Mostrando postagens com marcador Geração Y. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Geração Y. Mostrar todas as postagens

Rolezinho

Cena do filme “Christine - O Carro Assassino (John Carpenter, 1983), baseado na obra de Stephen King.

Eram 20 horas e 04 minutos. Eu estava cansado da faculdade. Curso de engenharia, muito chato. Não disse nada a meus pais, faltei na aula. Liguei para minha namorada, noite agradável para um rolezinho.

- Cami, vamos sair?

- Passa aqui em meia hora – ela gostou da ideia.

Não tinha ninguém na minha casa, saí pela garagem do prédio e o porteiro nem me viu. Carro todo preto, vidros escuros; nenhum curioso consegue ver nada dentro. Dirigi sete quilômetros, passei na casa da Cami às 20 horas e 39 minutos.

Paramos numa lanchonete. Comemos lanches, bebemos umas cervejas. Saímos. Calculei levá-la em um motel bem escondido, lá pela periferia da cidade, para foder a noite inteira. No meio do trânsito, Cami já resolveu ir adiantando os procedimentos. Ela abaixou a cabeça, abriu o zíper da minha calça e começou a me lamber. Liguei o som no talo, usando uma mão para beber uma cerveja gelada e de resto só para me concentrar na cabeça frenética daquela gostosa com os seios à mostra balançando no meu colo. Gozei na cara dela, foi um impacto violento...

Desci no carro fechando o zíper e lançando a long neck vazia bem longe, no meio de um terreno baldio. Cami também desceu do carro, meio atordoada, tinha batido a cabeça no volante, a testa estava sangrando. Olhei para todos os lados, escuridão de dar medo. Breu total. Era uma rua deserta, um bairro afastado que nem tem nome, não tinha viva alma naquele lugar; apenas um corpo jogado, uns cinco ou seis metros, para trás de onde eu tinha estacionado. Manobrei o carro, faróis apontados para a cena. Única luz na treva. Havia pegado o cara em cheio, provavelmente o pára-choque o atravessou acima dos joelhos. Estávamos assustados, Cami e eu. O homem, vestido de terno barato, todo ensanguentado e destroçado, parecia ser um desses crentes, talvez um pastor; uma bíblia de capa preta estava jogada perto do meio fio; ligando as coisas, julguei que a bíblia era dele; pastor filho da puta!

Cami me olhou, iluminada apenas pelos faróis acusatórios do automóvel e por uma lua débil, respirou fundo e disse:

- Renê, me leve pra casa.

- Mas não vamos mais ao motel?

Não fomos. Passamos rapidamente numa farmácia, que era caminho, compramos  uns curativos e a levei para casa. Em seguida, dirigi com o som no talo até meu apartamento, guardei o carro de ré na garagem do prédio – nem sinal do porteiro ou outro funcionário do condomínio; dei uma olhada no capô: amassado, pára-choque quebrado, mas sem maiores avarias.

Minha casa continuava vazia; entrei, tomei banho, comi uns nacos de nuggets que estavam na geladeira; fui para o quarto, dormi bem. No outro dia, era sábado. Mandei lavar o carro, trocar o pára-choque, mas o capô ficou amassado mesmo; pastor filho da puta! No final da tarde, liguei para a Cami. Rolezinho. Pernoitamos no motel da periferia.


Por Ricardo Novais

A conversão

Conversão de Santo Agostinho, pintura de Fra Angelico.


Pedro Antônio nasceu numa grande cidade brasileira. Seus pais, típico casal de classe média e pinguço. O pai beberrão houvera desenvolvido sintomas alcoólicos de desintegração emocional sob a forma de perversão obsessiva e surtos de violência. Em decorrência disso, a mãe de Pedro voltou-se para a religião, repudiou o líquido pecaminoso e transformou suas frustrações e desapontamentos em ambições para o filho.

Desde o início a mãe o oprimiu, embora em nenhum momento ele ouse uma palavra contra ela, cujo cristianismo extravagante e puritano perpassa sua vida desde o primeiro sopro. "Eu era de fato um grande pecador", ele sempre comentava, sem ironia, a respeito de seu desgosto com a família e em relação às aulas.


Mais tarde, já adolescente, Pedro realmente saiu da linha. Junto com colegas de escola, roubava para sustentar o vício recente com o álcool e drogas. Como resultado dessa vil iniquidade, entregou-se à orgia de autoflagelo que continuou até o final das profundezas do abismo. "Eu estremeço ao olhar para isso ou pensar em tal abominação", vivia ele a repetir esta sentença a quatro cantos e a todas as mesas de botecos, vielas e prostíbulos.


O que quer dizer tudo isso? Leitores com propensão à psicologia talvez encontrem traços simbólicos no jovem rapaz roubando para sustentar os vícios inerentes à sociedade, mas essa explicação seria por demais superficial, até fácil. Não havia dúvida que a mãe de Pedro, mulher austera, guiava a vida doméstica da família. Ela chegou inclusive a convencer o pai alcoólatra de Pedro a se converter ao cristianismo, provavelmente durante uma crise, no ano anterior de sua morte. E quando ficou evidente que o jovem filho havia herdado alguns dos inconfessáveis hábitos do pai, ele foi banido de casa. Por pouco tempo, é verdade. Matou a mãe à marteladas, e com um martelinho de bater bife. Ali, virou um ser inominável!


Neste ínterim, continuou pelejando com o problema das drogas. Desesperado, algumas vezes chegou mesmo a voltar-se para Deus, implorando-Lhe, tocante como Santo Agostinho em suas Confissões: "Senhor, dai-me a castidade, mas não ainda". Não podia deixar Deus curar-lhe cedo demais das doenças viciosas que ele desejava por mais que fizesse exame de consciência. Pedro Antônio, um garoto extremamente brilhante, diziam as línguas conhecidas, e também  um desordeiro, outras línguas conhecidas refutavam. Os desconhecidos adoravam-no. Mais tarde, contaminado pela paixão fosca e apedreja, foi viver com uma mulher da vida, com quem partilhou, pela primeira e única vez na vida, relação de amor e fidelidade. Acidentalmente. Madalena deu-lhe um filho; no entanto, o púbere não vingou em nada. Assim como sua amada, o nada da ilusão. Felicidade reiterada, e lhe retirada. Morreram seus amados. Desgraçados!


- Senhor, dai-me a castidade, mas não ainda... E, se puder, livrai-me do fogo do inferno!


O pobre-diabo não era apenas um pedante que cultivava um problema; o desassossego que o conduziu em tais extremos de lascívia e de degradação também o guiou em direção à descoberta da verdade de si mesmo; julgou assim em certo dia de ressaca. Qual a razão deste comportamento?, repetia ele à própria alma. Como ser tão completa e mesquinhamente vil e corrompido e, ao mesmo tempo, aspirar alguma pureza?


A psicologia e a psiquiatria o enquadrariam na mais completa normalidade; já o cristianismo oferecido pela mãe parecia demasiado simples para satisfazer seu intelecto exigente. Ele precisava de uma explicação que fosse suficientemente profunda para que ele pudesse acreditar nela. Começou a se interessar pela filosofia, mas esta igualmente não oferecia solução e só lhe fazia rir. 


Num dia maravilhosamente imbecil, essa crise de espiritualidade o deixou à beira da estafa mental. Perturbado pela raiva e pela angústia, em estado de indecisão quase completa, buscou alívio na quietude do bar. Por algum tempo, virou doze ou treze copos de doses dos mais variados destilados, violentamente. Enfim, atirou-se sob à mesa e chorou, copiosamente. Contudo, percebeu que milagrosamente não tinha sequer mísero sinal de embriaguez. Imediatamente parou de soluçar, levantou-se e, ali mesmo, procurou na mochila e encontrou uma copia das Epístolas de São Paulo, que eram de sua mãe, abriu-a e leu as primeiras palavras que viu: "(...) não na orgia e na embriaguez, não na luxúria e na lascívia, não na disputa e na inveja. Ao invés disso, tome a si o Senhor Jesus Cristo e não se demore mais pensando na carne, a fim de saciar seus desejos". Milagre! Foi um milagre sublime; sonhou, não fez mal em sonhar. Naquele ato, o pecador se converteu; transformou sua história e estava decidido a ser crente e temente a Deus, mas não há paraíso sereno e paz na Terra aos homens de boa vontade. Súbito, desencarnou ao sofrer violentíssimo ataque fulminante do miocárdio em decorrência de asfixia causada pelo vômito alcoólico.


Por Ricardo Novais

Perfumes

Glória à pátria. Charge da Revista Illustrada, novembro de 1889.

Serei sempre um boêmio. Fui alcoólatra, morei nas ruas, tive aspecto horrível, meus cabelos iam até os joelhos, minha barba, rala, até o umbigo. Minhas unhas pareciam garras e em meus braços e pernas, onde os trapos não mais cobriam, a pele chegava a cair em pedaços. Célere envelheceu as minhas células, e demais tecidos. Mas sei que, depois da morte, terei filhos; e os vermes que roerem as minhas frias carnes terão alma. Sou diferente de ti, meu caro amigo, porque a minha história tem poucos dentes; então não me foi possível esconder a minha parca essência. Descobriam-me, mesmo encoberto entre os rigores de uma sorte amargurada. E tudo por não possuir um sorriso belo e um espírito com tintas alegres...

O leitor sabe; o homem que não tem casa não tem lugar na Terra, é um desgraçado. Mas é graças à minha miséria que conheci o mundo. Nunca tive cidade, apenas morei em todas. As ruas, avenidas e praças foram meu haicai; por outro lado, os bulevares mal frequentados e calçadas sem iluminação foram a minha prosa prolixa. Meu romance me valia o cobertor velho que me cobria nas noites frias e a cachaça foi a minha poesia na qual eu escrevi linhas e linhas de desafio à beleza da vida.

Penso que o perfume humano esteja em tudo, e eu já senti a todos. Meu nariz aprendeu a diferenciar o odor nauseabundo das esquinas de ladrilhos do de fragrâncias sofisticadas das mulheres elegantes do lusco-fusco. Fui perito em vida noturna. Insisti em viver entre o álcool e a resignação, foi assim que conheci minha Ema. Amar é viver um doce prazer impossível de se renunciar. No entanto, todo o meu amor não foi capaz de impedir com que o nariz de Ema me trocasse por outros perfumes. Quase morri.

O amor afaga e apedreja. Os sonhos caem na ingratidão e no enterro. E a vida pode ser tão-somente a lama; pois a angústia não vem do caos, como querem os teóricos do apocalipse. A angústia vem do nada.

Mas depois que assassinei Ema tornei a ser um embriagado vulgar, qualquer coisa me servia. Passei a outras drogas, todas elas. De miserável fui a farrapo humano, ou quase-humano. Ali comecei a ser o filho podre da pátria. À noite, deixei cães que latem em suas solidões infinitas cheirarem ao meu corpo tísico e escarrado. Conheceu-me? Prazer, amigo; sou aquele mesmo ninguém da madrugada. À luz do dia deixei-me ser iconoclasta, niilista, marginal e agônico. Quem fui eu em meio à podridão, decomposição e temores desta cidade? Muitos doutores me disseram que eu fui da geração de fracassados, e que foi o vício que presunçosamente me venceu. Isto foi o meu tiro de misericórdia, então procurei a dona morte.

Fui tudo isto que lhe disse, leitor, mas também recuperei-me de tudo. Agora, sou morto. Nome, não tenho passo como alma penada. Dir-me-ia o educador que a vida e a morte não são contrárias, são irmãs bem perfumadas.

Psicografado por Ricardo Novais


***

Uma prece, leitor, à alma dos desgraçados!


Vida de Clarice

Clarice Lispector.

O tempo está em tudo. O tempo está no assoalho gasto onde tantos já pisaram e não pisam mais, nas velhas xícaras de porcelanas e nas cadeiras de mogno vazias. Quase nada pode ser dito sobre o pouco que se sabe de Clarice da Conceição, exceto que ela era praticamente venerada por seu noivo, Agenor Rubião. Que força que tem o tempo... Tudo reduzido ao resto. Raras imagens mostram que ela seja morena e bonita, com longos cabelos negros e olhos escuros. Acredita-se que conheceu Agenor no metrô. A maioria de seus amigos a descrevem como espécie pacífica e artística, com um gênio tão indomável como a sua xará das letras, Clarice Lispector. Não mencionam, no entanto, a sua dependência em álcool e se se tornou viciada antes ou depois de conhecer o seu amado. Há certos contos, estimado leitor, que se escondem atrás do autor. Este é o caso.


Agenor Rubião e Clarice da Conceição foram, de acordo com correlatos boêmios, perfeitos para si. O termo composto "almas gêmeas", termo composto de melancolia e fugacidade, define bem o relacionamento deste casal apaixonadamente feito de madeira maciça – madeiras existentes nas melhores casas de bêbados. Sim, leitora romântica, mais de uma vez ouviu-se pelos salões os suspiros das mocinhas debutantes com fagulhas de deslumbramento por onde eles passavam. Sentenciava uma senhora ali: “Que casalzinho bonito! Pombinhos!”. Comentava um motorista de táxi acolá: “Têm a vida inteira pela frente. Deus os conserve!”. Não zombe tanto, leitora jocosa, do estilo da escrita que a tudo parece inundar com a compulsão de amar sem medida. Ora! Mas se são tantas as medidas do amor...

Mas nem todo amor que houver neste mundo é capaz de superar os enleios da vida. O mesmo tempo, cruel e necessário, que se seguiu, tão indiferente aos ponteiros humanos, foi distanciando Agenor de Clarice. O noivado se desfez, em algum momento incerto. Tudo que Agenor fez para evitar o rompimento foi um pedido miserável de autopiedade. Isto não bastou para reconquistar a bela Clarice da Conceição. A bebida então passou a salvar-lhe da comiseração e do lamento de uma relação na qual o homem quer o casamento e compromisso, e a mulher foge. Ninguém está realmente certo se houve uma tentativa de trazê-la de volta para ele, mas se houve ele falhou miseravelmente.

- A culpa é minha por não saber o que eu deveria ter conhecido... – Agenor repetia isto religiosamente às dez horas e quinze minutos de todas as noites no balcão do boteco da esquina. Dizia, tragava e emudecia. Embriagava-se. Só ia para casa quando alguém ia lhe arrastar da taverna ou quando chamavam a polícia por alguma briga de bar.

Clarice faleceu devido a uma inflamação do coração causada por uma intoxicação alcoólica. Não houve coma alcoólico, como se disse à boca pequena; em vez disso, seu coração simplesmente cresceu demasiado grande para seu corpo pequenino e gracioso. Muitos acreditam que este foi o último prego no caixão de Agenor Rubião – o desgraçado já estava sofrendo lutando numa batalha perdida contra o vício avassalador, e a morte da amada era a perda de parte de si próprio. Todos davam um relógio de vinte e quatro horas para o suicídio do alcoólatra.

Quebrou-se o transgressor espírito de um coração talentoso e cansado de bater lento, leitor.

- Morri, desde que você morreu – ele se resignou, por fim.

- Oh, não! Agenor, não!

Morreu. Deixou uma cicatriz e uma chatice repetida, sangrando por uma mulher envolta em mistério e silêncio poético que foi perdida dentro de uma garrafa de uísque.
 
Por Ricardo Novais

Reflexão do Camundongo

Imagem do Site: Ciência Portugal.

Hoje de manhã, andando pela rua, vi do outro lado da calçada uma moça belíssima. Meus pensamentos, que até então eram esparsos e vazios de novidade, voltaram-se para àquela figura agradável e que enleaste minhas primeiras horas do dia. De modo que fiquei, em certa altura, admirando o desenho dela à calçada, e esta ao lado do muro escolar próximo ao ponto de ônibus e à estação do metrô.

Se eu obedecesse ao prazer de meus pensamentos, ficaria no outro, sem nunca ter iniciado este post. Mas não há lembrança que não se sobreponha à outra, se esta for menos agradável. E esta é. Sendo assim, meus olhos viram, à distância pouca e entre as máquinas de outro homem, uma manchete de jornal online: “Cientistas Criam Vida Inteligente”. Foi isto que me fez esquecer a bela moça que andava elegante e despretensiosamente pela calçada oposta à minha.

Maldito gênio matinal que me tirou memórias deleitosas!... Fui então à minha máquina tomar conhecimento da notícia científica com maiores pormenores. Tratava-se de afirmação polêmica de médico italiano e seu colega norte-americano cientista de novas mídias, fundamentados por filosofia de Königsberg, de arriscada experiência biológica que promove a capacidade de um ser, de vida natural, em armazenar todas as informações existentes no mundo, usá-las e comunicá-las com recursos céleres.

O jornalista que escreveu o artigo, por certo tão preparado quanto os que lêem tais notícias, expunha que a Igreja Católica manifestou-se contrária a tal manipulação genética e que a classe política internacional é avessa ao conhecimento geral. Mas foi a declaração do rato, cobaia no experimento de criação da vida mecânica baseada na vida natural com capacidade de guardar dados, que causou a maior controvérsia. Verídico, leitor; não foi uma declaração oral, mas ocular. Havia uma fotografia abaixo da manchete e ao lado do texto, “Cientistas Criam Vida Inteligente”, onde se podia perceber toda a reflexão do camundongo. Verdade que as fotos não falam, talvez nem seja aptidão dos camundongos a organização cerebral; entretanto, via-se nos olhos arredondados e profundos do calunga a meditação de especialista em ciência e em opiniões tecnológicas.

Eis qual foi o solilóquio do rato:

“Este meu dirigente sofista quer criar vida... E inteligente! Estais a brincar de Deus. Meu querido diretor não se importa com pudores religiosos nem morais. Ousado és tu, tenta criar vida humana a partir de meus poucos esforços intelectuais... Clona-me, portanto. Não há de ser nada. Enquanto estudas teus experimentos, vou ajuizando que teu império não vale muito; sou eu quem me alimento de teus inventos quando estes forem tão-só lixo. Sou eu o protozoário que transmitirá tal parasita ao hospedeiro intermediário para que no futuro chegue ao hospedeiro definitivo. Além de que não tenho tuas angústias, amigo cientista, nem tuas implicações éticas, muito menos teu ‘papel de Deus’ criador da vida clarividente estimando (in)sensivelmente quantos fetos, ou bebês, defeituosos serão descartados na disputa do pioneirismo da clonagem existencial de ser arauto de todas as notícias da Terra – é de teu ofício, senhor, esta linha de montagem industrial... Fosse de meu encargo este experimento, eu o faria na tentativa de estabelecer conservada a ordem universal, como já existe, assim prolongaria também o tempo de modo a atingir teu objetivo de acumular e processar todo o conhecimento ungido sem nada perder-se no processo. Mas nunca como tu, cientista de razão pura, ambicionando criar tal antropocêntrica enciclopédia de acessos ultra celerados.”

Vi esta imaginação na imagem, nem tão grande nem tão curta, daquele camundongo que apareceu em artigo de jornal editado pela internet. A própria reflexão resignada apareceu nas retinas dele, pouco cáusticas e mais sinceras; pobre diabo! Não pude ver-lhe o gesto na fotografia, nem ouvir-lhe palavra ou cogitar-lhe outro julgamento; apenas pude ler-lhe os olhos arredondados e profundos.

Eu ri do rato, ele também riu de mim. Depois fui ter em outras coisas, outras figuras de moças belíssimas, outros pensamentos esparsos, enfim, fui cuidar da vida; vida esta tão celerada que consta já sofrer de ‘síndrome da fadiga da informação’. Maldição de 'Weil'? Ou será apenas a ação natural do 'toxoplasma gongii'? Aquele camundongo de ofício cobaia nada mais pode dizer; é que assim que ele alcançou a natural liberdade, tornou logo a antigo litígio com um felino, certamente hospedeiro intermediário, já seu conhecido.


Por Ricardo Novais

Pequeníssimo Tratado Sobre a Identidade Cultural Brasileira

Identidade Brasileira II
Correspondências

Noutro dia, travou-se em ambiente virtual contenda entre um jovem mestre e um aprendiz. Ao leitor que desanime deste texto com facilidade, digo que seja perseverante. Perdoe este pobre autor pelo post ser tão longo, embora seja curto para ser chamado de tratado sendo, portanto, mais uma ideia desenvolvida. De qualquer modo, amável leitor, atrevo-me a pedir-lhe que leia estas linhas até o fim. Afaste o tédio. A causa é boa e diz respeito à vossa família. Se não acreditas nisto, caro amigo, pergunte então a dona leitora; ela bem aconselhará teu coração, leitor de pouca fé.


Apresento-vos então, sem maiores circunstâncias e consequências, pequena querela que comprime as raças sociais.


Trocando Ideia

O aprendiz inicia intervindo com alguma confusão a pensamento já corrente:


Tuas ideias são excelentes, embora haja nelas algo das definições do "Imbecil Coletivo", do velho Olavo. Não, não há nada de errado com os estudos do filósofo, mas é que seja inteligência, burrice ou pseuda felicidade, o pessimista surge latente.


Se o sujeito começa a refletir os próprios pensamentos, vindo à ideia, e estes ligando a outros insurgentes que virarão em axioma racional (ou não) e, talvez, chegando à conclusão plausível que deverá ser discutida com outro ser (burro ou inteligente) que lhe devolverá em outras ideias. No entanto, por certo que ambos fizeram o mesmo processo do pensar inteligente; ao menos, presumi-se. Ou seja, esta será a constatação de como vivemos de maneira superficial e obtusa – como já verificado por ti, anteriormente. E, no meu modo de ver, é isto quiçá que acarreta na angústia e no decorrente pessimismo que havia dito.


É, meu caro mestre, constato que é melhor ser burro. Cadê minha cerveja?”


O mestre, senhor do tempo, sorri-lhe à cara; embora isto tenha lá uma centelha de eufemismo, já que o ambiente é virtual:


“Ah, não diga isso!", exclamou prontamente o corajoso mestre. "Se nosso ideal de virtude é o personagem de comercial de cerveja você teria razão em sua ironia final. Pelo menos penso (e espero) que seja ironia!”


O mestre levantou as faces. Refletiu um pouco, sopesou a própria meditação e auferiu boa questão. Neste instante, o aprendiz, em leve concentração, permaneceu quieto:


“Vê-se”, disse o mestre, “que, no fundo, a questão é moral! O que torna as coisas absolutamente maravilhosas! Veja, nosso máximo ideal de virtude, o Cristo que se entrega à um suplício violentíssimo e injusto, ensina-nos que se deve contrariar o mundo. Podemos escolher segui-lo ou recuar assustados. Bah!, eu te conheço! É ironia mesmo!”


Houve frouxidão de gravatas, dilatação das narinas na tentativa de captura de ar fresco e o rumor das elocuções do mestre tornaram mais fortes e definitivas:


“Mas o povo brasileiro é ainda muito evoluído moralmente. Como tudo chega aqui com atraso, quando a modernidade aterrissar com força em nossa terra, o atual avanço do cristianismo na televisão terá fortalecido a fé das classes médias baixas. O Portugal que existe em nós prosseguirá depositário da fé verdadeira!”


Neste instante o aprendiz sofreu um golpe do vento, seus olhos foram irritados pela poeira e respirou a fumaça vinda de escapamentos dos automóveis.


“Sim, caro mestre, foi mesmo uma ironia. Ironia pouco refinada, eu reconheço. Tocaste em ponto crucial: nossos valores. Valores do mundo ocidental! Estamos os perdendo... 'devagarzinho'...”


Esfregou os olhos e prosseguiu:


“Desgraçadamente não tenho este otimismo quanto ao futuro, querido mestre. Vejo apenas o positivismo em moldes 'cientificista afrancesado' e o iluminismo latente ‘esvaziando’ esta nossa sociedade... Assim fácil é para um crente muçulmano tomar conta de tudo, daqui algum tempo... Poxa vida!”


Vício dominador, ainda caçoou de seu interlocutor:


“Um brinde em caneca de chope ao povo brasileiro! Mais que isto: Viva os valores judaico-cristãos! Mas com moderação...”


Inevitável a gargalhada do mestre. Recompondo-se, não deixou por menos:


“Mas os deixem. Acho que essas ideologias não contaminarão o povão. Talvez essa sua sensação se dê ao fato de que, no Brasil de hoje, ainda estejamos com o debate bastante atrasado. Somente por isso os termos ainda estão bastante atrelados a este positivismo reducionista e incompleto. As pessoas que preferem segui-lo fazem grande mal a si mesmas, pois ignoram por completo as suas faculdades mentais, o que convenhamos, é um absurdo se pensarmos na importância das coisas. Ter a mente ajuizada é muito mais importante que ficar repetindo as verdades alheias de maneira apaixonada.”


Contrapôs também aos gracejos do outro:


“Mas não pense que sou muito otimista não! Acho que esse tro-lo-ló pseudocientífico não chega aqui com a mesma força, mas a perda dos costumes já chegou. Esse é o nosso maior drama social: as pessoas que conjugam uma crença em tal Deus com as dancinhas mais nefastas. De qualquer forma, parece-me um problema menor!


Contudo, o aprendiz tinha lá algumas brasas no corredor cardíaco; de modo que atreveu-se no discurso:


“Sinceramente, não percebo o Brasil atrasado com esta ideologia balofa do nosso mundo ocidental. Vejamos, por exemplo, a nossa Carta Magna, esta recente de 1988. É positivista, apregoa a sociedade laica. Ora, como jugular uma tradição milenar sem sofrer consequências? Invés de aperfeiçoarmos os valores e caçar a nossa genuína identidade (não esta copiada de algum francês irresponsável), renega-se tais coisas como 'caretice' e ideia ultrapassada... O exemplo muçulmano talvez não seja politicamente correto; pode algum chato ver nisto preconceito contra religião alheia. No entanto, penso que salienta bem a gravidade da situação. Como diria minha velha avó: "O demônio se esconde na panela vazia". Não digo que são demônios; ao contrário, eles estão certíssimos. O problema somos nós, que, balofos de espírito, estamos sujeitos a qualquer povo com espiritualidade elevada e disposto a preencher-nos o vazio da alma. O ateísmo parece problemática já superada, digo como ameaça aos valores. Se o sujeito quiser ser ateu, agnóstico, seja lá o que for, a estrutura da sociedade nada mais sofre. É de direito dele e, portanto, só diz respeito a este. Mas uma ideologia firmada pelo Estado é preocupante...”


Perceba, leitor, que não havia nada de ordem naquele debate; era tão somente uma troca de ideias. Queria dizer o aprendiz com as palavras acima que, embora também tenha lá seus problemas no arcabouço interno, a Igreja (leia-se: pensamento instituído milenarmente) conseguia segurar o ímpeto da futilidade extrema e amparar o indivíduo. Ainda insistiu-se na ideia de que a pura superficialidade do povo brasileiro impede a descoberta de uma identidade autêntica e por isto o Brasil é plágio de si mesmo.


Não havia ali, entretanto, defesa de dogmatismo religioso – embora parecesse nas palavras a tendência de orientação católica. Muito menos advogavam o ateísmo. Discorriam sobre valores. Aquilo que sorreteira e sutilmente nos forma como homens.


“A Coca-Cola é nossa, mesmo que nós não gostemos de refrigerante e a achemos uma porcaria”, como disse o aprendiz. “As coisas boas e ruins nos formam, é natural. Talvez seja mesmo o palco de ópera que devemos representar – com seus dramas, comédias, reflexões... Mas ‘Estado laico’ é tirar o direito do indivíduo, seja religioso ou ateu, de viver; e também de todo um povo de formar o seu estreme alicerce para criar; enfim, esta nossa sociedade renega uma cultura original. Muda-se a roupa, mas a ideia permanece... Maldito Augusto Comte! Mais maldito ainda seja Benjamim Constant!”


Deveras, parecia que o mestre compreendeu o aprendiz. Concordou, em parte:


“É, realmente estes (os positivistas intelectuais) se superaram no quesito bobagens. Já quanto as interpretações antropológicas que se podem fazer da Constituição não sei comentar, pois não tenho instrução jurídica. Sei, todavia, a importância que possuem na determinação do comportamento social com o que se pode ou não se pode fazer.”


Conta-se que este aprendiz, quando estudava matéria de direito constitucional, numa simplória faculdade de direito, reconheceu o mote do pensamento positivista.


Entretanto aquilo não entrava nele, significando apenas as denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, quais ele fora obrigado a estudar para o vestibular. Via nestas galicistas ideias tão somente uma capital de país artificial do século  XIX; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Époque que tanto já apareceu pelas linhas deste blogue.


O pobre diabo do aprendiz, no entanto, gostava de história, de boas histórias como aquelas do "Prata Preta" e as contadas pelo "João do Rio". De modo que lia a fio, ora por ócio ora por teimosia, tudo que era relacionado ao positivismo. Julgou mesmo ter descoberto mais influências e efeitos colaterais quando retomou os estudos sérios da faculdade; talvez tenha de fato descoberto algo importante, mas isto é quase nada.


Como já sabe a minha querida dona leitora, não há aqui nada contra a valorosa e elegante França; em absoluto! Mas a tristeza surge com a culpa desta geração Y – e já foi assim na X e com os Baby Boomers. A América abraçou com gosto este pensamento cientificista e fútil.


O genial Machado de Assis foi notável estudioso do tema. Lá se vão mais de 100 anos que o 'velho bruxo do Cosme Velho' morreu e não consta que tenha mudado muita coisa – constatou o aprendiz, inclusive, que o saldo parece pior. Não creio que ele esteja totalmente errado...


Depois de tudo, não deveria mais nada dizer; e não digo! Como último parágrafo, deixo as últimas palavras de um jovem, porém consciente, mestre de debates:


“Caro aprendiz, achei muito legal isso que você disse: “Aquilo para mim tinha significado apenas nas denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, que eu fora obrigado a estudar para o vestibular, sobre uma capital de país artificial; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Epóque.” Eu também pensava a mesma coisa do positivismo. Achava até um negócio legal, uma análise honesta da realidade como ela é, mas, assim como você, ignorava por completo seus nefastos aspectos cientificistas e sua absurda pretensão universalista.


Quanto ao Machado, é mesmo muito inteligente. É tão superior às coisas ao seu redor que brinca com os próprios princípios que advoga, relativizando-os e cuidando do que verdadeiramente importava: a literatura.


Veja, tenho em casa uns quatro vasinhos com o mato ‘quebra-pedra’, já ouviu falar? É uma planta de rápido ciclo de vida, e afirmam que seu chá é medicinal, mas nunca provei-o. Cultivo o ‘quebra-pedra’ pois é a comida favorita dos dois grilos que tenho – não nos ouça o Ibama! Mas apareceu em um deles outra planta. Ficou ali alguns dias e foi crescendo. Quando pareceu-me grande o bastante para ser arrancada, cautelosamente retirei-a de modo a não acidentar o 'quebra-pedra'. E que surpresa desagradável não tive quando, junto da planta indesejada, veio um brotinho recém-desabrochado do meu querido matinho. Lembrei-me daquela parábola de Cristo, na qual o dono de uma roça avisa seus serviçais que não arranquem o joio "para não correr o risco de, assim, retirar o trigo". Essa era a vida neste planeta dois mil anos atrás, e continuará sendo assim. Talvez muito desse joio incômodo ainda acabe nos surpreendendo. ”


--- // ----


Este debate, transcrito não tão literalmente, foi na verdade uma conversa agradável e  bastante instrutiva que eu tive com o amigo e pensador Henrique Rossi, do blog Polimático. Ele no papel de mestre, eu de aprendiz.


Dou-lhe, amigo Henrique, parte dos direitos autorais do post; embora, sinceramente, eu duvide que queiras ter o nome atrelado a tão anódino texto. Ainda assim, se achares que tens direito a toda a obra... Então, até o tribunal! Fique em fleuma, estimado autor; estou a brincar-lhe com os nervos. És tu o articulista e promotor desta reflexão. Ademais, o positivismo contempla todas as ideias; como sabe.


Por Ricardo Novais

Protected by Copyscape Online Infringement Detector