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Mulher misteriosa

Pintura de Luis Antonio Juarez Palomo.

Casei-me com Carolina. A vida era boa; casa grande, térrea, arejada, jardim da zona sul, plano de filhos. Passaram-se seis ou sete meses. O leitor audacioso pode imaginar que a rotina é uma aranha pendurada em algum canto da retina, e assim foi.

Está bem, dona leitora indiscreta, nada passa por ti sem questionamento; admito que o narrado no primeiro parágrafo tenha uma lacuna, uma lacuna perfumada: Mariana. Eis então o segundo parágrafo... Mariana era minha amante mesmo antes de meu casamento; desculpe-me, amiga leitora, mas o perigo de dois amores era, aos meus olhos de tempos atrás, místico e capaz.

Mariana morava sozinha em um apartamento pequeno na zona sul. Trabalhávamos juntos, embora em departamento diverso. Encontrávamos todos os dias, fosse por negócios ou por instinto sexual, neste caso, poderia ser em algum elevador do acaso. Eventualmente, passávamos as noites juntos em um sequestro consentido. Carolina teimava em acreditar em desculpas vazias, até que ocorreu um fato imponderável...

Uma mulher misteriosa, sem rosto, sem citação, sem origem e destino surgiu de maneira atrevida. O atrevimento de uma relação de assédio é a pólvora da bomba que não explode. Uma rede social vulgar, mensagens privadas, instantâneas, a inexplicável troca de telefonemas. Foram dois ou três telefonemas; voz sensual, baixa, porém, audível, firme e mesmo assim atraente. Ocorreu um encontro.

 - Rua do Arcano, n° 174, apartamento 39; esteja lá às 16h09min horas!

- Sim... É... Ei, mas por que às 16h09min?

- Esteja lá! Sabe onde é?

- Sim.

- Até. Beijo.

- Até.

Sabe, amigo leitor que designa a vida aos mistérios sem resposta, um encontro às escuras é uma coisa muito atormentadora. E a teimosia de horário cravado era familiar, embora me pareça que toda mulher goste de caprichos... Carolina mesmo sempre insistia nisto de horários cravados... Enfim. Cheguei dez minutos, ou menos, antes das 16h; prédio sem porteiro, interfonei, a mesma voz misteriosa atendeu e mandou-me subir. Subi. Três andares, não havia elevador. Subi devagar por uma escada larga, segurando firme no corrimão de madeira sob a superfície de mármore. Tudo era silêncio. O rol vazio, todas as portas fechadas, poucos móveis; três lances de escadas depois, n° 39 na porta. Olhei no relógio de pulso, 16h07min. Pendurada na porta, uma venda e um bilhete: “Coloque a venda nos olhos”. Hesitei, olhei novamente para o relógio: 16h11min. Estava excitado. Sorri. Coloquei a venda nos olhos, mas deixei-a meio frouxa. A porta abriu.

- Boa noite, garotão! – disse a voz forçando um tom sexy; em seguida, virou-me e apertou com força a venda sob meus olhos.

Breu, sentia-me bem. A mulher me tocava, falava pouco e baixo, mas gemia nos meus ouvidos. Foi me despindo, deitou-me em um colchão grande alto sob o piso. Um perfume sublime!

- Quem é você? – perguntei.

- Sou a mulher de seus sonhos.

- Estou gostando muito deste jogo... – Confessei.

- O jogo apenas começou, meu bem!

Eu disse o quanto aquilo me excitava, o quanto era diferente e surpreendente. Percebi, no entanto, que tinha falado muito, sem respostas. Eu estava nu, chamei por ela, sem resposta. Tirei a venda. Não tinha ninguém. Assustei-me, olhei no relógio. Quinze para às cinco da tarde. Vesti-me rápido e de qualquer jeito. A porta estava aberta, olhei para todos os lados alcançáveis, ninguém à vista. Não gritei. Desci as escadas, bem devagar, com os sapatos e o paletó na mão direita, segurava com força o corrimão com a outra mão. Luzes acesas. A porta principal estava fechada, mas havia uma porta de vidro aberta na lateral do rol. Saí do prédio. Dia claro ainda. Corri até o carro, sorri mecanicamente da aventura.

Liguei para Carolina, ela não me atendeu. Fui para a casa de Mariana. Tomamos vinho argentino. Transamos, contei a ela o que havia acontecido naquela tarde. Sim, leitor, essas coisas não se contam a outra mulher; aposto que a querida leitora está a dizer-me tolo; desconte das três ou quatro taças de vinho que tomei. Malditos argentinos! Desconte também de meu estilo de vida ocioso, como sabe. Não dava para esconder. Contudo, sopesei que errei, antes tivesse ido direto para casa e me poupado do ridículo de contar aquilo para uma amante tão trivial; um homem sabe ser ridículo... Tanto melhor que não tinha dito à minha esposa, mas, de todo modo, ridículo.

- Você é um galinha! – concluiu Mariana gozando com minha cara.

Nada respondi, sentia-me mal. Fui embora cabisbaixo e, desculpe-me o linguajar, amiga que me lê, fui embora com o rabo entre as pernas. Em casa, sentei-me no sofá, abri uma cerveja, vi um pouco de futebol. Tomei banho, Carolina dormia. Noite tranquila.

No dia seguinte, Mariana perguntou-me sobre a mulher misteriosa. Respondi que eu estava brincando, ela deu de ombros e saiu. Após o meio-dia, recebi uma mensagem pelo aplicativo do celular me intimando:

No mesmo lugar, hoje, às 13h04min!”.

Sentei-me. Não sabia se ia me aventurar naquilo novamente. Sentia-me grotesco. Mariana entrou na sala.

- Ei, vamos almoçar?

- Desculpe, doutora Mariana, preciso sair  respondi-a sorrindo.

Não olhei para trás, peguei as chaves do carro e o paletó e fechei a porta. No elevador, vi que Mariana estava atrás, ela até me deu uma satisfação vaga de que estava indo almoçar no shopping. Na garagem, despedi-me dela, fomos para direções diferentes. Liguei o som do carro e sorri; naquela momento, sorria de tudo; eu estava feliz, sentia-me um grande cara. As mulheres têm um poder inexplicável sob a gente, que o diga a minha amável leitora. Eis o néctar da vida.

Cheguei atrasado, como presumível. Havia se passado bem mais que quatro minutos da uma da tarde. Desta vez, a porta principal estava entreaberta, mesmo assim toquei o interfone.

- Suba! –disse a voz enigmática e lasciva.

Deixei a porta principal destrancada. Apenas entrei, subi as escadas no mesmo procedimento do dia anterior, embora com mais celeridade. Coloquei a venda, a porta se abriu, as mãos macias e quase místicas me puxaram e eu entrei. Nu, perguntei como anteriormente:

- Quem é você?

- Retire a venda!

- Oh, não! Vá falando, nunca conheci uma mulher como você... Mesmo sem vê-la, sem saber como é teu rosto, sem saber quem é você, já posso dizer que estou apaixonado...

Nisto, um baralho se fez na porta. Retirei a venda. Na minha frente, naquele quarto quase sem móveis e com cortinas brancas, as duas mulheres: Carolina e Mariana.

- O que está acontecendo? Ai, Meus Deus! – eu gritei.

Carolina estava de meia-calça preta, de vestido vermelho curto e com um chicote na mão. Ela estava linda. Mariana estava trajada de roupa social, mas igualmente sexy.

- Quem é ela? – perguntou Mariana direcionando um olhar distante para mim.

Não respondi. Ninguém disse nada. Tudo era tenso e nebuloso.

- Diga, seu filho da puta! Responda: Quem é ela?

- É... É Carolina, minha esposa... Carol, esta é Mariana, que trabalha comigo e...

- Não trabalho com você, somos amantes!...  retrucou, furiosa, Mariana.  Ei, mas espera aí, sei que esta vagabunda não é sua esposa; é ela, né? É ela a mulher misteriosa que você encontrou ontem? Diga, Orlando, seu puto, cafajeste!

Eu não tinha palavras, mas Carolina respondeu:

- Sim... Sou a mulher que pregou uma peça neste salafrário...  ela me chicoteava com força.  Mas é verdade, também, que sou a esposa deste homem, um homem desprezível... Agora sei... Seu filho da...

- Mentira! – gritou Mariana de repente.

Fiquei em choque, como  pode imaginar o leitor sob o olhar acusatório de nossa amiga leitora. Eu nada entendia, de fato. Mas agora entendo. Realmente a voz misteriosa daquela mulher que eu estava apaixonado era familiar, era a voz da Carol... Carolina... Minha esposa! Filha da puta! Enganou-me como se engana uma criança com um doce ou um vídeo-game e ainda me deu uma surra com aquele chicote endiabrado.

Repentinamente, as duas começaram a brigar, xingando-se com palavras feias, saíram do quarto para o corredor e Carolina rolou sacada abaixo. Morta. Chamei a polícia. Vieram. dois ou três policiais, depois foram chegando outros. Mariana contou a todos que era minha amante e o cadáver era minha esposa, um policial sopesou que eu era o criminoso. Não retruquei. Fui para a delegacia. Fiquei preso. Chamei advogado. Saí da cadeia. Mesmo respondendo em liberdade, não pude ir ao velório de Carolina. Todos me condenaram. Mariana testemunhou contra mim. Passaram-se alguns meses. Perdi o emprego e os amigos. Estou cumprindo pena.

Por Ricardo Novais

Aula de matemática

Photo credit: Darnok from morguefile.com.

Há certas histórias que não se esquecem, por mais que se passe o tempo. Lembra-me por descuido, a memória, certo acontecido de tempo antigo; impreciso dizer o ano, certo que se passou antes da virada do século. Dona Mariana era a professora de ensino médio da escola da Rua da Sereia, não era feia, nem velha; tão pouco bonita. Era educada, bondosa e gentil. Contava vinte e sete anos, eu quinze.

No entanto, sentia os olhos dos colegas de classe me fuzilarem ao verem os modos delicados e simpáticos que a professora jogava em mim. Tratava-me com carinho. Carinho absurdo, se é que existe absurdo em ser humano carinhoso. Dizia-me bom aluno, dedicado, inteligente, educado; isto e mais os adjetivos todos da cartilha daquela época. Os moleques armavam murros, as meninas torciam os narizes  embora isto fosse somente impulso, creio.

A inveja era tanto menor que não se verem com os mesmos olhos. E assim ia indo o ano letivo, entre números positivos, negativos e afagos, quando ocorreu o fato inexplicável que veio a memória contar-me.

Do que não me esqueço, leitor, foi de certa aula de equação de segundo grau. Bom aluno, acertei tanto a equação como a aritmética.

- Candinho, fica depois da aula. É castigo! ordenou-me professora Mariana. Ora! Por quê?

Risinhos se misturaram a olhares satisfeitos. Vingança é coisa que se alimenta entre cálculos e o destino.

- Mas, professora... tartamudeei, numa chamada abafada.

- Mas nada! Fica até apreender... Fica e fica!

Fiquei. Passado já um quarto de hora, ouvi novos risinhos entrarem pelos vãos das janelas. Muitos vultos dos primeiros rituais do rancor se viam entre vitrais que não eram vitrais, eram prismas. Professora Mariana foi à janela central e todos fugiram. Não voltaram, sob pena de castigo, ameaça de advertência e suspensão. Quiçá expulsão, pensei. Mas nada disto importava àquela aula, e também não será agora que aqueles malditos pobres-diabos serão merecedores d'alguma linha minha, vírgula que seja. Se ainda a vírgula fosse a separação da vida da morte, vá lá; mas não é. A morte se separa da vida por ponto. E o caso que interessa aqui, querida amiga, é saber que depois de espantar os vultos de perto da sala de aula alumiada, Mariana, a tutora, encostou-se a meu lado e pediu-me o caderno. Senti menos aflição que enfado da lição.

- Faça em casa. disse-me, vagamente, entregando-me o caderno.

- Posso ir então?

- Não, temos que conversar.

- Temos? Sobre o quê?

- Sobre nada. Assim a secretaria preencherá meu curso.

- Sim...

Sim, leitor. Não tinha nada. Professora Mariana afastou-se, tonou à janela. Parecia contemplar, contemplava o nada afora prisma. Nisto, percebi que parte de seu decote surgiu, discretamente e não menos impressionante. Desconte-se isto de meus quinze anos. Nenhuma ideia vive muito na adolescência, o sangue corre célere demais pelas ruas de veias. Na janela meus olhos agudos grudaram pouco a pouco, tímidos, mas perfeitamente contemplativos. Ela pôs as mãos na cintura, elegantemente. Nunca a achei tão bonita. De repente, virou nos saltos finos e veio vindo, pé ante pé, entornando charme, sentou-se, de lado, na cadeira à frente da que eu estava.

- Conte uma graça, Candinho.

- Quê?

- Conte-me algo que quer fazer, quando for mais velho.

- Ah... Não sei, professora.

Ela olhou-me fixamente, contente e vaga. Às vezes parecia que fechava os olhos; belos olhos castanhos! Logo, no entanto, abria-os tragando-me novamente. Reparei-lhe o delicado gesto de passar a língua entre os lábios; noutro, mordia com leveza o lábio inferior. Tudo sutilmente. Fascinantemente. Envergonhei-me sim de meus pensamentos, mas os sendo inevitável nem a memória ousaria publicá-los. Que também fiquem na conta de minha pouca idade.

Falamos da escola, de planos futuros e presentes, do vestibular; muita coisa, subtraindo a lição de matemática. Ela perguntou-me de garotas, de algum namoro ou algo deste instituto instintivo. Eu ia respondendo tudo assim e assim, engasgado e boboca. Foi aí que tropecei nos delicados braços alvos de professora, embaracei-me nos cabelos castanhos e ondulados dela, refletia-me na pele cor de giz daquela docente angelical.

Professora Mariana outra vez levantou-se, tão terna como elegante. O ar de encanto soprou minhas ideias. Reprimia-me. Nada ela dizia e a tudo eu compreendia. Andou pela frente da classe que a tanto era sua reconhecida, olhou vagarosamente para as cadeiras silenciosas. Revirou o insinuante pescoçinho, em seguida desceu os olhos matemáticos ao relógio de pulso.

- Nossa, o tempo passou voando.

- Quantas horas agora?

- Já é tarde... Melhor você ir para casa, meu queridinho.

Pequei do material escolar e fui embora da sala, sem querer sair. Não olhei para ela.

- Thau, professora. disse num gesto prematuro.

Atravessei o pátio do recreio sem olhar para trás. Já fora da escola olhei, o portão fechou-se à minha cara.

Tempos depois soube que a professora Mariana casou-se com o professor de história do colégio da Rua do Adolescente; e eu, Cândido Pontes, fiquei sem entender aquela enigmática aula de matemática.

Por Ricardo Novais
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