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Siga o Sol


Imagem: Prosa em Verso.

Poupo-vos as lágrimas da leitora, as minhas, a dos que escrevem... Falo apenas da morte, sem velório, sem velas cansadas e cantochões clarividentes. Apenas a morte.

Se o ser humano é mesmo um ente que deva ser ultrapassado, morrer é tão somente a melhora da vida. A parte mais bonita do desenvolvimento... A monstruosidade da força, sem início, sem fim, que não é maior nem menor, apenas se transforma, ardente, sem nenhum cansaço e em eterna criação.

A morte leva tudo, menos os paladinos do discurso. Também deixa a obra criada por aquele que ela leva. Esta fica, brilhando como o sol ou como girassol a olhar o sol... Ou mesmo lavando a alma como a chuva. Realmente ela pode levar memórias, lembranças, esperanças, medos, sobretudo a “vida vivida e morrida”. Num cadáver entre quatro velas e muitas lágrimas, a morte apresenta-se ao lado com todas suas atribuições nefastas e também envolta em todas as liberdades benévolas do além-túmulo. Mas, ora, a morte é coisa extraordinária! Não a desejo tão logo, no entanto, admito que a reverencio, de longe...

Martírio das perdas irreparáveis, da falta do controle sobre a extinção da passagem terrena; morte, a paixão e a compaixão. Da cessação da vida, terno fim, um pesar profundo; confesso tudo, vá: deito nestas linhas minha própria situação frágil, reles, de destruição importante... Deixo aqui um pouco de mim, um pouco de vida que já se foi... Achar-se, em certo sentido, no fim, ou ver o fim antes dele chegar, na aflição da falta de forças motrizes, leva-me à emoção e sentimentos intensos, submisso ao desespero de saber-se impotente. Contudo, porém, vem a mim um entusiasmo muito vivo de amor muito abrasador; de certo, vício dominador, é o pesar que me desperta a desgraça, a dor minha ou a de outrem, a comiseração atingindo o ser existencial em piedade e que revolta... Revolta tanto!

O contato com tal perda irreparável se dá naqueles momentos inoportunos, confessa-te: "Não acredito, meu Deus, não esperava isto! Por quê?!". E não há 'mão de capivara'[1] alguma que traga de volta aqueles que jaz por nós esperam.

Não há ambição aqui de responder nem solucionar coisa alguma; atribua-se ao imponderável. No entanto, não culpemos a morte; ela apenas cumpre o seu papel, de buscar a alma; como o coveiro cumpre o dele, de enterrar o morto; as mulheres também têm seu ofício, de chorar ao velório; assim como os homens, que têm por obrigação discursar sobre e sob o cadáver alheio. Nada nem ninguém deve assumir a culpa pelos maus desígnios guardados aos personagens e ao ambiente que se frustrou; posto que a única fatalidade na vida seja mesmo a morte... Portanto, é factível lutar pelo destino; se o acaso deixará superá-lo é outra história. O que o Criador criou - aqui, neste contexto, conjeturando e aceitando a existência de Deus -, não obstante, deu à criatura verdadeiro poder de criação autêntica. E algumas destas criaturas fazem uso brilhante deste poder magnífico - é de dar gosto! Mas depois elas morrem. É aquela história de acima: cada um cumpre o seu papel... Ainda que sejamos o que tivermos que ser neste mundo qual podia ter sido, mas não foi; e que pode ser, mas não é. Ainda que tenhamos que carregar nossos próprios cadáveres às costas...

Eu sei que nada é compreensível, por isto estamos aqui refletindo sobre algo tão enigmático e fascinante. Sei também que não há morte que perdure uma vida inteira, nem de disputas nem de eternidade cônscia. De modo que apenas reverencio aqueles que perderam a voz e a chance nesta disputa. Faça o mesmo, caro leitor e querida leitora, sonhe com o desconhecido; há lá alguém que nos joga um sorriso. Morrer é da vida... E espero mesmo que exista algo no homem que não desapareça com a sua finitude humana.

Venha a chuva lavar a alma, num turbilhão de angústia imersa no coração, até que o sol distraia, perigosamente, nosso destino para fora de seu caminho natural... Devagar, iluminado, rasteiro, confuso, silenciosamente contrastando com a velocidade de um acidente demasiado existencial, o arco-íris insurgente depois de assombrosa tempestade faz pensar na imortalidade. Quiçá eu consiga ver um anjo de indumentária impecavelmente branca, se assim eu desejar; embora a covardia insista em salvar-me... Contudo, o que vejo não é sobrenatural nem anjo mensageiro e sim um angelical girassol que troca seu aspecto dourado e celeste por um semblante cândido; faz isto por generosa gentileza, apenas para que eu não me assuste muito com aquilo que minha sensibilidade não alcança. E manifesta-se como verdadeiro arcanjo bondoso, ciente da ordem Superior, e acalma-me: “Continue apenas, ficarás bem;  serás feliz!”.

Neste instante, abro a janela. De fato, logo pela manhã, o céu é azul e claro; e a noite é deslumbrante e estrelada. Deixo-me sorrir, sinto que a triste resignação quer dizer somente: haverá dias belíssimos! O tal anjo, devolvendo o sorriso, ainda diz: “Carinho não se pede”...

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[1] - 'Mão de Capivara': Lenda tipicamente paulistana, muito difundida ainda hoje nos bairros do além-Pinheiros e além-Tiete, na cidade de São Paulo, onde se acredita que um suvenir com o formato diminuto de uma pata de capivara, com pêlos e unhas, trará de volta entes queridos que já morreram. É um mito na qual as pessoas se apegam por não entenderem ou aceitarem a ruptura afetiva causada pela morte.

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Dedico este texto inteiramente, e com todo carinho, à memória da jovem e talentosa escritora Tatiana Monteiro, a querida Tati.


Por Ricardo Novais

Negócios da Consciência

José Roberto e Vitinho corriam desesperados pela Ponte das Bandeiras, sob o rio Tietê.

O sangue escorria pela fronte de Vitinho, mas não havia tempo para recuperar-se. Quatro homens, todos vestidos de preto, estavam argutamente no encalço dos dois amigos.

Naquela altura, já era impossível saber o motivo da perseguição. Mas via-se, reluzente sob a luz do sol, revólveres prateados nas mãos dos quatro homens.

Os dois fugitivos conseguiram chegar à estação Armênia do Metrô e amotinaram-se entre os passageiros do vagão. Desceram na estação Sé, contudo, ainda estavam sendo perseguidos e foram atacados violentamente na escadaria, ao lado de um monumento em homenagem a Carlos Gomes, que dá acesso ao Vale do Anhangabaú. Escaparam e esconderam-se num velho prédio de escritórios lá para os lados da Rua BoaVista.

Dentro do edifício, desciam e subiam andares, vagabundearam pelos antigos elevadores, que ainda funcionavam bem, e resolveram olhar os ferimentos.

José Roberto percebeu que tinha escoriações profundas pelo corpo, enquanto Vitinho tinha grave lesão à bala. O ferimento do projétil aparentava ter perfurado órgãos vitais de seu corpo; deste modo, permaneceram imóveis por vários passos de minutos, mas findo um quarto de hora, Vitinho espichou os olhos e pereceu.

José Roberto, abaladíssimo pela morte do amigo, derramava lágrimas sob o defunto e começou a pensar sobre o que fazer. Resolveu por abandonar o cadáver, pensou mesmo que alguém perceberia o morto e chamaria a polícia.

Sendo assim, mesmo cambaleante, subiu até o terraço do prédio e, lá de cima, viu que os perseguidores estavam no hall de entrada do velho imóvel. Provavelmente ainda estariam no encalço de suas vítimas sem saber que uma delas já não mais existia.

José Roberto ficou olhando a cidade pelo alto, comparou-a com a visão que tivera a pouco, quando fugia na companhia de seu amigo Vitinho por entre todos aqueles blocos de concreto, fixou por algum tempo os seus tristes olhos lacrimosos no Edifício Altino Arantes, que toma boa parte do panorama da cidade, respirou fundo o ar poluído daquela tarde de sol cinza e sopesou em ir até a garagem. E foi o que fez, sob os olhares desconfiados e avisados de um segurança. Fraudou o segredo da fechadura do porta-malas de um automóvel, socou-se dentro do apertado cubículo e esperou. Esperou bastante, talvez horas a fio....

Já adormecido, percebeu que o carro estava em movimento. Primeiramente, o caminho fazia-se suave e razoavelmente plano, em seguida, porém, ele percebeu, de dentro do bagageiro, subidas acentuadas e descidas bruscas que culminaram em solavancos do que provavelmente, imaginou ele, fosse uma estrada de terra batida ou uma rua de asfalto muito irregular. Por fim, o carro parou e, após alguns bons minutos, abriram o porta-malas.

José Roberto teve então uma grande surpresa. De imediato horrorizou-se ao ver o corpo de Vitinho, jogado no meio da poeira de um matagal, decapitado. Depois levantou os olhos e reconheceu seus quatro algozes, todos sorrindo por escárnio, apontando o revólver para a altura de sua cabeça. Um deles, repentinamente, disse:

- Você tem que morrer! São as regras...

Escutou-se um grande estouro próximo a uma linda represa no extremo sul da cidade. Neste momento, José Roberto acordou muito assustado...


Ricardo Novais

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* Quem tirou esta bela foto artística do Edifício Altino Arantes, que ilustra este conto, foi o paulistano de coração Adriano Vieland.
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