'Estação jugular', de Allan Pitz


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Shopping center

Medusa, Caravaggio, 1597.

Era uma música violenta e obscura com imagens em câmara lenta. Foi um balé de Tchaikovsky. A praça de alimentação de um shopping center às nove da noite foi o cenário. Um boné camuflado me dava a condição de investigador de meu próprio crime, os pensamentos passavam pelo córtex cerebral deixando-me todas as pistas. 

De repente, surge ela. Acenou a um, a outro e dirigiu-se ao restaurante da praça de alimentação. Eu, boquiaberto. Observei-a chegar e fazer os primeiros movimentos, a intimidade me assustou.

Fiquei paralisado por bastante tempo, pregado à cadeira padronizada. As ideias não mais acompanhavam o compasso do coração, tudo em mim era dúvida... Dúvida estarrecedora! Cecília ria com gosto de alguma trivialidade que lhe contavam; de longe, eu mal podia vê-la mostrar o espírito alegre e zombeteiro. Não sei quanto tempo se passou entre o primeiro cometimento da aparição, quase surpreendente, daquela mulher em minhas retidas incrédulas e minha tocaia mais aguda e calculada. Sei que quando minha vítima, ainda sorridente, apontou ir ao banheiro daquele shopping center trivial, num impulso só, levantei-me e corri. Corri no sentido oposto das vitrinas repletas de roupas vazias e marcas incipientemente dispendiosas. A passos largos, parei numa esquina de vidros e espelhos irrefletidos. Eram dois corredores balofos como os pensamentos imprudentes, pulsantes como veias cheias de sangue da juventude em seu breve temor de artérias. Esperei, esperei, esperei. Esperei alguns minutos eternos. Cecília, inocentemente, saiu do toalete feminino e deu de cara comigo. Que surpresa!

- Pedro! P... Que você está fazendo aqui, seu louco?!

- Meu!... Putz, eu não acredito que você está me sacaneando... Filha da p...!

- Pare com isto, seu louco! Vá embora!... Vá embora daqui, agora! Não combinamos apenas amanhã? Louco, doente!

Cecília jogou em mim olhos de Medusa, talismãs da ira, exasperados e arredios, ao mesmo tempo. Toda ela tremia. Eu, nem olhos mais eu tinha – era todo cego. Ponto cego entre espelhos que nada refletiam – a não ser dúvida por todos os lados. A suspeita era tanto menor que a confusão causada. Veio o segurança do local, pediu-nos para que fôssemos embora. Não saímos, queriam expulsar-nos. Não expulsaram.

Saí afobado, Cecília veio atrás dizendo-me louco, louco, louco. Não lhe dava mais ouvidos. Apenas tornei e perguntei-lhe:

- Ele sabe?

- Não sabe nada, vá embora!

- Ah... Vou lá então falar tudo, tudo! Vou lá contar para ele quem você é de verdade...

- Você está doido?!

Também não fui falar nada a ninguém; conto apenas agora, a ti, leitor. Atravessei toda a grade de ferro escuro do estacionamento daquele maldito shopping center e parei em frente ao meu carro, sem conseguir abrir a porta. Finalmente a abri, mas não entrei no automóvel – refúgio único que poderia ter-me salvado. Não salvou. Cecília estava atrás de mim, quis dizer-me algo:

- Pedro...

Não escutei. Girei nos calcanhares do sapato ordinário e dei-lhe um tapa no rosto. Não foi forte, nem fraco. Foi um estalido desonroso. Não a olhei na cara. Entrei no carro e saí a toda velocidade permitida pelo coração, ainda por ouvir o pequenino ruído agudo da minha mão desferindo na pele alva e delicada de Cecília um gesto amoroso. Jamais consegui livrar-me deste estalido de ideias impulsivas em meus momentos de reflexão capital, jamais consegui saber se ela me amou antes daquele dia. Depois que nós nos casamos, carregando nossos próprios cadáveres às costas, não me atrevo a perguntar-lhe nada mais sensível que a conta de fim de mês.

Por Ricardo Novais