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Pequeníssimo Tratado Sobre a Identidade Cultural Brasileira

Identidade Brasileira II
Correspondências

Noutro dia, travou-se em ambiente virtual contenda entre um jovem mestre e um aprendiz. Ao leitor que desanime deste texto com facilidade, digo que seja perseverante. Perdoe este pobre autor pelo post ser tão longo, embora seja curto para ser chamado de tratado sendo, portanto, mais uma ideia desenvolvida. De qualquer modo, amável leitor, atrevo-me a pedir-lhe que leia estas linhas até o fim. Afaste o tédio. A causa é boa e diz respeito à vossa família. Se não acreditas nisto, caro amigo, pergunte então a dona leitora; ela bem aconselhará teu coração, leitor de pouca fé.


Apresento-vos então, sem maiores circunstâncias e consequências, pequena querela que comprime as raças sociais.


Trocando Ideia

O aprendiz inicia intervindo com alguma confusão a pensamento já corrente:


Tuas ideias são excelentes, embora haja nelas algo das definições do "Imbecil Coletivo", do velho Olavo. Não, não há nada de errado com os estudos do filósofo, mas é que seja inteligência, burrice ou pseuda felicidade, o pessimista surge latente.


Se o sujeito começa a refletir os próprios pensamentos, vindo à ideia, e estes ligando a outros insurgentes que virarão em axioma racional (ou não) e, talvez, chegando à conclusão plausível que deverá ser discutida com outro ser (burro ou inteligente) que lhe devolverá em outras ideias. No entanto, por certo que ambos fizeram o mesmo processo do pensar inteligente; ao menos, presumi-se. Ou seja, esta será a constatação de como vivemos de maneira superficial e obtusa – como já verificado por ti, anteriormente. E, no meu modo de ver, é isto quiçá que acarreta na angústia e no decorrente pessimismo que havia dito.


É, meu caro mestre, constato que é melhor ser burro. Cadê minha cerveja?”


O mestre, senhor do tempo, sorri-lhe à cara; embora isto tenha lá uma centelha de eufemismo, já que o ambiente é virtual:


“Ah, não diga isso!", exclamou prontamente o corajoso mestre. "Se nosso ideal de virtude é o personagem de comercial de cerveja você teria razão em sua ironia final. Pelo menos penso (e espero) que seja ironia!”


O mestre levantou as faces. Refletiu um pouco, sopesou a própria meditação e auferiu boa questão. Neste instante, o aprendiz, em leve concentração, permaneceu quieto:


“Vê-se”, disse o mestre, “que, no fundo, a questão é moral! O que torna as coisas absolutamente maravilhosas! Veja, nosso máximo ideal de virtude, o Cristo que se entrega à um suplício violentíssimo e injusto, ensina-nos que se deve contrariar o mundo. Podemos escolher segui-lo ou recuar assustados. Bah!, eu te conheço! É ironia mesmo!”


Houve frouxidão de gravatas, dilatação das narinas na tentativa de captura de ar fresco e o rumor das elocuções do mestre tornaram mais fortes e definitivas:


“Mas o povo brasileiro é ainda muito evoluído moralmente. Como tudo chega aqui com atraso, quando a modernidade aterrissar com força em nossa terra, o atual avanço do cristianismo na televisão terá fortalecido a fé das classes médias baixas. O Portugal que existe em nós prosseguirá depositário da fé verdadeira!”


Neste instante o aprendiz sofreu um golpe do vento, seus olhos foram irritados pela poeira e respirou a fumaça vinda de escapamentos dos automóveis.


“Sim, caro mestre, foi mesmo uma ironia. Ironia pouco refinada, eu reconheço. Tocaste em ponto crucial: nossos valores. Valores do mundo ocidental! Estamos os perdendo... 'devagarzinho'...”


Esfregou os olhos e prosseguiu:


“Desgraçadamente não tenho este otimismo quanto ao futuro, querido mestre. Vejo apenas o positivismo em moldes 'cientificista afrancesado' e o iluminismo latente ‘esvaziando’ esta nossa sociedade... Assim fácil é para um crente muçulmano tomar conta de tudo, daqui algum tempo... Poxa vida!”


Vício dominador, ainda caçoou de seu interlocutor:


“Um brinde em caneca de chope ao povo brasileiro! Mais que isto: Viva os valores judaico-cristãos! Mas com moderação...”


Inevitável a gargalhada do mestre. Recompondo-se, não deixou por menos:


“Mas os deixem. Acho que essas ideologias não contaminarão o povão. Talvez essa sua sensação se dê ao fato de que, no Brasil de hoje, ainda estejamos com o debate bastante atrasado. Somente por isso os termos ainda estão bastante atrelados a este positivismo reducionista e incompleto. As pessoas que preferem segui-lo fazem grande mal a si mesmas, pois ignoram por completo as suas faculdades mentais, o que convenhamos, é um absurdo se pensarmos na importância das coisas. Ter a mente ajuizada é muito mais importante que ficar repetindo as verdades alheias de maneira apaixonada.”


Contrapôs também aos gracejos do outro:


“Mas não pense que sou muito otimista não! Acho que esse tro-lo-ló pseudocientífico não chega aqui com a mesma força, mas a perda dos costumes já chegou. Esse é o nosso maior drama social: as pessoas que conjugam uma crença em tal Deus com as dancinhas mais nefastas. De qualquer forma, parece-me um problema menor!


Contudo, o aprendiz tinha lá algumas brasas no corredor cardíaco; de modo que atreveu-se no discurso:


“Sinceramente, não percebo o Brasil atrasado com esta ideologia balofa do nosso mundo ocidental. Vejamos, por exemplo, a nossa Carta Magna, esta recente de 1988. É positivista, apregoa a sociedade laica. Ora, como jugular uma tradição milenar sem sofrer consequências? Invés de aperfeiçoarmos os valores e caçar a nossa genuína identidade (não esta copiada de algum francês irresponsável), renega-se tais coisas como 'caretice' e ideia ultrapassada... O exemplo muçulmano talvez não seja politicamente correto; pode algum chato ver nisto preconceito contra religião alheia. No entanto, penso que salienta bem a gravidade da situação. Como diria minha velha avó: "O demônio se esconde na panela vazia". Não digo que são demônios; ao contrário, eles estão certíssimos. O problema somos nós, que, balofos de espírito, estamos sujeitos a qualquer povo com espiritualidade elevada e disposto a preencher-nos o vazio da alma. O ateísmo parece problemática já superada, digo como ameaça aos valores. Se o sujeito quiser ser ateu, agnóstico, seja lá o que for, a estrutura da sociedade nada mais sofre. É de direito dele e, portanto, só diz respeito a este. Mas uma ideologia firmada pelo Estado é preocupante...”


Perceba, leitor, que não havia nada de ordem naquele debate; era tão somente uma troca de ideias. Queria dizer o aprendiz com as palavras acima que, embora também tenha lá seus problemas no arcabouço interno, a Igreja (leia-se: pensamento instituído milenarmente) conseguia segurar o ímpeto da futilidade extrema e amparar o indivíduo. Ainda insistiu-se na ideia de que a pura superficialidade do povo brasileiro impede a descoberta de uma identidade autêntica e por isto o Brasil é plágio de si mesmo.


Não havia ali, entretanto, defesa de dogmatismo religioso – embora parecesse nas palavras a tendência de orientação católica. Muito menos advogavam o ateísmo. Discorriam sobre valores. Aquilo que sorreteira e sutilmente nos forma como homens.


“A Coca-Cola é nossa, mesmo que nós não gostemos de refrigerante e a achemos uma porcaria”, como disse o aprendiz. “As coisas boas e ruins nos formam, é natural. Talvez seja mesmo o palco de ópera que devemos representar – com seus dramas, comédias, reflexões... Mas ‘Estado laico’ é tirar o direito do indivíduo, seja religioso ou ateu, de viver; e também de todo um povo de formar o seu estreme alicerce para criar; enfim, esta nossa sociedade renega uma cultura original. Muda-se a roupa, mas a ideia permanece... Maldito Augusto Comte! Mais maldito ainda seja Benjamim Constant!”


Deveras, parecia que o mestre compreendeu o aprendiz. Concordou, em parte:


“É, realmente estes (os positivistas intelectuais) se superaram no quesito bobagens. Já quanto as interpretações antropológicas que se podem fazer da Constituição não sei comentar, pois não tenho instrução jurídica. Sei, todavia, a importância que possuem na determinação do comportamento social com o que se pode ou não se pode fazer.”


Conta-se que este aprendiz, quando estudava matéria de direito constitucional, numa simplória faculdade de direito, reconheceu o mote do pensamento positivista.


Entretanto aquilo não entrava nele, significando apenas as denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, quais ele fora obrigado a estudar para o vestibular. Via nestas galicistas ideias tão somente uma capital de país artificial do século  XIX; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Époque que tanto já apareceu pelas linhas deste blogue.


O pobre diabo do aprendiz, no entanto, gostava de história, de boas histórias como aquelas do "Prata Preta" e as contadas pelo "João do Rio". De modo que lia a fio, ora por ócio ora por teimosia, tudo que era relacionado ao positivismo. Julgou mesmo ter descoberto mais influências e efeitos colaterais quando retomou os estudos sérios da faculdade; talvez tenha de fato descoberto algo importante, mas isto é quase nada.


Como já sabe a minha querida dona leitora, não há aqui nada contra a valorosa e elegante França; em absoluto! Mas a tristeza surge com a culpa desta geração Y – e já foi assim na X e com os Baby Boomers. A América abraçou com gosto este pensamento cientificista e fútil.


O genial Machado de Assis foi notável estudioso do tema. Lá se vão mais de 100 anos que o 'velho bruxo do Cosme Velho' morreu e não consta que tenha mudado muita coisa – constatou o aprendiz, inclusive, que o saldo parece pior. Não creio que ele esteja totalmente errado...


Depois de tudo, não deveria mais nada dizer; e não digo! Como último parágrafo, deixo as últimas palavras de um jovem, porém consciente, mestre de debates:


“Caro aprendiz, achei muito legal isso que você disse: “Aquilo para mim tinha significado apenas nas denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, que eu fora obrigado a estudar para o vestibular, sobre uma capital de país artificial; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Epóque.” Eu também pensava a mesma coisa do positivismo. Achava até um negócio legal, uma análise honesta da realidade como ela é, mas, assim como você, ignorava por completo seus nefastos aspectos cientificistas e sua absurda pretensão universalista.


Quanto ao Machado, é mesmo muito inteligente. É tão superior às coisas ao seu redor que brinca com os próprios princípios que advoga, relativizando-os e cuidando do que verdadeiramente importava: a literatura.


Veja, tenho em casa uns quatro vasinhos com o mato ‘quebra-pedra’, já ouviu falar? É uma planta de rápido ciclo de vida, e afirmam que seu chá é medicinal, mas nunca provei-o. Cultivo o ‘quebra-pedra’ pois é a comida favorita dos dois grilos que tenho – não nos ouça o Ibama! Mas apareceu em um deles outra planta. Ficou ali alguns dias e foi crescendo. Quando pareceu-me grande o bastante para ser arrancada, cautelosamente retirei-a de modo a não acidentar o 'quebra-pedra'. E que surpresa desagradável não tive quando, junto da planta indesejada, veio um brotinho recém-desabrochado do meu querido matinho. Lembrei-me daquela parábola de Cristo, na qual o dono de uma roça avisa seus serviçais que não arranquem o joio "para não correr o risco de, assim, retirar o trigo". Essa era a vida neste planeta dois mil anos atrás, e continuará sendo assim. Talvez muito desse joio incômodo ainda acabe nos surpreendendo. ”


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Este debate, transcrito não tão literalmente, foi na verdade uma conversa agradável e  bastante instrutiva que eu tive com o amigo e pensador Henrique Rossi, do blog Polimático. Ele no papel de mestre, eu de aprendiz.


Dou-lhe, amigo Henrique, parte dos direitos autorais do post; embora, sinceramente, eu duvide que queiras ter o nome atrelado a tão anódino texto. Ainda assim, se achares que tens direito a toda a obra... Então, até o tribunal! Fique em fleuma, estimado autor; estou a brincar-lhe com os nervos. És tu o articulista e promotor desta reflexão. Ademais, o positivismo contempla todas as ideias; como sabe.


Por Ricardo Novais

Homem Positivo


Foto: CAIO AMY/FotoRepórter/Estadão.

Quando Augusto Botelho nasceu foi admitido como servidor da humanidade. Criança alegre, seus pais logo se voltaram à sua educação; “menino alienado”, veio-lhes a preocupação. No dia seguinte ao debute de seus 15 anos de homem, Augusto foi iniciado no sacerdócio de seu inevitável destino. Dedicou-se ao estudo de muitas ciências: Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia e Moral. Contudo, foi um jovem em contato com a vida de sua verdadeira vocação.

Por infortúnio, seu pai morreu de alcoolismo. Sua mãe, desgostosa, suicidou-se; ela julgou ter direito a isto. Seu tutor o violentara diariamente, apenas aos 21 anos livrou-se do martírio. Achou graça nas pesquisas de sua vida, algumas vezes correu atrás da sorte grande... Augusto era elegante, como era; era vaidoso, como era; era como o cão passeando pela calçada à procura de algum osso, ou o soldado de guerra à procura de algum pescoço para cravar-lhe uma facada ou de alguma cabeça para decepar-lhe o cérebro.

Embora ele ainda não soubesse bem qual seria, nem se deveria acreditar em Deus, nos homens, na ciência ou na ordem, aceitou o seu destino. Rapaz refinado, Augusto Botelho faria tudo pela sua raça e o progresso dela. Casou-se com Maria Floresta Augusta, como regra geral. Não foi feliz, mas a cônjuge foi; não pode se divorciar, e Maria não teve filhos.

Reconhecido sua viuvez eterna, ainda era jovem e foi tratar de sua missão sonhando com a sua própria incorporação à humanidade. Desgraçadamente achou-se o mais melancólico, amarelo, desvirtuado e falso de todos os homens sob à face da Terra. De todo modo que ele tinha medo de não ser incluído à humanidade.

Já velho, Augusto Botelho passa então de seu trabalho ativo, ou mesmo passivo, para viver como conselheiro, auxiliando a sociedade a qual pertence com sua experiência.

Apreciando o conjunto da existência objetiva que se acaba, passou ele a registrar suas impressões finais daquilo que poderia se transformar em uma parcela subjetiva do Grande-Ser. Iniciou, com consciência digna dos grandes cientistas, o culto de seu próprio enterro. Por um momento achou tudo perdido, sem jeito de melhora e duvidou do tal progresso no qual manteve as esperanças desde quando ainda era um menino. Porém, em seguida, recuperou a serenidade e fez o que tinha que fazer: preparar o próprio velório. Não pode fazer, no entanto, sem derramar uma única e longa lágrima; não se sabe ao certo se a lágrima era de tristeza ou mesmo de alegria, os rios de seus olhos foram-se com ele.

Finalmente Augusto foi incorporado à humanidade: 7 anos depois de sua morte, ou transformação, teve julgamento de sua memória de morto. Ainda não se sabe se será morto considerado digno de ser incorporado definitivamente à humanidade, mas, como esta sociedade é bastante antagônica, seus restos mortais foram conduzidos a bosque sagrado, em sepulturas conjuntas com seus entes queridos. Seus discípulos afirmam que este bosque sagrado circunda o templo da humanidade.

"O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim". E do fim, creio que estão escrevendo algo por aí nestes salões de sociedade; já este meu texto que também está no fim de sua linhas, por ora, não vai mal. De modo que corrija ou elimine, caro senhor leitor e querida amiga dona leitora, tanto lá como cá, o que sentir vontade ou julgar ruim. Parece que a ciência não gosta muito da prosa com a religião, então, apostemos em nossas próprias convicções e que tenhamos opinião firme; rogando sempre que a nossa boa ciência conserve e aperfeiçoe a humanidade... Mas que o nosso bom Deus também nos perdoe!

Por Ricardo Novais







Pulha Positivista


"O que sempre fez do Estado um verdadeiro inferno foram justamente as tentativas de torná-lo um paraíso." (Hoelderlin)

Schopenhauer, de maneira magistral, fez a terrível pergunta: "Tem então a existência, em geral, um sentido?" Esta pergunta é difícil até mesmo para ser honestamente assimilada, quiçá tentar respondê-la. Mas existem aqueles cidadãos anapluros contumazes que enveredam pelas 'verdades' absolutas inspiradas por Comte, Zola, Taine, etc.

Exemplo disto é o professor Paulo Ghiraldelli Júnior, o "Juninho Coruja", que se auto intitula como "O Filósofo da Cidade de São Paulo". Imagine, amigo senhor leitor e queridíssima dona leitora, qual a impressão que causa em jovens este velho homem plagiador de frases de efeito.

Seria de bom tom, ao menos, que ele tivesse passado uma boa temporada na França; mas em seus tempos nervosos. Faz-se menção, também, que acabaria de formar seus conceitos espúrios uma longa estadia na ex-Iugoslávia (especificamente na Eslovênia), e, de tal maneira, uma outra estada, ainda maior, no Manicômio Municipal de São Paulo.

Pobre homem, inclui-se nas crônicas boêmias que nem mesmo conseguiu terminar sua prolixa e problemática tese. Em todo caso, com efeito, há ainda alguns seguidores virtuais de suas ideias, por estes meios de divulgação e registro via internet - os quais tenho sérias dúvidas se não são fake's criados pelo próprio Ghiraldelli para massagear seu ego efeminado. Este homem será sempre um anti-bemcomportado ou um rebelde que não adere ao espírito de classe e a própria época, em todas as suas deformações e seus artificialismos. Por que? Jamais por convicção, mas sim conveniência 'cientificista'. Portanto, à amargura de sua vida, aos sofrimentos pelos quais, possivelmente, passou ele, ainda se somou este fato: o de não poder ser contrariado nem sequer contestado.

Erram os críticos, colegas, asnos, burraldos, idiotas, a época em que vive o 'filósofo da cidade de São Paulo; ou erra o velho em viver em tal época? Seja como for, de fato, em toda sua vida, o que de mais relevância e projeção alcançou foi ser uma pessoa calma que às vezes fica um pouco irritado. Pobre diabo, ainda por cima, pode ter sido vítima de um histórico engodo desta nossa sociedade.

Maquiavel, caso estivesse vivo, por certo, condenaria suas teses confusas; posto que um homem lute pelo “desejo de conquistar como sendo coisa, verdadeiramente, natural e ordinária, e os homens que podem fazê-lo serão sempre louvados e não censurados. Mas se não podem e querem fazê-lo, de qualquer modo, é que estão em erro, e são merecedores de censura”. Contudo, os homens fazem apenas o que pode ser feito, assim como, também o que se podia ter feito, porém, não se fez. E sabemos que o filósofo é, igualmente, apenas um ser humano, portanto, são estes seus estudos somente os mistérios do fazer intelectual, ou do universo de quem plagia, sem engenho algum, pensadores renomados.

Esta nossa sociedade, além de engraçada por ser desgraçada, é mesmo antagônica; uma vida de cordeirinhos medíocres graças ao pensamento galicista e 'científico' oriundo ainda do século XIX. Benjamim Constant foi o maior divulgador do positivismo por estas bandas.

Constant era exímio militar de carreira. Como tal, tinha desprezo pela raça humana, a imortalidade, era extremamente vaidoso e se concentrou na formação da República Positivista de cordeirinhos adestrados, sem criatividade autêntica e desconhecedora da própria identidade. Influenciado pelas ideias 'galicistas' de liberdade e também por teorias detestáveis de Arthur Gobineau - autor de Ensaio Sobre a desigualdade das Raças, tido como a bíblia da Era do Racismo Científico Moderno - Benjamim Constant apregoou o 'ideário' militar ogro e cheio de pensamentos preconceituosos contra o povo civil - em alguns aspectos contrariando o próprio "mestre" do mundo das regras e das ordens, o filósofo, também francês, Augusto Comte.

Tal qual outro louco da filosofia, o velho barbudo 'pensador humanista dos bares'. Reza a lenda que este conspícuo senhor barbudo chegava todos os dias, religiosamente, às oito horas da noite, no mesmo bar, tendo feito isso durante vinte anos, para tomar um drinque e difundir seus estudos e pesquisas com os outros frequentadores da tradicional taberna. Ele era um sujeito sistemático, mas liberal; em seguida viu-se contestado por si próprio, e o tempo fez seu pensamento perdurar em conservador. Enfim, ele difundia, meticulosamente, suas ideias, porém, sem pretensões, simplesmente por ter hábitos peculiares.

Instintivamente, e mesmo em consideração à veneração apreciada de nosso filósofo humanista de botequim à memória do genial Emmanuel Kant, volta à nossa lembrança um episódio bem significativo acontecido com o filósofo alemão Kant: os habitantes de Königsberg regulavam os seus relógios, vendo passá-lo, cada dia, no mesmo lugar e no mesmo minuto. Essa lembrança não diminui o valor e a importância de uma grande personalidade do mundo filosófico, mas permite compreender, imediatamente, a sua vida e a maneira com a qual ele construiu um dos maiores sistemas de filosofia em todos os tempos; assim como, ajuda a elucidar e a entender, por alusão, a vida do nosso 'pensador humanista' embrenhado no cotidiano boêmio e do pulha do pensamento, o professor "Juninho Coruja". Ambos são produtos do pensamento de Constant; ou seja, são tipos 'franceses', não brasileiros.

O que custa realmente é a percepção desta nossa dependência psicológica, a qual nós sofremos, aos costumes de outros povos, no que nos impede, gradualmente, de descobrirmos nossas virtudes e constituirmos uma identidade autêntica. Afinal de contas, doutora leitora antropológica, entre as pecúnias e os deflúvios já temos um pequeno e tênue saldo; não?

Anapluros sociais como o professor Paulo Ghiraldelli engessam a criatividade autêntica e o livre-pensamento, pois deixam de lado o pensar e o que já foi pensado para se encostarem em dogmas e sistemas filosóficos que podam a iniciativa genuína de todo um povo.

O professor Paulo Ghiraldelli fica sufocado pelas perspectivas morais, talvez cristãs ou mesmo céticas; ou seja, pensa superficialmente e pelas convenções, isto como um bom sul-americano afrancesado que ele é, como é perceptível, mas não pensa como brasileiro.



Por Ricardo Novais

Império da Mediocridade Republicana

No Rio de Janeiro, capital do Segundo Império Brasileiro, fediam o Imperador, a Imperatriz, as princesas, os duques e condes, viscondes e arqueduques, enfim, toda a corte da Quinta da Boa Vista tinha aspecto nauseabundo.

As ruas fediam a estrume, os pátios podres de mijo, as escadarias tinham odor da madeira estragada que não era enviada à Metrópole Lusitana; havia fezes de ratos por todo lado; as cozinhas, exalavam couve estragada e gordura velha; estagnados sem ar, as câmaras eram mofadas; os aposentos, os lençóis, os travesseiros, tudo era seboso; os colchões de pena ficavam úmidos do suor sujo dos homens que mal tomavam banho uma vez por semana; e o odor de azedo afetava as narinas que aproximavam-se dos penicos e das latrinas; os calçamentos eram decorados com merda.

Bandeira Real do Segundo Império Brasileiro.


Os homens suavam como porcos e suas roupas não eram lavadas; a boca vazia das mulheres fedia a dentes estragados, o estômago à cebola e a queijo vencido; e o corpo, quando já não se era mais bem moça, tinha cheiro de bacalhau deteriorado ou a leite azedo; todos no reino tinham doenças infecciosas.

Época da Regeneração do Rio, feita pelo prefeito 'verme' Pereira Passos


Fediam o povo e o sacerdote, o pecador e o gerente da casa bancária, o empreendedor da casa de pólvora e a dama da alta sociedade fidalga, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia toda a nobreza. Os duques, como animal de rapina; as marquezas, como cabra velha.


O povo e a nobreza em pedição de miséria moral.
Fedia todo o Império, de norte a sul, do Atlântico às missóes espanholas, tanto com brisa do mar como com calor do sertão, tanto no verão quanto no inverno, montados a cavalo ou carregados pelo tílburi. O grande reinado era infestado de insetos, febre amarela, varíola, peste e toda espécie de maldição. Pois a degradação social e moral foi a marca do Brasil daqueles tempos; talvez, ainda seja...


Panorama triste, por volta de 1898, já na 'florescente' República.


Mas foi neste século XIX, sob estas condições nojentas e parasitárias, que viveu no País um homem que pertenceu à galeria dos mais geniais e dos mais desprezíveis da história deste povo. Ele chamava-se Benjamim Constant...


Bandeira Nacional da República Federativa do Brasil a tremular.


Tudo era ruim, podre, falso, repugnante, fético, extremamente malcheiroso; mas não há nada por estas bandas que não possa ficar pior... E ficou!


Consequência da reforma 'burguesa' do ínicio do século XX, no Rio.


Se hoje ele não é tão lembrado como outros geniais monstros como Vargas, por exemplo, e seu nome caiu no esquecimento, é pela sua arrogância.

Constant era exímio militar de carreira. Como tal, tinha desprezo pela raça humana, a imortalidade, era extremamente vaidoso e se concentrou na formação da República Positivista de cordeirinhos adestrados, sem criatividade autêntica e desconhecedora da própria identidade. Influenciado pelas ideias 'galicistas' de liberdade e também por teorias detestáveis de Arthur Gobineau - autor de Ensaio Sobre a desigualdade das Raças, tido como a bíblia da Era do Rascismo Científico Moderno - Benjamim Constant apregoou o 'ideário' militar ogro e cheio de pensamentos preconceituosos contra o povo civil (em alguns aspectos contrariando o próprio "mestre" do mundo das regras e das ordens, o filósofo francês Augusto Comte).

Foi este militar vaidoso e político conspirador que articulou, traiçoeiramente, o grande movimento que culminou na Proclamação da República. Isto o que ele fez, nada mais.

O importante foi o mérito pessoal, a vanglória, o nome gravado nos livros de história e nos quadros de homens poderosos. O povo brasileiro, suas origens, suas vontades, suas crenças, sua concepção de fé na vida, nada disso foi levado em conta; foram apenas peças de um presepinho montado bem longe, lá para os lados da Tijuca ou além Engenho.


Moradias 'destorcidas' de parte do povo carioca, 3º Milênio.


Benjamim Constant foi o grande embrião desta nossa sociedade, pedantemente plagiadora e genialmente hipócrita.

Sentiu-se injustiçado pela recém-formada classe republicana bajuladora e viciada nos mesmos costumes do velho regime. Também foi atraiçoado. Frequentemente, mudam-se as roupas, mas as 'virtudes' ficam empregnadas no corpo, no modo de vida do homem.

Assim, morreu. Benjamim Constant morreu de doença grave à época, mas virou nome de rua, de praça, de escola positivista que, hodiernamente, influência as leis, as ordens, a Carta... O mestre sabia que seus discípulos formariam esta nossa sociedade 'galiscista dos trópicos'.

Contudo, plagiando mais um verme da história desta Nação, desta vez da área das letras, o poeta Olavo Bilac, que, comentando os textos do inigualável Augusto dos Anjos que havia acabado de fenecer de angústia, disse o seguinte: "Este era o poeta, este era o poeta? Pois então fez bem ele em morrer!". Então, por fim - para não angustiar mais a querida e tão prudente dona leitora, assim como para não revoltar o distinto cavaleiro que neste momento está aí a ler tais lamúrias, ainda porque é muita escrita para pouca vida - também eu faço o mesmo singelo protesto: São estes os brasileiros? São estes os 'franceses' pedantes que somente dissiminaram o caos e fome a este sofrido povo? Pois fizerem bem eles em morrer!


Pátria Amada, 25 de Novembro de 2009.



Por RICARDO NOVAIS

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* Esta crônica é um ponto de vista pessoal e de total responsabilidade de seu autor. Foi inspirado na história do Rio de Janeiro do século XIX; no Brasil monárquico; no Brasil atual; e o pano de fundo são os poemas de Augusto dos Anjos, tão injustiçado pela sociedade 'europeizada' de seu tempo que não soube reconhecer o talento deste genial pensador e poeta da angústia humana; também influenciado pelos textos do escritor Raul Pompéia; e baseado nos 'adjetivos odoríficos' que aparecem no livro O Perfume, do 'magnifique' escritor francês Patrick Suskünd.
* As imagens são de divulgação e foram retiradas nos seguintes web sites: www.arquiteturabrasileira.com; www.rio.fot.br; www.bricabrac.com.br; www.memoriaviva.com.br; www.diariodorio.com; www.almacarioca.com.br.
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