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Ostentação

Imagem de um evento de 'rolezinho'. Foto: reprodução do Facebook.
Gilberto achava que as crianças estavam atarefadas demais; lições de inglês, espanhol, francês e até de piano tiravam o lazer dos filhos; sobrava-lhes o vídeo-game. Pouco, ele pensava. Não pode ser isto a educação de filhos, mas a mulher tinha outro conceito. Zuzu desejava filhos grandes, fortes, ricos; não suportava a ideia de se divertirem; perda de tempo, dizia ao marido.

Um dia, ao retornar ao escritório na hora do almoço, Gilberto teve um mau pressentimento ao ver uma criança vendendo bala no farol de esquina do prédio. Era um moleque mulato, pequenino, roupas sujas e puídas, mas que sorriu e lhe olhou alegremente. Incrível! Era de admirar o moleque correndo leve, levado, correndo alegre, intempestivo, feliz e saudável em meio a tanta indigência.

Se há alguma coisa importante neste mundo, pensou Gilberto, é criança saudável. Imediatamente virou o carro e entrou à direita na direção da escola dos filhos. Aguardou duas horas em uma lanchonete em frente ao portão escolar. Deu o sinal estridente no pátio do colégio. Rebentaram gritos de alunos ainda livres. Encontrou os filhos e os levou ao shopping. Brincaram, comeram, compraram, divertiram-se a valer. O leitor, que já foi menino, e a leitora, que por certo também foi graciosa menina, sabem que o trabalho infantil é simplesmente brincar de ser adulto; mas o contrário também acontece e, naquela tarde, o pai também era adulto brincando de ser criança.

Era uma tarde de sexta-feira, mas anoiteceu rápido. Quase sete da noite, estava na hora de ir para casa. Havia milhares de recados perdidos da esposa; ela queria saber dos filhos e das lições perdidas. Gilberto a respondeu dizendo que estava tudo bem; Zuzu enraiveceu-se, pegou um táxi e foi encontrá-los.

Repentinamente, na praça de alimentação, iniciou-se uma aglomeração. Pessoas de todas as cores começaram a gritar palavras de ordem; ao menos pareceram gritos de ordem engajados e outros apenas de pertubação da ordem, já que tudo era bastante desconexo.

- Gritos juvenis, disse Gilberto em tom de desprezo.

- Shopping é lugar de ostentação, retrucou a esposa.

Ostentação. As pessoas gritavam mais e mais alto, ameaçavam correr pelas escadas rolantes e davam ideia de que iniciariam um arrastão dos infernos. Eram jovens de expressões rudes, quase indolentes, embora parecessem ostentar-se numa passarela de fanfarrões.

Os frequentadores, jovens e velhos, do estabelecimento misturaram-se; as roupas caras, os bonés de grife, os tênis de marca, as bolsas de couro fundiram-se à atitude altiva de pedestal dos comerciantes e dos seguranças. A confusão tomou conta do lugar e o pau comeu.

- Gilberto, seu louco! Olha só onde você trouxe as crianças, no meio desse bando de maloqueiros... – Zuzu repreendeu, de forma dura, o marido; este nada respondeu à mulher, pegou os filhos pelas mãos, no meio da multidão e das lojas de ostentação, dirigiu-se ao guichê do estacionamento, pagou o ticket e entraram todos no carro, mudos e constrangidos.

Chegaram em casa da mesma forma, mudos e constrangidos. Antes de deitar-se para dormir, Gilberto redigiu um desabafo em uma rede social relatando a aventura do shopping. No texto, ainda teceu críticas à segurança pública da cidade por não proteger aos cidadãos de bem e aos seus filhos daqueles marginais que ousaram invadir os ambientes particulares deles. Terminou o desabafo. A noite já ia alta. As crianças já dormiam; Zuzu ainda não. Ela leu atentamente o desabafo do marido, curtiu o post.

Por Ricardo Novais

Pequeníssimo Tratado Sobre a Identidade Cultural Brasileira

Identidade Brasileira II
Correspondências

Noutro dia, travou-se em ambiente virtual contenda entre um jovem mestre e um aprendiz. Ao leitor que desanime deste texto com facilidade, digo que seja perseverante. Perdoe este pobre autor pelo post ser tão longo, embora seja curto para ser chamado de tratado sendo, portanto, mais uma ideia desenvolvida. De qualquer modo, amável leitor, atrevo-me a pedir-lhe que leia estas linhas até o fim. Afaste o tédio. A causa é boa e diz respeito à vossa família. Se não acreditas nisto, caro amigo, pergunte então a dona leitora; ela bem aconselhará teu coração, leitor de pouca fé.


Apresento-vos então, sem maiores circunstâncias e consequências, pequena querela que comprime as raças sociais.


Trocando Ideia

O aprendiz inicia intervindo com alguma confusão a pensamento já corrente:


“Tuas ideias são excelentes, embora haja nelas algo das definições do "Imbecil Coletivo", do velho Olavo. Não, não há nada de errado com os estudos do filósofo, mas é que seja inteligência, burrice ou pseuda felicidade, o pessimista surge latente.


Se o sujeito começa a refletir os próprios pensamentos, vindo à ideia, e estes ligando a outros insurgentes que virarão em axioma racional (ou não) e, talvez, chegando à conclusão plausível que deverá ser discutida com outro ser (burro ou inteligente) que lhe devolverá em outras ideias. No entanto, por certo que ambos fizeram o mesmo processo do pensar inteligente; ao menos, presumi-se. Ou seja, esta será a constatação de como vivemos de maneira superficial e obtusa – como já verificado por ti, anteriormente. E, no meu modo de ver, é isto quiçá que acarreta na angústia e no decorrente pessimismo que havia dito.


É, meu caro mestre, constato que é melhor ser burro. Cadê minha cerveja?”


O mestre, senhor do tempo, sorri-lhe à cara; embora isto tenha lá uma centelha de eufemismo, já que o ambiente é virtual:


“Ah, não diga isso!", exclamou prontamente o corajoso mestre. "Se nosso ideal de virtude é o personagem de comercial de cerveja você teria razão em sua ironia final. Pelo menos penso (e espero) que seja ironia!”


O mestre levantou as faces. Refletiu um pouco, sopesou a própria meditação e auferiu boa questão. Neste instante, o aprendiz, em leve concentração, permaneceu quieto:


“Vê-se”, disse o mestre, “que, no fundo, a questão é moral! O que torna as coisas absolutamente maravilhosas! Veja, nosso máximo ideal de virtude, o Cristo que se entrega à um suplício violentíssimo e injusto, ensina-nos que se deve contrariar o mundo. Podemos escolher segui-lo ou recuar assustados. Bah!, eu te conheço! É ironia mesmo!”


Houve frouxidão de gravatas, dilatação das narinas na tentativa de captura de ar fresco e o rumor das elocuções do mestre tornaram mais fortes e definitivas:


“Mas o povo brasileiro é ainda muito evoluído moralmente. Como tudo chega aqui com atraso, quando a modernidade aterrissar com força em nossa terra, o atual avanço do cristianismo na televisão terá fortalecido a fé das classes médias baixas. O Portugal que existe em nós prosseguirá depositário da fé verdadeira!”


Neste instante o aprendiz sofreu um golpe do vento, seus olhos foram irritados pela poeira e respirou a fumaça vinda de escapamentos dos automóveis.


“Sim, caro mestre, foi mesmo uma ironia. Ironia pouco refinada, eu reconheço. Tocaste em ponto crucial: nossos valores. Valores do mundo ocidental! Estamos os perdendo... 'devagarzinho'...”


Esfregou os olhos e prosseguiu:


“Desgraçadamente não tenho este otimismo quanto ao futuro, querido mestre. Vejo apenas o positivismo em moldes 'cientificista afrancesado' e o iluminismo latente ‘esvaziando’ esta nossa sociedade... Assim fácil é para um crente muçulmano tomar conta de tudo, daqui algum tempo... Poxa vida!”


Vício dominador, ainda caçoou de seu interlocutor:


“Um brinde em caneca de chope ao povo brasileiro! Mais que isto: Viva os valores judaico-cristãos! Mas com moderação...”


Inevitável a gargalhada do mestre. Recompondo-se, não deixou por menos:


“Mas os deixem. Acho que essas ideologias não contaminarão o povão. Talvez essa sua sensação se dê ao fato de que, no Brasil de hoje, ainda estejamos com o debate bastante atrasado. Somente por isso os termos ainda estão bastante atrelados a este positivismo reducionista e incompleto. As pessoas que preferem segui-lo fazem grande mal a si mesmas, pois ignoram por completo as suas faculdades mentais, o que convenhamos, é um absurdo se pensarmos na importância das coisas. Ter a mente ajuizada é muito mais importante que ficar repetindo as verdades alheias de maneira apaixonada.”


Contrapôs também aos gracejos do outro:


“Mas não pense que sou muito otimista não! Acho que esse tro-lo-ló pseudocientífico não chega aqui com a mesma força, mas a perda dos costumes já chegou. Esse é o nosso maior drama social: as pessoas que conjugam uma crença em tal Deus com as dancinhas mais nefastas. De qualquer forma, parece-me um problema menor!


Contudo, o aprendiz tinha lá algumas brasas no corredor cardíaco; de modo que atreveu-se no discurso:


“Sinceramente, não percebo o Brasil atrasado com esta ideologia balofa do nosso mundo ocidental. Vejamos, por exemplo, a nossa Carta Magna, esta recente de 1988. É positivista, apregoa a sociedade laica. Ora, como jugular uma tradição milenar sem sofrer consequências? Invés de aperfeiçoarmos os valores e caçar a nossa genuína identidade (não esta copiada de algum francês irresponsável), renega-se tais coisas como 'caretice' e ideia ultrapassada... O exemplo muçulmano talvez não seja politicamente correto; pode algum chato ver nisto preconceito contra religião alheia. No entanto, penso que salienta bem a gravidade da situação. Como diria minha velha avó: "O demônio se esconde na panela vazia". Não digo que são demônios; ao contrário, eles estão certíssimos. O problema somos nós, que, balofos de espírito, estamos sujeitos a qualquer povo com espiritualidade elevada e disposto a preencher-nos o vazio da alma. O ateísmo parece problemática já superada, digo como ameaça aos valores. Se o sujeito quiser ser ateu, agnóstico, seja lá o que for, a estrutura da sociedade nada mais sofre. É de direito dele e, portanto, só diz respeito a este. Mas uma ideologia firmada pelo Estado é preocupante...”


Perceba, leitor, que não havia nada de ordem naquele debate; era tão somente uma troca de ideias. Queria dizer o aprendiz com as palavras acima que, embora também tenha lá seus problemas no arcabouço interno, a Igreja (leia-se: pensamento instituído milenarmente) conseguia segurar o ímpeto da futilidade extrema e amparar o indivíduo. Ainda insistiu-se na ideia de que a pura superficialidade do povo brasileiro impede a descoberta de uma identidade autêntica e por isto o Brasil é plágio de si mesmo.


Não havia ali, entretanto, defesa de dogmatismo religioso – embora parecesse nas palavras a tendência de orientação católica. Muito menos advogavam o ateísmo. Discorriam sobre valores. Aquilo que sorreteira e sutilmente nos forma como homens.


“A Coca-Cola é nossa, mesmo que nós não gostemos de refrigerante e a achemos uma porcaria”, como disse o aprendiz. “As coisas boas e ruins nos formam, é natural. Talvez seja mesmo o palco de ópera que devemos representar – com seus dramas, comédias, reflexões... Mas ‘Estado laico’ é tirar o direito do indivíduo, seja religioso ou ateu, de viver; e também de todo um povo de formar o seu estreme alicerce para criar; enfim, esta nossa sociedade renega uma cultura original. Muda-se a roupa, mas a ideia permanece... Maldito Augusto Comte! Mais maldito ainda seja Benjamim Constant!”


Deveras, parecia que o mestre compreendeu o aprendiz. Concordou, em parte:


“É, realmente estes (os positivistas intelectuais) se superaram no quesito bobagens. Já quanto as interpretações antropológicas que se podem fazer da Constituição não sei comentar, pois não tenho instrução jurídica. Sei, todavia, a importância que possuem na determinação do comportamento social com o que se pode ou não se pode fazer.”


Conta-se que este aprendiz, quando estudava matéria de direito constitucional, numa simplória faculdade de direito, reconheceu o mote do pensamento positivista.


Entretanto aquilo não entrava nele, significando apenas as denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, quais ele fora obrigado a estudar para o vestibular. Via nestas galicistas ideias tão somente uma capital de país artificial do século  XIX; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Époque que tanto já apareceu pelas linhas deste blogue.


O pobre diabo do aprendiz, no entanto, gostava de história, de boas histórias como aquelas do "Prata Preta" e as contadas pelo "João do Rio". De modo que lia a fio, ora por ócio ora por teimosia, tudo que era relacionado ao positivismo. Julgou mesmo ter descoberto mais influências e efeitos colaterais quando retomou os estudos sérios da faculdade; talvez tenha de fato descoberto algo importante, mas isto é quase nada.


Como já sabe a minha querida dona leitora, não há aqui nada contra a valorosa e elegante França; em absoluto! Mas a tristeza surge com a culpa desta geração Y – e já foi assim na X e com os Baby Boomers. A América abraçou com gosto este pensamento cientificista e fútil.


O genial Machado de Assis foi notável estudioso do tema. Lá se vão mais de 100 anos que o 'velho bruxo do Cosme Velho' morreu e não consta que tenha mudado muita coisa – constatou o aprendiz, inclusive, que o saldo parece pior. Não creio que ele esteja totalmente errado...


Depois de tudo, não deveria mais nada dizer; e não digo! Como último parágrafo, deixo as últimas palavras de um jovem, porém consciente, mestre de debates:


“Caro aprendiz, achei muito legal isso que você disse: “Aquilo para mim tinha significado apenas nas denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, que eu fora obrigado a estudar para o vestibular, sobre uma capital de país artificial; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Epóque.” Eu também pensava a mesma coisa do positivismo. Achava até um negócio legal, uma análise honesta da realidade como ela é, mas, assim como você, ignorava por completo seus nefastos aspectos cientificistas e sua absurda pretensão universalista.


Quanto ao Machado, é mesmo muito inteligente. É tão superior às coisas ao seu redor que brinca com os próprios princípios que advoga, relativizando-os e cuidando do que verdadeiramente importava: a literatura.


Veja, tenho em casa uns quatro vasinhos com o mato ‘quebra-pedra’, já ouviu falar? É uma planta de rápido ciclo de vida, e afirmam que seu chá é medicinal, mas nunca provei-o. Cultivo o ‘quebra-pedra’ pois é a comida favorita dos dois grilos que tenho – não nos ouça o Ibama! Mas apareceu em um deles outra planta. Ficou ali alguns dias e foi crescendo. Quando pareceu-me grande o bastante para ser arrancada, cautelosamente retirei-a de modo a não acidentar o 'quebra-pedra'. E que surpresa desagradável não tive quando, junto da planta indesejada, veio um brotinho recém-desabrochado do meu querido matinho. Lembrei-me daquela parábola de Cristo, na qual o dono de uma roça avisa seus serviçais que não arranquem o joio "para não correr o risco de, assim, retirar o trigo". Essa era a vida neste planeta dois mil anos atrás, e continuará sendo assim. Talvez muito desse joio incômodo ainda acabe nos surpreendendo. ”


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Este debate, transcrito não tão literalmente, foi na verdade uma conversa agradável e  bastante instrutiva que eu tive com o amigo e pensador Henrique Rossi, do blog Polimático. Ele no papel de mestre, eu de aprendiz.


Dou-lhe, amigo Henrique, parte dos direitos autorais do post; embora, sinceramente, eu duvide que queiras ter o nome atrelado a tão anódino texto. Ainda assim, se achares que tens direito a toda a obra... Então, até o tribunal! Fique em fleuma, estimado autor; estou a brincar-lhe com os nervos. És tu o articulista e promotor desta reflexão. Ademais, o positivismo contempla todas as ideias; como sabe.


Por Ricardo Novais

Homem Positivo


Foto: CAIO AMY/FotoRepórter/Estadão.

Quando Augusto Botelho nasceu foi admitido como servidor da humanidade. Criança alegre, seus pais logo se voltaram à sua educação; “menino alienado”, veio-lhes a preocupação. No dia seguinte ao debute de seus 15 anos de homem, Augusto foi iniciado no sacerdócio de seu inevitável destino. Dedicou-se ao estudo de muitas ciências: Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia e Moral. Contudo, foi um jovem em contato com a vida de sua verdadeira vocação.

Por infortúnio, seu pai morreu de alcoolismo. Sua mãe, desgostosa, suicidou-se; ela julgou ter direito a isto. Seu tutor o violentara diariamente, apenas aos 21 anos livrou-se do martírio. Achou graça nas pesquisas de sua vida, algumas vezes correu atrás da sorte grande... Augusto era elegante, como era; era vaidoso, como era; era como o cão passeando pela calçada à procura de algum osso, ou o soldado de guerra à procura de algum pescoço para cravar-lhe uma facada ou de alguma cabeça para decepar-lhe o cérebro.

Embora ele ainda não soubesse bem qual seria, nem se deveria acreditar em Deus, nos homens, na ciência ou na ordem, aceitou o seu destino. Rapaz refinado, Augusto Botelho faria tudo pela sua raça e o progresso dela. Casou-se com Maria Floresta Augusta, como regra geral. Não foi feliz, mas a cônjuge foi; não pode se divorciar, e Maria não teve filhos.

Reconhecido sua viuvez eterna, ainda era jovem e foi tratar de sua missão sonhando com a sua própria incorporação à humanidade. Desgraçadamente achou-se o mais melancólico, amarelo, desvirtuado e falso de todos os homens sob à face da Terra. De todo modo que ele tinha medo de não ser incluído à humanidade.

Já velho, Augusto Botelho passa então de seu trabalho ativo, ou mesmo passivo, para viver como conselheiro, auxiliando a sociedade a qual pertence com sua experiência.

Apreciando o conjunto da existência objetiva que se acaba, passou ele a registrar suas impressões finais daquilo que poderia se transformar em uma parcela subjetiva do Grande-Ser. Iniciou, com consciência digna dos grandes cientistas, o culto de seu próprio enterro. Por um momento achou tudo perdido, sem jeito de melhora e duvidou do tal progresso no qual manteve as esperanças desde quando ainda era um menino. Porém, em seguida, recuperou a serenidade e fez o que tinha que fazer: preparar o próprio velório. Não pode fazer, no entanto, sem derramar uma única e longa lágrima; não se sabe ao certo se a lágrima era de tristeza ou mesmo de alegria, os rios de seus olhos foram-se com ele.

Finalmente Augusto foi incorporado à humanidade: 7 anos depois de sua morte, ou transformação, teve julgamento de sua memória de morto. Ainda não se sabe se será morto considerado digno de ser incorporado definitivamente à humanidade, mas, como esta sociedade é bastante antagônica, seus restos mortais foram conduzidos a bosque sagrado, em sepulturas conjuntas com seus entes queridos. Seus discípulos afirmam que este bosque sagrado circunda o templo da humanidade.

"O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim". E do fim, creio que estão escrevendo algo por aí nestes salões de sociedade; já este meu texto que também está no fim de sua linhas, por ora, não vai mal. De modo que corrija ou elimine, caro senhor leitor e querida amiga dona leitora, tanto lá como cá, o que sentir vontade ou julgar ruim. Parece que a ciência não gosta muito da prosa com a religião, então, apostemos em nossas próprias convicções e que tenhamos opinião firme; rogando sempre que a nossa boa ciência conserve e aperfeiçoe a humanidade... Mas que o nosso bom Deus também nos perdoe!

Por Ricardo Novais







Carnaval, exuberância de corpos

As Musas do Carnaval, pintura de Marcos Anthony.

O leitor superficial conclui que o Carnaval é um evento fútil, não é. Ora, se esta também é festa religiosa que transfigura-se em tradição pagã, como dizer que não há ao menos certa proficuidade histórica?

Talvez, festa tão excêntrica, faça parte dos mecanismos que comandam as ações humanas, sejam eles de natureza espiritual ou decorrentes da ação que o meio social exerce sobre cada indivíduo.

Por outro lado, a dona leitora bem sabe, a exuberância de corpos atléticos e o culto à silhueta modelada estão extraordinariamente representados nesta grande festa popular. O Carnaval é a alegria do povo, mas do povo que exibe seus corpos magros e malhados ou daqueles que assistem encantados o desfile destes. Veja se não te parece, leitor, que estão ali representados todos os planos e sonhos do que a sociedade gostaria de ser? Se não em essência, ao menos em aparência - pois que o corpo é a porta de entrada de todos os outros aspectos das relações inter-pessoais. A 'Ordem e o Progresso' perfazem-se, hodiernamente, numa ilusão da mente no qual se situam fenômenos psíquicos latentes de um indivíduo; almeja-se um modelo estético que se encaixe nos moldes uniformes do que se convencionou a olhar como belo e saudável - caso contrário, por mais sucesso que se faça nas outras áreas da vida, a pessoa se sentirá 'anormal' e fora dos padrões sociais, e isto implicará, necessariamente, na sua infeliz existência desgraçada. Por isso os psiquiatras, terapeutas, cirurgiões estéticos (principalmente os que tem habilidade para cortes no corpo humano, em cirurgia plástica ou de lipoaspiração e outras similares que interferem sensivelmente na auto-estima), vendedores de anabolizantes (legalizados ou não) e donos de academia de ginástica devem ser os cidadãos que mais enriquecem no Brasil. Haja atividade ocupacional, abdicação do prazer gastronômico, dietas alimentares rígidas, exercícios à exaustão, suplementos para aquisição de massa muscular, medicamento para absorção do excesso de gordura, anti-depressivos...

Este nosso 'templo vaidoso' julgou que Platão estava errado quando ele conjecturava que o belo era o bem e a verdade existente em si mesmo, apartada do mundo sensível, residindo, portanto, no mundo das ideias. Vemos que o que agrada tantos hoje em dia é um conceito, que pode mudar de tempos em tempos, de ode ao corpóreo (no sentido dado por Descartes). Ou então por que ficaríamos horas a fio atrás de um trio elétrico ou de um tambor ensurdecedor, tão alegres e contentes, aguardando a felicidade que ainda não veio? Ora, pela cerveja? Mas se esta não é efeito colateral daquele... Creia, queremos ver os corpos desnudados e perfeitos a desfilar diante de nossas retinas fascinadas.

O mundo inteiro cultiva o corpo. Já no século passado iniciou-se tal processo... Penso naquela questão machadiana: O que vemos são os pés do outro século ou a cabeça deste que vivemos? Sou pela cabeça, como sabe.

Mas isto pouco importa, se este mundo é tão pelo cultivo ao corpo, este nosso povo brasileiro também vive diante de um espelho enorme...

Mas povo este que guarda tesouros exuberantes, diga-se. Nem mesmo Rousseau, pai do civismo moderno, poderia entender o estilo de vida brasileiro. Deste modo, como jamais me interessei por entender trâmites de sociedade alguma, basta a mim, portanto, descobrir as riquezas escondidas nos cantos da alma. Sigo as festividades afortunadas da minha boa família católica; embora, não haja nesta digressão o porque de deixar de ser sincero, devendo reconhecer, então, que eu gosto mesmo é do Carnaval. Sou típico produto deste; sou bem hipócrita, como sabe.

Não se espantes, pois se Carnaval é o maior espetáculo da terra... Sou mísero ator. Não eu quem digo, incrédulo amigo, mas para tantos outros “caras-de-cão” que habitam nossas avenidas... Esta minha tradição, que de geração em geração, impede que haja cordão de isolamento entre foliões embalados por velhas marchinhas carnavalescas ou qualquer outra boa farra, faz-me integrante do enredo. Não existem ricos nem pobres, nem nobre, burguês ou operário. É festa de todos! O caboclo desfila como rei, o cortesão como astronauta, o médico como louco, pois se os sãos estão doentes e estes sadios. É um grande bailado de fantasias, pode-se definir o Carnaval como um baile alegórico da própria vida; vida vivida e depois morrida, não encantadoramente sonhada.

Deixem-me submergir na alegria demente e contente... Grande Carnaval! Prometo que depois volto à minha honradez e disciplina de homem de respeito! Daí, juro-lhe, censurarei com firmeza o Carnaval. Carnaval? Ah, mau gosto, eu não gosto de Carnaval! Festa da lascívia! Exclamarei aos quatro ventos. Ainda direi que lembra-me loucura, como em 1917... naquele movimento revolucionário que eclodiu na Rússia derrubando a monarquia. Aquilo foi Carnaval que iludiu toda uma corte! Assim como foi a regeneração do regime Nazista, que tão enganoso cultivou o holocausto e uma guerra estúpida; ou o 'Terror' de cabeças cortadas pela oposição entre os girondinos desejosos da república e os Montanheses aspirantes à unitária democrática, isto na França; ou mesmo, por aqui, a 'Guerra em Canudos' do sagrado Antonio Conselheiro. Juro-lhe, amigo leitor de moral e sua digníssima senhora, direi que tudo é uma grande fantasia; dorme-se um rei e acorda-se um pedinte. Por essas e outras, senhor leitor, que eu não gosto de Carnaval; tais palavras reconfortadoras sairão de minha boca amarga, ainda que meus desejos digam outra coisa.

Faças como eu, caro amigo folião: Não me preocupo em como recuperar o respeito, pois se a Quarta-Feira de Cinzas é o enterro desta prazerosa promiscuidade... Enterro da alma ou do corpo? Não sei. Em qualquer dos casos enterra-se o cérebro, visto que este órgão está nas duas entidades e não corre-se o risco que se salve.

Mas vamos com calma! Só me pronunciarei contra o culto ao corpo depois da folia de minha alma; afinal, também eu sou brasileiro filho de Deus... E na terra de Deus só podemos pensar, sopesar e agir depois do Carnaval.

Por Ricardo Novais

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