Passeio à Biblioteca Nacional

Biblioteca Nacional. Entre terremotos, guerras, ser lançada ao mar, ela ficou no Brasil.

Joaquim Maria d’Almeida mora no Cacuia, zona norte do Rio de Janeiro. Um dia qualquer, deveria ser bem uma despretensiosa tarde de sol cinzento, ele resolveu perfumar-se pela região mais antiga da cidade. A pé, andou pela zona portuária por minutos velhos, depois foi pelo Passeio, viu o Real Gabinete, não parou, continuou pela Rua do Hospício, Rua dos Inválidos, Rua do Lavradio, sempre em círculos, Gamboa, Saúde, tornou, passou pela confeitaria positivista, aportou na Cinelância, avistou o Teatro e o Museu de Belas Artes, caminhou ainda na Rio Branco, parou, andou, voltou, até que chegou à Biblioteca. Entrou.

Sim, senhor leitor, qualquer outro ficaria maravilhado com tamanha arquitetura portentosa, altiva, cultura às narinas, cheiro de ferro com mogno molhado e traças devidamente letradas. Porém, nosso Joaquim Maria perdeu-se um pouco. No saguão, foi ao balcão. Falou à dona gorda que lhe jogou um olhar agudo e rigoroso entregando-lhe o crachá onde se lia: "leitor". Caminhou à sala direita por várias fileiras de obras gerais, no mezanino encantou-se pela beleza dos livros encaixados às estantes de ferro, e, no terceiro andar, vislumbrado pela clarabóia francesa que deixava entrar uma luz mítica, tendo à frente diversos títulos raros e escondidos sem poder tocar em nenhum, espantou-se; por fim, sem nada encontrar, tornou aos andares inferiores e deixou descansar-se à cadeira de sala de leitura ordinária que lembra as mesinhas de uma escola ginasial. Lá ficou por algum tempo ao lado de um livro de aspecto clássico, esquecido ou perdido, embora não fosse tão antigo. A obra pareceu fitar-lhe, Joaquim pegou dela e começou a folheá-la.

Tratava-se das Cartas do Barão de Gobineau, datada de quando este famoso eugenista francês por aqui pôs os pés refinados.

Em dado momento, Joaquim Maria leu um parágrafo que o admirou:

(...) "Chove a cântaros e o céu não é bonito; o mesmo cinzento, a mesma neblina, e ainda mais úmido do que em Paris”. “Há uma grande quantidade de baratas, ou o nome que se lhes queira dar, e saúvas capazes de devorar aldeias inteiras, inclusive as casas; mesmo no Rio, existem cobras perigosas nos jardins.”

Em outra página, lê-se o momento no qual monsieur Arthur Gobineau, que era de família humilde e forjou o título de barão para sustentar seus hábitos e sua teoria, descobre o maravilhoso Jardim Botânico:

“É realmente magnífico. Um verdor, uma riqueza de vegetação, profusão de toda espécie de plantas, cercas-vivas compactas como florestas, tudo isso repleto de flores grandes, médias e pequenas de todas as cores, as mais vivas e as mais suaves, toda essa opulenta vegetação rendilhada de forma singular e variada, encaixada entre montanhas enormes, tão verdes quanto o resto, e entre maciços que escondem todas as ondulações do terreno com grandes árvores carregadas de flores brancas, formando bolas semelhantes às dos pessegueiros e ameixeiras em flor.(...) Não esqueça que, no meio de tudo isso, há grande quantidade de moradias deliciosas; grandes pintadas de verde ou azul-claro; casas cor-de-rosa ou vermelho pálido, chalés suíços revestidos de azulejos à moda portuguesa, pórticos com bolas coloridas de cristal, em estradas bonitas (...); negros e mulatos em profusão, uns a cavalo, com os pés descalços, presilhas e esporas, outros andando a pé, com o cigarro atrás da orelha direita e o palito de madeira espetado no cabelo. Causa um efeito extraordinário”. (...) “Este Brasil é um país maravilhoso, e não creio que o mundo antigo apresente nada de parecido em matéria de natureza selvagem.” (...) “Agora você entenderá tudo quanto eu lhe disser que, excetuando a família imperial, todos aqui são mais ou menos mulatos e passam a vida com um palito nos cabelos e um cigarro atrás da orelha. O Rio é uma cidade grande e bonita, mas são os estrangeiros que fazem tudo por aqui. Os brasileiros evitam mover uma palha para fazer qualquer coisa de útil, até mesmo para se afogarem.”

O autor de "Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas" demonstra não apenas uma prevenção sistemática de filósofo que se obstina em apoiar a doutrina que forjou, mas também mantém grande amizade ao imperador, que é ariano puro, ou quase; quanto aos brasileiros, ao contrário, para ele, não passam de mulatos da mais baixa categoria: “Uma população toda mulata, com sangue viciado, espírito viciado e feia de meter medo...” E vai mais longe: “Nenhum brasileiro é de sangue puro; as combinações dos casamentos entre brancos, indígenas e negros multiplicaram-se a tal ponto que os matizes da carnação são inúmeros, e tudo isso produziu, nas classes baixas e nas altas, uma degenerescência do mais triste aspecto”. (...) “As melhores famílias têm cruzamentos com negros e índios. Estes produzem criaturas particularmente repugnantes, de um vermelho acobreado... A imperatriz tem três damas de honra: uma marrom, outra chocolate-claro e a terceira é violeta.” Na opinião desse homem galante, as senhoras brasileiras que viu são “todas simplesmente hediondas”. “O gosto que têm pelos trajes mais escandalosos não consegue embelezá-las.” “São bolas que rolam”. Um tio meu da zona portuária diria que este francês metido à besta não gosta de mulher, mas não cabe aqui entrar neste mérito e nem noutra coisa... Vá lá.

Essa gente, afirma Gobineau, é supersticiosa.

“Passamos pela crise mais engraçada. Toda a população do Rio, senhores e negros, tinha-se convencido de que no dia 5 deste mês, haveria um cataclismo terrível, o mar engoliria a cidade e as montanhas desabariam. Desespero universal e público. Todas as classes desesperadas; as pessoas instruídas explicavam que era o resultado de uma maré extraordinária combinada com a tempestade; os negros, muito mais lógicos e sensatos, anunciavam que era porque o Sol e a Lua estavam descendo, e nenhum deles duvidava, no dia 3 próximo esses dois astros estariam somente a trinta metros da Terra. Ouvi a história. Todas as cidades do litoral foram abandonadas, a população fugindo para as montanhas. O Imperador ria sem poder fazer nada. Dia 4, todo mundo comprou imagens milagrosas a 1000 réis (40 centavos) para não se afogar. Resumindo, quando o dia fatal chegou, com a metade do Rio desnorteada pelas montanhas, a maré baixou meio pé, e pronto.”

A questão da escravidão.

“É preciso reconhecer que a maioria dos que chamamos de brasileiros compõem-se de sangue mestiço, sendo mulatos e filhos de caboclos de graus distintos. Eles estão em todos os escalões sociais. O senhor Barão de Cotegipe, atual ministro das Relações Exteriores, é mulato; no Senado há homens dessa categoria; em uma palavra, quem diz brasileiro diz, com raras exceções, homem de cor. As famílias mestiças desconstroem-se tão rapidamente que certas categorias existentes há apenas vinte anos já não mais existem, como, por exemplo, os mamelucos. E, por outro lado, a grande maioria dos fazendeiros, cuja desagradável situação econômica expus-lhe ainda agora, vive num estado muito próximo da barbárie, no meio de escravos, e deles não se diferenciam nem por gostos mais sofisticados, nem por tendências morais mais elevadas. O resultado disso é que o comércio, os interesses e todas as fábricas estão nas mãos de estrangeiros. Eles invadem tudo, a tal ponto que muitas plantações pertencem aos portugueses, os mais numerosos e os mais ativos desses imigrantes, e estes fornecem contra a escravidão na América do Sul um dos mais fortes argumentos que se possa alegar. É o fato do trabalho dos brancos nas plantações de café.”

O Barão de Gobineau deixa o Brasil.

“Estou submetido a influências malsãs e excessivas. Esta gente está condenada! Se abrirem suas fronteiras a europeus de sangue puro e 'limparem-se', pode ser que ainda arranjem tempo de salvarem-se; caso contrário, estarão fadadas ao desaparecimento. Como já ensinou Sir Darwin, os mais fortes o aniquilarão. Minha extrema solidão, esta atmosfera só comparável a um banho de vapor perpétuo, este céu sempre cinzento e baixo, flores enormes de cores brilhantes atordoando-me os olhos, tantos negros, negras, mulatos, mulatas de todos os lados, ninguém com quem falar, a não ser o imperador, estou-me tornando imbecil, tenho febre, insônia, um mal-estar universal e um cansaço constante...”.

Fechou o livro, Joaquim Maria quis sair daquele antro letrado. Pousou o exemplar no mesmo lugar, sem notar que neste ato derrubara ao chão outro Ensaio, este de barão francês de real fidalguia, o Barão de Montaigne. Ao cair, abriu-se por acaso as páginas no capítulo XVII, “Da Presunção”, onde se lê: “Não há alma tão ruim e mal aperfeiçoada em que se não vê o brilho de alguma faculdade particular; e não as há tão enterradas em sua própria condição que dela não saiam, alguma vez, por alguma saída de espírito. (...) Mas as almas mais belas são as almas universais, abertas a tudo, e prontas a tudo, verdadeiramente capazes de instrução”.

Deste ensinamento de Montaigne o nosso Joaquim nada leu. Saindo fugido, tomado das mãos da angústia, livrou-se da Biblioteca Nacional, ele olhou o frontispício do prédio novamente, virou a cabeça à direita, viu transeuntes apressados da Cinelândia, percebeu que eles tinham as mesmas caras tão reconhecidas dele, teve vontade de ir à praia, pular ondas, sentar à areia e pensar em D. João conjecturando se D. Sebastião salvaria também aos selvagens. Quis ir naquele momento em outros tantos cantos do Rio, não foi em nenhum. Apenas disse alto consigo mesmo: “Graças! Como dizem na minha terra: Bem fez este francês em ir pra cucuia”. Claudicante em ideias, calculou a direção da estação, por certo para pegar o ônibus que o levaria de volta à Ilha do Governador.

Neste momento, entretanto, sem que o distraído e pensativo Joaquim da Cacuia percebesse, adentrou à  Biblioteca outro senhor, este também barão.


Por Ricardo Novais,
Brasileiro típico, de sangue heterogêneo e bem vivo.