Antagonismo Brasileiro


Qual caminho, Brasil ?

Embora ainda não tivesse trinta anos, Maria Estela já tinha vivido a sua vida. Por fora aparentava sua idade real, mas, ao mesmo tempo, por dentro, já estava morta. A maré nos leva, porém nos trás de volta; ainda que não nos devolva no mesmo aspecto.

Os seus pais eram fugitivos políticos da época dos “anos de chumbo” que voltaram para o país com a anistia, depois de 1979. No entanto, haviam ficado esquizofrênicos e viam fantasmas de seu passado em todos os lugares. Chegavam ao ponto de não saírem de casa por meses, a esmo. Viviam abraçados, sempre em lágrimas. Com o advento da redemocratização nacional decidiram que era um novo tempo e tinham o dever de deixar um fruto para o “País do Futuro”.

Assim nasceu Maria Estela; que, por sua vez, cresceu num ambiente de conspiração constante, reuniões de velhos amigos barbudos e mulheres com fotos em preto e branco nas mãos. Não era uma atmosfera muito propícia para que uma criança crescesse feliz, mas ela nunca reclamou. Essa moça sempre soube que teve sorte de nascer; posto que muitos torturados do ‘regime’ fossem desaparecidos para sempre e, tivesse sido este o caso de seus pais, ela jamais existiria.

O “Doutor J. Mariano” se destacava na galeria dos mitos nos porões do DOPS de São Paulo, estava atrás dos guerrilheiros do Araguaia e dos principais lideres da Aliança Libertadora Nacional – ANL, e da Vanguarda Popular Revolucionária – VPR. Sorte do Movimento Revolucionário – MR-8, que era do Rio. No entanto, para chegar aos “subversivos”, o delegado paulista se valeu das relações dos pais de Maria Estela com alguns dos membros rebeldes, assim capturou-os, violentamente, em sua própria casa. Torturou-os, cruelmente, para que delatassem a quem ele procurava. O homem agüentou por mais de 48 horas, no entanto, a tática dos torturadores venceu; havia um quarto ao lado da sala da mortificação onde se ouvia a mulher aos gritos; gritos assombrosos, diga-se.

Aterrorizado, vendo que a esposa, grávida, estava sendo deflorada em sua intimidade, o pai de Maria Estela não teve outra opção e delatou os companheiros.

Assim foram libertos e puderam voltar para casa, mas o bebê não vingou. Jamais se recuperam deste trauma. Quase uma décadas mais tarde, Maria Estela, única filha deste casal torturado, nasceu. Porém, nem mesmo a menina bonita e inteligente conseguiu indenizar a violência e a estupidez que provocou o aborto do primeiro filho. Eles teimaram, com honestidade, em querer retomar à vida, mas não alcançavam o resgate da alegria de viver. As lembranças o assombravam, a letra J. fazia tremer dos ossos dos tornozelos até os condutores cerebrais mais pavimentados. Foram longos anos fora do país... Naquela época difícil, e mesmo depois sob fiscalização intensa dos órgãos de repressão, eles fugiram com todos os medos e pavores que os acompanhariam por toda a vida.

Curioso como os governos ditatoriais dos países latino-americanos ficaram obstinados à caça de um determinado setor que ameaçavam o seu poder e não se aperceberam que grupos de esquerda se infiltravam sutilmente nos veículos de comunicação formando, aos pouquinhos, um pensamento marxista-positivista em moldes de social-democratas europeus. Guardadas as devidas proporções, estes grupos, nem sempre marxistas, mas sempre positivistas da esquerda intelectual não revolucionária, implantaram uma espécie de ‘revolução cultural’ similar ao ocorrido primeiro na França. Uma lástima!

É culpa de Maria Estela não saber qual caminho escolher nesta sociedade? Respondas, se puder... Lembrando que longe dela ser revolucionária, Maria Estela era reacionária, no sentido rodrigueniano, posto que tinha reação a tudo que julgava não prestar. Ela mesma pensa que antes o Brasil estava à beira do abismo, mas agora parece que o país deu um passo à frente...

De qualquer forma, peço a gentileza ao leitor e a leitora que interrompam a leitura por um instante. Faça-se um minuto de silêncio em honra às famílias dos desaparecidos e torturados no Brasil inteiro; assim como também às Mães da Praça de Maio de Buenos Aires, na Argentina; e aos súditos massacrados pelo poder do Palácio de la Moneda em Santiago, no Chile.

Grato aos leitores!

Nenhuma ideia, seja lá qual for e de qual lado estiver, justifica a morte de um homem. Pois, num esplêndido dia comum, a raiva e a coragem caminharão lado a lado e, neste momento tão reflexivo, originar-se-á uma ambiguidade muito duvidosa e cruel: a luz dos olhos de Deus nos guia ou nos cega?


Por Ricardo Novais