A Muralha

Imagem de arquivo.
MURO DE PEDRAS: "'Conto dedicado ao repertório da sociedade brasileira". - RN -.

Meus dois filhos passam bem. Pedem-me, assim como minha refinada esposa, os préstimos de pai de família. Sou velho. Tenho formidável vida financeira e gozo de boa saúde. Penso que sou vencedor. Venci nesta estrada. Estrada de pedra pura. Esforcei-me bufando, empacando, cambaleando, fraquejando nos primeiros dias. Foi preciso cutucar e empurrar a mim mesmo, puxar-me e arrastar-me, amparar-me, lutando contra o vento e enfrentando tempestades, próximo a penhascos. Depois de tudo, atravessei a fronteira do sucesso e construí lá uma grande muralha que me protege do fracasso alheio.

Neste percurso de agruras, antes de todo sucesso conquistado, conheci também Angelina. Moça inquieta, perturbadora e fascinante. Amiga de minha juventude... Relembrar Angelina é relembrar sonhos de além fronteira, aqueles que eu deixei pelo caminho.

Numa praia ordinária, olhando a imensidão daquelas águas e desviando as mãos nas mãos de minha amiga, sentia-me o homem mais feliz de todos os mares. Todos os meus músculos disseram que eu era um bem-aventurado, os meus neurônios concordaram com a ideia. Vir-me-ei à Angelina, não a encarei totalmente, meus olhos não obedeciam ao coração. Ela percebia, mas também tinha lá seus problemas sob o peito. Ora, leitor experimentado, cada um dá a aparência que melhor lhe convier ao nervo cardíaco.

Angelina e eu mal controlávamos as mãos, quiçá o coração. Imagine, então, se haveria articulação para gestos que não fossem rudes ou grosseiros... De modo que encostamos a testa sobre o nariz, o vento trazia o gosto do mar, a areia encobria os pés até à altura dos tornozelos e...

Enfático foi o efeito do beijo. Nunca o esqueci, relembrando deste beijo em todos os momentos e fases de minha vida. Algumas vezes disse dele coisas feias e árduas, noutras apenas gostaria de revivê-lo. Nunca pude, nem poderei ter tantas coisas... Angelina casou-se algum tempo depois. Hoje ela tem também lá seus dois frutos e, creio, construiu, ou construíram para ela, uma excelente muralha; imaginas, a dona leitora que sabe do que falo, que esta muralha é bem diferente da minha, não é mesmo? Se imaginaste isto, querida, imaginaste errado. Angelina teve a mesma vida de sucesso, a mesma vida boa e de saúde. Um pouco de tudo e um tudo de nada, uma espécie de dia que vem à noite, numas linhas onde se escreve o que a memória reclama e o que a cabeça insiste em debochar do sentimento. Uma vida maravilhosa onde se pode ter todas as coisas que os homens criam e fabricam; tudo, menos aquele beijo vertiginosamente desajeitado e precoce.

A vida é mesmo inesperada, leva o pensamento passado como quem empregou toda esperança num só caminho e deu de cara com um maldito muro... Mas uma muralha tão bonita!

Por Ricardo Novais