Vida de Clarice

Clarice Lispector.

O tempo está em tudo. O tempo está no assoalho gasto onde tantos já pisaram e não pisam mais, nas velhas xícaras de porcelanas e nas cadeiras de mogno vazias. Quase nada pode ser dito sobre o pouco que se sabe de Clarice da Conceição, exceto que ela era praticamente venerada por seu noivo, Agenor Rubião. Que força que tem o tempo... Tudo reduzido ao resto. Raras imagens mostram que ela seja morena e bonita, com longos cabelos negros e olhos escuros. Acredita-se que conheceu Agenor no metrô. A maioria de seus amigos a descrevem como espécie pacífica e artística, com um gênio tão indomável como a sua xará das letras, Clarice Lispector. Não mencionam, no entanto, a sua dependência em álcool e se se tornou viciada antes ou depois de conhecer o seu amado. Há certos contos, estimado leitor, que se escondem atrás do autor. Este é o caso.


Agenor Rubião e Clarice da Conceição foram, de acordo com correlatos boêmios, perfeitos para si. O termo composto "almas gêmeas", termo composto de melancolia e fugacidade, define bem o relacionamento deste casal apaixonadamente feito de madeira maciça – madeiras existentes nas melhores casas de bêbados. Sim, leitora romântica, mais de uma vez ouviu-se pelos salões os suspiros das mocinhas debutantes com fagulhas de deslumbramento por onde eles passavam. Sentenciava uma senhora ali: “Que casalzinho bonito! Pombinhos!”. Comentava um motorista de táxi acolá: “Têm a vida inteira pela frente. Deus os conserve!”. Não zombe tanto, leitora jocosa, do estilo da escrita que a tudo parece inundar com a compulsão de amar sem medida. Ora! Mas se são tantas as medidas do amor...

Mas nem todo amor que houver neste mundo é capaz de superar os enleios da vida. O mesmo tempo, cruel e necessário, que se seguiu, tão indiferente aos ponteiros humanos, foi distanciando Agenor de Clarice. O noivado se desfez, em algum momento incerto. Tudo que Agenor fez para evitar o rompimento foi um pedido miserável de autopiedade. Isto não bastou para reconquistar a bela Clarice da Conceição. A bebida então passou a salvar-lhe da comiseração e do lamento de uma relação na qual o homem quer o casamento e compromisso, e a mulher foge. Ninguém está realmente certo se houve uma tentativa de trazê-la de volta para ele, mas se houve ele falhou miseravelmente.

- A culpa é minha por não saber o que eu deveria ter conhecido... – Agenor repetia isto religiosamente às dez horas e quinze minutos de todas as noites no balcão do boteco da esquina. Dizia, tragava e emudecia. Embriagava-se. Só ia para casa quando alguém ia lhe arrastar da taverna ou quando chamavam a polícia por alguma briga de bar.

Clarice faleceu devido a uma inflamação do coração causada por uma intoxicação alcoólica. Não houve coma alcoólico, como se disse à boca pequena; em vez disso, seu coração simplesmente cresceu demasiado grande para seu corpo pequenino e gracioso. Muitos acreditam que este foi o último prego no caixão de Agenor Rubião – o desgraçado já estava sofrendo lutando numa batalha perdida contra o vício avassalador, e a morte da amada era a perda de parte de si próprio. Todos davam um relógio de vinte e quatro horas para o suicídio do alcoólatra.

Quebrou-se o transgressor espírito de um coração talentoso e cansado de bater lento, leitor.

- Morri, desde que você morreu – ele se resignou, por fim.

- Oh, não! Agenor, não!

Morreu. Deixou uma cicatriz e uma chatice repetida, sangrando por uma mulher envolta em mistério e silêncio poético que foi perdida dentro de uma garrafa de uísque.
 
Por Ricardo Novais