Negócios da Consciência

José Roberto e Vitinho corriam desesperados pela Ponte das Bandeiras, sob o rio Tietê.

O sangue escorria pela fronte de Vitinho, mas não havia tempo para recuperar-se. Quatro homens, todos vestidos de preto, estavam argutamente no encalço dos dois amigos.

Naquela altura, já era impossível saber o motivo da perseguição. Mas via-se, reluzente sob a luz do sol, revólveres prateados nas mãos dos quatro homens.

Os dois fugitivos conseguiram chegar à estação Armênia do Metrô e amotinaram-se entre os passageiros do vagão. Desceram na estação Sé, contudo, ainda estavam sendo perseguidos e foram atacados violentamente na escadaria, ao lado de um monumento em homenagem a Carlos Gomes, que dá acesso ao Vale do Anhangabaú. Escaparam e esconderam-se num velho prédio de escritórios lá para os lados da Rua BoaVista.

Dentro do edifício, desciam e subiam andares, vagabundearam pelos antigos elevadores, que ainda funcionavam bem, e resolveram olhar os ferimentos.

José Roberto percebeu que tinha escoriações profundas pelo corpo, enquanto Vitinho tinha grave lesão à bala. O ferimento do projétil aparentava ter perfurado órgãos vitais de seu corpo; deste modo, permaneceram imóveis por vários passos de minutos, mas findo um quarto de hora, Vitinho espichou os olhos e pereceu.

José Roberto, abaladíssimo pela morte do amigo, derramava lágrimas sob o defunto e começou a pensar sobre o que fazer. Resolveu por abandonar o cadáver, pensou mesmo que alguém perceberia o morto e chamaria a polícia.

Sendo assim, mesmo cambaleante, subiu até o terraço do prédio e, lá de cima, viu que os perseguidores estavam no hall de entrada do velho imóvel. Provavelmente ainda estariam no encalço de suas vítimas sem saber que uma delas já não mais existia.

José Roberto ficou olhando a cidade pelo alto, comparou-a com a visão que tivera a pouco, quando fugia na companhia de seu amigo Vitinho por entre todos aqueles blocos de concreto, fixou por algum tempo os seus tristes olhos lacrimosos no Edifício Altino Arantes, que toma boa parte do panorama da cidade, respirou fundo o ar poluído daquela tarde de sol cinza e sopesou em ir até a garagem. E foi o que fez, sob os olhares desconfiados e avisados de um segurança. Fraudou o segredo da fechadura do porta-malas de um automóvel, socou-se dentro do apertado cubículo e esperou. Esperou bastante, talvez horas a fio....

Já adormecido, percebeu que o carro estava em movimento. Primeiramente, o caminho fazia-se suave e razoavelmente plano, em seguida, porém, ele percebeu, de dentro do bagageiro, subidas acentuadas e descidas bruscas que culminaram em solavancos do que provavelmente, imaginou ele, fosse uma estrada de terra batida ou uma rua de asfalto muito irregular. Por fim, o carro parou e, após alguns bons minutos, abriram o porta-malas.

José Roberto teve então uma grande surpresa. De imediato horrorizou-se ao ver o corpo de Vitinho, jogado no meio da poeira de um matagal, decapitado. Depois levantou os olhos e reconheceu seus quatro algozes, todos sorrindo por escárnio, apontando o revólver para a altura de sua cabeça. Um deles, repentinamente, disse:

- Você tem que morrer! São as regras...

Escutou-se um grande estouro próximo a uma linda represa no extremo sul da cidade. Neste momento, José Roberto acordou muito assustado...


Ricardo Novais

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* Quem tirou esta bela foto artística do Edifício Altino Arantes, que ilustra este conto, foi o paulistano de coração Adriano Vieland.