Minas Gerais é Galo, Uai!


Foto: Site Oficial do Atlético.

Zé do Galo tem orgulho de sua influência e inteligência mineira. Casado com a terna Maria do Rosário, totalmente devotada a Deus e a família, ele aprecia os doces e os quitutes derivados do leite, o cozido da autêntica cozinha sertaneja, com fogão à lenha e panela de barro, com sabor inigualável ao feijão tropeiro temperado e “dedinho” de pinga. Ainda agora, que já vai tão longe, Zé do Galo tem desejo de cair na tentação da gula... E, no entardecer, também pensa no costumeiro bolo de fubá com saboroso cafezinho preto. Estas coisas que acalmam tanto o sistema nervoso, sentindo apenas aroma inebriante; o sabor remete tempos tão remotos que por certo nem mesmo a civilidade existia.

Aquela fazenda num recanto encantado, extraordinário! Passeio perfumado pelo espírito da natureza, onde se encontra o animalzinho marrom, que é o burrinho de carga que leva até à venda o queijo à maneira de Minas Gerais - aliás, o queijo geralista é um alimento de massa obtido da coagulação e fermentação do leite reconhecido como patrimônio culinário cultural deste país; alguém, por favor, avise aos franceses que vivem no Rio...

E como não vir no pensamento o modesto alambique, que destila a legítima cachaça nacional em imensos tonéis de bálsamo, fazendo a alegria e a festa do arraial. Bendito Hermes Carvalho do Lavradio, um dos pioneiros no processo de aguardente na região.

Quantas vezes, meu Deus, Zé do Galo, imerso, perde-se na curiosidade do paiol de gêneros da lavoura; aquela poesia jeca nos campos da rocinha toda arada pelo velho tratorzinho. E traz a ele a paz imensa o esverdeado pasto com todas as vaquinhas nas montanhas, como num quadro de presépio. Minas Gerais é um recanto encantado!

Agora até emocionei-me, prezado leitor. Desculpe, amiga dona leitora, peço-lhe licença à vossa educação de cidade grande e escravizo a este post uma velha canção da roça: "Meu Reino Encantado", composição de Valdemar Reis e Vicente Machado, aqui interpretada pelo cantor sertanejo Daniel, e com produção das imagens de Rachel Loureiro:

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Tornando ao personagem caipira que permeia as linhas deste bucólico texto, aludi-se ao banhar no rio, às aventuras dos primos caboclos, ou tudo que lava qualquer alma urbana de poluições que porventura se carregue no coração. Assim Zé do Galo suprime alguma arrogância, afetado pelo fascínio às primas prendadas, causando-lhe imensa distração o galopar a cavalo trilhas de mato-a-dentro; tudo devolvendo a serenidade, a fleuma de condição de reles menino do campo. A surpresa, alegrando-lhe, ouvindo as velhas lavadeiras entoando seus cânticos de saudade e de tradição pueril, lá na beira da ribeira: “Lava, lava lavadeira (...). Adeus ferro de engomar”.

Que saudade vem à memória de Zé do Galo o vilarejo de fazenda próximo à pequenina cidade de Santo Antônio do Pilar, da ruazinha central que perfaz seu caminho morro acima até a igreja matriz do santo que dá o seu nome à cidade e onde passa também o cortejo da Festa do Divino Espírito Santo. Ainda agorinha é possível que ele se lembre de sua querida Minas...

Minas Gerais é tão bucólica como aquele time de futebol que se confunde com a própria tradição mineira; austera e, ao mesmo tempo, fascinante. Zé do Galo tem já quase tanta história como o Galo Carijó e seus 102 anos... Afinal de contas, os homens do campo têm lá suas instituições geralistas, e o Clube Atlético Mineiro é sem dúvida uma das mais emocionantes.

Torcedor fanático, quantas vezes Zé do Galo jogou a camisa do Atlético no chão de terra batida depois de alguma derrota vexatória, jurando aos quatro ventos que abandonaria aquela paixão. Repentinamente, entretanto, ele enxugava as lágrimas que não tinha e ia apanhar o manto alvi-negro, revigorado pela esperança, e clamava exaltando as glórias do "Galo forte e vingador", como diz o hino, daquele time imortal, orgulho de Minas... CAM é assim mesmo, paixão à flor da pele! "CAM, uma vez até morrer!". Tradição autêntica que permeia parte dos costumes do povo deste país.

Tudo que gera paixão intensa, gera também tristeza... Mas sempre há esperança! E um dia de fato ela dá o ar de sua graça; graça divina, trazendo imensa alegria àqueles abençoados pelas glórias do "divino barroco". Houve um período na história de Minas Gerais em que os corações mais brancos e mais pretos contiveram apenas o luto, o vendaval, e uma terrível e assustadora tempestade. No entanto, como definiu certa vez o grande torcedor do Galo e genial escritor mineiro, Roberto Drummond, "enquanto houver uma camisa branco e preta pendurada em um varal durante uma tempestade, o atleticano torcerá contra o vento".

Coloque-se por um momento no lugar de Zé do Galo, quando ele se viu dentro da mais angustiante tempestade de sua vida, e perceba o sentimento, meu amigo leitor e também a minha amiga leitora, assistindo o documentário abaixo, "Coração Preto e Branco", criação da Rede Minas, de Belo Horizonte.

"Coração Preto e Branco" - Parte 1/4:

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"Coração Preto e Branco" - Parte 2/4:

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"Coração Preto e Branco" - Parte 3/4:

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"Coração Preto e Branco" - Parte 4/4:

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Por Ricardo Novais