Carnaval, exuberância de corpos

As Musas do Carnaval, pintura de Marcos Anthony.

O leitor superficial conclui que o Carnaval é um evento fútil, não é. Ora, se esta também é festa religiosa que transfigura-se em tradição pagã, como dizer que não há ao menos certa proficuidade histórica?

Talvez, festa tão excêntrica, faça parte dos mecanismos que comandam as ações humanas, sejam eles de natureza espiritual ou decorrentes da ação que o meio social exerce sobre cada indivíduo.

Por outro lado, a dona leitora bem sabe, a exuberância de corpos atléticos e o culto à silhueta modelada estão extraordinariamente representados nesta grande festa popular. O Carnaval é a alegria do povo, mas do povo que exibe seus corpos magros e malhados ou daqueles que assistem encantados o desfile destes. Veja se não te parece, leitor, que estão ali representados todos os planos e sonhos do que a sociedade gostaria de ser? Se não em essência, ao menos em aparência - pois que o corpo é a porta de entrada de todos os outros aspectos das relações inter-pessoais. A 'Ordem e o Progresso' perfazem-se, hodiernamente, numa ilusão da mente no qual se situam fenômenos psíquicos latentes de um indivíduo; almeja-se um modelo estético que se encaixe nos moldes uniformes do que se convencionou a olhar como belo e saudável - caso contrário, por mais sucesso que se faça nas outras áreas da vida, a pessoa se sentirá 'anormal' e fora dos padrões sociais, e isto implicará, necessariamente, na sua infeliz existência desgraçada. Por isso os psiquiatras, terapeutas, cirurgiões estéticos (principalmente os que tem habilidade para cortes no corpo humano, em cirurgia plástica ou de lipoaspiração e outras similares que interferem sensivelmente na auto-estima), vendedores de anabolizantes (legalizados ou não) e donos de academia de ginástica devem ser os cidadãos que mais enriquecem no Brasil. Haja atividade ocupacional, abdicação do prazer gastronômico, dietas alimentares rígidas, exercícios à exaustão, suplementos para aquisição de massa muscular, medicamento para absorção do excesso de gordura, anti-depressivos...

Este nosso 'templo vaidoso' julgou que Platão estava errado quando ele conjecturava que o belo era o bem e a verdade existente em si mesmo, apartada do mundo sensível, residindo, portanto, no mundo das ideias. Vemos que o que agrada tantos hoje em dia é um conceito, que pode mudar de tempos em tempos, de ode ao corpóreo (no sentido dado por Descartes). Ou então por que ficaríamos horas a fio atrás de um trio elétrico ou de um tambor ensurdecedor, tão alegres e contentes, aguardando a felicidade que ainda não veio? Ora, pela cerveja? Mas se esta não é efeito colateral daquele... Creia, queremos ver os corpos desnudados e perfeitos a desfilar diante de nossas retinas fascinadas.

O mundo inteiro cultiva o corpo. Já no século passado iniciou-se tal processo... Penso naquela questão machadiana: O que vemos são os pés do outro século ou a cabeça deste que vivemos? Sou pela cabeça, como sabe.

Mas isto pouco importa, se este mundo é tão pelo cultivo ao corpo, este nosso povo brasileiro também vive diante de um espelho enorme...

Mas povo este que guarda tesouros exuberantes, diga-se. Nem mesmo Rousseau, pai do civismo moderno, poderia entender o estilo de vida brasileiro. Deste modo, como jamais me interessei por entender trâmites de sociedade alguma, basta a mim, portanto, descobrir as riquezas escondidas nos cantos da alma. Sigo as festividades afortunadas da minha boa família católica; embora, não haja nesta digressão o porque de deixar de ser sincero, devendo reconhecer, então, que eu gosto mesmo é do Carnaval. Sou típico produto deste; sou bem hipócrita, como sabe.

Não se espantes, pois se Carnaval é o maior espetáculo da terra... Sou mísero ator. Não eu quem digo, incrédulo amigo, mas para tantos outros “caras-de-cão” que habitam nossas avenidas... Esta minha tradição, que de geração em geração, impede que haja cordão de isolamento entre foliões embalados por velhas marchinhas carnavalescas ou qualquer outra boa farra, faz-me integrante do enredo. Não existem ricos nem pobres, nem nobre, burguês ou operário. É festa de todos! O caboclo desfila como rei, o cortesão como astronauta, o médico como louco, pois se os sãos estão doentes e estes sadios. É um grande bailado de fantasias, pode-se definir o Carnaval como um baile alegórico da própria vida; vida vivida e depois morrida, não encantadoramente sonhada.

Deixem-me submergir na alegria demente e contente... Grande Carnaval! Prometo que depois volto à minha honradez e disciplina de homem de respeito! Daí, juro-lhe, censurarei com firmeza o Carnaval. Carnaval? Ah, mau gosto, eu não gosto de Carnaval! Festa da lascívia! Exclamarei aos quatro ventos. Ainda direi que lembra-me loucura, como em 1917... naquele movimento revolucionário que eclodiu na Rússia derrubando a monarquia. Aquilo foi Carnaval que iludiu toda uma corte! Assim como foi a regeneração do regime Nazista, que tão enganoso cultivou o holocausto e uma guerra estúpida; ou o 'Terror' de cabeças cortadas pela oposição entre os girondinos desejosos da república e os Montanheses aspirantes à unitária democrática, isto na França; ou mesmo, por aqui, a 'Guerra em Canudos' do sagrado Antonio Conselheiro. Juro-lhe, amigo leitor de moral e sua digníssima senhora, direi que tudo é uma grande fantasia; dorme-se um rei e acorda-se um pedinte. Por essas e outras, senhor leitor, que eu não gosto de Carnaval; tais palavras reconfortadoras sairão de minha boca amarga, ainda que meus desejos digam outra coisa.

Faças como eu, caro amigo folião: Não me preocupo em como recuperar o respeito, pois se a Quarta-Feira de Cinzas é o enterro desta prazerosa promiscuidade... Enterro da alma ou do corpo? Não sei. Em qualquer dos casos enterra-se o cérebro, visto que este órgão está nas duas entidades e não corre-se o risco que se salve.

Mas vamos com calma! Só me pronunciarei contra o culto ao corpo depois da folia de minha alma; afinal, também eu sou brasileiro filho de Deus... E na terra de Deus só podemos pensar, sopesar e agir depois do Carnaval.

Por Ricardo Novais