Extra! Extra! Rio!

Nenhuma ideia vale o sangue de um homem... Imagem: Atelier J.Victtor.

Sou o único cidadão de bem desta cidade que não tem medo do mal. Tanto que, na noite passada, dei um magnífico jantar em homenagem ao filhote da grande baleia capturado na entrada da Guanabara. Desgraçadamente ele se debate, bate, debate e bate nas paredes de vidro do apertado aquário no qual tentam acomodá-lo como troféu à glória da virtude dos homens civilizados. Uns o querem morto e exposto em loja ordinária de castiçais num shopping center da Marquês de São Vicente; outros creem que, para dar exemplo à valorosa sociedade, o melhor a fazer é matá-lo e depois devolver o cadáver ao mar. E que o diabo o carregue!

Mas o sucesso de minha festa independe disto ou daquilo, caro leitor. A vida nesta cidade compõe-se de jantares, eventos de caridade, futebol, shows de música e sessões de julgamentos alheios; é uma permanente sincronia universal. Coisas maiores, leitor! Coisas maiores!

No meu jantar de caridade, em meio a distintos e ilustres convidados, levantei eu taça do meu melhor champanhe me manifestando  sempre acompanhando, claro, as ideias de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Redentor, pregadas por São Sebastião, São Jorge e pelo Almirante Tamandaré  que o trambolho se estilhaçará por conta própria e nunca por ser o aquário minúsculo ou pelo vidro que lhe espreme cortando sua pele. Pele de animal! Eu ainda disse, em alto e bom som, que toda a República deveria ter as mesmas ideias e seguir o meu modelo de conduta. Por fim, declarei à digna mesa que a ordem e a moral são dádivas de Deus, e aquele que contraria a lei, a boa conduta e os bons costumes, deve pagar com a própria vida pelo ato. Sim! Nenhum cadáver é meu, todos são oportunos; porque nenhum cidadão de bem é obrigado a conviver com o mundo e sua violência psíquica e pervertida.

Fecho os olhos então, leitor, e vejo todos os meus convidados brindando a mim e às minhas palavras, todos impelidos de admiração. Em meio aos tapinhas às costas e mensagens de força e esperança à grande nação, comentam o meu desprendimento, a minha filantropia. “Grande humanista!”, escuto quase adormecido. Não, leitora minha, não carrego rompante ou empáfia balofa! Sou eu tão-somente um cidadão de bem que também quer ver a paz na sociedade e o mal reduzido à carcaça. Creio que sou muito bem quisto por isto, pelas minhas boas opiniões cristãs e moral ilibada; parece-me que até sairá matéria  jornalista, é bom que se diga  sobre a minha personalidade caridosa e corajosa nos grandes jornais, nas revistas conceituadas e nos emocionantes canais de televisão, e traçarão ainda o meu perfil humanista em sofisticadas colunas sociais, em documentários de cidadania internacional e em redes sociais da internet; todos sedentos por letras impressionadas. E suponho que serei manchete por toda a cidade, todo o país, quiçá por todo este mundo.


Esclarecimento: Consta que o filhote da grande baleia é um navio-fantasma da Marinha Brasileira. A embarcação, de guerra, espectro encalhado da luta pela Independência, tem o nome de Lord Cochrane  com paciência e perseverança, tudo se alcança.

Por Ricardo Novais