Casa de Doce Feliz

Eu vi um velho, à esquerda, com as mãos às costas e vindo, ao centro, uma bela mocinha...


Era um dia frio e de reconhecida garoa. A tarde estava ainda mais feia. Mas este é o clima ideal da cidade, agradável para passeio em velho bairro onde nasci, cresci. Assim foi. Logo que apontei na avenida principal do perímetro, senti saudade de alguma boa história. Um Novo Horizonte de ideias antigas... Fui à banca de pastel, no mesmo local há anos. Não comi nada, cumprimentei o pasteleiro, que não é mais o mesmo de outrora, e fui à outra banca, a de jornal. Lá está o Alcides, há tempos não o via, a mesma cara de bom maluco, barba rala sempre por fazer, sorridente e convidativo. Alcides é uma destas pessoas que ultrapassam a própria época, é quase uma instituição do bairro. Depois de tomar um cafezinho quente na antiga padaria, julguei que deveria ir ao cabeleireiro aparar os bigodes que não tenho, e fui. Sim, a querida dona leitora dirá que não há muito que eu possa fazer quanto à aparência; se tu achas isto, minha senhora, eu lhe afirmo que estais redondamente enganada. Mamãe e Maristela dizem que sou rapaz bem apessoado; embora se deva descontar os laços afetivos da primeira e os econômicos da segunda... Mas, vá lá, que isto nada tem que ver com a crônica; menos interessante também é o corte do cabelo em si, já que homem tem valor diverso de mulher em salão de embelezamento – ou restauração. Fila-te no que estou dizendo, leitor; talvez  seja o único lugar do mundo onde a vaidade feminina seja maior que a masculina. De modo que minha atenção está mesmo é na hora de espera do cabeleireiro, naquele momento onde forçosamente se aguarda numa fila de doze revistas velhas e quinze pessoas impacientes – cinco senhores conservadores ainda querem corte feito pelo mesmo profissional das tesouras; creia que o barbeiro é bom. O recinto interno é comum, luzes débeis que insinuam ambiente limpo, cartazes de modelos belíssimas às paredes, catálogo de escovas e propagandas de produtos de estética capilar. No ambiente de espera, entre uma prosa boa e outra ruim, aquietei-me. Fiquei a fitar através da grande vidraça fechada protegendo da friagem a avenida principal do bairro, os carros céleres cruzando em ambos os sentidos e levando por certo histórias passadas e outras novas, os transeuntes pensativos e que carregam a mesma cara minha conhecida, assim como os cães e gatos; de súbito fixei os olhos no prédio quase em frente, Casa de Doce Feliz.

Não me pergunte, senhor leitor com propensão à diabete, do por quê. Não sei o motivo pelo qual eu admirei tanto este edifício, este nome, as pessoas que de lá entravam e saíam – não há em nada correlação disto com o fato do senhor e da senhora donos do estabelecimento serem conhecidos meu e de minha família. Ocorre, simplesmente, que ali eu insistia em atar duas pontas de minha própria vida, a infância tão doce e a adulta tão feliz. Falo isto em julgamento crítico de razão prática, já que sempre apreciei os salgados da meninice e não creio que exista felicidade absoluta. Eu saí do salão, atravessei a pé a grande avenida, desvencilhando-me dos automóveis, e fui à casa de doces. Cumprimentei meus amigos, comprei bom algodão-doce e boa maria-mole e lancei-me à calçada sorridente com os brinquedos de comer à mão. Aquilatei-me tolo. Andei sem que alma viva alguma elogiasse meu novo corte de cabelo; deixe, querida leitora, não há de ser nada; e andando vagarosamente à direita da calçada, eu vi, à esquerda, um velho com as mãos às costas, e vindo, ao centro, uma bela mocinha... Sorri a ela, e ela devolveu-me o sorriso. Reparei também que as senhoritas simpáticas de outrora agora vivem a vender seus dotes aos moços prósperos do bairro encostando-se sem pudores às esquinas em pleno vespertino. Não julguei mal, não julgaria nada ruim nem bom hoje; mas, para não vexar em demasia a dona leitora com imagens muito lascivas, digo apenas que a garoinha que vinha às minhas ventas conseguiu trazer-me sensação tão afetuosa, suave, meiga; naquele momento eu fui feliz. Mas nem tudo é tão meloso que perdure a eternidade, devo também dizer-lhes que fracassei na minha tentativa de atar as duas pontas da vida. Nem sempre se pode ser tão venturoso como se foi um dia.

Por Ricardo Novais