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Fazenda 31 de Março

Foto de arquivo. Cidade de São Paulo.

No dia 31 de março de 1964 houve um golpe infausto na alma do povo brasileiro. Começou uma tortura física e psicológica no Brasil. Sempre existiu tortura, mas o país entrou na institucionalização da barbárie, tanto a oficial como a dos centros clandestinos de tortura.

 

Na capital de São Paulo, na região afastada de Parelheiros e Marsilac, havia a Fazenda 31 de Março. Até o nome deste lugar é assombroso. O delegado Fleury e seus asseclas se divertiam neste sítio como alguém que vai para uma casa de campo desestressar com os amigos; entretanto, a diversão era torturar e assassinar seres humanos como alguém que vai à zona rural caçar tangarás.

 

Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones nasceu no sul do país. Nos anos 60, foi morar e estudar no Rio de Janeiro. Casou-se com Stuart Edgar Angel Jones, filho de Zuzu Angel. Edgar foi assassinado com a boca enfiada em um cano de escapamento de um jipe militar. Nunca encontraram seu corpo. Zuzu Angel procurou o filho incansavelmente e, por causa disto, também foi assassinada pelo regime em um crime jamais resolvido. Sônia Maria, que também havia sido presa, acabou sendo absolvida pelo tribunal militar devido portaria do imponderável.

 

Sônia Maria Jones, viúva, exilou-se na França onde progrediu sua carreira intelectual. Decidida a lutar e resistir contra o regime que assolava a liberdade em sua terra natal, voltou ao Brasil onde começou a trabalhar na clandestinidade. Conheceu Antônio Carlos Bicalho Lana, que viria a se tornar seu companheiro.

 

Algum tempo de relógio depois, Sônia e Antônio foram descobertos por agentes do DOI-CODI do II Exército, em Santos. Abordados no litoral paulista, levaram-nos com destino à cidade de São Paulo. O coronel Canrobert Lopes da Costa estuprou Sônia por 48 horas no DOI-CODI do Rio de Janeiro com o uso de um cassetete, ela teve hemorragia interna. Debilitada, enviaram-na novamente a São Paulo, ao DOI-CODI/SP. Deceparam-lhe um de seus seios.

 

Sonia Maria e seu companheiro Antônio Carlos foram encapuzados, colocados dentro de um Fusca de Fleury, amordaçados, cortando quilômetros e quilômetros entre solavancos da zona sul paulistana até a Fazenda 31 de Março, na zona rural de Parelheiros e Marsilac.

 

Torturados e mortos nas dependências de diversão dos agentes do regime, levaram os corpos até o bairro de Santo Amaro e simularam um tiroteio com balas de festins sendo atiradas nos cadáveres já há muito sem vida. Ambos foram enterrados em um cemitério clandestino na zona leste da cidade como indigentes. Apenas décadas depois que descobriram quem eram aqueles dois enterrados sem nome e sem história, pois havia uma história. Era parte da história do Brasil, de uma lutadora brasileira: Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones.


Por Ricardo Novais 

Carta-Testamento

Brasileiros,

Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

Rio de Janeiro, 23 de agosto de 1954.
Getúlio D. Vargas

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Leitores,

Logo depois de escrever as linhas acima, Getúlio Vargas, Presidente da República, retirou-se desta vida dando um tiro de revólver contra o próprio coração.

No dia em que nós entendermos, um pouco que seja, os motivos, não os motivos políticos, mas as causas ideológicas, as consequências sociais e morais,  a vaidade pessoal e o altruísmo, a glória e a desonra, enfim, no dia em que lermos cada palavra, cada linha desta Carta deixada por Getúlio com algum entendimento, seremos, certamente, uma república federativa um pouco melhor, teremos um processo eleitoral mais transparente e mais justo, e um eleitorado mais reflexivo e mais consciente.

Quando estivermos preparados para a dissertação desta Carta-Testamento, certamente, a autêntica personalidade deste povo estará finalmente formada – e, mesmo com toda a nossa incorrigível preguiça da vida, alcançaremos a paz sublime sob toda a Nação e em nossos peitos também reinará uma silenciosa alegria.

Por Ricardo Novais

Identidade Brasileira

Povo Brasileiro, pintura do artista labiríntico, e brasileiro, Gabriel Archanjo.

Há algum tempo velho, penso qual ser a verdadeira identidade brasileira. Não a encontro. Percebo que de nordeste a sul este povo fundiu-se perfazendo culturas heterogêneas, mas a personalidade básica, que hodierna é derivada do positivismo e de teorias artificiais, são plágios ou alusões a outros povos, sejam estes colonizadores ou estrangeiros aventureiros. Retire os estereótipos frouxos, o que sobra? Um cruel tipo de padronização da identidade que nem mesmo criação nossa é.

Ao longo de nossa história insurgiram diversas revoluções, muitas delas de caráter separatista, onde se questionava a essência genuína do brasileiro. Em São Paulo, cidade onde eu nasci, cresci e formei meus primeiros valores e questionamentos, existe um movimento que quer separar o Estado Paulista do restante do país. Isto está em: "República Burraldina". Este pensamento tem como base os heróis constitucionalistas de 1932. No entanto, nenhum daqueles bravos paulistas de hombridade do passado pensava em separação; ao contrário, lutaram e deram a vida por um Brasil mais justo e unido.

No sul brasileiro existe um movimento intitulado “o Sul é meu país” e diversos outros que também apregoam a independência do povo pampa. Certa vez, em Curitiba, acompanhei o presidente do tal movimento separatista sendo entrevistado por uma rádio local. O sujeito, notoriamente de pouca instrução e estudo, apelava para as tais tradições sulistas oriunda dos imigrantes italianos, alemães e, em casos especiais, dos poloneses. Só pude sorrir da proposta de criação da "República dos Bovinos". Aos meus ouvidos aquilo não passava de fascismo provinciano e, ainda por cima, mal articulado. Neste caso, aplica-se o mesmo que em São Paulo: a nata dos revolucionários farroupilhas queria um Brasil justo e unido e só apelaram para a separação quando julgaram que o governo da época, o II Império, não se importava com o povo do sul. Érico Veríssimo, notável escritor brasileiro, disse que "gaúchos são brasileiros não por acidente de percurso, mas por vontade própria".

Intelectuais pernambucanos alimentam e espalham certo ódio ao sudeste e almejam também a separação do nordeste. Isto é pouco divulgado, mas basta passear meia-hora por Recife que já nos levam para assistir a uma palestra, muito afetada, sobre o tema.

Até a “cara” do Brasil, o Rio de Janeiro, têm membros infiltrados de grupos que pretendem a separação do sudeste. Alguns, por fatores práticos do egoísmo, tendem a querer tratado de amizade com os sulistas. Em várias partes do território nacional vozes inflam raivosas almejando ser o membro de maior destaque da federação, e, mesmo assim, ameaçam com a  eminência do fim do pacto constitucional tendo como justificativa basilar o sofrimento histórico, a exploração de suas riquezas produzidas, os altos tributos do governo central sobre as tais riquezas, o "roubo qualificado" e o desprezo por parte do Brasil – entenda-se por "Brasil" a União Federativa e "pacto constitucional" por cláusula pétrea inserida em nossa adorável Magna Carta.

Perceba, caro amigo descrente que lê o texto e o julga de pouco valor, que nem estou me referindo a grupos de neo-nazistas ou de alguma ideologia xenófoba étnico-econômica de alienação qualquer. Talvez sejam, quando muito, fascistas. Entretanto, penso que este tipo corrente de separatista está em uma espécie de inconsciente coletivo que, desgraçadamente, começa a se materializar. Existe na Europa e em quase toda América. No caso brasileiro é pior. A falta de identidade brasileira já se aliou a total descrença nos ideais positivistas e burocráticos da república.

Não sei ainda qual serão as consequências dos testes submetidos às instituições jurídicas e sociais, o que acontecerá à Federação do Brasil e se um dia esta terra será mesmo o “País do Futuro” ou se será eterno conto de fadas repartido em várias 'nações' independentes. Sei apenas que nasci nesta terra, e gostaria de ser enterrado nela.


Por Ricardo Novais

A Capital do Brasil








Moeda comemorativa em celebração ao cinquentenário de Brasília, em 2010. Ora, amigo candango, vale mesmo R$ 5,00?! (Foto: Divulgação).


Doutor Lacerda, político de nacionalidade e carioca de ofício, vive na cidade de Brasília, capital do Brasil. Não há gente em Brasília. Lá não é bonito, nem feio; o lugar todo é sem rosto. Aqueles 2 arquitetos consagrados quiseram dar devaneio próprio à cidade, não humanidade, não beleza notória; há lá o senso incomum, misterioso, precisamente subjetivo a quem é gênio da modernosa arquitetura contemporânea.

Lá não é lugar de colocar lixo, nenhuma sujeira. Tudo que o homem quer livrar-se não foi e nem vai para Brasília; ao contrário disto, frequentemente os resíduos limpos fundem-se numa única opção daquela terra demasiada cauta e alastra-se para as outras entidades federativas onde, de fato, vive o povo encardido e clementíssimo. Dizem que tudo que é ruim não estaciona na cidade; mesmo o diabo só vai lá apressado e tão somente de passagem. Os jornais enaltecem a cidade, mas acusam os homens. Ora, não há homem morando, construindo vida ou simplesmente passeando na capital. Ela não foi projetada para isto.

Brasília é parte do Gêneses, primeiro criou-se a rua, a casa, a luz elétrica, a água encanada, em seguida as relações e por último o homem. Depois houve descanso. Pasme, leitor, ou confie neste autor: naquele conjunto urbano a condição humana é mínima e, em certo sentido, desnecessária ao progresso desta nossa pungente sociedade. Não! Querida amiga, não tome isto por bravata ou pouca fé de minha parte; deito aqui umas linhas que, se por um lado são frouxas, também são as atitudes de alguns personagens que já são fantasmas – ou quase.

As figuras e personalidades que, de vez em quando, surgem na paisagem brasiliense é porque não tiveram, e nem têm, outra alternativa; seus notabilíssimos arquitetos bem que tentaram evitar que o cidadão comum exale fragrância de sua vida pelo planalto adentro ou respire o ar diplomático, porém alguém há sempre de por lá passar em vontade forçada. Mas só de relâmpago e por conveniência política ou inter-pessoal...

Há muitos anos, Doutor Lacerda foi a uma festa no entorno do Distrito Federal. Encontrou lá coisa diferente da urbe planejada e concebida para ser a “rainha do Planalto Central”. No distrito de Tabatinga, no entanto, entre casas sem o mesmo projeto e perspectiva da famosa vizinha, também alguma violência, achou povo alegre e pouco refinado. Em churrasco de Zé Índio, naquela periferia da unidade da federação, doutor Lacerda esbarrou com moça de pele morena, olhos arredios, semblante desconfiado e que carrega o mesmo nome do pueril local onde nasceu: Paranoá.

Paranoá foi moça bela, exuberante nas formas e pitoresca nos gestos. Foi, porque já é morta. Doutor Lacerda sofreu crise de consciência. Tivera ele um caso com a bela indígena filha de construtores paraibanos que nada conheciam de arquitetura. Contudo, mesmo Lacerda em nada tinha desígnios da FUNAI ou outra entidade defensora daqueles subjugados pela história. De modo que o Distrito Federal também não é lugar para admoestações das angústias humanas – afinal de contas, como já compreendido pelo amigo leitor, não há lá espaço para humanos.

Embora tivesse cadeira na câmara dos deputados, Doutor Lacerda suprimiu a habilidade política e naturalizou o fruto de Paranoá. Nunca soube se a filha que nascera tinha mesmo seu sangue, mesmo assim ele pousou com gosto para os retratos sorridentes e lustrosos de ONG's dirigidas por paladinos da virtude e da justiça republicana.

A criança ainda é bebê; engatinha, chora, depende do pai. Porém dá mostras claras da fascinante herança recebida. Do lado materno, puxou a beleza e a graça selvagem; do deputado Lacerda veio a destreza nos gestos pouco imbecil e nas palavras firmes de caráter balofo que, entretanto, ainda soam confusas por causa da pouca idade. Unânime é a opinião que ela será moça de grande talento, a maior estrela numa constelação brilhante de muitas outras estrelas.

Quem cuida da pequenina Michelle é dona Iasmim. Sim; a menina chama-se Michelle La Bruiderot Lacerda, homenagem a avó galiscista do doutor deputado. Madame Michely criou Lacerda, seu único neto, em um palacete do bairro Peixoto, no rio, depois que os pais do infante morreram num desastre de navio em cruzeiro. A velha permitiu o lado imaturo do órfão, assim como a fragilidade de personalidade, o seu imobilismo e, principalmente, o seu medo da autoridade dela, mas, ao mesmo tempo, incentivou-o à ingenuidade dissimulada e à tirania necessária. Quando, porém, morreu a "vovó mãezinha" francesa, Lacerda já era doutor e, por circunstância dos novos caminhos democráticos da república, foi morar no Distrito Federal.

Casado com a política, ele deixou a filha a cargo de dona Iasmim. Esta senhora não era babá de ofício, mas de vocação. A menina sorria-lhe mais que para o próprio pai. Algumas vezes quis mesmo chamar a mulher de mãe, mas não pode; as crianças reconhecem bem seu destino.

Neste último final de semana doutor Lacerda resolveu visitar o seu Botafogo no velho ‘Maraca’. Saiu de lá tão feliz com o título de "campeão" que resolveu que a filha deveria ser criada no calor humano do Rio de Janeiro e não na impessoalidade de Brasília.

Justamente no dia de hoje ele informou, pagou e agradeceu dona Iasmim pelos préstimos afetivos à Michelle; esta ficou deveras sentida pela separação, contudo, não consta que tenha derramado lágrima. Já a menina, em 3 ou 4 horas, emagreceu, não sorri mais, chama por dona Iasmim, e  incrível! – sente falta dos ares candangos imparciais.

Do “Plano Piloto” não há registro de tese para o sentimento humano – ali deve ser apenas a capital do país, a universidade, a Igreja, toda a gente que construiu a região sabia, e ainda sabe, disto. Realmente são 50 anos em 5... Não obstante, o que não se poderia imaginar é que seja em $5 reais – ou $5 cruzeiros, dependendo da imortalidade do personagem e do tempo.

Já doutor Lacerda, o velho político, tem muitos planos profícuos para sua filha. Sucesso e prestígio; visita-a, sem maiores afagos, de vez em quando... O fruto candango que não vive próximo a árvore que o gerou, e que ainda é muito jovem, cresce a cada dia com frieza de origem e calor artificial... Mas, enfim, seja como for já há até aniversário, porém a menina Michele não sabe se irá comemorá-lo.

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Breve história da cidade de Brasília-DF:


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Em homenagem ao doutor Lacerda, o tradicional e superticioso torcedor botafoguense que queima a camisa, joga-a ao chão, mas nunca abandona seu clube - A 'Estrela Solitária' brilha ainda mais no "Clássico da Rivalidade":


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Embora seja outra história, os vizinhos do doutor Lacerda, em Brasília desde o dia 7 de dezembro de 1987, reclamaram do autor deste blogue atenção ao título do Coritiba Football Club. Entretanto, este texto é sobre assunto diverso deste; a sorte é que aprecio futebol. Além de que não há de fato muitos paranaenses por aquele planalto federal (considerando que todos estão de passagem), de modo que em simpatia aos 'Coxas Brancas', eventuais leitores desta página, e também por serem uns poucos segundos de emoção, apresento-vos o sensacional "Atletiba":


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O leitor candango deve estar decepcionado com este texto em dia tão glorioso à história do Distrito Federal. Também eu estou. Poderia enaltecer mais a ordem e a civilidade da cidade sem povo, ou a coragem, inteligência e genialidade de seus construtores. Oh, quiçá se tivesse ficado apenas naquelas sábias considerações drummondianas; teria apenas ater-me-ido ao desejo prudente de escrever algo belo sobre nossa capital. Mas é que também eu nunca estive lá... Digo tudo, vá! Jamais viveria em uma cidade onde não há esquinas; pois se não  existem esquinas, não existem lá botecos. Eis todo o mal.

Por Ricardo Novais

Democracia com Honra


Foto: Wikimedia Commons.

Tancredo de Almeida Neves, o advogado mineiro nascido sob o prisma da cidade barroca de São João del-Rei, católico fervoroso herdeiro de descendência luso-austríaca e que lutou pela democracia no Brasil, completaria 100 anos hoje.

Quando do golpe militar que estabeleceu uma ditadura no Brasil, o ex-presidente Juscelino Kubitschek embarcava solitariamente no Rio de Janeiro rumo ao exílio ‘voluntário’ na Europa. JK, o festejado presidente bossa-nova que também contribuiu para aumentar a dívida externa do país, tivera o mandato e os direitos políticos cassados pelos militares. Triste e desencantado, Juscelino viu um braço acenando para ele do lado de fora do avião. Era Tancredo Neves.

Tancredo criticava o novo regime, mas nada podia fazer contra. Se mesmo JK abandonava forçosamente o Brasil, os outros deveriam ter paciência. Diferentemente de terroristas ou ‘intelectuais’ de esquerda, o doutor Tancredo Neves travou luta digna e honrada contra a brutalidade da ditadura instalada no seio da sociedade.


Montagem sobre fotos de Manoel Novaes.

JK tinha esperança no amigo Tancredo, esperança que ele ajudasse a redemocratizar o país. Dentro desse quadro, um terrível confronto político entre a direita e a esquerda, é claro que o problema fundamental era saber para onde penderia o centro ideológico e a democracia. Continuaria sendo este representado pelos líderes moderados e inépcios ou a estratégia da direita governamental de liberalização seria suficientemente bem sucedida para atrair para seu seio a média burguesia e a tecnoburocracia?

Os direitos civis foram sendo, aos pouquinhos, reconquistados. Neste tempo estava claro que Tancredo Neves assumiria o controle político das posições de centro no Brasil, ele tinha mesmo capacidade de assumir o poder neste país. A burguesia, quando aceitou a redemocratização, sabia que de fato não corria grandes riscos na medida em que o máximo que poderia ocorrer seria uma mudança do eixo político da direita para o centro.

No entanto, a esperança morreu em 21 de abril de 1985. Lembro de crescer ouvindo de meu pai que a morte de Tancredo Neves, do qual ele era ferrenho admirador, tinha sido alguma espécie de sabotagem. Às vezes, eu achava que ele insinuava que Tancredo havia sido assassinado. Assassinato político? A Arena matou Tancredo Neves?

“Tancredo foi assassinado quando perceberam que a vitória dele era inevitável”, dizia papai. “Após 38 dias de agonia, e sete cirurgias, o primeiro presidente civil eleito desde o Golpe Militar, morre? Hum... Ah, e assume o vice da chapa, o ‘aristocrata do Nordeste’ José Sarney, do PFL, partido fundado por dissidentes do PDS. Não, não, não! Há algo de estranho nisto! Com Sarney, o poder permaneceu nas mãos dos que apoiavam o regime militar... Ora, o senhor José Sarney jamais se desvencilhará do Arena... Está é dura e desesperançosa verdade, meu filho”.


Manchete do jornal Última Hora.

Passado, porém, o momento de comoção, a dúvida de papai passou a intrigá-lo mais conscientemente: a possibilidade de Tancredo ter sido assassinado, acreditava ele, num plano arquitetado pelos líderes do regime autoritário era régio conluio. Vivia a matutar naqueles dias que os opositores do antigo regime deviam ter percebido que a vitória democrática era inevitável... Ele argumentava ainda que não se fez muito esforço para salvar a vida do presidente eleito - embora o general Figueiredo, último presidente do regime militar, tivesse ficado profundamente sentido e o general Valter Abreu reconhecesse a derrota. Os correlatos do país coçavam os bigodes... "Mataram o Tancredo! Mataram o Tancredo!", papai afirmava categoricamente tais palavras repetidas aos amigos e parentes próximos e estes repetiam nas charutarias para que outros repetissem em cafés, em igrejas, no metrô, nas paradas de ônibus, nas cabinas dos táxis, nos bares, nos parques, em praças centrais e periferias longínquas, enfim, uma verdade repetida muitas vezes até virar lenda: "Tancredo Neves foi assassinado!"

Não é possível afirmar isto hoje. Meu pai tinha as sábias convicções dele, e faziam mesmo sentido naquela época, mas o ônus da prova é coisa difícil... Além do mais, devo descontar o conservadorismo católico do patriarca de minha família, embora seja exatamente isto que tenha formado a consciência e a prudência dos que conviveram com ele. Digo isto porque não tenho pretensão de acusar este ou aquele de ter feito isto ou aquilo. Lembrei-me, talvez por causa deste centenário de nascimento do Tancredo, de umas memórias da minha meninice, onde, aliás, a política do país não passava do colégio onde eu estudava. Apenas isto, nada mais.

Seja como for, uma pista assombrosa de que a morte de Tancredo não foi fatalidade, mas um plano minuciosamente arquitetado, é que, em 1996, durante uma entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, o general Newton Cruz admitiu que, em outubro de 84, quando era comandante militar do Planalto, foi procurado pelo então candidato Paulo Maluf, que teria proposto um golpe militar, caso Tancredo Neves fosse eleito, justificando que o adversário estava muito doente.

Mas isto cai por terra quando refletimos um pouco: Como Maluf poderia saber da doença de Tancredo com seis meses de antecedência?


Foto: Antônio Milena - Agência Estado.

Contudo, a partir daquele fatídico feriado de Tiradentes, no remoto ano de 1985, o Brasil perdia seu último ‘salvador da pátria’ autêntico. Hodiernamente não cabem mais na conjuntura os papéis de 'salvadores', 'deuses' ou 'pai de todos'; quem ainda teima em comportar-se como ‘grande estadista’ cai no populismo ridículo e na farsa da boa governança. As instituições brasileiras são mais fortes, o povo é mais estruturado e incentivado a progredir no ambiente social, seja isto para o bem ou para o mal da consciência.

Eu não sei se o doutor Tancredo Neves foi assassinado e nem se o Brasil seria melhor caso ele tivesse tempo para cumprir o seu mandado de Presidente desta República. Sei apenas que, além de meu pai, muitos alunos de uma escola pública de São Paulo carregaram, e por certo ainda carregam, a angústia sobre o nome Tancredo. Esta escola é também onde eu fiz meus estudos regulares...

Uniforme antigo da escola Tancredo A. Neves, em São Paulo.





Mas, enfim, linha de pensamento político à parte, o doutor Tancredo de Almeida Neves, um mineiro de fala mansa que se comportou de maneira honrosa nesta vida, agindo com bondade sem ser fraco, justo sem ser tirano, em suma, vivendo com integridade e amor ao Brasil, deixou um legado de virtude à democracia.

"Tancredo Neves, Mensageiro da Liberdade" é um documentário, dividido em 9 partes, narrado pelo ator Othon Bastos e que foi produzido pelo jornalista Fernando Barbosa Lima, sobre a biografia deste grande filho do Brasil, sob o som dos sinos (fé) e da corneta (pátria). Assista o filme abaixo, vale muito a pena:

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Olhando para trás, com os olhos de hoje, creio que quando o presidente eleito Tancredo de Almeida Neves morreu sem tomar posse do cargo, eu, que havia nascido poucos anos antes e absolutamente não me interessava por política, ainda assim, tenho por certo que fora ali o rito inicial de minha descrença irremediável em qualquer discurso desta sociedade positivista.

"Libertas Quæ Sera Tamen", mas o trem mineiro já passou e levou com ele também a esperança tardia...


Por Ricardo Novais

Documentário: Tancredo Neves, Mensageiro da Liberdade; exibido neste post em 9 partes; produzido pelo jornalista Fernando Barbosa Lima.

Antagonismo Brasileiro


Qual caminho, Brasil ?

Embora ainda não tivesse trinta anos, Maria Estela já tinha vivido a sua vida. Por fora aparentava sua idade real, mas, ao mesmo tempo, por dentro, já estava morta. A maré nos leva, porém nos trás de volta; ainda que não nos devolva no mesmo aspecto.

Os seus pais eram fugitivos políticos da época dos “anos de chumbo” que voltaram para o país com a anistia, depois de 1979. No entanto, haviam ficado esquizofrênicos e viam fantasmas de seu passado em todos os lugares. Chegavam ao ponto de não saírem de casa por meses, a esmo. Viviam abraçados, sempre em lágrimas. Com o advento da redemocratização nacional decidiram que era um novo tempo e tinham o dever de deixar um fruto para o “País do Futuro”.

Assim nasceu Maria Estela; que, por sua vez, cresceu num ambiente de conspiração constante, reuniões de velhos amigos barbudos e mulheres com fotos em preto e branco nas mãos. Não era uma atmosfera muito propícia para que uma criança crescesse feliz, mas ela nunca reclamou. Essa moça sempre soube que teve sorte de nascer; posto que muitos torturados do ‘regime’ fossem desaparecidos para sempre e, tivesse sido este o caso de seus pais, ela jamais existiria.

O “Doutor J. Mariano” se destacava na galeria dos mitos nos porões do DOPS de São Paulo, estava atrás dos guerrilheiros do Araguaia e dos principais lideres da Aliança Libertadora Nacional – ANL, e da Vanguarda Popular Revolucionária – VPR. Sorte do Movimento Revolucionário – MR-8, que era do Rio. No entanto, para chegar aos “subversivos”, o delegado paulista se valeu das relações dos pais de Maria Estela com alguns dos membros rebeldes, assim capturou-os, violentamente, em sua própria casa. Torturou-os, cruelmente, para que delatassem a quem ele procurava. O homem agüentou por mais de 48 horas, no entanto, a tática dos torturadores venceu; havia um quarto ao lado da sala da mortificação onde se ouvia a mulher aos gritos; gritos assombrosos, diga-se.

Aterrorizado, vendo que a esposa, grávida, estava sendo deflorada em sua intimidade, o pai de Maria Estela não teve outra opção e delatou os companheiros.

Assim foram libertos e puderam voltar para casa, mas o bebê não vingou. Jamais se recuperam deste trauma. Quase uma décadas mais tarde, Maria Estela, única filha deste casal torturado, nasceu. Porém, nem mesmo a menina bonita e inteligente conseguiu indenizar a violência e a estupidez que provocou o aborto do primeiro filho. Eles teimaram, com honestidade, em querer retomar à vida, mas não alcançavam o resgate da alegria de viver. As lembranças o assombravam, a letra J. fazia tremer dos ossos dos tornozelos até os condutores cerebrais mais pavimentados. Foram longos anos fora do país... Naquela época difícil, e mesmo depois sob fiscalização intensa dos órgãos de repressão, eles fugiram com todos os medos e pavores que os acompanhariam por toda a vida.

Curioso como os governos ditatoriais dos países latino-americanos ficaram obstinados à caça de um determinado setor que ameaçavam o seu poder e não se aperceberam que grupos de esquerda se infiltravam sutilmente nos veículos de comunicação formando, aos pouquinhos, um pensamento marxista-positivista em moldes de social-democratas europeus. Guardadas as devidas proporções, estes grupos, nem sempre marxistas, mas sempre positivistas da esquerda intelectual não revolucionária, implantaram uma espécie de ‘revolução cultural’ similar ao ocorrido primeiro na França. Uma lástima!

É culpa de Maria Estela não saber qual caminho escolher nesta sociedade? Respondas, se puder... Lembrando que longe dela ser revolucionária, Maria Estela era reacionária, no sentido rodrigueniano, posto que tinha reação a tudo que julgava não prestar. Ela mesma pensa que antes o Brasil estava à beira do abismo, mas agora parece que o país deu um passo à frente...

De qualquer forma, peço a gentileza ao leitor e a leitora que interrompam a leitura por um instante. Faça-se um minuto de silêncio em honra às famílias dos desaparecidos e torturados no Brasil inteiro; assim como também às Mães da Praça de Maio de Buenos Aires, na Argentina; e aos súditos massacrados pelo poder do Palácio de la Moneda em Santiago, no Chile.

Grato aos leitores!

Nenhuma ideia, seja lá qual for e de qual lado estiver, justifica a morte de um homem. Pois, num esplêndido dia comum, a raiva e a coragem caminharão lado a lado e, neste momento tão reflexivo, originar-se-á uma ambiguidade muito duvidosa e cruel: a luz dos olhos de Deus nos guia ou nos cega?


Por Ricardo Novais

Ame os Livros e Será Imortal!

José Mindlin, para sempre amante da leitura.



Morreu ontem o bibliófilo José Mindlin. Ele tinha 95 anos completos e estava internado há cerca de um mês no hospital Albert Einstein, na capital paulista.

José Ephim Mindlin nasceu em São Paulo em 8 de setembro de 1914. Formou-se em Direito em 1936, pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Participou ativamente de momentos históricos e políticos do país, como a Era Vargas e foi Secretário de Cultura do governo de São Paulo na época da Ditadura Militar, embora fosse contra o regime. Ele se referia com muito desalento aqueles tempos tortuosos e em especial a morte de Vladimir Herzog, a quem ele convidara para trabalhar na área jornalística da Tv Cultura, pertencente ao Estado. No documentário abaixo, roterizado e finalizado por Roberto Stefanelli, José Mindlin comenta, entre fatos marcantes à história do Brasil e a paixão pelos livros, a morte de Herzog.


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Mindlin advogou até 1950, quando foi um dos fundadores e presidente da empresa Metal Leve S/A, empresa pioneira em pesquisa e desenvolvimento tecnológico próprio no seu campo de atuação. Em sua atividade empresarial desenvolveu grande esforço em prol do avanço tecnológico brasileiro e no processo de exportação de produtos manufaturados nacionais.



Frequentador assíduo de livrarias, sebos e afins, este homem culto, intelectual por vocação e que tratava os livros como amigos muito queridos, formou uma das mais importantes bibliotecas privadas do país, iniciado quando ele ainda tinha 13 anos. Cerca de 45 mil volumes, entre coleções e folhetos, foram doadas por ele à Biblioteca Brasiliana da USP. A Brasiliana é ideia e criação dele e de sua querida esposa, Guita Mindlin, que morreu 4 anos atrás. Foi ela quem catalogou e organizou o acervo. Conforme ele mesmo dizia: "Sempre fomos mais depositários da biblioteca do que proprietários dela, porque nós passamos e os livros ficam".

É extremamente triste a perda de Mindlin. Num país que não prima pela leitura, ele era um guardião extraordinário dos livros. É pena!



Em 2006, José Mindlin entrou para a Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira número 29, antes pertencente ao historiador e escritor Josué Montello. Na oportunidade ele declarou com sua habitual tranquilidade: “Estou feliz por estar agora entre os imortais desta tão magnífica e tradicional Academia, mas trocaria esta minha imortalidade por uns 10 anos a mais de vida para que eu pudesse assim ler ainda mais livros.”



A morada de seu corpo é agora numa sepultura ordinária do Cemitério Israelita. Mas como ele tem, sem dúvida, uma extraordinária alma amante dos livros, alcançou a imortalidade. Mais que muitos que andam por aí nestes salões de sociedade, José Mindlin é sim legítimo imortal; e ele é parte integrante da história deste país e tinha consciência da verdadeira cultura deste povo. Neste momento, faço o silêncio que tanto o luto como a leitura pedem.





Por Ricardo Novais

A Folha Online serviu de fonte de informações para este texto.
Vídeo que aparece neste texto é um documentário de Roberto Stefanelli.
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