Mostrando postagens com marcador Cinema / Filmes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinema / Filmes. Mostrar todas as postagens

Encontrei Cantona

Nesta semana consegui ver a última semana da 33ª Mostra de Cinema de São Paulo, terminou ontem. Assisti ao filme “À Procura de Eric”, do extraordinário cineasta inglês Ken Loach.

O filme é lindo! Tem uma beleza leve e bem-humorada, narrado em tom de fábula; é também um presente para os apaixonados por futebol e admiradores dos jogadores rebeldes, independentes e de personalidade, como o craque francês Cantona.

Eric Bishop, personagem do excelente ator britânico Steve Evets, é um carteiro em crise, atormentado pela paixão mal resolvida pela ex-mulher e dois enteados adolescentes que cria com muito esforço.

Cercado de amigos, aos quais não dá ouvidos, Eric encontra refúgio apenas em seu quarto – um pequeno ambiente decorado com um pôster de Eric Cantona em tamanho natural, além de outras fotos de jogadores do Manchester.

O foco do filme é a classe trabalhadora inglesa, com seu sotaque particular, os gestos bruscos, mas carinhosos, e a paixão pela cerveja e o futebol. Cantona, de certa forma, pelo que aconteceu em sua carreira, é mais inglês do que francês, e faz todo sentido dentro deste filme (o ex-jogador, a propósito, é um dos produtores do longa).

Nascido em Marselha, Cantona atuou por várias equipes francesas e pelo Leeds, da Inglaterra, antes de se transferir para o Manchester em 1992. Com a camisa 7, se consagrou com um dos maiores jogadores da sua geração e ajudou a equipe a conquistar o Campeonato Inglês (Premier League), que não vencia desde 1967, por quatro vezes.

Também deixou uma marca pela personalidade – inteligente, rebelde, sempre falou e fez o que vinha pela cabeça. Uma vez, no Marselha, atirou a camisa do clube no chão ao ser substituído. Criticou publicamente o técnico da seleção da França, o que o afastou de convocações.

Certa vez, no Manchester, depois de ser expulso de campo, agrediu um torcedor do time adversário, que o xingava das arquibancadas. Foi suspenso por dez meses. Por conta desta e outras confusões, acabou não participando da seleção da França na Copa de 98, sua maior frustração. Abandonou o futebol aos 31 anos.

Vários dos 84 gols que Cantona fez jogando pelo Manchester são rememorados no filme pelo perseverante Eric. A paixão por este esporte mágico chamado futebol contagia todos os sentimentos do mundo.

Abaixo o trailer do filme:
Site oficial da 33ª Mostra de Cinema de São Paulo: http://www.mostra.org/
Site oficial da produtora: www.californiafilmes.com.br/

Um Diabólico Mestre do Suspense

Sir Alfred Hitchcock nasceu quando o século XIX morria: 1899, na sombria e chuvosa Londres. Filho de família católica, ele recebeu o peso da complexa orientação jesuítica. Iniciou-se ainda no cinema mudo, em 1913, como roteirista, entrando pelo caminho do gênero suspense – que iria marcar sua carreira e do qual seria o mestre incontestável – com o filme The Lodger (1926), inspirado no célebre Jack, O Estripador. Em 1939, o produtor David O. Selznick o levou para Hollywood, onde realizou a maior parte de sua magnífica obra de 53 filmes. Um dia ainda conseguirei assistir a todas estas obras cinematográficas, se Deus (ou o diabo) quiser!...
Hitchcock não foi somente um mestre na arte dos filmes de suspense, ele foi um gênio inigualável no cinema. Produziu obra-prima em cima de obra-prima; começando por Sabotador, em 1942, que na realidade é um filme de guerra – gênero incomum na filmografia deste cineasta do humor irresistível.
No entanto, já em 1948 ele filma o que é – na minha modesta opinião – a melhor de todas as extraordinárias películas que ele produziu: Festim Diabólico. Foi o primeiro filme da série de três a contar com o ator James Stewart; o primeiro colorido; e não teve qualquer corte de câmera – a não serem os obrigatórios para a troca dos rolos. Festim Diabólico encanta não apenas pelo suspense paralisante e acusador, mas também pela beleza poética das cenas sutilmente escarninhas.
Janela Indiscreta, outro clássico fantástico, é de 1954. Ali está o casal perfeito para Hitchcock: James Stewart e Grace Kelly. Um fotógrafo que bisbilhota as mazelas dos vizinhos é a trama principal; mas, por extensão, poder-se-ia dizer: o filme constata a pobreza de espírito desta nossa humanidade.
Em 1956, em O Terceiro Tiro, o gênio do suspense exuma um personagem, várias vezes, para que ele encontre o seu próprio assassino. O enredo não cai no humor negro banal, é um humor ferino e inteligente.
Um Corpo que Cai é um filme vertiginoso. James Stewart agora contracena com Kim Novak, uma das não menos célebres loiras do mestre. Este longa-metragem é de 1958, e é um interessantíssimo estudo sobre sentimentos de culpa, através de um policial que sente vertigens no seu trabalho. Para a maioria de seus fãs, e também dos críticos, é o seu melhor trabalho. Eu ainda prefiro Festim Diabólico (uma filmagem sem cortes de cena, com uma história contagiante e perturbadora de um “cientificista nietzschiano” que, ainda assim, consegue ser bela e comovente por causa da ironia inteligente que o cineasta utilizou, não pode, de modo algum, não ser o melhor filme crítico que já fizeram na face da terra); no entanto, eu concordo que Um Corpo que Cai é um filmaço extraordinário!
Psicose dispensa maiores apresentações. O filme, de 1960, tem, talvez, a cena mais falada do cinema em todos os tempos: o ator Anthony Perkins e o comemorado drama do assassinato no chuveiro – á, á, á, á, á, á... ahhhhhh! Neste longa de traços edipianos, Hitchcock conseguiu, enfim, atingir sua independência financeira, tal o sucesso deste filme.
Em Marine, Confissões de Uma Ladra, de 1964, o mestre deita o olhar da sua câmera sobre uma cleptomaníaca e o absurdo de ver-se obrigada a casar com uma de suas vítimas, sob ameaça de denunciá-la à polícia. É humor sarcástico na veia! A protagonista da trama é Tippi Hedren, outra loira, que também encena Os Pássaros, de 1970, outro clássico com cenas de tirar o fôlego como a das crianças sendo atacadas pelas aves enfurecidas e o limiar do telhado da casa infestado de pássaros ameaçadores, na tomada final do filme.
Já Topázio é de 1969. Este é, sem dúvida, o filme mais complexo de Hitchcock que eu assisti. É uma trama sobre espionagem internacional, inspirada na crise dos mísseis soviéticos em Cuba.
Estes filmes que mencionei acima, todos clássicos incontestáveis, foram os que eu assisti e me recordo – lembre-se, crítico leitor, que sou apenas um blogueiro ordinário que gosta de cinema; assim como a minha amiga, a dona leitora, que tantas vezes já convidei para ir comigo ao cinema, mas que sempre indefere meu pedido. No entanto, há muito mais filmagens. Hitchcock tem 53 obras em sua carreira, sendo que a última, de 1976, foi Trama Macabra – este, por um acaso, eu também assisti e digo que é um filme maravilhoso (uma trama sobre uma vidente que explora os ricos e os supersticiosos), mas é, sobretudo, coerente ao que foi toda a vida cinematográfica deste mestre: mistura tensão e humor; talvez, a mais divertida comédia de horror de toda a história do cinema.
Este gênio da sétima arte, Sir Alfred Hitchcock, morreu em 29 de abril de 1980; deixando milhares de órfãos de seu humor refinado e sarcástico. Não se tem notícia de outro gênio como este mestre do suspense diabolicamente cômico.
Abaixo a última tomada do meu filme favorito: Festim Diabólico – está no original em inglês, mas pode-se encontrar as versões inteiras deste longa-metragem com legendas ou mesmo dubladas, em qualquer locadora de bairro; vale a pena, eu garanto! Este take que selecionei abaixo é o trecho final, onde se é possível verificar claramente as tomadas de câmera fantásticas, que nos travam todos os nervos do corpo, onde os personagens discutem sobre o ato que cometeram: assassinaram um amigo considerado fraco socialmente e esconderam, propositalmente, o seu corpo em um baú que, por sua vez, serviu de mesa para o banquete das pessoas da sociedade, isto é, foi a sustentação para uma festa diabólica. Também pode-se assistir neste trecho a beleza poética da mensagem derradeira do filme com a cidade grande ao fundo (Nova Iorque), poço de todas as ilusões e crueldades humanas:
* A gravura que aparece no texto é de VA - Alfred Hitchcock - Presents Signatures In Suspense - 1999.
Protected by Copyscape Online Infringement Detector