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Equilíbrio

O grande bar, de Alberto Sughi.

Não eram dez horas ainda, mas a noite parecia acabada. Ah!, leitor, uma noite encerrada precocemente é como o amor sem o gozo. A cidade é feita para se apreciar, sair de casa, andar a pé pelo bairro, parar em um bar. Preencher a vida com rostos desconhecidos de todas as cores e idades.

Parei em frente ao bar do Juarez, não entrei. Fiquei a olhar com insegurança as ruas ao redor, cheias de bares apinhados de gente, homens e mulheres desconhecidos fumando nas calçadas, copos tilintando beijados pelas mesmas bocas, bocas transmitindo as mesmas conversas. Não eram dez da noite.

Entrei no bar. Pode dizer-me ambíguo, leitor. Fui direto ao balcão, bebi uma dose e chegou uma mulher. Fomos para uma mesa nos fundos do bar, a única que vagou rápido. Em cinco minutos, eu olhava para uma mulher em prantos acusando-me de crápula; não julgue à toa, dona leitora; a coisa pareceu-me triste, a noite terminando precoce...

Há muito tempo, um velho bruxo dizia que existem pessoas que choram pelos espinhos na rosa, mas há outras que sorriem porque entre os espinhos colhem-se as rosas. Possível que o pensamento não seja deste jeito tão rude, mas é que não tenho a elegância daquele bruxo, e também porque a paciência da escrita deste tempo é mais curta do que outrora.

Sim, fui um crápula. Saí do bar. Sozinho. A mulher ficou, solitária, terminando a cerveja sem álcool à espera de alguma boa companhia. Andei pelas mesmas ruas entre os mesmos bares apinhados de gente de todas as idades. Entre todos os desencontros, encontrei boa companhia em pub de ladrilho descacado. Bebemos, rimos, cantamos; bebemos outra vez... A noite precoce estendeu-se um pouco mais, e mais, até que virou dia.

- O que você está pensando?

- Na bebida colorida desta cidade!

- É tão simples...

Há coisas que me fascinam demasiadamente. Os sorrisos fracos entre os goles de cerveja e a névoa do cigarro que não se fuma pesam às costas daqueles que se conhecem bem, entretanto, entre aqueles que tenham se visto pela primeira vez há poucos instantes todo momento é único e futuro.

- É tão simples...

Enquanto alguém lamenta, caro leitor e querida leitora, outra ri; o mundo é perfeito. Seria um tédio só se tudo fosse lágrima, mas também sorriso o tempo todo seria fútil e débil. Não acha? O equilíbrio é a felicidade da vida, em sua variedade humana, entre lamúria e dança, ressaca e impulso; um copo sendo cheio por uma garrafa brilhante em um bar qualquer desta megalópole barulhenta, cinza e de passos anciosos.

Por Ricardo Novais

O caso do bar

Edouard Manet - óleo sobre tela - 1864.

Entrei em um bar e, enquanto aguardava amigos para o happy hour, fiquei a observar dois homens que discutiam sobre política na mesa em frente. Discutiam tão alto que era possível ouvir com exatidão o motivo do entrave.

- Você é idiota, Carlos! É claro que o governo neoliberal traz progresso ao país...

- Não, senhor! O neoliberalismo enrique uma casta e o povão fica na merda! O nosso país deveria seguir a política dos países nórdicos...

Era uma discussão tão superficial que logo me desinteressei. Menos que um quarto de chope, os meus amigos chegaram. Alguma bebida, risos e piadas ao estilo do mestre Ary Toledo depois e eu já estava meio bêbado; meio bêbado é um eufemismo, caro leitor, já que não existe ebriedade pela metade.

- Então você não acha que o campeão de 87 é o Flamengo? – questionei um.

- Claro que não, Heitor! É o Sport do Recife...

Embora fossemos trintões, a nossa discussão era sobre futebol e coisas relacionadas ao ambiente de garotos da 5ª série.

De repente, olhei para frente e vi os dois camaradas que estavam discutindo política saindo do bar, juntos e abraçados, porta fora. A dona leitora bem sabe, a curiosidade alheia é a salvação do tédio do espelho. Então chamei um garçom e lhe perguntei se sabia quem eram aqueles dois.

- Não sei, senhor. Mas acho que se conheceram hoje. Eles chegaram antes do senhor... Bem, quando eles chegaram eu ouvi eles falando... Apresentaram-se formalmente... Acho que tinham marcado o encontro pela internet. Por quê?

- Por nada.

Acabei de beber, dei um abraço nos meus amigos e saí do bar. Poucos metros, vi alguém caído na calçada. Aproximei-me, já havia umas cinco ou seis pessoas envolta. Reconheci o sujeito agonizante na calçada, era um dos homens que estava no bar discutindo política, jaz moribundo; não tinha sinal do outro.

Um senhor velho, de barba branca bem rala, que parecia velar o local, abaixou e sumiu o relógio do morto. Veio mais gente; moradores de rua, seguranças, funcionários do metrô, executivos que estavam saindo do trabalho e duas mulheres da vida e um travesti alto.

A esta altura, o morto já tinha perdido a carteira, o celular, a gravata e a honra política; chegou a polícia. A polícia chamou o SAMU. O cadáver, mais político do que nunca, aguardava o rabecão e o seu esquife.

Passei bem um quarto de hora a admirar o espetáculo da morte na república. Depois me afastei, devagar, reflexivo de quem seria o cadáver, de que lado do Fla-Flu ideológico ele se encaixava, em vida e em morte; cheguei em casa e fiquei o resto da noite acordado. Procurei e procurei uma posição política e de ética em uma rede social da internet. Não achei nada além de julgamentos republicanos, esparsos e rancorosos. Perto de amanhecer, eu desisti; e fui ler as notícias esportivas.

Por Ricardo Novais

A conversão

Conversão de Santo Agostinho, pintura de Fra Angelico.


Pedro Antônio nasceu numa grande cidade brasileira. Seus pais, típico casal de classe média e pinguço. O pai beberrão houvera desenvolvido sintomas alcoólicos de desintegração emocional sob a forma de perversão obsessiva e surtos de violência. Em decorrência disso, a mãe de Pedro voltou-se para a religião, repudiou o líquido pecaminoso e transformou suas frustrações e desapontamentos em ambições para o filho.

Desde o início a mãe o oprimiu, embora em nenhum momento ele ouse uma palavra contra ela, cujo cristianismo extravagante e puritano perpassa sua vida desde o primeiro sopro. "Eu era de fato um grande pecador", ele sempre comentava, sem ironia, a respeito de seu desgosto com a família e em relação às aulas.


Mais tarde, já adolescente, Pedro realmente saiu da linha. Junto com colegas de escola, roubava para sustentar o vício recente com o álcool e drogas. Como resultado dessa vil iniquidade, entregou-se à orgia de autoflagelo que continuou até o final das profundezas do abismo. "Eu estremeço ao olhar para isso ou pensar em tal abominação", vivia ele a repetir esta sentença a quatro cantos e a todas as mesas de botecos, vielas e prostíbulos.


O que quer dizer tudo isso? Leitores com propensão à psicologia talvez encontrem traços simbólicos no jovem rapaz roubando para sustentar os vícios inerentes à sociedade, mas essa explicação seria por demais superficial, até fácil. Não havia dúvida que a mãe de Pedro, mulher austera, guiava a vida doméstica da família. Ela chegou inclusive a convencer o pai alcoólatra de Pedro a se converter ao cristianismo, provavelmente durante uma crise, no ano anterior de sua morte. E quando ficou evidente que o jovem filho havia herdado alguns dos inconfessáveis hábitos do pai, ele foi banido de casa. Por pouco tempo, é verdade. Matou a mãe à marteladas, e com um martelinho de bater bife. Ali, virou um ser inominável!


Neste ínterim, continuou pelejando com o problema das drogas. Desesperado, algumas vezes chegou mesmo a voltar-se para Deus, implorando-Lhe, tocante como Santo Agostinho em suas Confissões: "Senhor, dai-me a castidade, mas não ainda". Não podia deixar Deus curar-lhe cedo demais das doenças viciosas que ele desejava por mais que fizesse exame de consciência. Pedro Antônio, um garoto extremamente brilhante, diziam as línguas conhecidas, e também  um desordeiro, outras línguas conhecidas refutavam. Os desconhecidos adoravam-no. Mais tarde, contaminado pela paixão fosca e apedreja, foi viver com uma mulher da vida, com quem partilhou, pela primeira e única vez na vida, relação de amor e fidelidade. Acidentalmente. Madalena deu-lhe um filho; no entanto, o púbere não vingou em nada. Assim como sua amada, o nada da ilusão. Felicidade reiterada, e lhe retirada. Morreram seus amados. Desgraçados!


- Senhor, dai-me a castidade, mas não ainda... E, se puder, livrai-me do fogo do inferno!


O pobre-diabo não era apenas um pedante que cultivava um problema; o desassossego que o conduziu em tais extremos de lascívia e de degradação também o guiou em direção à descoberta da verdade de si mesmo; julgou assim em certo dia de ressaca. Qual a razão deste comportamento?, repetia ele à própria alma. Como ser tão completa e mesquinhamente vil e corrompido e, ao mesmo tempo, aspirar alguma pureza?


A psicologia e a psiquiatria o enquadrariam na mais completa normalidade; já o cristianismo oferecido pela mãe parecia demasiado simples para satisfazer seu intelecto exigente. Ele precisava de uma explicação que fosse suficientemente profunda para que ele pudesse acreditar nela. Começou a se interessar pela filosofia, mas esta igualmente não oferecia solução e só lhe fazia rir. 


Num dia maravilhosamente imbecil, essa crise de espiritualidade o deixou à beira da estafa mental. Perturbado pela raiva e pela angústia, em estado de indecisão quase completa, buscou alívio na quietude do bar. Por algum tempo, virou doze ou treze copos de doses dos mais variados destilados, violentamente. Enfim, atirou-se sob à mesa e chorou, copiosamente. Contudo, percebeu que milagrosamente não tinha sequer mísero sinal de embriaguez. Imediatamente parou de soluçar, levantou-se e, ali mesmo, procurou na mochila e encontrou uma copia das Epístolas de São Paulo, que eram de sua mãe, abriu-a e leu as primeiras palavras que viu: "(...) não na orgia e na embriaguez, não na luxúria e na lascívia, não na disputa e na inveja. Ao invés disso, tome a si o Senhor Jesus Cristo e não se demore mais pensando na carne, a fim de saciar seus desejos". Milagre! Foi um milagre sublime; sonhou, não fez mal em sonhar. Naquele ato, o pecador se converteu; transformou sua história e estava decidido a ser crente e temente a Deus, mas não há paraíso sereno e paz na Terra aos homens de boa vontade. Súbito, desencarnou ao sofrer violentíssimo ataque fulminante do miocárdio em decorrência de asfixia causada pelo vômito alcoólico.


Por Ricardo Novais

A ronda noturna

Reprodução do quadro 'A ronda noturna', de Rembrandt.

À meia-noite, bêbado e confuso, comecei minha ronda. Late um cão numa casa de esquina; noutro quarteirão, outro cachorro, maior, rosna irritadiço. Não há pessoas nas alamedas nem nos cafés, apenas vultos sem rostos por todos os lados. Vou subindo a rua, com dificuldade, mas descansadamente, passeando pela noite... Nisto, sou poeta. Encontro o guarda-noturno a olhar para as casas, para os edifícios, para os muros e grades, para as janelas e portões. Cumprimento-o, ele me acusa. Somos dois anjos da noite que se encontram, embora ele vague pela cidade montado em sua motocicleta de cavalaria e com um bom revólver no bolso da jaqueta.

- Temos aqui a arte de se viver da ilusão, meu caro! – ele diz e me solta.

Dou-lhe as costas, ainda ouço o ronco frouxo e vagaroso de sua infantaria de duas rodas a dobrar de ruas, e eu a dobrar de pernas. Continuamos com as nossas rondas distintas, é de nosso ofício. Somos dois homens solitários em meio à cidade grande, ainda por perceber o longínquo barulho de frear dos ônibus numa avenida central, um acelerar de automóvel numa rua secundária, os últimos veículos, sonolentos, em meio às últimas almas humanas.

O metrô para na última estação. Também os maridos tornam às suas felizes residências, embora cercadas por grossas grades de ferro, por protegidos condomínios automáticos e por emaranhados arames farpados com choques elétricos. Cidade grande, fornecedora de ilusões...

Entro no último bar. Bebo, ao guarda-noturno! Vou à última casa do bairro, paro debaixo da penúltima janela do sobrado amarelo depois de tropeçar nos excrementos naturais de uma cadelinha de madame. Lá dorme e sonha ela, e de lá estouram-se dois estampidos de revólver – que não saem do bom revólver do outro anjo da noite. É a última garoa da madrugada.

Por Ricardo Novais

Colecionador de aventuras

Multidão,  desenho com caneta esterográfica - A4 - 2002. Site: Arte por Arte.

 - Conto em homenagem ao repertório da pungente sociedade brasileira.

Ronaldo é um jovem recém-formado do curso de engenharia do petróleo. Tem boa carreira na cidade grande, coração de pedra, onde mora, sozinho, em belo apartamento na zona sul. Seu comportamento, o leitor já adivinha, é o típico da geração pré-sal; às vezes vazio em meio a tantas ideias, às vezes tomado pelas mãos de julgamentos alheios. No lazer, encasula-se em manto de coligir efemeridades. Ele é um colecionador de aventuras, fugaz como beijo de nuvem.

Noutro dia, Ronaldo quis curtir a noite. Balada boa. Mas em casa de muitas cores, nenhuma tonalidade coloriu seu espírito empreendedor. Então bebeu. Bebeu sem moderação. A madrugada caiu pesada na cidade grande; nenhuma palavra suspira, toda palavra sonha. O jovem engenheiro, em seu intrincado caminho de volta para casa, desvia-se à rua do parque municipal e depois à rua do clube de jóquei.

- Oi... Meu nome é Ronaldo...

- Prazer, gato. O meu é Madeleine...

- Entra logo no carro, porra!

Fugiram. Aportaram em destino certo, embora oblíquo. Dentro do apartamento, o sono não entrou. Lá só entrou o álcool cortante, a farsa dissimulada e o amor cínico. Assim foi. Ainda não havia chegado a fulgurante alvorada, Ronaldo deu um salto da cama, horrorizado:

- O que eu fiz, meu Deus?! – exclamou num grito de pavor olhando para a figura corpulenta e efeminada que estava dormindo embaixo de seus lençóis.

Ele caminhou a passos miúdos até a sala. Quase de tudo paralisado, más vozes vieram a perturbar-lhe o funcionamento cerebral. Na tentativa de aquecer um pouco a friagem d’alma, serviu-se de uma boa dose de uísque, depois outra, e bebeu a garrafa toda. Chorou. Chorou muito. Riu. Riu consigo e de si. Ronaldo poderia colecionar a mulher que quisesse nesta vida; loira, morena, secretária de multinacional, modelo de capa de revista, mas calhou de naquela noite ele amar logo uma moça extravagante, que roncava varonil no quarto ao lado. Ultrajante, ele julgaria a isto mais tarde.

De repente, sob o carpete elegante da sala, o engenheiro conjecturou que era preciso fazer alguma coisa para não ser descoberto como degenerado. O pai o deserdaria. A mãe igualmente o renegaria. Fatalmente seria despedido do emprego. Começou a ter fortes devaneios, que já beiravam alucinações, quando pensou em Aline; a noiva certamente lhe devolveria o anel de noivado por causa da aventura pérfida do lusco-fusco. Neste pensamento, entretanto, o coração apertou. Olhou para a sacada do prédio. Quis ir até lá; ébrio, tropeçou no carpete refinado da ante-sala. Cambaleante, conseguiu abrir a porta de vidro. Copo de uísque à mão, ele chegou ao parapeito e baixou a cabeça. Teve tontura. O copo estilhaçou-se ao chão. Cortou o pé. Outra vez no parapeito, olhou para baixo. Acometeu-lhe nova tontura. Bêbado que estava, desequilibrou-se. A cena foi patética. Nu em pelo, dependurou-se no suporte do parapeito. Sentiu a gélida garoa da madrugada e o vento talhante percorrendo-lhe à espinha. Os dedos machucados foram cansando e escorregando sem conseguir mais se agarrarem à barra do suporte. Tamanho esforço, ele deu um grito de pavor e...

Grande foi o estrondo que se escutou no contíguo de baixo. O prédio iluminou-se quase todo. Pouco momento, o dono do apartamento atingido apareceu. O vizinho mal pode acreditar ao ver um homem nu estatelado no piso de seu deck de churrasco. Ronaldo balbuciou:

- Por favor, só me leve pra casa...

Acordou na emergência pública. Pobre diabo! Toda a família foi ao hospital. A voz do síndico se fazia ouvir do corredor. A história ecoava por todos os leitos moribundos. A primeira visita que o engenheiro Ronaldo recebeu foi a do doutor delegado.

- Que houve, jovem?

Não houve resposta.

- Veja bem – explicou-lhe então o comissário policial –, o teu pai diz que algum meliante tentou te matar...

- Quê?! – o doente quase deu um salto do leito arrancando o soro-fisiológico da veia do braço direito; o esquerdo não aceitava glicose.

- Acho que você caiu da sacada...

- Eu estava bêbado!

- Tua mãe diz que assaltaram tua casa... Foi sequestro relâmpago?

- Não! – Ronaldo gritou. – Não quero falar sobre isto!

- Mas o que aconteceu? – insistiu a autoridade.

Silêncio constrangedor.

- Prendemos uma... – o delegado sorriu sutilmente antes de dar a notícia deselegante – Prendemos uma moça no teu apartamento... Quem é ela?

Mudo como teto de casa de misericórdia, ele virou-se para o travesseiro solicitando que o comissário saísse. Nada mais ele disse. Creio que eu já lhe tenha dito, amiga leitora; Madeleine ficou encarcerada. Ronaldo teve alta no dia seguinte.

Passou-se o tempo de abraço distante. Inquérito policial foi instaurado. Familiares de vários rincões da república souberam das novidades, chocaram-se. Amigos divertem-se, duvidam ou têm certeza. A chefia do jovem de promissora carreira quis explicações sobre a confusão, mas tão logo esqueceu o assunto. Porém os vizinhos desenrolaram quilômetros de língua. Madeleine morreu na cadeia. Ronaldo mudou-se de prédio e seguiu com suas coleções.

Por Ricardo Novais
* Originalmente publicado no livro Trem Noturno, Ricardo Novais.

Vida de Clarice

Clarice Lispector.

O tempo está em tudo. O tempo está no assoalho gasto onde tantos já pisaram e não pisam mais, nas velhas xícaras de porcelanas e nas cadeiras de mogno vazias. Quase nada pode ser dito sobre o pouco que se sabe de Clarice da Conceição, exceto que ela era praticamente venerada por seu noivo, Agenor Rubião. Que força que tem o tempo... Tudo reduzido ao resto. Raras imagens mostram que ela seja morena e bonita, com longos cabelos negros e olhos escuros. Acredita-se que conheceu Agenor no metrô. A maioria de seus amigos a descrevem como espécie pacífica e artística, com um gênio tão indomável como a sua xará das letras, Clarice Lispector. Não mencionam, no entanto, a sua dependência em álcool e se se tornou viciada antes ou depois de conhecer o seu amado. Há certos contos, estimado leitor, que se escondem atrás do autor. Este é o caso.


Agenor Rubião e Clarice da Conceição foram, de acordo com correlatos boêmios, perfeitos para si. O termo composto "almas gêmeas", termo composto de melancolia e fugacidade, define bem o relacionamento deste casal apaixonadamente feito de madeira maciça – madeiras existentes nas melhores casas de bêbados. Sim, leitora romântica, mais de uma vez ouviu-se pelos salões os suspiros das mocinhas debutantes com fagulhas de deslumbramento por onde eles passavam. Sentenciava uma senhora ali: “Que casalzinho bonito! Pombinhos!”. Comentava um motorista de táxi acolá: “Têm a vida inteira pela frente. Deus os conserve!”. Não zombe tanto, leitora jocosa, do estilo da escrita que a tudo parece inundar com a compulsão de amar sem medida. Ora! Mas se são tantas as medidas do amor...

Mas nem todo amor que houver neste mundo é capaz de superar os enleios da vida. O mesmo tempo, cruel e necessário, que se seguiu, tão indiferente aos ponteiros humanos, foi distanciando Agenor de Clarice. O noivado se desfez, em algum momento incerto. Tudo que Agenor fez para evitar o rompimento foi um pedido miserável de autopiedade. Isto não bastou para reconquistar a bela Clarice da Conceição. A bebida então passou a salvar-lhe da comiseração e do lamento de uma relação na qual o homem quer o casamento e compromisso, e a mulher foge. Ninguém está realmente certo se houve uma tentativa de trazê-la de volta para ele, mas se houve ele falhou miseravelmente.

- A culpa é minha por não saber o que eu deveria ter conhecido... – Agenor repetia isto religiosamente às dez horas e quinze minutos de todas as noites no balcão do boteco da esquina. Dizia, tragava e emudecia. Embriagava-se. Só ia para casa quando alguém ia lhe arrastar da taverna ou quando chamavam a polícia por alguma briga de bar.

Clarice faleceu devido a uma inflamação do coração causada por uma intoxicação alcoólica. Não houve coma alcoólico, como se disse à boca pequena; em vez disso, seu coração simplesmente cresceu demasiado grande para seu corpo pequenino e gracioso. Muitos acreditam que este foi o último prego no caixão de Agenor Rubião – o desgraçado já estava sofrendo lutando numa batalha perdida contra o vício avassalador, e a morte da amada era a perda de parte de si próprio. Todos davam um relógio de vinte e quatro horas para o suicídio do alcoólatra.

Quebrou-se o transgressor espírito de um coração talentoso e cansado de bater lento, leitor.

- Morri, desde que você morreu – ele se resignou, por fim.

- Oh, não! Agenor, não!

Morreu. Deixou uma cicatriz e uma chatice repetida, sangrando por uma mulher envolta em mistério e silêncio poético que foi perdida dentro de uma garrafa de uísque.
 
Por Ricardo Novais

Cachaça Corintiana

Imagem de divulgação.
Na mesa do bar, ao lado de amigos corintianos, eu me sentia um peixe fora d’água. Não pelo fato do Santos estar jogando na mesma noite de sua estreia na Copa do Brasil, mas sim porque não havia jeito de entrar em sintonia com o pensamento daqueles gaviões.

Estava lá por amizade, pelo chope gelado em noite quente e por certa curiosidade cômica do fracasso. Eu poderia estar em casa, vendo muitos jogos de uma só vez, mas não; aceitei o convite boêmio e vi o Corinthians estrear na Taça Libertadores da América 2010. Digo que não gostei do jogo, mas gostei da noite... Sorrisos, vibração, preocupação, empolgação e alívio. Pobres uruguaios, se ainda fosse o Nacional ou querido Penãrol vá lá, mas o modesto Racing não conseguiu segurar o ímpeto alvinegro.

À medida que eu ia emergindo no álcool, mais complicado ficava entender o esquema tático de Mano Menezes. Confuso, embora os jogadores estivessem bem posicionados, não havia movimentação de várias peças alvinegras em campo. DeFrederico jogou mal, Ronaldo foi muito marcado e Jorge Henrique ficou preso na disciplina do treinador gaúcho. Logo no primeiro ataque da partida o Racing fez 1 a 0, pequena satisfação de alguns no bar (confesso que empolguei-me um pouco, apesar de nunca ter ido à Montevidéu e não saber vibrar em espanhol), mas, repentinamente, instaurou-se grande frustração do lado preto e branco. Era de ver o rosto dos corintianos naquele boteco; não sou leitor de expressões faciais, mas era notório que passava um filme na cabeça do torcedor: uma mistura de esperança por ser apenas o primeiro jogo desta tradicional e cobiçada, porém tecnicamente fraca, competição sul-americana, em ano de centenário do 'time do povo', e leve preocupação pela reminiscência das campanhas do Corinthians na Libertadores do ano de 2006 e, principalmente, de 2003.

Quando Theco deu excelente passe, de letra – aliás, ao contrário do que se via quando o jogador atuava defendendo o clube da Vila Belmiro, lá ele trançava as pernas e caia –, Elias recebeu a bola e empatou. O burburinho do bar deu lugar à histeria. O Jogo prosseguiu; nada de alguma tática e técnica; diverso disto, a peleja era ruim de assistir. Passei a ingressar uma conversa impensável sobre política, depois sobre a geografia dos Estados do norte deste país – será que o Acre existe? Qual a distância de lá até o Amapá?

Quando do início do 2º tempo, eu já sabia que o Corinthians ganharia. Todos ali sabiam. Mas futebol é apreensão. No entanto, os mais conscientes perceberam e preocuparam-se, Mano Menezes mexeu errado no time, reposicionou Jorge Henrique ainda mais para trás, e sobrecarregou o ataque com outro jogador de pouca mobilidade, o centroavante Souza. Ronaldo, que passe o tempo que for continuará genial, saia mais da área para buscar a bola – ele parecia querer relembrar os seus tempos de ‘fenômeno’. Mas o jogo continuava ruim. Antagonicamente, no entanto, foi por este momento que saiu o gol da virada corintiana. Que categoria! Souza, sim, Souza passou bola primorosa e Elias, novamente, estufou as redes uruguaias. 2 a 1, e vamos parar esta escrita por aqui que o resto não vale a pena o sacrifício de memória.

Concluo que deveria ter ido para casa assistir o belo futebol do Santos – embora, diga-se, o Peixe não jogou bem, 1 a 0, em Campo Grande-MS, e não eliminou o jogo de volta pela Copa do brasil; o próximo duelo peixeiro é justamente o clássico contra o Corinthians, domingo, pelo Campeonato Paulista. Ah, minha nossa! Tive agora uma lembrança esparsa. É que por falar em Copa do Brasil, no jogo do Atlético, o atacante Obina, por coincidência que casou-se como luvas em mãos à conversa sobre geografia travada nesta mesma noite, provou que o Acre existe mesmo! Ele fez todos 5 gols da classificação atleticana de 7 a 0 contra o pobre do Juventus de Rio Branco, ou seja, além de agora sabermos que o Acre existe (de fato e não somente nos mapas), ainda há lá capital, habitantes e até estádio de futebol. Os 'políticos' do botequim exaltaram-no: "Obina sim, é o homem mais importante do mundo!" Mas, tornando à minha aventura boêmia entre os gaviões, penso, tentando compreender a causa e a razão deste meu desvio de comportamento, que eu poderia ter ido assistir o Flamengo, que também estreou na Taça Libertadores, ou, quiçá, como última alternativa, ir dormir mais cedo... O sono é bom conselheiro, apesar de ser péssimo patusco. Quem sabe eu devesse ter ligado para aquela garota de recepção que me deu o telefone, ou ido a internet twittar sobre a baleia assassina que matou sua treinadora ou, ainda, conjecturar os próximos passos do prisioneiro Arruda. Enfim, eu poderia ter feito muitas outras coisas, não fosse o fato do Corinthians ser a ‘cachaça do futebol'; não obstante eu não aprecie muito cachaça.

Por Ricardo Novais

Tricolor Celeste

Hoje no Boleiros Bar, aprazível boteco para fanáticos e apaixonados por futebol localizado no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, será lançado o livro: Tricolor Celeste.

O livro conta a história de craques uruguaios que fizeram sucesso no São Paulo Futebol Clube: Diego Lugano, Dario Pereyra, Pablo Forlán e Pedro Rocha.

Parabéns ao jornalista, escritor e torcedor do Tricolor, Luis Augusto Simon, autor do livro, que teve uma excelente percepção de que alguns dos maiores ídolos do São Paulo vieram do Uruguai, a eterna "Celeste Olímpica". Realmente é impressionante a identificação de grandes jogadores uruguaios com o clube do Morumbi.

Parabéns também a tradicionalíssima Seleção do Uruguai que, numa festa linda em Montevidéo, qualificou-se ontem para o Mundial da África do Sul, no ano que vem. Viva a Celeste!

O livro dos heróis uruguaios do Tricolor terá a noite de autógrafos a partir das 19 horas desta quinta-feira, lá no Boleiros Bar. Se você for torcedor do São Paulo, ou apenas amante do futebol, vale muito a pena dar uma passadinha na Vila Madalena (o primeiro Boleiros Bar ainda fica na Vila Olímpia); tanto para comprar o livro, que é maravilhoso, como para tomar aquele chopinho gelado contemplando fotos de craques do passado, camisas de clubes de futebol de diversos lugares, capas antológicas de revistas esportivas e objetos importantes expostas de maneira descontraída e despojada.


Boleiros Bar – Rua Mourato Coelho, 1194 - São Paulo/SP

Irmãos Boêmios

Outra vez, a ressaca. Na noite passada, vários boêmios no bar. As pessoas chegam, partem, mas eu continuo no meu ofício de bom patusco.

A hora já passara em alta velocidade, apenas um amigo, já antigo conhecido de boemia, ficara remanescente nas velhas discussões filosóficas.

Deixávamos nossos olhos observar, ora despretensiosamente ora maliciosamente, a uma bela moça que bebia sozinha no balcão.

Entretanto, repentinamente, chegou um homem. O bar já havia iniciado os procedimentos para pedir aos bons bêbados que voltassem noutra noite. Porém, minha aventura noturna tinha apenas começado...

Este homem, que surpreendeu sem avisar, vestia um casaco de couro preto, um largo sorriso impregnado na face pálida e uma reluzente calva. Quem visitou o boteco nesta noite que congelou no tempo, foi o meu irmão.

O homem de preto é meu irmão; não irmão de sangue, mas de coração. Há anos não nos víamos, sendo assim a conversa adentrou pela alvorada, evidentemente.

Alguns dizem que o bar é a desgraça da humanidade, porém, eu, que vivo numa cidade desgraçada, digo que o botequim tem o dom, quase divino, de reunir, novamente, os irmãos.

É! Esqueci completamente da bela jovem que bebia sozinha no balcão do bar como se fosse uma divindade e estivesse num altar, esqueci tudo naquela noite, esqueci tudo menos uma velha amizade...

Um abraço, careca; um abraço, meu irmão!
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*O desenho, "Ma che bella donna!", é do artista, de Santa Teresa no Rio, Maurício Porto. As obras sublimes, deste grande artista das belas artes, podem ser apreciadas no site: http://mauricioportodesenhos.blogspot.com/

Conversa de Bar

Ontem no bar aconteceu um fato curioso. Eu estava no balcão tomando um drinque, quando percebi entrar um rapaz de chapéu, sentar numa mesa escura nos fundos do recinto, pedir uma garrafa de uísque e acender um cachimbo.

Poucos minutos depois o garçom solicitou a ele que apagasse o fumo. Ele obedeceu, tirou uma caneta do bolso da camisa, um bloco de notas no paletó e começou a escrever.

Acredito que aquele rapaz escrevia uma carta. Escrevia de cabeça baixa, às vezes parava de escrever, fitava um ponto fixo que parecia não estar prestando atenção e, em seguida, tornava à escrita. Fez isto durante uns cinco minutos ininterruptos. Por fim, pareceu terminar a tal carta.

Guardou a caneta no mesmo bolso da camisa, jogou de lado o bloco de folhas, dobrou o papel que acabara de ser escrito e recostou-se na cadeira. Então começou outro hábito; pegava do copo de uísque, sorvia-o e, imediatamente, servia-se de outra dose.

Resolvi ir ter com aquele rapaz. Geralmente não incomodo desconhecidos num bar – a hora da bebida é sagrada! –, também eu gosto de beber em paz. Mas é que fiquei tão admirado dos gestos elegantes daquele jovem que senti vontade de conversar com aquele verdadeiro cavalheiro:

- Desculpe rapaz, mas o observava ali do balcão e me pareceu perturbado... Está tudo bem?

- Ó, sim, sim... Mas, por favor, sente-se e... vamos beber! – ele disse isto de forma simpática e, ao mesmo tempo, numa ordem implícita.

Sentei-me, bebi, e iniciamos uma conversa descontraída.

Nossos assuntos foram diversos, da política brasileira à situação difícil dos trabalhadores, de futebol aos novos filmes americanos, discordamos quando falamos dos novos rumos da administração da cidade, mas concordamos com a escolha da garota da Playboy deste mês. Ainda falamos mal da vitória dos cariocas para sediarem os Jogos Olímpicos de 2016 e da participação do Presidente da República no Comitê Olímpico. Enfim, foi um típico papo de botequim: simples e agradável!

No entanto, lá pelas tantas desta nossa conversa patusca, o rapaz começou a chorar copiosamente. Ele pegou do papel que tinha escrito a pouco e o entregou a mim.

- O que é? – perguntei.

- Leia! – ele ordenou.

Li. Era mesmo uma carta, uma carta de despedida. Levantei os olhos assustado e fitei o jovem, inquirindo-o. Ele confessou:

- Eu ia me matar... Mas, depois deste nosso papo, desisti. Obrigado!

- Bendito bar! – eu ainda consegui balbuciar comigo mesmo terminando o drinque.


Por Ricardo Novais

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