Nazismo ou Filosofia Confiscada?

Há um 'pensador' no twitter, site de relacionamentos da internet que transformou-se em "mundo" à parte, interpretando o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche, entre outras coisas, como grande egoísta, míope de espírito, contraditório, nazi-fascista e influente do próprio regime nazista.

Muitos no passado, erroneamente, tiveram este mesmo pensamento superficial. Entretanto, outros tantos estudiosos (não necessariamente nietzschenianos) e a própria obra de Nietzsche, indeferem este tipo de ideia, às vezes, preconceituosa e medíocre.

Vemos que como grande admirador da Antiguidade, principalmente da cultura clássica grega, este magnífico filósofo alemão não aceitava a separação entre o corpo e o espírito. Tampouco dissociava, em seus textos, pensamento e vida.

No entanto, as grandes influências de Nietzsche surgiram na época em que ele descobriu a filosofia pessimista, mas coerente, de Arthur Schopenhauer; assim como as composições do músico, e anapluro humano, Richard Wagner - de quem se tornou grande amigo e admirador de suas obras musicais (inicialmente o pensamento de Nietzsche vertia a comparar música à vida, talvez isto explique tão repugnante amizade).

Tanto na música, na filosofia e também na antiguidade clássica grega, o pensador encontrava o papel da existência estética (como conceito aristotélico); Nietzsche chegava a ver em Wagner o renascimento da grande arte grega. Apenas mais tarde, caindo em si (e digo que apenas os homens sábios tornam atrás em suas ideias mais absolutas), ele se distanciou do compositor de As Válquirias, Tristão e Isolda, Parsifal, entre outras tantas do mesmo gênero, por considerá-lo bajulador do gosto pedante do público burguês da época; e se distanciou também da obra de Schopenhauer por ver no pessimismo um sintoma de decadência cultural - talvez aí o pensamento nietzscheniano tenha retroagido, pois em Vontade de Representação, extraordinário livro de Schopenhauer, temos uma filosofia crua sim, porém extremamente harmônica entre ideias e acontecimentos.

Mas em sua maturidade, Nietzsche analisou, como poucos, a origem e a função dos valores na vida e na cultura, concluindo que uma "moral de cordeirinhos" se impôs à humanidade desde o predomínio da tradição judaico-cristã - nisto pode estar a interpretação, outra vez equivocada, de que Nietzsche era ateu; Schopenhauer sim, de fato, era ateu; mas Nietzsche não subjugou Deus, apenas acreditava que a cultura clássica grega era superior às que sobrevieram depois nesta nossa humanidade.

Para este filósofo - que enriqueceu a filosofia com aforismos e poemas, e sofreu de agonia e solidão -, a compaixão, a humildade, o ressentimento e o ascetismo são valores inferiores à "vontade de potência", princípio de toda a vida.

Em suma, Nietzsche, abominava o anti-semitismo e o nacionalismo (está ouvindo, senhor 'pensador' do twitter?); mas foi visto durante bastante tempo como inspirador do nazismo por causa da edição forjada e mal-intencionada que sua irmã, Elizabeth (talvez influenciada pelo seu marido "paraguaio"), fez dos escritos dele.

Quase cego, com crises frequentes de enxaqueca, Nietzsche passou os últimos 11 anos de sua vida mergulhado na loucura, morrendo, por fim, no ano de 1900, de paralisia geral, na cidade alemã de Weimar. Certa vez, um intelectual brasileiro muito estudioso da obra nietzschiana disse: "o filósofo que quis ver nascer o além-do-homem, teve a sua filosofia confiscada". De modo que está mais do que na hora de separarmos o trigo do joio - ou analisarmos o dionisíaco e o socrático como fez o grande pensador Friedrich Nietzsche.


Por Ricardo Novais