Semana Santa

Ressurreição de Cristo e 'Coelhinho da Páscoa'

Oh, 'Paixão de Cristo' que leva a efeito fascínio grandioso à humanidade. Na minha infância, entre meus entes domésticos, recordo que a ‘Semana Santa’ era mais que coisa subliminar, era a maior oportunidade de se conhecer o caráter de uma pessoa; além de zelar pelo ofício. Eis que este sagrado evento tinha o seu início de fato ainda na ‘Quarta-Feira de Cinzas’, quando lambuzavam a minha testa com pó santificado e queimado, em seguida, eu era forçado a seguir os hábitos seculares de abdicar da carne vermelha em todas as sextas-feiras, durante o tal período de quaresma, e, finalmente, ao chegar à oficialidade católica da ‘Semana Santa’, na qual, quarta-feira, benziam-me com santos óleos e, já na quinta, purificavam-me no ‘Lava Pés’, de modo que eu estivesse pronto para o abençoado, ou fatal, dia seguinte: A ‘Sexta-Feira da Paixão’.

Não me tome por galhofeiro, menos ainda por herege; conto apenas umas poucas lembranças de um feriado. Claro, senhor leitor sisudo, nada acontecia assim tão metodicamente, ao contrário disto, as coisas davam-se de atropelo, rápidas, ríspidas, mas o intuito fazia-se compreender. Naquela minha velha casa, tão alegre e tão sistêmica, todo mundo tinha que acordar cedo na ‘Sexta-Feira do Calvário de Jesus Cristo’. Eu seguia minha mãe pelo bairro num respeitoso cortejo fúnebre, jubilante, em quinze atos magnificentes até a paróquia de Santa Terezinha. Em tal data imponente, não era permitido jogar bola, assistir televisão ou falar mal das outras pessoas; durante o restante do ano até que podia, porém neste dia santo, onde foi derramado sangue por todos os homens da face da Terra, até meus pensamentos eram controlados; isto extensivo a todos os infantis e mesmo a alguns adultos de pouca opinião. Assim eu cochilava com o rosto caído e preguiçoso no Livro de São Mateus... Novamente repito: não me tome por mal espírito, meu amigo e minha amiga, mas a leitura das Sagradas Escrituras era à minha personalidade por demais angustiante.

Depois da representação da morte do Nosso Senhor, vinha o ‘Sábado de Aleluia’, onde, aí sim, eu podia expurgar todo meu ódio reprimido e sem sentido. De modo que juntava-me aos outros garotos do bairro para trucidar o traidor Judas. Recordo-me de um peculiar vizinho, aí já dos meus tempos de adolescente, que foi também tenente aposentado do Exército Militar. Católico ardoroso, o tenente Pafúncio dependurava o fantoche num ordinário poste de iluminação pública e os peraltas socavam o coitado do boneco com pedaços de pau. Por vezes, entretanto, sobrava algum factível soco na fuça de algum moleque ou mesmo uma despretensiosa paulada nas ventas da desavisada autoridade militar.

Eu gostaria mesmo de ficar aqui, recordando de algo alegre, queixando da vida ou imaginando-a de outra maneira, talvez com um pouco mais de garbo e altivez, mas não seria justo. Sou fiel ao leitor. Veja que consideração eu lhe guardo, fosse outro tenderia a enganar-te deliberadamente. É verdade também que ainda estou na metade do texto e deveria já ter terminado reminiscência tanto quanto longínqua, até para não continuar entediando mais o amigo contemplativo leitor e/ou desmistificando a minha querida amiga dona leitora com maus pensamentos; continuarei na tentativa de preencher as linhas porque as lembranças são minhas; e mesmo porque o tempo é de regeneração, ressurreição, paz, já é tempo de chegar depressa o ansioso domingo de Páscoa. Ah! Ai, que saudade! O domingo Pascual era o auge da ‘Ressurreição de Cristo’, não obstante, para mim, menino de pouca atenção, o pináculo da redenção primava mais humana e menos metafísica; era para onde eu apontava minha desgraçada alma desalentada, que sempre instou amparo transcendente a tais adestrados valores; embora possa haver uma centelha de hipocrisia nisto. Contudo, naquele meu tempo juvenil, fosse possível encontrar quase que a cidade inteira nas igrejas católicas; o leitor deve imaginar como era penosa tal aventura cerimoniosa para um menino traquina?

Somente após a distinta missa, com o sermão do inspirado padre, o cumprimento respeitoso dos atos litúrgicos, enfim, de um ritual enfadonho, somente depois do tal sentimento de redenção absoluta que já fora por mim citado, que vinha envolver-me algo sagrado, sobrenatural. Sim, claro, verdade que após a celebração religiosa, o almoço de Páscoa, a sobremesa com arroz-doce, finalmente, vinha a recompensa de tamanho sacrifício: os ovos de chocolate. “Viva Jesus Cristo!”, eu repetia comportado em oração. Mas minha homilia também reverenciava ao “Coelhinho da Páscoa”. Amém! Não se escandalize outra vez, senhor leitor peregrino que por certo teve o ofício de coroinha em seu bairro de menino. Nem creia ser este texto alguma mofa de mau gosto, prezada leitora religiosa com vocação para carolices; eu era tão somente uma criança deslumbrada pela própria educação, e, naquele tempo, o diabo - ops! - o desgraçado do 'coelho' fazia-me rir, por outro lado, Jesus trazia-me um encantado tremor. O 'coelho' não tomava, nem toma, o respeito guardado ao Nosso Senhor Jesus Cristo. Estais mais calmo e satisfeito agora, amigo? E tu, minha senhora, ainda tem o olhar de censura?

Então confesso tudo, vá. Já faz tanto que fui menino e os padres daquela época por certo estão mortos; bem, se não o estão deveriam já serem santos, ou quase... Além de que aquela velha casa de vida infante não recebe mais a minha visita; que o santo ofício leve o perdão aos ingratos! Meu pensamento pueril fazia-se numa questão bem simples, advirto que pode parecer pecado: É que eu rezava deliberadamente e com todo gosto e força para que cada vez mais parentes fossem devotados católicos aos domingos Pascais, pois quanto mais devotos, mais presentes e ovos de chocolate haveria no mundo.


Por Ricardo Novais