Mostrando postagens com marcador Cientificismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cientificismo. Mostrar todas as postagens

Passeio à Biblioteca Nacional

Biblioteca Nacional. Entre terremotos, guerras, ser lançada ao mar, ela ficou no Brasil.

Joaquim Maria d’Almeida mora no Cacuia, zona norte do Rio de Janeiro. Um dia qualquer, deveria ser bem uma despretensiosa tarde de sol cinzento, ele resolveu perfumar-se pela região mais antiga da cidade. A pé, andou pela zona portuária por minutos velhos, depois foi pelo Passeio, viu o Real Gabinete, não parou, continuou pela Rua do Hospício, Rua dos Inválidos, Rua do Lavradio, sempre em círculos, Gamboa, Saúde, tornou, passou pela confeitaria positivista, aportou na Cinelância, avistou o Teatro e o Museu de Belas Artes, caminhou ainda na Rio Branco, parou, andou, voltou, até que chegou à Biblioteca. Entrou.

Sim, senhor leitor, qualquer outro ficaria maravilhado com tamanha arquitetura portentosa, altiva, cultura às narinas, cheiro de ferro com mogno molhado e traças devidamente letradas. Porém, nosso Joaquim Maria perdeu-se um pouco. No saguão, foi ao balcão. Falou à dona gorda que lhe jogou um olhar agudo e rigoroso entregando-lhe o crachá onde se lia: "leitor". Caminhou à sala direita por várias fileiras de obras gerais, no mezanino encantou-se pela beleza dos livros encaixados às estantes de ferro, e, no terceiro andar, vislumbrado pela clarabóia francesa que deixava entrar uma luz mítica, tendo à frente diversos títulos raros e escondidos sem poder tocar em nenhum, espantou-se; por fim, sem nada encontrar, tornou aos andares inferiores e deixou descansar-se à cadeira de sala de leitura ordinária que lembra as mesinhas de uma escola ginasial. Lá ficou por algum tempo ao lado de um livro de aspecto clássico, esquecido ou perdido, embora não fosse tão antigo. A obra pareceu fitar-lhe, Joaquim pegou dela e começou a folheá-la.

Tratava-se das Cartas do Barão de Gobineau, datada de quando este famoso eugenista francês por aqui pôs os pés refinados.

Em dado momento, Joaquim Maria leu um parágrafo que o admirou:

(...) "Chove a cântaros e o céu não é bonito; o mesmo cinzento, a mesma neblina, e ainda mais úmido do que em Paris”. “Há uma grande quantidade de baratas, ou o nome que se lhes queira dar, e saúvas capazes de devorar aldeias inteiras, inclusive as casas; mesmo no Rio, existem cobras perigosas nos jardins.”

Em outra página, lê-se o momento no qual monsieur Arthur Gobineau, que era de família humilde e forjou o título de barão para sustentar seus hábitos e sua teoria, descobre o maravilhoso Jardim Botânico:

“É realmente magnífico. Um verdor, uma riqueza de vegetação, profusão de toda espécie de plantas, cercas-vivas compactas como florestas, tudo isso repleto de flores grandes, médias e pequenas de todas as cores, as mais vivas e as mais suaves, toda essa opulenta vegetação rendilhada de forma singular e variada, encaixada entre montanhas enormes, tão verdes quanto o resto, e entre maciços que escondem todas as ondulações do terreno com grandes árvores carregadas de flores brancas, formando bolas semelhantes às dos pessegueiros e ameixeiras em flor.(...) Não esqueça que, no meio de tudo isso, há grande quantidade de moradias deliciosas; grandes pintadas de verde ou azul-claro; casas cor-de-rosa ou vermelho pálido, chalés suíços revestidos de azulejos à moda portuguesa, pórticos com bolas coloridas de cristal, em estradas bonitas (...); negros e mulatos em profusão, uns a cavalo, com os pés descalços, presilhas e esporas, outros andando a pé, com o cigarro atrás da orelha direita e o palito de madeira espetado no cabelo. Causa um efeito extraordinário”. (...) “Este Brasil é um país maravilhoso, e não creio que o mundo antigo apresente nada de parecido em matéria de natureza selvagem.” (...) “Agora você entenderá tudo quanto eu lhe disser que, excetuando a família imperial, todos aqui são mais ou menos mulatos e passam a vida com um palito nos cabelos e um cigarro atrás da orelha. O Rio é uma cidade grande e bonita, mas são os estrangeiros que fazem tudo por aqui. Os brasileiros evitam mover uma palha para fazer qualquer coisa de útil, até mesmo para se afogarem.”

O autor de "Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas" demonstra não apenas uma prevenção sistemática de filósofo que se obstina em apoiar a doutrina que forjou, mas também mantém grande amizade ao imperador, que é ariano puro, ou quase; quanto aos brasileiros, ao contrário, para ele, não passam de mulatos da mais baixa categoria: “Uma população toda mulata, com sangue viciado, espírito viciado e feia de meter medo...” E vai mais longe: “Nenhum brasileiro é de sangue puro; as combinações dos casamentos entre brancos, indígenas e negros multiplicaram-se a tal ponto que os matizes da carnação são inúmeros, e tudo isso produziu, nas classes baixas e nas altas, uma degenerescência do mais triste aspecto”. (...) “As melhores famílias têm cruzamentos com negros e índios. Estes produzem criaturas particularmente repugnantes, de um vermelho acobreado... A imperatriz tem três damas de honra: uma marrom, outra chocolate-claro e a terceira é violeta.” Na opinião desse homem galante, as senhoras brasileiras que viu são “todas simplesmente hediondas”. “O gosto que têm pelos trajes mais escandalosos não consegue embelezá-las.” “São bolas que rolam”. Um tio meu da zona portuária diria que este francês metido à besta não gosta de mulher, mas não cabe aqui entrar neste mérito e nem noutra coisa... Vá lá.

Essa gente, afirma Gobineau, é supersticiosa.

“Passamos pela crise mais engraçada. Toda a população do Rio, senhores e negros, tinha-se convencido de que no dia 5 deste mês, haveria um cataclismo terrível, o mar engoliria a cidade e as montanhas desabariam. Desespero universal e público. Todas as classes desesperadas; as pessoas instruídas explicavam que era o resultado de uma maré extraordinária combinada com a tempestade; os negros, muito mais lógicos e sensatos, anunciavam que era porque o Sol e a Lua estavam descendo, e nenhum deles duvidava, no dia 3 próximo esses dois astros estariam somente a trinta metros da Terra. Ouvi a história. Todas as cidades do litoral foram abandonadas, a população fugindo para as montanhas. O Imperador ria sem poder fazer nada. Dia 4, todo mundo comprou imagens milagrosas a 1000 réis (40 centavos) para não se afogar. Resumindo, quando o dia fatal chegou, com a metade do Rio desnorteada pelas montanhas, a maré baixou meio pé, e pronto.”

A questão da escravidão.

“É preciso reconhecer que a maioria dos que chamamos de brasileiros compõem-se de sangue mestiço, sendo mulatos e filhos de caboclos de graus distintos. Eles estão em todos os escalões sociais. O senhor Barão de Cotegipe, atual ministro das Relações Exteriores, é mulato; no Senado há homens dessa categoria; em uma palavra, quem diz brasileiro diz, com raras exceções, homem de cor. As famílias mestiças desconstroem-se tão rapidamente que certas categorias existentes há apenas vinte anos já não mais existem, como, por exemplo, os mamelucos. E, por outro lado, a grande maioria dos fazendeiros, cuja desagradável situação econômica expus-lhe ainda agora, vive num estado muito próximo da barbárie, no meio de escravos, e deles não se diferenciam nem por gostos mais sofisticados, nem por tendências morais mais elevadas. O resultado disso é que o comércio, os interesses e todas as fábricas estão nas mãos de estrangeiros. Eles invadem tudo, a tal ponto que muitas plantações pertencem aos portugueses, os mais numerosos e os mais ativos desses imigrantes, e estes fornecem contra a escravidão na América do Sul um dos mais fortes argumentos que se possa alegar. É o fato do trabalho dos brancos nas plantações de café.”

O Barão de Gobineau deixa o Brasil.

“Estou submetido a influências malsãs e excessivas. Esta gente está condenada! Se abrirem suas fronteiras a europeus de sangue puro e 'limparem-se', pode ser que ainda arranjem tempo de salvarem-se; caso contrário, estarão fadadas ao desaparecimento. Como já ensinou Sir Darwin, os mais fortes o aniquilarão. Minha extrema solidão, esta atmosfera só comparável a um banho de vapor perpétuo, este céu sempre cinzento e baixo, flores enormes de cores brilhantes atordoando-me os olhos, tantos negros, negras, mulatos, mulatas de todos os lados, ninguém com quem falar, a não ser o imperador, estou-me tornando imbecil, tenho febre, insônia, um mal-estar universal e um cansaço constante...”.

Fechou o livro, Joaquim Maria quis sair daquele antro letrado. Pousou o exemplar no mesmo lugar, sem notar que neste ato derrubara ao chão outro Ensaio, este de barão francês de real fidalguia, o Barão de Montaigne. Ao cair, abriu-se por acaso as páginas no capítulo XVII, “Da Presunção”, onde se lê: “Não há alma tão ruim e mal aperfeiçoada em que se não vê o brilho de alguma faculdade particular; e não as há tão enterradas em sua própria condição que dela não saiam, alguma vez, por alguma saída de espírito. (...) Mas as almas mais belas são as almas universais, abertas a tudo, e prontas a tudo, verdadeiramente capazes de instrução”.

Deste ensinamento de Montaigne o nosso Joaquim nada leu. Saindo fugido, tomado das mãos da angústia, livrou-se da Biblioteca Nacional, ele olhou o frontispício do prédio novamente, virou a cabeça à direita, viu transeuntes apressados da Cinelândia, percebeu que eles tinham as mesmas caras tão reconhecidas dele, teve vontade de ir à praia, pular ondas, sentar à areia e pensar em D. João conjecturando se D. Sebastião salvaria também aos selvagens. Quis ir naquele momento em outros tantos cantos do Rio, não foi em nenhum. Apenas disse alto consigo mesmo: “Graças! Como dizem na minha terra: Bem fez este francês em ir pra cucuia”. Claudicante em ideias, calculou a direção da estação, por certo para pegar o ônibus que o levaria de volta à Ilha do Governador.

Neste momento, entretanto, sem que o distraído e pensativo Joaquim da Cacuia percebesse, adentrou à  Biblioteca outro senhor, este também barão.


Por Ricardo Novais,
Brasileiro típico, de sangue heterogêneo e bem vivo.

Pequeníssimo Tratado Sobre a Identidade Cultural Brasileira

Identidade Brasileira II
Correspondências

Noutro dia, travou-se em ambiente virtual contenda entre um jovem mestre e um aprendiz. Ao leitor que desanime deste texto com facilidade, digo que seja perseverante. Perdoe este pobre autor pelo post ser tão longo, embora seja curto para ser chamado de tratado sendo, portanto, mais uma ideia desenvolvida. De qualquer modo, amável leitor, atrevo-me a pedir-lhe que leia estas linhas até o fim. Afaste o tédio. A causa é boa e diz respeito à vossa família. Se não acreditas nisto, caro amigo, pergunte então a dona leitora; ela bem aconselhará teu coração, leitor de pouca fé.


Apresento-vos então, sem maiores circunstâncias e consequências, pequena querela que comprime as raças sociais.


Trocando Ideia

O aprendiz inicia intervindo com alguma confusão a pensamento já corrente:


Tuas ideias são excelentes, embora haja nelas algo das definições do "Imbecil Coletivo", do velho Olavo. Não, não há nada de errado com os estudos do filósofo, mas é que seja inteligência, burrice ou pseuda felicidade, o pessimista surge latente.


Se o sujeito começa a refletir os próprios pensamentos, vindo à ideia, e estes ligando a outros insurgentes que virarão em axioma racional (ou não) e, talvez, chegando à conclusão plausível que deverá ser discutida com outro ser (burro ou inteligente) que lhe devolverá em outras ideias. No entanto, por certo que ambos fizeram o mesmo processo do pensar inteligente; ao menos, presumi-se. Ou seja, esta será a constatação de como vivemos de maneira superficial e obtusa – como já verificado por ti, anteriormente. E, no meu modo de ver, é isto quiçá que acarreta na angústia e no decorrente pessimismo que havia dito.


É, meu caro mestre, constato que é melhor ser burro. Cadê minha cerveja?”


O mestre, senhor do tempo, sorri-lhe à cara; embora isto tenha lá uma centelha de eufemismo, já que o ambiente é virtual:


“Ah, não diga isso!", exclamou prontamente o corajoso mestre. "Se nosso ideal de virtude é o personagem de comercial de cerveja você teria razão em sua ironia final. Pelo menos penso (e espero) que seja ironia!”


O mestre levantou as faces. Refletiu um pouco, sopesou a própria meditação e auferiu boa questão. Neste instante, o aprendiz, em leve concentração, permaneceu quieto:


“Vê-se”, disse o mestre, “que, no fundo, a questão é moral! O que torna as coisas absolutamente maravilhosas! Veja, nosso máximo ideal de virtude, o Cristo que se entrega à um suplício violentíssimo e injusto, ensina-nos que se deve contrariar o mundo. Podemos escolher segui-lo ou recuar assustados. Bah!, eu te conheço! É ironia mesmo!”


Houve frouxidão de gravatas, dilatação das narinas na tentativa de captura de ar fresco e o rumor das elocuções do mestre tornaram mais fortes e definitivas:


“Mas o povo brasileiro é ainda muito evoluído moralmente. Como tudo chega aqui com atraso, quando a modernidade aterrissar com força em nossa terra, o atual avanço do cristianismo na televisão terá fortalecido a fé das classes médias baixas. O Portugal que existe em nós prosseguirá depositário da fé verdadeira!”


Neste instante o aprendiz sofreu um golpe do vento, seus olhos foram irritados pela poeira e respirou a fumaça vinda de escapamentos dos automóveis.


“Sim, caro mestre, foi mesmo uma ironia. Ironia pouco refinada, eu reconheço. Tocaste em ponto crucial: nossos valores. Valores do mundo ocidental! Estamos os perdendo... 'devagarzinho'...”


Esfregou os olhos e prosseguiu:


“Desgraçadamente não tenho este otimismo quanto ao futuro, querido mestre. Vejo apenas o positivismo em moldes 'cientificista afrancesado' e o iluminismo latente ‘esvaziando’ esta nossa sociedade... Assim fácil é para um crente muçulmano tomar conta de tudo, daqui algum tempo... Poxa vida!”


Vício dominador, ainda caçoou de seu interlocutor:


“Um brinde em caneca de chope ao povo brasileiro! Mais que isto: Viva os valores judaico-cristãos! Mas com moderação...”


Inevitável a gargalhada do mestre. Recompondo-se, não deixou por menos:


“Mas os deixem. Acho que essas ideologias não contaminarão o povão. Talvez essa sua sensação se dê ao fato de que, no Brasil de hoje, ainda estejamos com o debate bastante atrasado. Somente por isso os termos ainda estão bastante atrelados a este positivismo reducionista e incompleto. As pessoas que preferem segui-lo fazem grande mal a si mesmas, pois ignoram por completo as suas faculdades mentais, o que convenhamos, é um absurdo se pensarmos na importância das coisas. Ter a mente ajuizada é muito mais importante que ficar repetindo as verdades alheias de maneira apaixonada.”


Contrapôs também aos gracejos do outro:


“Mas não pense que sou muito otimista não! Acho que esse tro-lo-ló pseudocientífico não chega aqui com a mesma força, mas a perda dos costumes já chegou. Esse é o nosso maior drama social: as pessoas que conjugam uma crença em tal Deus com as dancinhas mais nefastas. De qualquer forma, parece-me um problema menor!


Contudo, o aprendiz tinha lá algumas brasas no corredor cardíaco; de modo que atreveu-se no discurso:


“Sinceramente, não percebo o Brasil atrasado com esta ideologia balofa do nosso mundo ocidental. Vejamos, por exemplo, a nossa Carta Magna, esta recente de 1988. É positivista, apregoa a sociedade laica. Ora, como jugular uma tradição milenar sem sofrer consequências? Invés de aperfeiçoarmos os valores e caçar a nossa genuína identidade (não esta copiada de algum francês irresponsável), renega-se tais coisas como 'caretice' e ideia ultrapassada... O exemplo muçulmano talvez não seja politicamente correto; pode algum chato ver nisto preconceito contra religião alheia. No entanto, penso que salienta bem a gravidade da situação. Como diria minha velha avó: "O demônio se esconde na panela vazia". Não digo que são demônios; ao contrário, eles estão certíssimos. O problema somos nós, que, balofos de espírito, estamos sujeitos a qualquer povo com espiritualidade elevada e disposto a preencher-nos o vazio da alma. O ateísmo parece problemática já superada, digo como ameaça aos valores. Se o sujeito quiser ser ateu, agnóstico, seja lá o que for, a estrutura da sociedade nada mais sofre. É de direito dele e, portanto, só diz respeito a este. Mas uma ideologia firmada pelo Estado é preocupante...”


Perceba, leitor, que não havia nada de ordem naquele debate; era tão somente uma troca de ideias. Queria dizer o aprendiz com as palavras acima que, embora também tenha lá seus problemas no arcabouço interno, a Igreja (leia-se: pensamento instituído milenarmente) conseguia segurar o ímpeto da futilidade extrema e amparar o indivíduo. Ainda insistiu-se na ideia de que a pura superficialidade do povo brasileiro impede a descoberta de uma identidade autêntica e por isto o Brasil é plágio de si mesmo.


Não havia ali, entretanto, defesa de dogmatismo religioso – embora parecesse nas palavras a tendência de orientação católica. Muito menos advogavam o ateísmo. Discorriam sobre valores. Aquilo que sorreteira e sutilmente nos forma como homens.


“A Coca-Cola é nossa, mesmo que nós não gostemos de refrigerante e a achemos uma porcaria”, como disse o aprendiz. “As coisas boas e ruins nos formam, é natural. Talvez seja mesmo o palco de ópera que devemos representar – com seus dramas, comédias, reflexões... Mas ‘Estado laico’ é tirar o direito do indivíduo, seja religioso ou ateu, de viver; e também de todo um povo de formar o seu estreme alicerce para criar; enfim, esta nossa sociedade renega uma cultura original. Muda-se a roupa, mas a ideia permanece... Maldito Augusto Comte! Mais maldito ainda seja Benjamim Constant!”


Deveras, parecia que o mestre compreendeu o aprendiz. Concordou, em parte:


“É, realmente estes (os positivistas intelectuais) se superaram no quesito bobagens. Já quanto as interpretações antropológicas que se podem fazer da Constituição não sei comentar, pois não tenho instrução jurídica. Sei, todavia, a importância que possuem na determinação do comportamento social com o que se pode ou não se pode fazer.”


Conta-se que este aprendiz, quando estudava matéria de direito constitucional, numa simplória faculdade de direito, reconheceu o mote do pensamento positivista.


Entretanto aquilo não entrava nele, significando apenas as denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, quais ele fora obrigado a estudar para o vestibular. Via nestas galicistas ideias tão somente uma capital de país artificial do século  XIX; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Époque que tanto já apareceu pelas linhas deste blogue.


O pobre diabo do aprendiz, no entanto, gostava de história, de boas histórias como aquelas do "Prata Preta" e as contadas pelo "João do Rio". De modo que lia a fio, ora por ócio ora por teimosia, tudo que era relacionado ao positivismo. Julgou mesmo ter descoberto mais influências e efeitos colaterais quando retomou os estudos sérios da faculdade; talvez tenha de fato descoberto algo importante, mas isto é quase nada.


Como já sabe a minha querida dona leitora, não há aqui nada contra a valorosa e elegante França; em absoluto! Mas a tristeza surge com a culpa desta geração Y – e já foi assim na X e com os Baby Boomers. A América abraçou com gosto este pensamento cientificista e fútil.


O genial Machado de Assis foi notável estudioso do tema. Lá se vão mais de 100 anos que o 'velho bruxo do Cosme Velho' morreu e não consta que tenha mudado muita coisa – constatou o aprendiz, inclusive, que o saldo parece pior. Não creio que ele esteja totalmente errado...


Depois de tudo, não deveria mais nada dizer; e não digo! Como último parágrafo, deixo as últimas palavras de um jovem, porém consciente, mestre de debates:


“Caro aprendiz, achei muito legal isso que você disse: “Aquilo para mim tinha significado apenas nas denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, que eu fora obrigado a estudar para o vestibular, sobre uma capital de país artificial; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Epóque.” Eu também pensava a mesma coisa do positivismo. Achava até um negócio legal, uma análise honesta da realidade como ela é, mas, assim como você, ignorava por completo seus nefastos aspectos cientificistas e sua absurda pretensão universalista.


Quanto ao Machado, é mesmo muito inteligente. É tão superior às coisas ao seu redor que brinca com os próprios princípios que advoga, relativizando-os e cuidando do que verdadeiramente importava: a literatura.


Veja, tenho em casa uns quatro vasinhos com o mato ‘quebra-pedra’, já ouviu falar? É uma planta de rápido ciclo de vida, e afirmam que seu chá é medicinal, mas nunca provei-o. Cultivo o ‘quebra-pedra’ pois é a comida favorita dos dois grilos que tenho – não nos ouça o Ibama! Mas apareceu em um deles outra planta. Ficou ali alguns dias e foi crescendo. Quando pareceu-me grande o bastante para ser arrancada, cautelosamente retirei-a de modo a não acidentar o 'quebra-pedra'. E que surpresa desagradável não tive quando, junto da planta indesejada, veio um brotinho recém-desabrochado do meu querido matinho. Lembrei-me daquela parábola de Cristo, na qual o dono de uma roça avisa seus serviçais que não arranquem o joio "para não correr o risco de, assim, retirar o trigo". Essa era a vida neste planeta dois mil anos atrás, e continuará sendo assim. Talvez muito desse joio incômodo ainda acabe nos surpreendendo. ”


--- // ----


Este debate, transcrito não tão literalmente, foi na verdade uma conversa agradável e  bastante instrutiva que eu tive com o amigo e pensador Henrique Rossi, do blog Polimático. Ele no papel de mestre, eu de aprendiz.


Dou-lhe, amigo Henrique, parte dos direitos autorais do post; embora, sinceramente, eu duvide que queiras ter o nome atrelado a tão anódino texto. Ainda assim, se achares que tens direito a toda a obra... Então, até o tribunal! Fique em fleuma, estimado autor; estou a brincar-lhe com os nervos. És tu o articulista e promotor desta reflexão. Ademais, o positivismo contempla todas as ideias; como sabe.


Por Ricardo Novais

Euclides da Cunha

Semana passada, eu citei neste blog o nome de Euclides da Cunha num texto sobre o Enem – caso queira lê-lo, torne uns poucos posts atrás; mas advirto-lhe que não sei se valerá o esforço já que é texto por demais tedioso. No entanto, alguns leram e irritaram-se com a forma com que descrevi o nosso grande vulto do jornalismo Euclides da Cunha.

Este grande personagem brasileiro era escritor (escreveu Os Sertões, grande obra que é mais citada do que lida; uma pena!), ele era também engenheiro e militar. Porém, aqui, neste texto, caberá apenas a tentativa de corrigir meus possíveis erros quanto ao Euclides correspondente do jornal O Estado de São Paulo na Guerra de Canudos. Saliento, a propósito, que serei apenas um analista superficial da conduta jornalística dele; afinal de contas, não vivi na mesma época de Euclides da Cunha, eu também não conheci seu pensamento íntimo e, além de tudo, não sou muito culto em matéria de jornalismo – sou tão somente um curioso obtemperado e, talvez, imprudente.

Euclides da Cunha permaneceu na capital baiana, Salvador, tomando ciência dos acontecimentos, quase todo o tempo do conflito na região de Canudos. Integrante da comitiva do Ministro de Guerra Marechal Carlos Machado Bittencourt, encontrou a cidadezinha no sertão da Bahia, com seus 5.200 casebres, sob tiros de canhão, disparos de fuzis e bombas de dinamite. Quase totalmente destruída, seus habitantes passavam fome e não tinha água para beber.

Euclides não relatou estes acontecimentos em seus artigos como correspondente jornalístico; talvez por ter levado à Bahia todos os preconceitos oriundos de uma sociedade que tinha no pensamento francês – principalmente o de Joseph Arthur Gobineau, autor de “Essai sur L’inegalité dês races humaines” – Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas , a origem do Racismo Científico que tanto influenciou a civilidade brasileira com um padrão europeu de vida, de comportamento polido, costumes refinados e, sobretudo, numa pedante ideia de superioridade da raça ariana.

A queda final de Canudos foi uma cena terrível: chamas das tochas de querosene sob as casas, massacre dos prisioneiros à machadada, como num abatedouro se mata gado, exumação do cadáver de Antônio Conselheiro e destruição de seus manuscritos. Estas cenas não constam das reportagens dos veículos de comunicação da época – não se podia tocar em assuntos que vexassem o Governo e, especialmente, a nova elite republicana que surgia sobrepondo o antigo regime monárquico.

Em seus últimos textos como correspondente de guerra, Euclides da Cunha relata que “passeio perigosamente atraente, com jagunços a dois passos apenas, nas casas contíguas”. Para ele, os seguidores de Antônio Conselheiro eram “gente ínfima e suspeita, avessa ao trabalho... vencidos na vida.” Em uma de suas matérias, chega a afirmar em meio a toda aquela barbárie que presenciava que escreve “sobre manhãs admiráveis com raios de sol iluminando as montanhas”.
Apesar de ter levado todos os preconceitos de sua época para Canudos, ao escrever a sua obra máxima, Os Sertões, fica evidente a mudança significativa do pensamento do autor. No decorrer do livro é possível perceber a transformação de Euclides, que, aos poucos, deixa ver toda a sua admiração e respeito pela resistência dos sertanejos na guerra, bem como o horror dos atos cometidos contra eles. “O sertanejo é antes de tudo um forte”, é sua frase célebre, que demonstra toda a consideração acatada que surge às ideias de Euclides da Cunha por um povo que outrora julgou como inferiores.

Canudos é um exemplo clássico e sintomático de como a imprensa pode defender atrocidades de autoridades, e de como pode também manipular a opinião de uma população inteira em favor de interesses de um grupo seleto, e privilegiado, de uns poucos.


Por Ricardo Novais
___
* A pintura de Euclides da Cunha é a capa da revista Vamos Ler!, 03 mar. 1938, por Arm. Pacheco. Coleção Felipe Rissato.
Protected by Copyscape Online Infringement Detector