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Salve, Jorge da Capadócia!


Quadro antigo de São Jorge pendurado por prego enferrujado no solar da velha casa de fazenda da senhora minha avó, carola de Santa Maria do Rio Abaixo.

Salve o jovem Jorge da Capadócia que, montado em seu cavalo branco, vai à caça dos dragões por todos nós. Dia 23 de abril, vê-se todo o Rio de Janeiro, toda São Paulo, toda Belo Horizonte e cercanias das mais longínquas nas igrejas, orando, agradecendo ou implorando à graça; tradição herdada dos nossos antepassados lusitanos. Não deve ser diferente também na arquidiocese de Boston, Munique, Dublin, Canal da Inglaterra, da velha Itália, Áustria, Suíça, polacos, eventuais russos e até a gente turca, grega, viking e dos países baixos. Enfim, aquela consagrada esperança misteriosa do mundo ocidental que nos forma como povo.

Neste pedaço gigantesco de terra onde vive tu, amigo leitor, vive também este desgraçado autor, aprendemos quem somos nos bancos redentores de cravo preto. Como todo brasileiro, mesmo que postiço, São Jorge toma-se e confunde-se nesta civilização. Povo bonito, sincero, cândido que guarda tesouros exuberantes. De igual modo povo esperto na fé, cruel nas lágrimas, ambíguo nos cochichos. Nem mesmo o cavaleiro da promiscuidade, Rousseau, também pai do civismo moderno, poderia entender estilo de vida menos verde que amarelo. Deste modo, eu, que jamais me interessei por entender trâmite de sociedade alguma, atrevo-me a adivinhar as riquezas escondidas nos cantos da alma seguindo as festividades afortunadas da minha boa família católica; embora, não haja nesta sucinta e despretensiosa digressão o porquê de deixar de ser sincero, devendo reconhecer, então, como arquiteta secretamente o leitor, que eu pendo à boa farra. Mas deixe isto de lado que é outra história...

Oh, o que é isto? Que revolta! Ouço vozes... Sinto-me pressionado; digo, repito, grifo que escrevo este post sobre história santa, mas a dona leitora insiste em querer romance, eventuais traições e aventuras com perdoes e lágrimas de paixões arrebatadoras. Não gosto de gente que insiste em dar opinião em enredo que ainda está sendo escrito. “Vamos, narrador de uma figa, vamos logo à vida do mocinho. Faça logo sofrer a mocinha, senhor autor. Onde estão os garotos que sofrem? E o vilão, cadê?” – É isto que quer a amiga que deveria apenas ler as linhas e não se meter a dar palpite nelas. Se quiseres tu escrever o texto, levanto-me da cadeira e ponho-me a ler tuas ideias; serei eu seu mais fiel leitor, querida leitora. Mas a história que me propus a descrever é a de fé em santo respeitado, vitorioso, santo católico; São Jorge, o mais guerreiro e corajoso dos guardiões do santo ofício que tanto clama por salvação nestes últimos tempos. Coisa séria, coisa de minha responsabilidade, e minha consciência não garante invencionices, eufemismos ou coisa que deforme por demais instituição milenar, como apreciam alguns da imprensa, das igrejas protestantes e lá para os lados do outro mundo, o mundo mulçumano. Além de que, senhora amiga, não quero eu ser desmascarado por falso testemunho.

Tenha paciência, tenha paciência.

Flagelo-me também por não fazer da leitura uma agradável aventura, mas é que São Jorge perfaz o viés de uma vida de redenção, de modo que sem fé não haverá o leitor como compreender nenhum ator que figura saga promíscua... Talvez, mais para o futuro, em outra história, outro post, quiçá até outro blogue e autor mais amarelo, haja algum prazer ou algum apreço por estas linhas... Talvez haja...

Em nenhuma hipótese aceitarei que a senhora mude o curso da narrativa com vossa amabilidade e doçura; embora eu admita que goste de visita, não significa belo tormento. Aceito vossa sutileza e charme, senhora amiga que lê, entretanto, contenha-se! O caso aqui é mais de fidúcia monástica; caso de base, alicerce, fundamento que tanto faz pedir como agradecer; contrastes dos reles humanos sem vocação de santidade.

Por fim, acatando ao pensamento, valendo São Jorge, quero aqui ser apenas humilde fâmulo de Deus. Apenas um criado, servidor, clérigo leigo a serviço da residência episcopal no qual se perturba com as aflições dos homens.

Faça-se presente, São Jorge da Capadócia...

“Ó glorioso São Jorge! Tribuno militar e cavaleiro romano, vós tínheis pela frente brilhante carreira; mas a fé vos disse que devíeis lutar por Cristo. E vós protestando contra o edito de perseguição do imperador Diocleciano, trocastes a espada de soldado pela espada da cruz, e declarastes guerra ao paganismo.

Tombastes mártir de Cristo, mas vosso martírio foi o golpe que transpassou as fauces do dragão.

Glorioso São Jorge! O dragão que vós pisastes tenta reerguer-se. O dragão do paganismo moderno arremete com furor contra a humanidade. Imploramos vossa defesa e proteção! Conservai nossa fé. Corrige aqueles que usam o vosso nome para enganar seu próximo com práticas hipócritas de um sistema social e econômico contrário a fé que vós defendestes.

Milagroso São Jorge! Ajudai-nos em todas as nossas dificuldades. Defendei-nos do dragão infernal e livrai-nos de todo o mal.”

Amém!


Por Ricardo Novais,
Servo de fé.

Semana Santa

Ressurreição de Cristo e 'Coelhinho da Páscoa'

Oh, 'Paixão de Cristo' que leva a efeito fascínio grandioso à humanidade. Na minha infância, entre meus entes domésticos, recordo que a ‘Semana Santa’ era mais que coisa subliminar, era a maior oportunidade de se conhecer o caráter de uma pessoa; além de zelar pelo ofício. Eis que este sagrado evento tinha o seu início de fato ainda na ‘Quarta-Feira de Cinzas’, quando lambuzavam a minha testa com pó santificado e queimado, em seguida, eu era forçado a seguir os hábitos seculares de abdicar da carne vermelha em todas as sextas-feiras, durante o tal período de quaresma, e, finalmente, ao chegar à oficialidade católica da ‘Semana Santa’, na qual, quarta-feira, benziam-me com santos óleos e, já na quinta, purificavam-me no ‘Lava Pés’, de modo que eu estivesse pronto para o abençoado, ou fatal, dia seguinte: A ‘Sexta-Feira da Paixão’.

Não me tome por galhofeiro, menos ainda por herege; conto apenas umas poucas lembranças de um feriado. Claro, senhor leitor sisudo, nada acontecia assim tão metodicamente, ao contrário disto, as coisas davam-se de atropelo, rápidas, ríspidas, mas o intuito fazia-se compreender. Naquela minha velha casa, tão alegre e tão sistêmica, todo mundo tinha que acordar cedo na ‘Sexta-Feira do Calvário de Jesus Cristo’. Eu seguia minha mãe pelo bairro num respeitoso cortejo fúnebre, jubilante, em quinze atos magnificentes até a paróquia de Santa Terezinha. Em tal data imponente, não era permitido jogar bola, assistir televisão ou falar mal das outras pessoas; durante o restante do ano até que podia, porém neste dia santo, onde foi derramado sangue por todos os homens da face da Terra, até meus pensamentos eram controlados; isto extensivo a todos os infantis e mesmo a alguns adultos de pouca opinião. Assim eu cochilava com o rosto caído e preguiçoso no Livro de São Mateus... Novamente repito: não me tome por mal espírito, meu amigo e minha amiga, mas a leitura das Sagradas Escrituras era à minha personalidade por demais angustiante.

Depois da representação da morte do Nosso Senhor, vinha o ‘Sábado de Aleluia’, onde, aí sim, eu podia expurgar todo meu ódio reprimido e sem sentido. De modo que juntava-me aos outros garotos do bairro para trucidar o traidor Judas. Recordo-me de um peculiar vizinho, aí já dos meus tempos de adolescente, que foi também tenente aposentado do Exército Militar. Católico ardoroso, o tenente Pafúncio dependurava o fantoche num ordinário poste de iluminação pública e os peraltas socavam o coitado do boneco com pedaços de pau. Por vezes, entretanto, sobrava algum factível soco na fuça de algum moleque ou mesmo uma despretensiosa paulada nas ventas da desavisada autoridade militar.

Eu gostaria mesmo de ficar aqui, recordando de algo alegre, queixando da vida ou imaginando-a de outra maneira, talvez com um pouco mais de garbo e altivez, mas não seria justo. Sou fiel ao leitor. Veja que consideração eu lhe guardo, fosse outro tenderia a enganar-te deliberadamente. É verdade também que ainda estou na metade do texto e deveria já ter terminado reminiscência tanto quanto longínqua, até para não continuar entediando mais o amigo contemplativo leitor e/ou desmistificando a minha querida amiga dona leitora com maus pensamentos; continuarei na tentativa de preencher as linhas porque as lembranças são minhas; e mesmo porque o tempo é de regeneração, ressurreição, paz, já é tempo de chegar depressa o ansioso domingo de Páscoa. Ah! Ai, que saudade! O domingo Pascual era o auge da ‘Ressurreição de Cristo’, não obstante, para mim, menino de pouca atenção, o pináculo da redenção primava mais humana e menos metafísica; era para onde eu apontava minha desgraçada alma desalentada, que sempre instou amparo transcendente a tais adestrados valores; embora possa haver uma centelha de hipocrisia nisto. Contudo, naquele meu tempo juvenil, fosse possível encontrar quase que a cidade inteira nas igrejas católicas; o leitor deve imaginar como era penosa tal aventura cerimoniosa para um menino traquina?

Somente após a distinta missa, com o sermão do inspirado padre, o cumprimento respeitoso dos atos litúrgicos, enfim, de um ritual enfadonho, somente depois do tal sentimento de redenção absoluta que já fora por mim citado, que vinha envolver-me algo sagrado, sobrenatural. Sim, claro, verdade que após a celebração religiosa, o almoço de Páscoa, a sobremesa com arroz-doce, finalmente, vinha a recompensa de tamanho sacrifício: os ovos de chocolate. “Viva Jesus Cristo!”, eu repetia comportado em oração. Mas minha homilia também reverenciava ao “Coelhinho da Páscoa”. Amém! Não se escandalize outra vez, senhor leitor peregrino que por certo teve o ofício de coroinha em seu bairro de menino. Nem creia ser este texto alguma mofa de mau gosto, prezada leitora religiosa com vocação para carolices; eu era tão somente uma criança deslumbrada pela própria educação, e, naquele tempo, o diabo - ops! - o desgraçado do 'coelho' fazia-me rir, por outro lado, Jesus trazia-me um encantado tremor. O 'coelho' não tomava, nem toma, o respeito guardado ao Nosso Senhor Jesus Cristo. Estais mais calmo e satisfeito agora, amigo? E tu, minha senhora, ainda tem o olhar de censura?

Então confesso tudo, vá. Já faz tanto que fui menino e os padres daquela época por certo estão mortos; bem, se não o estão deveriam já serem santos, ou quase... Além de que aquela velha casa de vida infante não recebe mais a minha visita; que o santo ofício leve o perdão aos ingratos! Meu pensamento pueril fazia-se numa questão bem simples, advirto que pode parecer pecado: É que eu rezava deliberadamente e com todo gosto e força para que cada vez mais parentes fossem devotados católicos aos domingos Pascais, pois quanto mais devotos, mais presentes e ovos de chocolate haveria no mundo.


Por Ricardo Novais

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