Pulha Positivista


"O que sempre fez do Estado um verdadeiro inferno foram justamente as tentativas de torná-lo um paraíso." (Hoelderlin)

Schopenhauer, de maneira magistral, fez a terrível pergunta: "Tem então a existência, em geral, um sentido?" Esta pergunta é difícil até mesmo para ser honestamente assimilada, quiçá tentar respondê-la. Mas existem aqueles cidadãos anapluros contumazes que enveredam pelas 'verdades' absolutas inspiradas por Comte, Zola, Taine, etc.

Exemplo disto é o professor Paulo Ghiraldelli Júnior, o "Juninho Coruja", que se auto intitula como "O Filósofo da Cidade de São Paulo". Imagine, amigo senhor leitor e queridíssima dona leitora, qual a impressão que causa em jovens este velho homem plagiador de frases de efeito.

Seria de bom tom, ao menos, que ele tivesse passado uma boa temporada na França; mas em seus tempos nervosos. Faz-se menção, também, que acabaria de formar seus conceitos espúrios uma longa estadia na ex-Iugoslávia (especificamente na Eslovênia), e, de tal maneira, uma outra estada, ainda maior, no Manicômio Municipal de São Paulo.

Pobre homem, inclui-se nas crônicas boêmias que nem mesmo conseguiu terminar sua prolixa e problemática tese. Em todo caso, com efeito, há ainda alguns seguidores virtuais de suas ideias, por estes meios de divulgação e registro via internet - os quais tenho sérias dúvidas se não são fake's criados pelo próprio Ghiraldelli para massagear seu ego efeminado. Este homem será sempre um anti-bemcomportado ou um rebelde que não adere ao espírito de classe e a própria época, em todas as suas deformações e seus artificialismos. Por que? Jamais por convicção, mas sim conveniência 'cientificista'. Portanto, à amargura de sua vida, aos sofrimentos pelos quais, possivelmente, passou ele, ainda se somou este fato: o de não poder ser contrariado nem sequer contestado.

Erram os críticos, colegas, asnos, burraldos, idiotas, a época em que vive o 'filósofo da cidade de São Paulo; ou erra o velho em viver em tal época? Seja como for, de fato, em toda sua vida, o que de mais relevância e projeção alcançou foi ser uma pessoa calma que às vezes fica um pouco irritado. Pobre diabo, ainda por cima, pode ter sido vítima de um histórico engodo desta nossa sociedade.

Maquiavel, caso estivesse vivo, por certo, condenaria suas teses confusas; posto que um homem lute pelo “desejo de conquistar como sendo coisa, verdadeiramente, natural e ordinária, e os homens que podem fazê-lo serão sempre louvados e não censurados. Mas se não podem e querem fazê-lo, de qualquer modo, é que estão em erro, e são merecedores de censura”. Contudo, os homens fazem apenas o que pode ser feito, assim como, também o que se podia ter feito, porém, não se fez. E sabemos que o filósofo é, igualmente, apenas um ser humano, portanto, são estes seus estudos somente os mistérios do fazer intelectual, ou do universo de quem plagia, sem engenho algum, pensadores renomados.

Esta nossa sociedade, além de engraçada por ser desgraçada, é mesmo antagônica; uma vida de cordeirinhos medíocres graças ao pensamento galicista e 'científico' oriundo ainda do século XIX. Benjamim Constant foi o maior divulgador do positivismo por estas bandas.

Constant era exímio militar de carreira. Como tal, tinha desprezo pela raça humana, a imortalidade, era extremamente vaidoso e se concentrou na formação da República Positivista de cordeirinhos adestrados, sem criatividade autêntica e desconhecedora da própria identidade. Influenciado pelas ideias 'galicistas' de liberdade e também por teorias detestáveis de Arthur Gobineau - autor de Ensaio Sobre a desigualdade das Raças, tido como a bíblia da Era do Racismo Científico Moderno - Benjamim Constant apregoou o 'ideário' militar ogro e cheio de pensamentos preconceituosos contra o povo civil - em alguns aspectos contrariando o próprio "mestre" do mundo das regras e das ordens, o filósofo, também francês, Augusto Comte.

Tal qual outro louco da filosofia, o velho barbudo 'pensador humanista dos bares'. Reza a lenda que este conspícuo senhor barbudo chegava todos os dias, religiosamente, às oito horas da noite, no mesmo bar, tendo feito isso durante vinte anos, para tomar um drinque e difundir seus estudos e pesquisas com os outros frequentadores da tradicional taberna. Ele era um sujeito sistemático, mas liberal; em seguida viu-se contestado por si próprio, e o tempo fez seu pensamento perdurar em conservador. Enfim, ele difundia, meticulosamente, suas ideias, porém, sem pretensões, simplesmente por ter hábitos peculiares.

Instintivamente, e mesmo em consideração à veneração apreciada de nosso filósofo humanista de botequim à memória do genial Emmanuel Kant, volta à nossa lembrança um episódio bem significativo acontecido com o filósofo alemão Kant: os habitantes de Königsberg regulavam os seus relógios, vendo passá-lo, cada dia, no mesmo lugar e no mesmo minuto. Essa lembrança não diminui o valor e a importância de uma grande personalidade do mundo filosófico, mas permite compreender, imediatamente, a sua vida e a maneira com a qual ele construiu um dos maiores sistemas de filosofia em todos os tempos; assim como, ajuda a elucidar e a entender, por alusão, a vida do nosso 'pensador humanista' embrenhado no cotidiano boêmio e do pulha do pensamento, o professor "Juninho Coruja". Ambos são produtos do pensamento de Constant; ou seja, são tipos 'franceses', não brasileiros.

O que custa realmente é a percepção desta nossa dependência psicológica, a qual nós sofremos, aos costumes de outros povos, no que nos impede, gradualmente, de descobrirmos nossas virtudes e constituirmos uma identidade autêntica. Afinal de contas, doutora leitora antropológica, entre as pecúnias e os deflúvios já temos um pequeno e tênue saldo; não?

Anapluros sociais como o professor Paulo Ghiraldelli engessam a criatividade autêntica e o livre-pensamento, pois deixam de lado o pensar e o que já foi pensado para se encostarem em dogmas e sistemas filosóficos que podam a iniciativa genuína de todo um povo.

O professor Paulo Ghiraldelli fica sufocado pelas perspectivas morais, talvez cristãs ou mesmo céticas; ou seja, pensa superficialmente e pelas convenções, isto como um bom sul-americano afrancesado que ele é, como é perceptível, mas não pensa como brasileiro.



Por Ricardo Novais