uso de um cassetete, ela teve hemorragia interna. Debilitada, enviaram-na novamente a São Paulo, ao DOI-CODI/SP. Deceparam-lhe um de seus seios.

 

Sonia Maria e seu companheiro Antônio Carlos foram encapuzados, colocados dentro de um Fusca de Fleury, amordaçados, cortando quilômetros e quilômetros entre solavancos da zona sul paulistana até a Fazenda 31 de Março, na zona rural de Parelheiros e Marsilac.

 

Torturados e mortos nas dependências de diversão dos agentes do regime, levaram os corpos até o bairro de Santo Amaro e simularam um tiroteio com balas de festins sendo atiradas nos cadáveres já há muito sem vida. Ambos foram enterrados em um cemitério clandestino na zona leste da cidade como indigentes. Apenas décadas depois que descobriram quem eram aqueles dois enterrados sem nome e sem história, pois havia uma história. Era parte da história do Brasil, de uma lutadora brasileira: Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones.


Por Ricardo Novais 

Crônica: A indolência do caso Robinho

 

A visão de Clarice.


Para o torcedor santista o caso Robinho é bem impactante. Não me cabe julgá-lo, mas a Justiça sim; e esta o condenou por um crime terrível. Embora não me incumba aqui o papel de jurista, moralista ou analista de notícias da imprensa, o crime de Robinho não atingiu apenas a vítima do estupro coletivo, é um dolo na alma de toda mulher, uma vez que desperta um gatilho de todo o machismo secular impregnado na sociedade. Atinge as mulheres de maneira psíquica e nos homens causa reflexão, pelo menos, deveria; deveria causar algum amadurecimento de personalidade e caráter – talvez, chegar à sensatez e ao equilíbrio.

 

Eu não sei se o cidadão Robson de Souza vai amadurecer; torço para que sim, que o faça e que recupere a sua dignidade, independentemente de estar sendo, somente agora, obrigado a pagar pelo que fez. Eu digo isto neste parágrafo e escrevi um grande prenúncio, no parágrafo anterior, para deixar claro que aqui, nas parvas linhas deste texto, estou querendo emitir a minha impressão de torcedor, torcedor do do Santos Futebol Clube, sobre o atleta Robinho; ainda porque, como já disse, não vou meter o nariz nas decisões judiciais, mesmo acertadas, e não sou moralista para “chutar cachorro morto”. Portanto, o caso Robinho é uma mácula para quem é torcedor santista.

 

Robinho foi o maior protagonista do título mais importante para Santos dos últimos 40 anos; ele foi o “Rei das Pedaladas”. O título do Paulista de 84 é um marco na memória de quem viu, e de quem não viu também, pois era o "último triunfo alvinegro". Dezoito anos depois isso foi quebrado. Em 2002 os Meninos da Vila recolocaram o Santos Futebol Clube no caminho das glórias, de onde sempre teve presença cativa e eterna, e o jogador Robinho foi como um anjo pedalando em nuvens, dentro dos sonhos do torcedor que sofria há tantos anos; sim, o futebol não me parece só um esporte, é, por vezes, uma poesia que amortece as angústias da vida.

 

Mas e agora, torcedor peixista? Eis que o jogador Robinho se transformou em anjo caído na história do clube e de todo o desporto; se negar os seus feitos históricos e conquistas pelo Santos Futebol Clube e pelo futebol é uma tarefa quase impossível, também é provável que jamais algum torcedor, apaixonado santista ou não, com um mínimo de consciência de vida e de caráter, possa declará-lo ídolo do esporte ou de lugar algum; ora, a justiça é para todo mundo, para a sua esposa, para a sua filha, para a sua mãe, para todas as mulheres que têm os seus direitos desrespeitados e suas honras atacadas todos os dias.

 

Por Ricardo Novais

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