Democracia com Honra


Foto: Wikimedia Commons.

Tancredo de Almeida Neves, o advogado mineiro nascido sob o prisma da cidade barroca de São João del-Rei, católico fervoroso herdeiro de descendência luso-austríaca e que lutou pela democracia no Brasil, completaria 100 anos hoje.

Quando do golpe militar que estabeleceu uma ditadura no Brasil, o ex-presidente Juscelino Kubitschek embarcava solitariamente no Rio de Janeiro rumo ao exílio ‘voluntário’ na Europa. JK, o festejado presidente bossa-nova que também contribuiu para aumentar a dívida externa do país, tivera o mandato e os direitos políticos cassados pelos militares. Triste e desencantado, Juscelino viu um braço acenando para ele do lado de fora do avião. Era Tancredo Neves.

Tancredo criticava o novo regime, mas nada podia fazer contra. Se mesmo JK abandonava forçosamente o Brasil, os outros deveriam ter paciência. Diferentemente de terroristas ou ‘intelectuais’ de esquerda, o doutor Tancredo Neves travou luta digna e honrada contra a brutalidade da ditadura instalada no seio da sociedade.


Montagem sobre fotos de Manoel Novaes.

JK tinha esperança no amigo Tancredo, esperança que ele ajudasse a redemocratizar o país. Dentro desse quadro, um terrível confronto político entre a direita e a esquerda, é claro que o problema fundamental era saber para onde penderia o centro ideológico e a democracia. Continuaria sendo este representado pelos líderes moderados e inépcios ou a estratégia da direita governamental de liberalização seria suficientemente bem sucedida para atrair para seu seio a média burguesia e a tecnoburocracia?

Os direitos civis foram sendo, aos pouquinhos, reconquistados. Neste tempo estava claro que Tancredo Neves assumiria o controle político das posições de centro no Brasil, ele tinha mesmo capacidade de assumir o poder neste país. A burguesia, quando aceitou a redemocratização, sabia que de fato não corria grandes riscos na medida em que o máximo que poderia ocorrer seria uma mudança do eixo político da direita para o centro.

No entanto, a esperança morreu em 21 de abril de 1985. Lembro de crescer ouvindo de meu pai que a morte de Tancredo Neves, do qual ele era ferrenho admirador, tinha sido alguma espécie de sabotagem. Às vezes, eu achava que ele insinuava que Tancredo havia sido assassinado. Assassinato político? A Arena matou Tancredo Neves?

“Tancredo foi assassinado quando perceberam que a vitória dele era inevitável”, dizia papai. “Após 38 dias de agonia, e sete cirurgias, o primeiro presidente civil eleito desde o Golpe Militar, morre? Hum... Ah, e assume o vice da chapa, o ‘aristocrata do Nordeste’ José Sarney, do PFL, partido fundado por dissidentes do PDS. Não, não, não! Há algo de estranho nisto! Com Sarney, o poder permaneceu nas mãos dos que apoiavam o regime militar... Ora, o senhor José Sarney jamais se desvencilhará do Arena... Está é dura e desesperançosa verdade, meu filho”.


Manchete do jornal Última Hora.

Passado, porém, o momento de comoção, a dúvida de papai passou a intrigá-lo mais conscientemente: a possibilidade de Tancredo ter sido assassinado, acreditava ele, num plano arquitetado pelos líderes do regime autoritário era régio conluio. Vivia a matutar naqueles dias que os opositores do antigo regime deviam ter percebido que a vitória democrática era inevitável... Ele argumentava ainda que não se fez muito esforço para salvar a vida do presidente eleito - embora o general Figueiredo, último presidente do regime militar, tivesse ficado profundamente sentido e o general Valter Abreu reconhecesse a derrota. Os correlatos do país coçavam os bigodes... "Mataram o Tancredo! Mataram o Tancredo!", papai afirmava categoricamente tais palavras repetidas aos amigos e parentes próximos e estes repetiam nas charutarias para que outros repetissem em cafés, em igrejas, no metrô, nas paradas de ônibus, nas cabinas dos táxis, nos bares, nos parques, em praças centrais e periferias longínquas, enfim, uma verdade repetida muitas vezes até virar lenda: "Tancredo Neves foi assassinado!"

Não é possível afirmar isto hoje. Meu pai tinha as sábias convicções dele, e faziam mesmo sentido naquela época, mas o ônus da prova é coisa difícil... Além do mais, devo descontar o conservadorismo católico do patriarca de minha família, embora seja exatamente isto que tenha formado a consciência e a prudência dos que conviveram com ele. Digo isto porque não tenho pretensão de acusar este ou aquele de ter feito isto ou aquilo. Lembrei-me, talvez por causa deste centenário de nascimento do Tancredo, de umas memórias da minha meninice, onde, aliás, a política do país não passava do colégio onde eu estudava. Apenas isto, nada mais.

Seja como for, uma pista assombrosa de que a morte de Tancredo não foi fatalidade, mas um plano minuciosamente arquitetado, é que, em 1996, durante uma entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, o general Newton Cruz admitiu que, em outubro de 84, quando era comandante militar do Planalto, foi procurado pelo então candidato Paulo Maluf, que teria proposto um golpe militar, caso Tancredo Neves fosse eleito, justificando que o adversário estava muito doente.

Mas isto cai por terra quando refletimos um pouco: Como Maluf poderia saber da doença de Tancredo com seis meses de antecedência?


Foto: Antônio Milena - Agência Estado.

Contudo, a partir daquele fatídico feriado de Tiradentes, no remoto ano de 1985, o Brasil perdia seu último ‘salvador da pátria’ autêntico. Hodiernamente não cabem mais na conjuntura os papéis de 'salvadores', 'deuses' ou 'pai de todos'; quem ainda teima em comportar-se como ‘grande estadista’ cai no populismo ridículo e na farsa da boa governança. As instituições brasileiras são mais fortes, o povo é mais estruturado e incentivado a progredir no ambiente social, seja isto para o bem ou para o mal da consciência.

Eu não sei se o doutor Tancredo Neves foi assassinado e nem se o Brasil seria melhor caso ele tivesse tempo para cumprir o seu mandado de Presidente desta República. Sei apenas que, além de meu pai, muitos alunos de uma escola pública de São Paulo carregaram, e por certo ainda carregam, a angústia sobre o nome Tancredo. Esta escola é também onde eu fiz meus estudos regulares...

Uniforme antigo da escola Tancredo A. Neves, em São Paulo.





Mas, enfim, linha de pensamento político à parte, o doutor Tancredo de Almeida Neves, um mineiro de fala mansa que se comportou de maneira honrosa nesta vida, agindo com bondade sem ser fraco, justo sem ser tirano, em suma, vivendo com integridade e amor ao Brasil, deixou um legado de virtude à democracia.

"Tancredo Neves, Mensageiro da Liberdade" é um documentário, dividido em 9 partes, narrado pelo ator Othon Bastos e que foi produzido pelo jornalista Fernando Barbosa Lima, sobre a biografia deste grande filho do Brasil, sob o som dos sinos (fé) e da corneta (pátria). Assista o filme abaixo, vale muito a pena:

Clique em pausar, na barra lateral, e desabilite a rádio Stay Rock.









Olhando para trás, com os olhos de hoje, creio que quando o presidente eleito Tancredo de Almeida Neves morreu sem tomar posse do cargo, eu, que havia nascido poucos anos antes e absolutamente não me interessava por política, ainda assim, tenho por certo que fora ali o rito inicial de minha descrença irremediável em qualquer discurso desta sociedade positivista.

"Libertas Quæ Sera Tamen", mas o trem mineiro já passou e levou com ele também a esperança tardia...


Por Ricardo Novais

Documentário: Tancredo Neves, Mensageiro da Liberdade; exibido neste post em 9 partes; produzido pelo jornalista Fernando Barbosa Lima.