Mostrando postagens com marcador Minas Gerais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Minas Gerais. Mostrar todas as postagens

A memória, um minuto de silêncio e o futebol

Em memória de Antônio dos S. Novais, o maior atleticano do mundo.

E o tempo passa, dizia um velho cronista esportivo. Ontem havia dez mil amores em um, hoje já se passaram dez anos. Não que reclame, leitor, eu não reclamo. Não reclamo porque quem reclama da vida não vive, só sente falta. Eu não sinto falta de nada. Há dez anos a vida era diferente, ano após ano vamos deixando as coisas pelo caminho; criamos outras tantas, é verdade, mas quem diz que ninguém é insubstituível diz tolice. Não há como suprir pessoas.

Costumava me visitar uma leitora vestida de vermelho, salto alto e olhar sensual; um dia ela veio, deu-me um beijo de amor e disse adeus. Há dez anos. Lembra-me também a memória que entrava em meu quarto um senhor, sorria, contava quem era o último jogador contratado do Galo, apagava a luz devagarzinho,  sorria novamente e deixava uma benção. Há dez anos... A memória é um minuto de silêncio.

Quem lê estas linhas tortas assim, linha após linha, pensa que o texto não tem sentido; e não tem mesmo. Desculpe-me, meu amigo; quem dera fosse esta crônica como o jogador de futebol, que ora dribla à direita, ora tergiversa à esquerda e sai pelo meio da área, fazendo um gol de placa. Mas não é; pobre crônica! Pois que falo aqui é só sobre o tempo; o seu tempo, o meu tempo, o tempo dos que não têm mais tempo. E o passar do tempo é uma linha reta, que vai indo, indo e, quando se dá conta, já foi. Já se foi a bola, o gol, a torcida, o título...

Mas no dia em que um Galo, fanático pelo tempo, cantou forte e vingador no alto das montanhas das Gerais, empunhado por milhares de vozes unidas, ungidas pelas lembranças, emocionou-se a alma de futebol de um homem; libertou-se a memória de um torcedor que há dez anos não tinha mais time, mas que há dez anos sempre teve a torcida do tempo.

Por Ricardo Novais

Final feliz ao contrário


Fazenda Antiga por Batazar Guimarães Silva, o Zarico.


A velha casa de minha avó está morrendo. Ela não mora mais lá, nem os filhos e nem os netos. Vovó sempre se apegou aos detalhes, senhora meticulosa. Da tradicional família que programou a hora de amar, calculando em qual momento se dá ao companheiro. É um hábito que se transformou em costume. Tradição de família, entende, leitor? Como contando as horas em oração, louvando a Cristo. Se lhe perguntassem: “Que horas são?”. A minha senhora avó de fazenda certamente responderia: “Faltam quatro 'Rosários' e três 'Ave-Marias' para a hora do almoço”. Ou: “São quinze ‘Creio em Deus Pai’ para a hora de irmos dormir, meus queridos”. Costume de velha carola. Mas quantos por aí também têm por convicção programar o coração? Convicção célere, e que não passa despercebida entre a geração da roça: Ao despir as roupas novas, os velhos costumes ainda persistem... Povo promissor o brasileiro.

Quando meu avô planejou aquela velha casa de fazenda, por certo, tinha a esperança de abrigar amor aos filhos e sonhos aos netos – quem sabe projetou felicidade até para os bisnetos. Mas a casa morre. Um morador de Itabira fez, certa vez, uns versos dolorosos: “Ai, como morrem as casas! / Como se deixam morrer! / E descascadas e secas / Ei-las sumindo-se no ar.”

Não sei se há lá ainda um final feliz para a história desta casa de minha avó. Talvez o final feliz esteja em seu início, nos primeiros tempos de residência e também de construção. Sendo assim, a história dela começa no fim; pelo primeiro desocupado que arrancou as madeiras das portas e janelas para aquecer-se numa noite fria, com os morcegos, escorpiões, barbeiros e outros peçonhentos dando aspecto de casa mal-assombrada àquela outrora tão feliz habitação, e indo para trás, ano após ano, vendo aquele doce lar dissipar-se com o pó recostado pelos cantos e dobras das paredes, a pintura desbotando e virando caminho de insetos; até que se vê a festa de inauguração, o primeiro dia em que meus avós dormiram no casarão recém construído, as portas e janelas sendo instaladas com a ajuda de um mulato e de sua mula russa, o verde reflorescendo, e do alto da colina vovô fazendo seus estudos seguido das palavras:

- Vou construir aqui a casa que meus netos e bisnetos amarão!

Quando eu tinha uns dez anos, lembro-me que eram férias de escola onde se trocava o ambiente violento da cidade pelo bucólico da fazenda, plantei uma árvore em frente desta casa de vovó. Noutro dia passei por lá. Fiquei surpreso ao ver que a árvore ainda continua lá, firme, imponente, de pé.

Por Ricardo Novais

Viajando por Caminhos e Sonhos


Trecho antigo da Rodovia Fernão Dias. Foto da cabine de um Flecha Azul, chassi Scania, carroceria CMA; década de 1980. Arquivo de família da "roça grande".

“Vais à busca de tua vida! Siga em frente, confie em Deus e mantenha a honra! Deus te abençoe”. Foi isto que meu velho pai disse-me à porta do Flecha Azul na rodoviária de Belo Horizonte.

Quando desembarquei na rodoviária do Tiete, em São Paulo, lembrei das palavras ditas na minha cidade natal. Pensei no que me fazia deixar aquela família querida, meus amigos, o Atlético, o doce de leite da dona Rosário, a cerveja do Colégio Santo Antônio, o sossego do meu bairro rodeado de montanhas calmas e verdes, a linda Ritinha, enfim, por que eu larguei uma vida para trás e fui caçar outra numa megalópole desconhecida?

Eu nunca consegui uma resposta para esta pergunta. Eu tinha 20 incompletos de idade quando cheguei àquela saladeira enorme e variável. A cidade acolheu-me com frieza, senti-me triste e sozinho. Muitas vezes quis pegar o Flecha Azul de volta. Mas lá vinham no inconsciente as palavras de papai: "Vá buscar tua vida, meu filho!” Eu continuava entre galhos e espinhos num minúsculo apartamento quarto e sala do Jardim *** que ainda era dividido, por móveis e cortinas, em outros cômodos – eu residia com outros 3 amigos mineiros que trabalhavam comigo na metalúrgica Tecno-Tec-Press.

18 anos trabalhando nesta firma absorveram meus sonhos de regressar à minha terra; junte-se a isto uma moça loura, de nome Isadora, que me deu dois filhos varões. Um morreu há dois anos; bateu a cabeça na quina do painel de seu carro no qual dirigia embriagado, numa rua ordinária de Guarulhos, e teve hemorragia cerebral.

Muitas vezes, quando meus filhos ainda eram crianças, viajávamos à Minas Gerais para os meninos visitarem os avós, minha esposa descansar da desdourada cidade grande e, de fato, também para que eu pudesse reviver meus caminhos. Não íamos de avião, a passagem era notavelmente rápida, mas estreita, devido ao oneroso preço do carne de embarque de viajem – percorrer grande distância via área só em caso espetacular, como a morte de ente querido ou arrolamento de bens em herança.

De modo que nas férias embarcávamos na aventura do transporte terrestre, feita realmente pelo saudoso Flecha Azul, com incrível chassi e motores Scania, e carrocerias CMA com rebites de alumínio ao estilo californiano. Flutuando como verdadeiro cometa na Fernão Dias... Dois pontos, duas casas, um abraço... Ainda depois de ver meus filhos adultos, mesmo em Congonhas ou na Pampulha, vendo a feição desconhecida do homem que mora no aeroporto, que aguarda um ídolo, um parente ou qualquer viajante que desembarque, mesmo assim às portas da tecnologia aeronáutica que barateou o custo da viagem, eu sinto vontade incrível de percorrer a velha estrada, a rodovia antiga, terrestre, morosa, vendo o mudar de cenário à janela, com mato no acostamento, pasto da vaquinha malhada, o cheiro forte do couro das poltronas do ônibus se misturando ao aroma nefasto dos restos de salgadinhos industrializados... Ê lembrança, ê lembrança que puxa outra. Quanta saudade eu tenho até daquelas paradas de descanso que o motorista da composição fazia para gastarmos dinheiro com suvenires caipiras ou com café preto de alguma fazenda da região. Eu levava tudo, as crianças queriam tudo, minha mulher comprava tudo; levei muitas vezes ali meus sonhos e angústias... Depois eu os trazia de volta.

Por vezes aquelas viagens carregaram minhas expectativas, alegrias e frustrações. Percorrendo a estrada com minha querida Isadora, com meu pequeno Raul e Renato, apenas com um velho amigo ou mesmo sozinho. Visitar meu velho pai e dizer-lhe: “Encontrei, pai, encontrei minha vida”. Era mentira! Mas eu dizia; antes não era mentira, já que minha vida ficara 18 anos para trás.

Sim, senhor que lê este relato de velho – não pense que é lamuria ou tristeza; oh, não! É mais uma constatação de uma felicidade que busquei. Mas sim, eu quis morar de volta onde nasci; contudo, as crianças tinham mais raízes urbanas e minha mulher era refinada demais para viver fora de São Paulo. Fui ficando, ficando, ficando... E ficando velho mais velho a cada dia. Também doente.

Apenas viajando alegre ou, às vezes, triste, a admirar a paisagem monótona pela janela do Flecha Azul, a sinfonia robusta do motor sibilando e escondendo sua potência violenta, o zumbido opaco dos veículos que sobrevém na rodovia, a curta parada de lanche que em muitas ocasiões incomodam, por certo, ao impaciente motorista. E, por fim, o desembarque na rodoviária, com aquelas partidas e chegadas dos que esperam e anseiam perseverantes. Aquela foi a estrada da minha vida!

Provável que eu morra daqui a poucos dias. Não me dão muito tempo. Minha mulher desconversa, mas eu sinto o câncer acometer-me. Da mesma maneira que eu sinto tanto não ter voltado à minha terra... No entanto, tendo ao meu lado a presença de vulto com brilho bastante fusco que emite certa consciência, sei que se fosse possível retornar à vida em Belo Horizonte, eu não poderia ir e também não quereria mais. A cidade lá já não é minha, é de outro. Creio que São Paulo passou para lá alguns de seus milhares de prédios e fugacidades, de modo que a viagem para o passado tranquilo é quase impossível; e, certamente, o saudoso Flecha Azul não pode mais percorrer este caminho.



Por Ricardo Novais

Minas Gerais é Galo, Uai!


Foto: Site Oficial do Atlético.

Zé do Galo tem orgulho de sua influência e inteligência mineira. Casado com a terna Maria do Rosário, totalmente devotada a Deus e a família, ele aprecia os doces e os quitutes derivados do leite, o cozido da autêntica cozinha sertaneja, com fogão à lenha e panela de barro, com sabor inigualável ao feijão tropeiro temperado e “dedinho” de pinga. Ainda agora, que já vai tão longe, Zé do Galo tem desejo de cair na tentação da gula... E, no entardecer, também pensa no costumeiro bolo de fubá com saboroso cafezinho preto. Estas coisas que acalmam tanto o sistema nervoso, sentindo apenas aroma inebriante; o sabor remete tempos tão remotos que por certo nem mesmo a civilidade existia.

Aquela fazenda num recanto encantado, extraordinário! Passeio perfumado pelo espírito da natureza, onde se encontra o animalzinho marrom, que é o burrinho de carga que leva até à venda o queijo à maneira de Minas Gerais - aliás, o queijo geralista é um alimento de massa obtido da coagulação e fermentação do leite reconhecido como patrimônio culinário cultural deste país; alguém, por favor, avise aos franceses que vivem no Rio...

E como não vir no pensamento o modesto alambique, que destila a legítima cachaça nacional em imensos tonéis de bálsamo, fazendo a alegria e a festa do arraial. Bendito Hermes Carvalho do Lavradio, um dos pioneiros no processo de aguardente na região.

Quantas vezes, meu Deus, Zé do Galo, imerso, perde-se na curiosidade do paiol de gêneros da lavoura; aquela poesia jeca nos campos da rocinha toda arada pelo velho tratorzinho. E traz a ele a paz imensa o esverdeado pasto com todas as vaquinhas nas montanhas, como num quadro de presépio. Minas Gerais é um recanto encantado!

Agora até emocionei-me, prezado leitor. Desculpe, amiga dona leitora, peço-lhe licença à vossa educação de cidade grande e escravizo a este post uma velha canção da roça: "Meu Reino Encantado", composição de Valdemar Reis e Vicente Machado, aqui interpretada pelo cantor sertanejo Daniel, e com produção das imagens de Rachel Loureiro:

Clique em pausar, na barra lateral, e desabilite a rádio Stay Rock.

Tornando ao personagem caipira que permeia as linhas deste bucólico texto, aludi-se ao banhar no rio, às aventuras dos primos caboclos, ou tudo que lava qualquer alma urbana de poluições que porventura se carregue no coração. Assim Zé do Galo suprime alguma arrogância, afetado pelo fascínio às primas prendadas, causando-lhe imensa distração o galopar a cavalo trilhas de mato-a-dentro; tudo devolvendo a serenidade, a fleuma de condição de reles menino do campo. A surpresa, alegrando-lhe, ouvindo as velhas lavadeiras entoando seus cânticos de saudade e de tradição pueril, lá na beira da ribeira: “Lava, lava lavadeira (...). Adeus ferro de engomar”.

Que saudade vem à memória de Zé do Galo o vilarejo de fazenda próximo à pequenina cidade de Santo Antônio do Pilar, da ruazinha central que perfaz seu caminho morro acima até a igreja matriz do santo que dá o seu nome à cidade e onde passa também o cortejo da Festa do Divino Espírito Santo. Ainda agorinha é possível que ele se lembre de sua querida Minas...

Minas Gerais é tão bucólica como aquele time de futebol que se confunde com a própria tradição mineira; austera e, ao mesmo tempo, fascinante. Zé do Galo tem já quase tanta história como o Galo Carijó e seus 102 anos... Afinal de contas, os homens do campo têm lá suas instituições geralistas, e o Clube Atlético Mineiro é sem dúvida uma das mais emocionantes.

Torcedor fanático, quantas vezes Zé do Galo jogou a camisa do Atlético no chão de terra batida depois de alguma derrota vexatória, jurando aos quatro ventos que abandonaria aquela paixão. Repentinamente, entretanto, ele enxugava as lágrimas que não tinha e ia apanhar o manto alvi-negro, revigorado pela esperança, e clamava exaltando as glórias do "Galo forte e vingador", como diz o hino, daquele time imortal, orgulho de Minas... CAM é assim mesmo, paixão à flor da pele! "CAM, uma vez até morrer!". Tradição autêntica que permeia parte dos costumes do povo deste país.

Tudo que gera paixão intensa, gera também tristeza... Mas sempre há esperança! E um dia de fato ela dá o ar de sua graça; graça divina, trazendo imensa alegria àqueles abençoados pelas glórias do "divino barroco". Houve um período na história de Minas Gerais em que os corações mais brancos e mais pretos contiveram apenas o luto, o vendaval, e uma terrível e assustadora tempestade. No entanto, como definiu certa vez o grande torcedor do Galo e genial escritor mineiro, Roberto Drummond, "enquanto houver uma camisa branco e preta pendurada em um varal durante uma tempestade, o atleticano torcerá contra o vento".

Coloque-se por um momento no lugar de Zé do Galo, quando ele se viu dentro da mais angustiante tempestade de sua vida, e perceba o sentimento, meu amigo leitor e também a minha amiga leitora, assistindo o documentário abaixo, "Coração Preto e Branco", criação da Rede Minas, de Belo Horizonte.

"Coração Preto e Branco" - Parte 1/4:

Clique em pausar, na barra lateral, e desabilite a rádio Stay Rock.

"Coração Preto e Branco" - Parte 2/4:

Clique em pausar, na barra lateral, e desabilite a rádio Stay Rock.

"Coração Preto e Branco" - Parte 3/4:

Clique em pausar, na barra lateral, e desabilite a rádio Stay Rock.

"Coração Preto e Branco" - Parte 4/4:

Clique em pausar, na barra lateral, e desabilite a rádio Stay Rock.


Por Ricardo Novais

Democracia com Honra


Foto: Wikimedia Commons.

Tancredo de Almeida Neves, o advogado mineiro nascido sob o prisma da cidade barroca de São João del-Rei, católico fervoroso herdeiro de descendência luso-austríaca e que lutou pela democracia no Brasil, completaria 100 anos hoje.

Quando do golpe militar que estabeleceu uma ditadura no Brasil, o ex-presidente Juscelino Kubitschek embarcava solitariamente no Rio de Janeiro rumo ao exílio ‘voluntário’ na Europa. JK, o festejado presidente bossa-nova que também contribuiu para aumentar a dívida externa do país, tivera o mandato e os direitos políticos cassados pelos militares. Triste e desencantado, Juscelino viu um braço acenando para ele do lado de fora do avião. Era Tancredo Neves.

Tancredo criticava o novo regime, mas nada podia fazer contra. Se mesmo JK abandonava forçosamente o Brasil, os outros deveriam ter paciência. Diferentemente de terroristas ou ‘intelectuais’ de esquerda, o doutor Tancredo Neves travou luta digna e honrada contra a brutalidade da ditadura instalada no seio da sociedade.


Montagem sobre fotos de Manoel Novaes.

JK tinha esperança no amigo Tancredo, esperança que ele ajudasse a redemocratizar o país. Dentro desse quadro, um terrível confronto político entre a direita e a esquerda, é claro que o problema fundamental era saber para onde penderia o centro ideológico e a democracia. Continuaria sendo este representado pelos líderes moderados e inépcios ou a estratégia da direita governamental de liberalização seria suficientemente bem sucedida para atrair para seu seio a média burguesia e a tecnoburocracia?

Os direitos civis foram sendo, aos pouquinhos, reconquistados. Neste tempo estava claro que Tancredo Neves assumiria o controle político das posições de centro no Brasil, ele tinha mesmo capacidade de assumir o poder neste país. A burguesia, quando aceitou a redemocratização, sabia que de fato não corria grandes riscos na medida em que o máximo que poderia ocorrer seria uma mudança do eixo político da direita para o centro.

No entanto, a esperança morreu em 21 de abril de 1985. Lembro de crescer ouvindo de meu pai que a morte de Tancredo Neves, do qual ele era ferrenho admirador, tinha sido alguma espécie de sabotagem. Às vezes, eu achava que ele insinuava que Tancredo havia sido assassinado. Assassinato político? A Arena matou Tancredo Neves?

“Tancredo foi assassinado quando perceberam que a vitória dele era inevitável”, dizia papai. “Após 38 dias de agonia, e sete cirurgias, o primeiro presidente civil eleito desde o Golpe Militar, morre? Hum... Ah, e assume o vice da chapa, o ‘aristocrata do Nordeste’ José Sarney, do PFL, partido fundado por dissidentes do PDS. Não, não, não! Há algo de estranho nisto! Com Sarney, o poder permaneceu nas mãos dos que apoiavam o regime militar... Ora, o senhor José Sarney jamais se desvencilhará do Arena... Está é dura e desesperançosa verdade, meu filho”.


Manchete do jornal Última Hora.

Passado, porém, o momento de comoção, a dúvida de papai passou a intrigá-lo mais conscientemente: a possibilidade de Tancredo ter sido assassinado, acreditava ele, num plano arquitetado pelos líderes do regime autoritário era régio conluio. Vivia a matutar naqueles dias que os opositores do antigo regime deviam ter percebido que a vitória democrática era inevitável... Ele argumentava ainda que não se fez muito esforço para salvar a vida do presidente eleito - embora o general Figueiredo, último presidente do regime militar, tivesse ficado profundamente sentido e o general Valter Abreu reconhecesse a derrota. Os correlatos do país coçavam os bigodes... "Mataram o Tancredo! Mataram o Tancredo!", papai afirmava categoricamente tais palavras repetidas aos amigos e parentes próximos e estes repetiam nas charutarias para que outros repetissem em cafés, em igrejas, no metrô, nas paradas de ônibus, nas cabinas dos táxis, nos bares, nos parques, em praças centrais e periferias longínquas, enfim, uma verdade repetida muitas vezes até virar lenda: "Tancredo Neves foi assassinado!"

Não é possível afirmar isto hoje. Meu pai tinha as sábias convicções dele, e faziam mesmo sentido naquela época, mas o ônus da prova é coisa difícil... Além do mais, devo descontar o conservadorismo católico do patriarca de minha família, embora seja exatamente isto que tenha formado a consciência e a prudência dos que conviveram com ele. Digo isto porque não tenho pretensão de acusar este ou aquele de ter feito isto ou aquilo. Lembrei-me, talvez por causa deste centenário de nascimento do Tancredo, de umas memórias da minha meninice, onde, aliás, a política do país não passava do colégio onde eu estudava. Apenas isto, nada mais.

Seja como for, uma pista assombrosa de que a morte de Tancredo não foi fatalidade, mas um plano minuciosamente arquitetado, é que, em 1996, durante uma entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, o general Newton Cruz admitiu que, em outubro de 84, quando era comandante militar do Planalto, foi procurado pelo então candidato Paulo Maluf, que teria proposto um golpe militar, caso Tancredo Neves fosse eleito, justificando que o adversário estava muito doente.

Mas isto cai por terra quando refletimos um pouco: Como Maluf poderia saber da doença de Tancredo com seis meses de antecedência?


Foto: Antônio Milena - Agência Estado.

Contudo, a partir daquele fatídico feriado de Tiradentes, no remoto ano de 1985, o Brasil perdia seu último ‘salvador da pátria’ autêntico. Hodiernamente não cabem mais na conjuntura os papéis de 'salvadores', 'deuses' ou 'pai de todos'; quem ainda teima em comportar-se como ‘grande estadista’ cai no populismo ridículo e na farsa da boa governança. As instituições brasileiras são mais fortes, o povo é mais estruturado e incentivado a progredir no ambiente social, seja isto para o bem ou para o mal da consciência.

Eu não sei se o doutor Tancredo Neves foi assassinado e nem se o Brasil seria melhor caso ele tivesse tempo para cumprir o seu mandado de Presidente desta República. Sei apenas que, além de meu pai, muitos alunos de uma escola pública de São Paulo carregaram, e por certo ainda carregam, a angústia sobre o nome Tancredo. Esta escola é também onde eu fiz meus estudos regulares...

Uniforme antigo da escola Tancredo A. Neves, em São Paulo.





Mas, enfim, linha de pensamento político à parte, o doutor Tancredo de Almeida Neves, um mineiro de fala mansa que se comportou de maneira honrosa nesta vida, agindo com bondade sem ser fraco, justo sem ser tirano, em suma, vivendo com integridade e amor ao Brasil, deixou um legado de virtude à democracia.

"Tancredo Neves, Mensageiro da Liberdade" é um documentário, dividido em 9 partes, narrado pelo ator Othon Bastos e que foi produzido pelo jornalista Fernando Barbosa Lima, sobre a biografia deste grande filho do Brasil, sob o som dos sinos (fé) e da corneta (pátria). Assista o filme abaixo, vale muito a pena:

Clique em pausar, na barra lateral, e desabilite a rádio Stay Rock.









Olhando para trás, com os olhos de hoje, creio que quando o presidente eleito Tancredo de Almeida Neves morreu sem tomar posse do cargo, eu, que havia nascido poucos anos antes e absolutamente não me interessava por política, ainda assim, tenho por certo que fora ali o rito inicial de minha descrença irremediável em qualquer discurso desta sociedade positivista.

"Libertas Quæ Sera Tamen", mas o trem mineiro já passou e levou com ele também a esperança tardia...


Por Ricardo Novais

Documentário: Tancredo Neves, Mensageiro da Liberdade; exibido neste post em 9 partes; produzido pelo jornalista Fernando Barbosa Lima.
Protected by Copyscape Online Infringement Detector