Mosca morta

Ilustração de Marco Polli. 
Quinze para as seis da manhã, o relógio-despertador azucrina-me as ideias espantando o sonho sensual com atriz pornográfica da internet. Acordo de pau duro. A minha mulher quase morta ao lado na cama não pode me acudir, vaca desgraçada! Olho meu rosto ao espelho; ordinário, não tenho vontade de fazer a barba. Rapidamente, velo o sono de uma criança que dorme no quarto ao lado. Deus que conserve! Na cozinha, pego da xícara de café requentado, bebo de um gole. Dou o último nó na gravata e me arrasto até a garagem onde meu carro prata, ou cinza, aguarda paciente e debochado a minha chegada – o primeiro ronco do motor me cumprimenta: “Bom dia, trouxa!”.

Nas ruas, estou entre sombras sob a mesma luz dos primeiros raios de sol. O congestionamento matutino irrita-me, irrita-me impiedosamente. Para não enlouquecer, estaciono na esquina da Bom Pastor com a esperança que aquele maldito automóvel aborrecível seja roubado por algum marginal ousado e de pouca inteligência. Corro a passos largos até a estação central. O metrô às sete horas da manhã está abarrotado de rostos de todas as cores e de todas as idades, um velho pisa-me o pé:

- Opa, desculpe o mau jeito...

- Não foi nada.

Um funk é ouvido em alto e mau som dentro do vagão. Olhares cabisbaixos nada dizem, embora ouvidos incomodados se manifestem tacitamente através das orelhas mal lavadas. Enlatado igual à comida em conserva que damos a cachorro, procuro e alcanço o office-boy, fruto primeiro da classe C, que ouve aquela maldita música: “Abaixe essa porra, filho da puta!”, penso, nada digo. Pois é, caro leitor, o emaranhado da vida nos torna civilizados. Decorei parte do refrão sinistro do funk que me perseguirá o dia todo, talvez a semana, o mês inteiro – a vida toda. Desgraça! Muito infeliz, chego ao escritório; vinte e três minutos atrasado, acusa-me o relógio de ponto da empresa. Caretas de reprovação, outras de contentamento, observam-me oblíquas vindas de todos os departamentos.

- Dr. Azevedo, o trânsito está terrível hoje... – explico-me.

- Tudo bem, Bonifácio; ande, vamos, há muito trabalho a fazer!

Pilhas de papel à mesa, dezenas de e-mails a serem respondidos, milhares de pensamentos parados. Meu desânimo é tanto menor que a vontade de ser mandado embora. Em vez disso, mandam-me. Obedeço. Minha única iniciativa é ir almoçar antes da hora. No restaurante, fila. Muita fila, fila de dobrar portas. Todos, filhos da puta! Mas se sou também eu um filho da puta de classe média, deixei-me ficar...

Parado em pé por mais de vinte minutos aguardando para ser atendido, tudo para poder comer, penso em Deus e em sua infinita bondade. Infinita fila! Jesus Cristo não faria melhor na Santa Ceia...


No arroz, uma mosca. Mosca preta, grande, varejeira, impudica. Mosca morta.


Não reclamo. Não como.


Fiquei com fome. Tornei ao ofício.

Novas pilhas e pilhas de papel aguardam-me, pacientes e debochadas. E-mails retornam em réplicas de mais cobranças. Respondo alguns, mas me disperso logo. Minha diversão é cabecear o ar (condicionado) lutando contra o sono. Enfadonha tarde. Vejo meus chefes indo embora; eles sorriem entre si, embora mentalmente maquinem o cargo um do outro. Filhos da puta!

Quinze para as seis da tarde. Vou ao banheiro, jogo água ao rosto, diante do espelho acusador reparo na barba mal feita. Foda-se! Desço pelo elevador cheio. Dentro da cabina, nenhum conhecido. No entanto, pelas paredes espelhadas do cubículo, avalio uma moça vestida de preto e olhar perdido; ela me é íntima, à distância. O elevador para no térreo; a moça desce para o subsolo indo ao estacionamento junto do namorado, eu fujo para a estação do metrô. A mesma composição abarrotada de rostos de todas as cores e de todas as idades; ao ser cuspido do vagão, avisto o mesmo carro cinza sorrindo à minha espera: “Boa noite, trouxa!”. Entro nele, atravesso todo o pontilhão. O burburinho de bares e boates causa-me inveja, mas sou pai de família. Àquela altura, as ruas estão mais livres das sombras, pois as sombras humanas se fundem com o crepúsculo que cai pesado sobre a cidade, lugar-comum onde tudo poderia ter sido, mas não foi; pode ser, mas não é; poderá ser, mas não será – onde tudo fica parado nos primeiros estágios com a vontade infinita de fazer nada.

Ora, caro leitor, acalme-se! Não pense que estou mal; ao contrário, vou bem à vida. Vejo-te todos os dias em espelhos de banheiro.

Ao jantar, sopa. Minha esposa refinada bufa entre os intervalos da maldita novela das nove e abraça a filha como retrato fiel do futuro. Sim, dona leitora, sempre perspicaz, pensou exato: não haverá sexo à noite. Uma mosca zombeteira pousa na sopa. Mosca viva. Lúbrica.

Não reclamo. Não como.

Fiquei com fome. Matei a mosca de um murro só.

Mosca morta. Dormi bem.

Por Ricardo Novais

O coletivo

Escrava sendo leiloada, em quadro do pintor francês Jean-Léon Gérôme.

Peguei um coletivo para não andar dez ou onze quarteirões. Poucos passageiros dentro do veículo tinham a mesma indecisão: aguardar quinze, vinte minutos estressantes de engarrafamento ou saltar do ônibus e gastar algum momento passeando pela vida. Sentei no banco do corredor e resolvi me entregar à preguiça. Mas a lassidão é coisa que surpreende até o tédio, entrou no coletivo uma moça. Gestos elegantes, belíssima e igualmente praticante do sedentarismo.

Embora o ônibus estive vazio, a moça elegante com cabelos alourados e trajes escuros pediu-me licença:

- Você me deixaria sentar aí do lado da janela?

- Claro! Por favor... respondi-a prontamente.

Foram estas as únicas palavras que demos entre si. O trânsito de insuportável passou a alívio deleitoso. Percebi alguns olhares oblíquos dela quais eram os mesmos que eu também jogava sob suas pernas ditosas, braços elegantes e mãos inquietas. Apanhei um aparelho dentro da pasta, respondi uma ou outra mensagem, mas não havia indagação naquele maldito dispositivo que me servisse de acólito para ocasião tão esdrúxula. A moça loira olhava cidade a fora, depois abria a vidraça do coletivo para em seguida fechá-la. Não havia do mesmo modo motivação favorável em sua respiração. Sinais de constrangimento surgiram sobranceiros como sobrevém entre integrantes da vida urbana.

De repente, o ônibus chegou ao ponto final. O amigo leitor varão que lê história tão prosaica há de saber que nem sempre se pode subjugar o destino. Atribua ao imponderável, caro amigo. E que seja! Levantei do banco, ainda a deixei descer primeiro daquele veículo que transporta muitas opiniões. Ela saltou e sumiu na multidão da rua direita. Eu corri ao edifício central onde o relógio MarcoPolo d’ Schiavo  já me aguardava ansioso e estéril.

Por Ricardo Novais