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O retrato

Narciso, de Caravaggio.

"Hoje ao diabo, se o eu não fosse, me daria eu próprio."
- MEFISTÓFELES, de Goethe.


Por causa de meu novo emprego na agência de e-commerce, mudei-me para um pequeno apartamento, conjugado de quarto e sala, da Alameda Santos. Não é ruim, a vista da cidade é ardil e nem pago aluguel; todo o custo eu logo despacho à empresa. É certo que mal paro dentro do cubículo, fazendo-o apenas de dormitório e para aventuras efêmeras da noite. Contas da empresa... Coisas maiores, leitor. Coisas maiores.

Pelos corredores, que não são mais que três ou quatro já contando com a minúscula aérea de serviço, há quatro ou cinco caixas de mudanças me pedindo para desocupá-las. Toda a casa me pede para desocupá-la; não o farei tão cedo. Contas da empresa... Ora! Não me tome por apócrifo, leitor. Apenas acompanho o contrato de Rousseau. Também não me julgue preguiçoso por não desencaixotar as tralhas da mudança. Pois que ontem mesmo, verdade que menos por vontade que necessidade, eu peguei a maior das caixas e fui tirando dela as coisas do advindo; até que, ao fundo das coisas, encontrei um retrato, íntimo e carcomido pelo tempo.

O que se cai do passado de alguém não se desapega, caro amigo. O retrato que encontrei não é meu, nem mesmo tenho ideia do porque dele estar ali às minhas coisas; devo tê-lo trago por engano, só pode, de certo que sim. Fixamente, olhei-o e veio vindo um filme quase francês em minha cabeça. Pendurei-o à parede, provisoriamente. A pintura, emoldurada por tachinhas metálicas presas à madeira encanecida, data da época do casamento de meus pais; talvez um tanto menos ou, que sabe, um tanto mais.

Na pintura, que aparenta mais uma velha fotografia, vê-se meu pai sob aspecto circunspecto, quase o oposto de sua personalidade dócil e suave. O olhar é compenetrado, fiscalizador. As meninas dos olhos correm dentro da cara, presas ao retrato. Observadores, os olhos, percorrendo ágeis a superfície da alma do observado, contrapõem-se ao manso e sistemático bigode. Bigode espesso e negro no rosto branco e pálido que dão feitio quase sagrado à efígie. A vestimenta de papai, que se vê apenas o dorso, é um terno azul-escuro que atenua um pouco a sensação esbranquiçada da figura qual aparenta ter saído diretamente d’alguma câmara política.

Já mamãe, ao lado do homem de terno azul-escuro e bigode, surge repentinamente no retrato. Impecavelmente elegante – bonita que só –, está dentro de um vestido de festa, ou algo deste ofício, e, enrolado ao pescoço, um colar de pérolas. Não me lembro dela usando nem o vestido nem o colar; atribua-se ao mistério do fatos requentados. Os cabelos de mamãe, cuidadosamente penteados e escovados à moda da época, são como uma viagem ao requinte de toda uma geração temente a Deus.

Não, leitora! Não se trata de efeito de computador ou outro recurso gráfico do tempo em que os modelos pousaram para tirarem o retrato. Leitora malvada! Não vê que, embora o fundo azul da imagem entregue alguma armação não natural ou artificialidade, o retrato é verdadeiro – ou pelo menos traz em si verossimilhança.

É o retrato da felicidade conjugal. Se eles sofreram dores de ciúmes, ou piores, não sei. Não poderia sabê-las, pois não se sabe muito antes que se nasça. A fotografia vale pelo original, pelo instante de vida.

Todas as casas do outro século, que eram grandes e espaçosas, cultivavam em suas paredes estes tipos de quadros de família, o patriarca ao lado da matriarca, felizes e exemplares. Quando não, também encravadas aos paredões das salas de estar, as imagens dos filhos em quatro ou cinco facetas diferentes; ângulos quais que já se podia ler e traçar a vida toda do retratado. Mas o costume, no entanto, também morre de velhice; e este nosso século, tão arisco e delimitado, bem à maneira das coisas efêmeras, mudou o curso das artes visuais e fotográficas, e as criaturas evidenciam em suas reações a irremediável solidão dos seres perdidos no mundo em rede. Redes sociais. Todos se conhecem sem se reconhecerem, parecem sempre felizes e sadios, embora não arranjem de modo algum tempo para curtirem tanta vida. Vida futura, e por vezes alheia. E assim vai se escavando a pouca vida presente que tão logo será passado.

- Não confiamos no homem, não gostamos da vida qual estamos presas e não esperamos nenhuma boa-venturança! – disseram-me, de um coro só, as íntimas figuras do retrato entre tantas coisas velhas em meio ao apartamento recente. Foi uma repreensão à minha reminiscência, naturalmente. Então tornei a desencaixotar as caixas...

Não tive como deixar meus pais pendurados à parede. As aventuras efêmeras, além de cordialidades previamente solicitadas, têm línguas bisbilhoteiras. E é este todo o mal. Sim, pois não ligo se o homem é bom ou mau, se a vida vale a pena ou não e nem mesmo creio na boa-venturança. Se as línguas da realidade efêmera falam pelo oficio do capital, as línguas do passado instantâneo estão presas aos olhos, bigodes, ternos, vestidos e colares dos retratos sintomáticos e eternos.

Por Ricardo Novais

Cândidos Craques

Simone e Isaac, a dupla Pelé e Coutinho.

Simone Guimarães diz que é corintiana, por causa do Sócrates, seu amigo e conterrâneo (o ex-jogador é de Ribeirão Preto, que como todos sabem fica na periferia da megalópole natal de Simone, Santa Rosa de Viterbo). Isaac Cândido tem toda pinta de ser Ferrinho (como é chamado o Ferroviário do Ceará), mas diz que torce pelo Ceará (finjo que acredito; afinal, é o único clube do seu estado na Série A). Dos males, o menor: ambos assumem-se alvinegros. No meu blog, porém, eles apareceram trajando o glorioso manto do Botafogo, em conformidade com os estatutos do estabelecimento. Nada mais natural, portanto, que os dois adentrem o gramado do Ricardo Novais com a legendária camisa branca do Santos. E, glória maior, com o uniforme completo – e o corpo! – dos integrantes da maior dupla de ataque de todos os tempos: Pelé e Coutinho. Sim, jovens leitores do Ricardo, Pelé nunca foi tão Pelé como no tempo em que teve ao seu lado em campo o genial centroavante. O Rei e seu Primeiro-Ministro gordinho tinham tanto entrosamento quanto Simone e Isaac. Faziam o diabo em campo: driblavam, tabelavam como ninguém e enchiam as redes adversárias de gols, tal qual a cantora paulista e o compositor cearense no palco. Acham que estou exagerando um pouquinho, não é? Vá lá, admito. A Simone Guimarães não chega à sola das chuteiras reais em matéria de falar besteira! 

Texto e ilustração do alvinegro Tuca Zamagna

Desinformação Seletiva
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Cândido Pássaro
A nova música cearense na voz da cantora, compositora e instrumentista paulista Simone Guimarães. Imagem de divulgação.

Em seu sétimo CD – Cândidos – a cantora e compositora Simone Guimarães canta somente composições do cearense Isaac Cândido, com letras de diversos poetas também do Ceará.

Cândidos será lançado em dezembro, durante turnê com shows em Fortaleza (dias 4 e 5), São Paulo (7), Ribeirão Preto (9), Brasília (15) e Rio (21 e 22).  
● Ver, abaixo, locais e horários dos shows.

Gravado em Fortaleza, com Isaac Cândido e outros músicos cearenses, o CD conta ainda com a participação de Fagner. Na turnê, Simone será acompanhada por uma banda que inclui o próprio Isaac Cândido, liderada pelo pianista Leandro Braga, também responsável pela direção musical do espetáculo.

Simone Guimarães, durante sua já longa carreira de pouco mais de 30 anos (começou a se apresentar em shows aos 12 anos), vem contando com o apoio de compositores e intérpretes importantes da MPB, dividindo o palco, desenvolvendo parcerias e gravando com Milton Nascimento, Francis Hime, Ivan Lins, Dori Caymmi, Toninho Horta, Leila Pinheiro, Guinga, Helio Delmiro, Zé Renato, Juarez Moreira e Leandro Braga, dentre outros nomes importantes da MPB.

Isaac Cândido é um compositor de melodias e harmonias sofisticadas, considerado um dos três nomes mais importantes da moderna música cearense. Vem trabalhando com Simone Guimarães desde 2009, em shows bem recebidos pela crítica e pelo público de Fortaleza, onde a cantora morou nos últimos dois anos. Em seu CD anterior – Flor de Pão – Simone já gravara uma composição de Isaac, Enquanto, parceria com o poeta Marcus Dias, também presente em algumas faixas de Cândidos.

Ouça a canção 'Quase' do CD 'Cândidos', de Simone Guimarães:


Agenda da turnê
Fortaleza – 4/12, às 21 horas, e 5 /12, às 20 horas, no Anfiteatro Dragão do Mar
São Paulo – 07 /12, às 20 horas, no Centro Cultural Rio Verde
Ribeirão Preto – 9 /12, às 20 horas, no Teatro Minaz
Brasília – 15 /12, às 20 horas, no Teatro dos Bancários
Rio de Janeiro – 21 e 22 /12, às 20 horas, no Teatro Solar


Mais sobre Simone Guimarães

Viva o Rei!

Longa vida ao Rei! Fotografia: Arquivo revista Placar.

Na música, na literatura, em todas as artes têm lá seus gênios incontestes. No futebol, uma das artes humanas mais sublimes, este gênio é um ser enigmático, um nobre esportista –  Rei do Futebol. Ele é gênio mais gênio, assim como Deus é mais Deus. Coisas dadas aos mitos divinos.

Faça agora uma contente reverência, torcedor. Se quiser rir, ria; se quiser chorar, chore. O futebol é a paixão mais ingenuamente manifesta que existe. E neste esporte mágico não há nada mais belo e fascinante que a figura de um ídolo. Sagrado. Esta divindade é um homem, negro, impecavelmente fardado de branco, complexão atlética perfeita, olhos aguçados, saltando em gestual enigmático de socar o ar, símbolo do ápice da arte glorificada.

O jogo era contra o Juventus, na Rua Javari. Partida dura, o Santos não conseguia romper a muralha que os adversários ergueram perto da área. A torcida do “Moleque Travesso”, apelido do Juventus, aproveitara os percalços enfrentados em jogo para tripudiar do Rei. Vaiavam-no toda vez que ele pegava na bola. Foi quando Pelé fez, segundo a sua própria avaliação, o gol mais lindo de sua brilhante carreira. O maior jogador de futebol de todos os tempos conseguiu uma sequência de dribles extraordinários dando quatro chapéus em seus marcadores sem deixar a bola cair ao gramado. O goleiro foi o último a ser chapelado. Formidável! Poderia-se até imaginar que esta inesquecível jogada foi tão-somente uma magnífica criação oriunda de seu talento nato aliado a certa raiva que ele deveria estar sentindo das provocações de seus oponentes, pois assim que fez este golaço o magistral craque foi até a torcida inimiga a xingando e socando o ar. Mas não foi só talento e raiva, foi arte. Pura. Arte legítima. Mitológica.

Viva o Rei! Rei! Que seja sempre! Pelé!

70 anos da divindade do esporte; 70 anos de vinda a este mundo de Edison Arantes do Nascimento, o Pelé, Rei do Futebol. Longa vida ao Rei!

Homenagem a Pelé: Greatest Pele Soccer Moments.


Por Ricardo Novais

Memória da Luz


Rabiscos, pintura virtual sobre base de Jackson Pollock. Clique aqui e faça o seu próprio “Pollock”.

Era uma noite escura em que só apareciam de relance centelhas luminosas. Simão Almeida colocava o rosto para fora da janela de casa e imaginava o que estava acontecendo no mundo, ou ao menos tentava idealizar o movimento do bairro onde morava.

Na escola ele seguia o grito, a fala, a respiração das outras crianças para achar a professora e fazer a lição. No almoço ele cheirava a comida para reconhecer sua essência. Todos achavam Simão um rapaz estranho.

Ele foi alfabetizado pelo próprio instinto, escrevia pelo próprio instinto. Já mais velho, estudava com afinco. Passava as ideias ao computador seguindo os sons estridentes dos dedos batendo nas teclas e as vozes da própria memória. Tornou-se escritor de prestígio, com leitores que admiravam a sua excentricidade de autor.

Não cabe aqui julgar o mérito da literatura feita por Simão Almeida, mas sim reverenciá-lo pela tamanha ousadia em viver num mundo ainda mais escuro que este que já é tão escuro, e, ainda, pela sua vontade irresistível de dominar as letras. Por este tempo de trevas, ele conseguiu escrever “A Memória da Luz”, e esta foi sua maior obra, a qual obteve o maior renome entre literatos. Mas, mesmo assim, diziam-no bizarro nos modos e na intelectualidade. No âmbito social era um solitário. Na vida sentimental, nada há a dizer.

O ofício caminhava deste jeito, brilhante e extravagante. Entretanto qual não foi a surpresa dos leitores deste misterioso escritor quando foi revelado aos quatro ventos o terrível enigma de Simão Almeida, ele era cego - ou quase; vivia de representar a realidade tangível e interpretar a imaginária. Pobre homem de ideias firmes... Simão enxergava rabiscos, mas desenhava letras. Durante décadas a fio guardou  com êxito extraordinário, e até admirável, tal segredo de todos; inclusive dos mais queridos, isto é, dos mais chegados. Simão só revelou sua enfermidade depois de julgar e sopesar sua incapacidade de continuar se escondendo de si mesmo o resto da vida em uma sociedade dissimulada. A idade traz com ela as sentenças  mais cruas e lúcidas... Desvendando-se, desvendou também o mundo; em parte. Mas resolveu ele mesmo o enigma de sua peculiar personalidade.

- Sou cego sim, leitor meu amigo; e daí? Isto nada interfere na grande obra que venho criando por anos e anos... Mas poderia ser pior; caro amigo, imagine se além de cego eu fosse também baixinho e gordo? - o escritor tinha desenvolvido o senso de deboche.

Passado algum tempo, empolgado pelas reverências de herói e os tapinhas às costas, o literato resolveu por submeter-se à cirurgia arriscada de correção da catarata congênita que o cegava desde a infância. E num risco - que não foi risco de vida, já que só os espermatozóides correm risco de vida -, o caso dele, com todo o perigo e... A operação obteve êxito. 

- Puxa vida! Mentiram a mim todavia; sou baixo e feio... E... Por favor, dona leitora, conheces alguma dieta eficiente que me faça perder muito peso?

Assim foi. Tudo apresentou-se ao novo iluminado. Pois, ora, de repente, o mundo de Simão criou cores, nuances, contrastes, tez mais reais e menos imaginárias, enfim, tudo havia se transformado de morto em vivo a ele. E o homem foi outro dali por diante. Alegre, expansivo, sorridente. Casou-se, teve filhos. O escritor Simão Almeida conheceu, pela primeira vez, a felicidade dada aos homens, seres virtuosos e místicos; porém, como a dona leitora bem percebe, este escritor encontrou sua luz; sim! Mas o mundo, ora, este permanece escuro. De modo que Simão jamais repetiu seus brilhantes escritos, jamais conseguir escrever algo tão magnífico como “A Memória da Luz”. Custa-me dizer, mas digo, ele recebeu má crítica em seus escritos depois que começou a enxergar com os olhos. Mas se digo é por que é verdade, e a bem-aventurança concordou com tal condenação.

Por Ricardo Novais

Carnaval, exuberância de corpos

As Musas do Carnaval, pintura de Marcos Anthony.

O leitor superficial conclui que o Carnaval é um evento fútil, não é. Ora, se esta também é festa religiosa que transfigura-se em tradição pagã, como dizer que não há ao menos certa proficuidade histórica?

Talvez, festa tão excêntrica, faça parte dos mecanismos que comandam as ações humanas, sejam eles de natureza espiritual ou decorrentes da ação que o meio social exerce sobre cada indivíduo.

Por outro lado, a dona leitora bem sabe, a exuberância de corpos atléticos e o culto à silhueta modelada estão extraordinariamente representados nesta grande festa popular. O Carnaval é a alegria do povo, mas do povo que exibe seus corpos magros e malhados ou daqueles que assistem encantados o desfile destes. Veja se não te parece, leitor, que estão ali representados todos os planos e sonhos do que a sociedade gostaria de ser? Se não em essência, ao menos em aparência - pois que o corpo é a porta de entrada de todos os outros aspectos das relações inter-pessoais. A 'Ordem e o Progresso' perfazem-se, hodiernamente, numa ilusão da mente no qual se situam fenômenos psíquicos latentes de um indivíduo; almeja-se um modelo estético que se encaixe nos moldes uniformes do que se convencionou a olhar como belo e saudável - caso contrário, por mais sucesso que se faça nas outras áreas da vida, a pessoa se sentirá 'anormal' e fora dos padrões sociais, e isto implicará, necessariamente, na sua infeliz existência desgraçada. Por isso os psiquiatras, terapeutas, cirurgiões estéticos (principalmente os que tem habilidade para cortes no corpo humano, em cirurgia plástica ou de lipoaspiração e outras similares que interferem sensivelmente na auto-estima), vendedores de anabolizantes (legalizados ou não) e donos de academia de ginástica devem ser os cidadãos que mais enriquecem no Brasil. Haja atividade ocupacional, abdicação do prazer gastronômico, dietas alimentares rígidas, exercícios à exaustão, suplementos para aquisição de massa muscular, medicamento para absorção do excesso de gordura, anti-depressivos...

Este nosso 'templo vaidoso' julgou que Platão estava errado quando ele conjecturava que o belo era o bem e a verdade existente em si mesmo, apartada do mundo sensível, residindo, portanto, no mundo das ideias. Vemos que o que agrada tantos hoje em dia é um conceito, que pode mudar de tempos em tempos, de ode ao corpóreo (no sentido dado por Descartes). Ou então por que ficaríamos horas a fio atrás de um trio elétrico ou de um tambor ensurdecedor, tão alegres e contentes, aguardando a felicidade que ainda não veio? Ora, pela cerveja? Mas se esta não é efeito colateral daquele... Creia, queremos ver os corpos desnudados e perfeitos a desfilar diante de nossas retinas fascinadas.

O mundo inteiro cultiva o corpo. Já no século passado iniciou-se tal processo... Penso naquela questão machadiana: O que vemos são os pés do outro século ou a cabeça deste que vivemos? Sou pela cabeça, como sabe.

Mas isto pouco importa, se este mundo é tão pelo cultivo ao corpo, este nosso povo brasileiro também vive diante de um espelho enorme...

Mas povo este que guarda tesouros exuberantes, diga-se. Nem mesmo Rousseau, pai do civismo moderno, poderia entender o estilo de vida brasileiro. Deste modo, como jamais me interessei por entender trâmites de sociedade alguma, basta a mim, portanto, descobrir as riquezas escondidas nos cantos da alma. Sigo as festividades afortunadas da minha boa família católica; embora, não haja nesta digressão o porque de deixar de ser sincero, devendo reconhecer, então, que eu gosto mesmo é do Carnaval. Sou típico produto deste; sou bem hipócrita, como sabe.

Não se espantes, pois se Carnaval é o maior espetáculo da terra... Sou mísero ator. Não eu quem digo, incrédulo amigo, mas para tantos outros “caras-de-cão” que habitam nossas avenidas... Esta minha tradição, que de geração em geração, impede que haja cordão de isolamento entre foliões embalados por velhas marchinhas carnavalescas ou qualquer outra boa farra, faz-me integrante do enredo. Não existem ricos nem pobres, nem nobre, burguês ou operário. É festa de todos! O caboclo desfila como rei, o cortesão como astronauta, o médico como louco, pois se os sãos estão doentes e estes sadios. É um grande bailado de fantasias, pode-se definir o Carnaval como um baile alegórico da própria vida; vida vivida e depois morrida, não encantadoramente sonhada.

Deixem-me submergir na alegria demente e contente... Grande Carnaval! Prometo que depois volto à minha honradez e disciplina de homem de respeito! Daí, juro-lhe, censurarei com firmeza o Carnaval. Carnaval? Ah, mau gosto, eu não gosto de Carnaval! Festa da lascívia! Exclamarei aos quatro ventos. Ainda direi que lembra-me loucura, como em 1917... naquele movimento revolucionário que eclodiu na Rússia derrubando a monarquia. Aquilo foi Carnaval que iludiu toda uma corte! Assim como foi a regeneração do regime Nazista, que tão enganoso cultivou o holocausto e uma guerra estúpida; ou o 'Terror' de cabeças cortadas pela oposição entre os girondinos desejosos da república e os Montanheses aspirantes à unitária democrática, isto na França; ou mesmo, por aqui, a 'Guerra em Canudos' do sagrado Antonio Conselheiro. Juro-lhe, amigo leitor de moral e sua digníssima senhora, direi que tudo é uma grande fantasia; dorme-se um rei e acorda-se um pedinte. Por essas e outras, senhor leitor, que eu não gosto de Carnaval; tais palavras reconfortadoras sairão de minha boca amarga, ainda que meus desejos digam outra coisa.

Faças como eu, caro amigo folião: Não me preocupo em como recuperar o respeito, pois se a Quarta-Feira de Cinzas é o enterro desta prazerosa promiscuidade... Enterro da alma ou do corpo? Não sei. Em qualquer dos casos enterra-se o cérebro, visto que este órgão está nas duas entidades e não corre-se o risco que se salve.

Mas vamos com calma! Só me pronunciarei contra o culto ao corpo depois da folia de minha alma; afinal, também eu sou brasileiro filho de Deus... E na terra de Deus só podemos pensar, sopesar e agir depois do Carnaval.

Por Ricardo Novais

Finitude da Vida

Num dia 17 de dezembro, só que de 1770, era batizado Ludwig van Beethoven. Provavelmente o menino havia nascido no dia anterior. Sua família era de origem flamenga, no qual o sobrenome significava 'horta de beterrabas' e a partícula 'van' não significava nobreza alguma.

O pai de Beethoven era tenor e professor, foi ele quem deu as primeiras lições de música ao filho, pois pretendia fazer do garoto um prodígio do piano. Eram estudos durante muitas horas, todos os dias da semana, desde os 5 anos de idade.

Beethoven teve uma infância bastante infeliz, ele viu seu pai ser consumido pelo alcoolismo. Sua mãe casou-se 2 vezes, e o compositor teve 5 dos 7 irmãos mortos ainda púberes.


Este talentoso garoto teve estudos muito profundos, e desde cedo alguns já o apontavam como o 'segundo Mozart'. Por causa da doença do pai, a partir da morte da mãe Beethoven teve dificuldade financeira para seguir com a música.

Foi para Viena em 1792, e lá passou o resto da vida. Foi aceito como aluno de Joseph Haydn, teve aulas com Antonio Salieri, com Foerster e Albrechtsberger.


Quando tinha 26 anos, Ludwig van Beethoven escreveu:

"Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantropo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo. Meu coração e meu ânimo sentiam-se desde a infância inclinados para o terno sentimento de carinho e sempre estive disposto a realizar generosas ações; porém considerai que, de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos.

Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou!"

Era a surdez que cruelmente manifestava seus primeiros sintomas graves e temerários. A doença o acompanhou sempre e em 1816, aos 46 anos de idade, ele estava quase surdo. Porém, ao contrário do que muitos pensam, Ludwig jamais perdeu a audição por completo, muito embora nos seus últimos anos de vida a tivesse perdido, condições que não o impediram de acompanhar uma apresentação musical ou de perceber nuances timbrísticas.

Foi virtuose do piano. Dentre as obras mais famosas destacam-se as nove sinfonias, os trios e sonatas e a ópera Fidelio.

Contam os biografos que os funerais de Beethoven foram assistidos por mais de 10 mil pessoas, assim tornando o primeiro compositor a virar figura pública.



"Alegria bebem todos os seres

No seio da Natureza:

Todos os bons, todos os maus,

Seguem seu rastro de rosas.

Ela nos deu beijos e vinho e

Um amigo leal até à morte;

Deu força para a vida aos mais humildes

E ao querubim que se ergue diante de Deus!"

— Parte do verso da Ode à Alegria, de Friedrich Schiller, utilizado por Ludwig van Beethoven.

A Sinfonia nº 9 em Ré Menor, Op.125 é para muitos a maior obra-prima de Beethoven. Para ouvir a Orchestra de Madrid no vídeo abaixo interpretando trecho intermediário da obra - para mim uma das passagens sonoras das mais belas que já ouvi na vida -, desabilite a rádio parceira, Stay Rock, na lateral do blog com um pause.





Por Ricardo Novais

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Fonte: Wikipédia; e Uma Breve História da Música, tradução de Tereza Resende Costa, 3ª edição, série: Cadernos de Música da Universidade de Cambridge, Rio de Janeiro, editor Jorge Zahar, 1988. Desenho: Funeral of Ludwig van Beethoven (1770-1827) in Vienna, de Franz Stober.

Saudoso Morro Carioca

Nem sempre os bons malandros cariocas, que viviam no alto dos morros e nas rodas de samba, tinham a conotação atual de favelado. Seria bom se o tempo voltasse e o povo que vive nas comunidades pudesse usufruir da própria origem, tão harmônica e tão sofrivelmente feliz.

Heitor dos Prazeres, pintor primitivo e compositor de música popular, nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 23 de setembro 1898, cresceu em plena origem da separação do povo criativo da ascendente burguesia 'afrancesada', sociedade esta da época da "Regeneração Carioca" efetuada pelo prefeito, o inexpugnável engenheiro Pereira Passos, com o aval do Palácio do Catete.



O artista iniciou-se na pintura, em 1937, como autodidata e já demostrava bastante talento.




Seu primeiro prêmio foi conquistado em 1951, durante a realização da Primeira Bienal de São Paulo.


Heitor efetuou mostras e exposições internacionais, dentre elas, aquelas realizadas em Paris, Neuchâtel e Santiago.



Este grande carioca procurou retratar as cenas comuns de sua cidade natal, notadamente a vida no morro e as festas populares.





Ainda não existia tanta segregação e agonia. Nos quadros de Heitor é possível observar a vida romântica dos bons malandros.




A polícia não entrava nos morros como inimiga, era sempre a autoridade conhecida que deveria-se tentar despistar. No fim, todos bebiam e cantavam a alegria de se viver livremente. As crianças brincavam como crianças...




A disputa da mulata formosa era coisa séria. Um braço do autêntico povo brasileiro foi representado no morro carioca, um lugar encantado.




Na música, Heitor do Prazeres destacou-se como autor de sambas carnavalescos de grande sucesso popular. No entanto, este grande 'marechal' do samba destacou-se também no choro, uma de suas grandes paixões ao lado da pintura.

No Rio de Janeiro, cidade que Heitor do Prazeres tanto amou, cantou e pintou, ele também morreu, em 1966. Deixou um legado memorável de quadros e composições musicais.

Em agosto de 2007, Heitorzinho dos Prazeres (filho do artista) e Família se apresentaram no programa de televisão Ensaio, da Tv Cultura de São Paulo. Interpretaram grandes sucessos compostos por Heitor dos Prazeres, o patriarca. Choro Cadenciado:



Por RICARDO NOVAIS
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Site para maiores informações: http://www.heitordosprazeres.com.br/

Vá ao Teatro





Uma dica especial para quem mora na cidade de São Paulo é a campanha Vá Ao Teatro. De 26 de outubro a 13 de dezembro de 2009, o Governo do Estado de São Paulo realiza o projeto de estimular as pessoas a irem assistir bons espetáculos a preços populares.

Serão apresentados, neste período, produções artísticas culturais e circenses com ingressos vendidos por R$ 5,00. A ideia é a formação de público de teatro e também de incentivar a criação artística paulistana.

Os pontos de venda dos ingressos estão localizados nos Poupatempos espalhados por toda a cidade, também na Estação Liberdade do Metrô, nas FNACs, Espaço Parlapatões entre outros. Para maiores informações, consulte o site:

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Brooklin Fest 2009

Dica: O XIV Brooklin Fest 2009, evento Multicultural de São Paulo, está acontecendo neste final de semana na rua Joaquim Nabuco. Cultura, educação, gastronomia, artesanato, lazer, exposições, tem tudo isto e muito mais nesta tradicional festa de rua alemã que ocorre anualmente no bairro do Brooklin, em São Paulo.
Além de um apenas razoável chope inglês?! (ou da velha e boa cerveja alemã dos botequins da região), do gostosíssimo salsichão grelhado de carne suína (schüblig), de carne bovina (cervela) ou de vitela (kalbsbratwurst) com mostarda bem forte, e do joelho de porco, vale muito a pena dar uma passadinha nas tabernas, de estilo saxão, localizadas nas ruas que foram fechadas para a festa e degustar clássicos da cozinha alemã, como paprika schinitzel e weisswurst – lingüiça branca com chucrute e batata soutê; outra boa pedida é uma porçãozinha de bouletten, são bolinhos fritos de carne moída bem condimentada e, para acompanhar, uma boa salada de batata.
Há apresentações de grupos de dança típica, artesanato e, para quem gosta, há também diversidade de doces.
A festa é multicultural, assim também há barracas orientais e algumas especialidades tipicamente brasileiras, como o eficiente "churrasquinho de gato".
O único pesar é mesmo a falta das cervejas alemãs nas barracas do evento...
Para terminar a noite, recomendo o bar do "Seo" Jonhy; lá, entre fotos antigas dos bairros da zona sul da cidade e artigos artísticos da Alemanha e de vários países, há sempre um papo agradável e sugestivo.
A festa consta como evento oficial do município de São Paulo e não deixa nada a desejar a nenhuma festa cultural de rua do mundo. ;-)

A Criação do Mundo – Fantástica Visão Nordestina

Uma visão peculiar e fantástica, direção Leo D. e William Paiva, na animação o Jumento Santo:



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