Um Sonho Dentro de Outro


Gianlorenzo Bernini (1598-1680). Éxtasis de Santa Teresa (1645-1642). 

Pedro acordou de um pesadelo horrível. Sobressaltado, sentou-se na cama e olhou o irmão que dormia em outra cama ao lado.

- Paulo, Paulo, acorde!

O momento era aterrador. Paulo não acordava e Pedro se desesperava. Chacoalhou o irmão com energia, de repente, Paulo despertou.

- Que é?

- Nada... É que tive um sonho ruim... – balbuciou aliviado Pedro.

Leitor, estais a pensar que Paulo ficou irritado por ser acordado tão abruptamente; não é mesmo? Pois não ficou. Ele estava esquisito, entorpecido por algo que ia além do sono. Pedro notou e estranhou o irmão. Bateu-lhe na cara com força, mandou que se recompusesse, perguntou-lhe o que acontecia. Entretanto, Paulo apenas sorria debilmente e emitia um assombroso som idiota: “Hehehe, hehe, hehehehe, hehe, hehehe...”.

- Mãe! Mãe! Mãe! – gritou Pedro muito assustado com o comportamento de zumbi do irmão. Porém, ele percebeu que seus gritos eram abafados, como se estivesse num sonho pautado ou numa filmagem antiga onde as imagens e os sons fossem desconexos.

De um salto, Pedro correu em direção à porta do quarto e ia abri-la quando a mãe apareceu em sua frente, subitamente, com a audácia e a prepotência materna.

- Que foi menino? Está louco?

- Eu não sei... Olha o Paulo, mãe...

- Vai dormir e deixa o seu irmão dormir também. Já é tarde, amanhã é dia de escola...

Ao olhar para trás, Pedro viu que Paulo dormia serenamente. “Será possível?”, pensou ele. “Estou sonhando?”.

Era incrível, tudo estava acontecendo e ele não entendia nada. A mãe foi à cozinha, Pedro saiu do quarto e foi ao banheiro. Seu andar era lento, moroso, como se estivesse mesmo sonhando. Olhou no espelho e conjecturou:

- Ai, meu Deus! Será possível? Eu estou sonhando, só pode ser... Tenho que acordar, eu tenho que acordar... – ele dizia e dava tapas ao rosto jogando água fria aos olhos.

Nisto, num abalo psíquico, ele bateu no espelho o jogando com violência contra a parede. Saiu do banheiro e olhou para sua mãe. Ela nada disse, e ainda continuava se comportando normalmente como se não tivesse ouvido nenhum barulho do impacto do espelho se estilhaçando no azulejo ou dos cacos de vidro caindo ao chão. Talvez não houvera acontecido barulho algum mesmo, talvez fosse tudo imaginação de um pesadelo bizarro.

- Tenho impulso, tenho impulso, tenho impulso... – repetia Pedro freneticamente com as mãos juntas encobrindo o rosto.

O impulso era matar a mãe indiferente, o irmão zumbi e todos os estranhos da casa. Já que era um sonho dentro de outro, não haveria consequências; era só ceder aos instintos que lhe acometiam as ideias, acordar do pesadelo no outro dia e pronto, tudo tornaria ao normal. Um anjo barroco, de olhos bondosos, disse-lhe que queria embarcá-lo ao céu, mas outro mensageiro, mais sedutor, guardião do inferno, ofereceu-lhe a barca dos prazeres diabólicos. Sonhos parecem mesmo ter destino articulado pelo arbítrio angelical – de modo que, muitas vezes, até um par ou ímpar entre meirinhos provenientes do além-mundo decide a sorte futura de alguma vida; e, em tal sequência de fenômenos ilusórios, não há o que a inatividade de consciência possa deliberar além de entregar-se ao próprio pesadelo.

Sendo assim, foi então que Pedro foi à cozinha, pegou da faca de cortar bife e cravou-a no peito da própria mãe. Depois caminhou com o mesmo andar vagaroso de antes, embora agora os pés estivessem sujos de sangue, e dirigiu-se ao seu quarto de dormir. Lá olhou o irmão adormecido e deu treze golpes com a faca nas costas de Paulo, que não ofereceu reação alguma. Em seguida, Pedro fez o mesmo com o pai, o primo, toda a família e alguns amigos que encontrou por acaso e nem mesmo moravam na casa, em uns deu dez golpes mortais, em outros deu dezessete ou vinte. Feito o ofício noturno, tornou ao quarto e deitou-se. Dormiu bem. No outro dia ele acordou cedo. Não era sonho.

Por Ricardo Novais